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Louvor e Ilustração da Língua Portuguesa

[...] porque a língua e a unidade dela

é mui certo apelido do reino,

do senhor e da irmandade dos vassalos.

Fernão de Oliveira [1536], 1975: 88.

 

Partindo das «qualidades que deve ter qualquer língua para ser perfeita» (Manuel Severim de Faria, Discursos Vários Políticos, 1624), encontramos gramáticos e poetas do século XVI que, em fase eufórica, saudaram a Língua; colocamos a tónica, porém, no quadro disfórico sob os Filipes, em que o idioma funciona como peça de resistência.

Recorrendo a nomes de Seiscentos, quase todos desconhecidos, com particular incidência em paratextos de obras maioritariamente de História, doutrinação e sermonário, andaremos à volta das cinco qualidades que Severim de Faria desenvolve, a saber: cópia de palavras – também para não enfadar o ouvinte; boa pronunciação; brevidade e gravidade; ortografia perfeita, pronunciarmos como escrevemos (e vice-versa; em cuja pronúncia só repugna o malfadado ão); finalmente, a aptidão da língua para todos os estilos, como se vê pelas diferentes matérias em que entra o Português, seja o estilo humilde, grave ou mediano.

 

  1. A força da nossa língua advém de uma universalidade que não é igual a um todo como soma dos lugares onde ela se fala (necessariamente constrangedor, em laivos normativos), mas de um todo condicionado pelas potencialidades locais, onde a língua, de choque em choque, se enriquece.

Os «caminhos do Português»[1] revolvem gentes e não só territórios; são, por vezes, insondáveis, do vocabulário vicentino ininteligível em Exortação da Guerra (1514) aos modos de composição em João Guimarães Rosa ou Mia Couto, reconhecida, ainda, a necessidade de guias aquilinianos ou das Terras de Riba-Coa. Nas comunidades no estrangeiro, será o Frantuguês (Francês e Português) o mais activo[2]. Mas o intercâmbio com o Oriente, se diluído, não deixou de promover outras veredas, caso do tâmul (ou tâmil) falado em Cochim, pois do indiano malabar já trata Duarte Nunes de Leão, e João de Barros alarga-se na importância de orientalismos[3].

Se o argumento principal – ilusório, em tantos casos – ainda releva da quantidade, ou projecção materna e veicular da língua, a base de argumentação nos séculos XVI-XVII, tomando embora este dado como reforço, incidia sobre factores de qualidade, interiores à língua, dirigidos. O idioma, como superestrutura, torna-se plurifuncional. Sabemos, porém, como existe sempre um desfasamento desta com as realidades mais comezinhas e prementes, aguardando, por largo tempo, a caminhada a par. João Franco Barreto, sob a Monarquia Dual, pressentia tese marxista: mudança de império, mudança de língua[4].

Passava-se, assim, da euforia linguística quinhentista, centrada nos quatro primeiros gramáticos (1536-1606) – Fernão de Oliveira, João de Barros, Pêro de Magalhães de Gândavo, Duarte Nunes de Leão, que Maria Leonor Carvalhão Buescu estudou, e resumimos – a uma quebra nacional, que também era de um sujeito já pós-tridentinamente abalado. A língua do leite torna-se, no novo quadro político (nem sempre na literatura de cada um), objecto de reflexão e, além de peça de resistência, complexo de identidade nacional. Os oitocentistas reactivam a ideia de que, face à ruína iminente da nacionalidade, «La langue est le dernier symbole de l’existence d’un peuple»[5].

Se, também nesta frente, o século XVI continua a atrair cultores, já o século XVII passa pelos estudiosos como gato por brasas. Os linguistas, outrossim, não investigam fundamentos ideológicos e reservas mentais. Ora, em tempo de Filipes – e século arauto do jornalismo, que bebe na língua a sua razão –, a relação de cada um não pode evitar o fundo da questão linguística. Não é só identidade, que pode não ser suficiente; é situar-se na pluralidade, que Paul Ricœur resumia, à luz de simpósio compostelano de 1998, ‘Identidad y cultura. El papel de la lengua’:

 

La identidad siempre está ligada a lo exterior, a lo extraño. La lengua funciona como un mecanismo interno entre sus hablantes, pero también como una manifestación hacia el exterior de una comunidad. El hecho fundamental no es la identidad, sino la pluralidad humana. Y el problema para cualquier grupo cultural es cómo situarse ante los otros, preguntarse: “cuál es mi lugar entre la pluralidad humana?”»[6]

 

Da análise de Barros por Buescu (1984a: LVII), e, em particular, do “Diálogo em lovvor da nóssa lingvágem» (1540)[7] –, ressaltam «seis motivos de louvor» calhando bem à língua pátria: «riqueza vocabular; conformidade com a língua latina e filiação nela; sonoridade e majestade; sonoridade agradável; carácter abstracto; possibilidade de enriquecimento do vocabulário por meio de adopções e adaptações (sobretudo de latinismos).»

Posta a leitura circunstanciada de Fernão de Oliveira (1536), de Barros, dos interlocutores português e castelhano (diálogo áspero[8], ao contrário da relação pai-filho, no anterior) em Gândavo e de Duarte Nunes de Leão (1576, 1606), e conhecido balanço de Santos (1975), convém descer aos clássicos mais próximos e estabelecer comparações: Dante, Vita Nuova (1292-1293) – cujo § 25 aclara que «Il volgare è promosso a lingua della poesia» (p. XXXVIII) – e De Vulgari Eloquentia (1304-1305); Nebrija, Arte de Gramática Castellana, 1492; Bembo, Prose della Volgar Lingua (1525); Juan de Valdés, Diálogo de la Lengua (1535?); Du Bellay, La Deffence... (1549). Sem esquecer quatrocentismos: o Condestável D. Pedro justificando uso do castelhano em sátira de entre 1449-1453[9]; o elogio de Valentim Fernandes – sensível aos modernos vocábulos «gentijs e doçes» – a Frei André, que superintendeu a revisão alcobacense da Vita Christi destinada ao prelo (1495)[10].

No momento seguinte, organiza-se conjunto de referências metalinguísticas – não só sobre linguagem ou estatísticas[11] –, em que se perceba o empenhamento reflexivo dos criadores no tocante ao idioma. O enquadramento faz-se a partir de Cuesta (1988), Serrão (1994), Bouza Álvarez (2000), títulos igualmente úteis para o apartado III, onde são citados. Para as questões da língua, L. C. Buescu, algum Ares Montes (1956), Picchio (1959), Teyssier (1990), Ana Isabel Buescu[12]. De preferência, disponibilizando recensões, como Teyssier[13].

Em atmosfera bilingue, Gil Vicente e Camões são os casos mais flagrantes, indo além, mesmo, dos dois idiomas, no uso próprio e na referência. Aptidão para a carnavalização do português está naquele; neste, e fora os lugares-comuns conhecidos d’Os Lusíadas, importa mostrar a caracterização frente ao Outro, oriental com sua «linguagem tão bárbara e enleada» (I, 62: 4) ou «língua escura» (I, 64: 2). Ao contrário, os porta-vozes desejados serão de «palavras sinceras, não dobradas», e «prática elegante» (II, 76: 2, 78: 1).

Seguem-se Sá de Miranda e António Ferreira, que o editor da poesia daquele, em 1784, irmanou no prólogo, enquanto valorosos defensores da competência do idioma.

Jorge Ferreira de Vasconcelos, na póstuma Comedia Avlegrafia (1619: fol. 67r-v), retoma diálogo entre português, Artur do Rego, e castelhano, Agrimonte. Aquele resume pecha antiga: «Somos taõ inclinados à lingoa Castelhana, que nos descontenta a nossa, sendo dina de mayor estima, & não ha antre nòs quem perdoa a hũa Trova Portuguesa, que muytas vezes he de vantagem das castelhanas, que se tem aforado com nosco, & tomado posse do nosso ouvido que nenhũas lhe soão melhor: em tanto, que fica em tacha anichilarmos sempre o nosso, por estimarmos o alheio.»[14]

É do elogioso prólogo, entretanto – sobre a «gravidade, graça Lacónica, e autorizada pronunciação [que] nada deve á Latina» – que bebe o Diccionario da Lingoa Portugueza (1793), cujas “Memorias e Louvores da Lingoa Portugueza, que se achão em diversos autores” (p. XXI-XLI) constituem a primeira antologia sobre a matéria.

Abrindo, sem razão, pelo Marquês de Santillana, e logo Barros ­(esquece Oliveira), acrescenta Jorge Ferreira e «O autor incerto do Dialogo das Lingoas» (a nossa língua distingue-se do castelhano na pronúncia e ortografia), Duarte de Resende (é a que melhor trata «graves e excellentes materias»), Francisco de Morais (é a mais copiosa), André de Resende, Ferreira, Camões, Gândavo, Miguel Leite Ferreira (todos nela podem cantar, tal a cópia e gravidade de estilo).

Segundo Barros, ecuménica, mas apostolizando pelas «Reaes Quinas de Christo», e cuspida ao latim, «Esta prerrogativa tem sobre todalas lingoagens presentes: magestade pera cousas graves, e hũa eficácia baroil, que representa grandes feitos». De música «grave e sentida», «pureza e sequidão pera cousas baixas» (ou «tão honesta e casta, que parece não consentir em si huma tal obra como a Celestina», logo se desculpando, mal, Gil Vicente), a nossa linguagem «não perde a força pera declarar, mover, deleitar, e exhortar a parte, a que se inclina». De Barros e nomes acima citados se serve o Petrónio de Gândavo para contrapor a Falêncio ser a nossa mais suave, enquanto a castelhana «se póde chamar barbara» – combate-se, assim, crítica do francês Nicolau de Grouchy[15] –, porque, tomando da arábica «a maior parte dos vocábulos, fallais de papo, com aspiração; e assi fica uma lingoagem imperfecta, e mais corrupta do que dizeis que a nossa he». Ora, quer Gândavo, quer Barros, entre outros, concedem alguma impureza ao português por força da entrada dos Mouros: é o que lembra Manuel Correia, no «Commento aos Lusíadas, cant. I est. 33».  

  1. O Duarte Nunes da Origem da Língua Portuguesa (1606) dá passagem ao século XVII. Reitera a sua expansão no mundo, pelo que «com razão se póde ter em muito, e chamar ditosa, pois por ella se anunciou, e manifestou a tantas gentes, e de tão remotas e estranhas províncias a Fé de Nosso Senhor Jesu Christo, e foi causa de se tirarem as erróneas e trevas, em que o mundo vivia»; e, com poemas à maneira de Barros, a semelhança entre o latim e o português, que beneficiou, sobre o galego, da existência de corte, para polir o verbo. Aqui, faz-se ligação excelente com “Discurso Segundo. Das partes que há-de haver na lingoagem para ser perfeita, e como a Portugueza as tem todas e algumas com eminência de outras lingoas”, incluso nos Discursos Vários Políticos, de Severim de Faria, notabilíssimo e precursor.

Hábil e subtilmente, constrói um esquema / ambiente fechado – o esquema da língua portuguesa –, cujos pressupostos (convicções pessoais e colectivas) visam a construção de premissas pseudocientíficas, que, claramente, informam a conclusão final. Se, antes das provas, a nossa língua se iguala às melhores da Europa, mais tarde, é já uma das melhores do mundo. Não negamos que a Europa fosse, então, o mundo; observamos só o trânsito Europa / Mundo, como do nada (ou a língua tendo-se a si própria, em círculo) à explosão desse centro, cuja gravidade o obriga a flutuar.

Reafirma-se uma perfeição convencional. Não é por acaso que, no século XX, autores como Antero de Figueiredo, António Correia de Oliveira, Afonso Lopes Vieira, recuperam a mesma diligência: pois que o Império é um facto, a língua há-de ser – é – (a mais) completa e perfeita. O que vem desembocar no raciocínio seiscentista: esta língua é a mais completa e perfeita, e só assim está de acordo com a grandeza do Império. Atenuando a grandeza de um Império quase alienado, o intelectual assimila aquele à língua e, como João Pinto Ribeiro, afirma que é forte «disparate» pensar que se podiam «confundir as línguas»; nós interpretamo-lo: confundir as pátrias. A identidade linguística sempre existe para alguma coisa. Voltemos a Severim de Faria.

Como muitos outros – João Franco Barreto, Álvaro Ferreira de Vera, Bernardo de Brito, Fr. Bernardino da Silva, António de Sousa de Macedo[16], etc. –, também este dá crédito à lenda de Túbal, primeiro povoador de Portugal e Espanha[17], o qual falava hebraico, língua que viria a corromper-se. Esta notícia da corrupção das línguas perspectiva-se em dois campos: por um lado, refere-se a sucessão que, da língua primeira, o hebraico (utilizado por Adão)[18], aconteceu, pelo castigo pós-diluviano que Deus lançou sobre os homens construtores da Torre de Babel: uma das setenta e duas era o grego, que gerou o latim e, depois, o português – para os de Seiscentos, a nossa língua tem «a origem da Grega» (Rodrigues Lobo); por outro lado, tem-se consciência da diferente corrupção do romance conforme as regiões portuguesas (Faria e Sousa), e, diacronicamente, fazendo da língua um corpo vivo, conclui-se da renovação por força do uso e necessidade, não caindo na ilusão da imutabilidade da língua (Barreto, Severim, Brito, Faria e Sousa[19]). Vasco Mousinho de Quevedo vislumbra-a como eterna fénix renascida...

Mas não só Túbal. Ferreira de Vera refere a vinda de Hércules a Espanha[20], que, por duas vezes, governaria. Refere a vinda de Ulisses. De Baco. Dos Romanos. Já, Faria e Sousa não esquece os francesismos e castelhanismos que, por vinda do Conde D. Henrique e esposa – mais o vasto séquito –, precederam os alvores da nacionalidade e informaram o então latim corrupto. (Considera, ainda, que a corrupção deste foi menor nas «línguas vulgares» de Portugal e Castela do que em França e Itália.) Para Vilas-Boas e Sampaio, se há tantas vozes estranhas na nossa língua, tal é devido à passagem de inúmeros povos, entre os quais enumera fenícios, gregos, messénios, lacedemónios, forenses, ródios, gálios, cartagineses, etc., para, em 412 (segundo Paulo Osório), chegarem os vândalos, suevos, silingos, e, em 711, os árabes... Condena Faria e Sousa a «ceguedad» dos godos; ele e Manuel Correia o «furor» dos mouros, sendo ainda Barreto a equilibrar os pesos: «Não há lingoagem pura, e sem mistura de outras línguas.»

Intercalando este fio, atente-se na defesa que o penúltimo faz do uso dos latinismos n’Os Lusíadas (por excessivos? por um movimento de contra-latim, que está presente no Auto do Fidalgo Aprendiz?); para, demolidor, surgir Faria e Sousa, chamando «cobarde» ao que não ousa «introduzir algumas vozes estranhas na sua língua, e singularmente da Latina». Já Manuel de Galhegos diz ter-se valido «de alguns vocábulos, e termos estranhos: com toda a moderação, e com todo o rigor da retórica»; já Manuel do Sepulcro e Fr. Agostinho de Sousa investem contra os que mendigam vocábulos estrangeiros; desde há muito, também, optar pelo castelhano em Felicissima Victoria… (1578) levava a censurar Hieronymo [Jerónimo] Corte Real; eis que, logo, Vieira nos sobra.

Ele aí está: conhecedor das «subtilezas do idioma português» ou «um grande adorador da linguagem antiga» (Francisco José Freire), «o mais puro, o mais castigado dos nossos Escritores»[21] e «imperador da língua portuguesa» (F. Pessoa) elogiadíssimo, singularizado por D. Frei Alexandre Lobo[22] e Raymond Cantel[23], é Vieira quem melhor acorre ao nosso propósito. Quer no Sermão da Terceira Quarta Feira da Quaresma, quer nos prolegómenos à História do Futuro, «Vieira recomenda aos seus leitores latinistas passarem sem ler a tradução em português de uma longa citação de Lactâncio, [evitando] uma aproximação aborrecida entre as duas línguas: “[...] para que não fiquem com o sentimento de quão mal se pode trasladar à nossa língua”»[24].

De resto, toda a versão de texto latino em Português é, nele, uma aventura: se, por um lado, subsistem aí fins evidentes, pode também pensar-se que, estruturalmente, Vieira sentia essa fraca correspondência da «filha primogénita» do Latim. De todas as línguas novilatinas, alguma ressurgiria hierarquicamente superior: «consciente da riqueza da língua, o grande orador é um purista. Não admite os empréstimos das restantes línguas»[25], embora a prática o desmentisse, pela presença – que Cantel quantifica – de castelhanismos, italianismos, etc. Assim, interpolando temas como a origem (mítica) e formação da língua, vislumbrando-se já um sentimento de proclamada autonomia pela demarcação nos empréstimos, vejamos como a língua se individualiza e sobrepaira às restantes.

Partindo de que «[...] nem por primeira antiguidade, nem por incorrupção do idioma, pode nenhuma lingoa ser tida por melhor que a outra» (p. 120), Severim de Faria vai dar-nos as suas razões.

Logo a abrir, desenvolve a primeira qualidade, cópia de palavras. Nisto, diz, é a nossa língua «abundantíssima», contrariando Benito Caldera, que, no prólogo da tradução d’Os Lusíadas, a julgara «pobre». Em termos de cópia, a grega ocuparia o primeiro lugar, a hebraica o último.

Segue-se a boa pronunciação (como, também, do grego), «muy fácil, grave, y suave, como dizen los Authores, que abaixo iran alegados”, e são – fora portugueses quais João de Barros, Bernardo de Brito, etc. – os castelhanos João de Mariana, Cervantes, Lope de Vega, acrescentando nós D. Antonio de Capmany y de Montpalau, o qual, porém, lamenta «la exâgeracion é hinchazon, de onde vino a contraer un caracter asiatico el estilo nacional”[26] (refere-se, claro está, aos Cultos). Sem isso, «hubiera sido inimitable en las demás lenguas vivas».

Em terceiro lugar, a brevidade (ao lado da gravidade: ver Amador Arrais, Diálogos, 1600) –, e logo nos ocorre Bernardo de Brito, dando a língua como a mais própria para a História e para os conceitos, qualidade que António Delicado e Bernardes sentem nos adágios, de cuja cópia a língua é, ainda, senhora.

A quarta característica: ortografia perfeita (apesar do ditongo ão: cf. Bento Pereira e o citado José de Macedo[27]) serve, com Barreto, para ser considerada a primeira excelência da língua portuguesa, e só dela, em toda a Europa. Aquelas três eminentes qualidades («muy fácil, grave, y suave») ficam provadas pela facilidade com que todos os povos – à excepção dos castelhanos (e explica porquê) – aprendem a falar português. Facilidade que Ferreira de Vera crê não existir nos estrangeiros...

Finalmente, a aptidão da língua para todos os estilos, como se vê pelas diferentes matérias em que entra o português, quer no estilo humilde, grave ou mediano. Com vantagem, sem mais, e pelo menos, no tratamento do erótico e do heróico (Faria e Sousa).

Eis, em resumo, Severim de Faria. Lemos esta enumeração de perfeições numa cadência bem diferente em Rodrigues Lobo (1619). Porém, tratadistas posteriores – António de Sousa de Macedo, Álvaro Ferreira de Vera, João Franco Barreto, Faria e Sousa –, para lá de comuns referências, citam já Severim de Faria, parafraseando-o, ofuscados pela quantidade de exemplos que, numa segunda fase, explicitam as ditas perfeições. Aos predecessores referidos, acrescentemos Fernão Álvares do Oriente (1607).

A possibilidade de, aprofundando o estudo, depararmos com detractores da língua não é hipótese descabida: quando, nas comparações com as línguas cultas da época e ao lado do trabalho obscuro dos, sobretudo, missionários (organizando gramáticas e vocabulários dos povos em vias de civilização, «lançando assim os fundamentos da glotologia comparada»[28]), acontecem referências aos «filhos ingratos», a justificação imediata é a de estes escreverem em língua castelhana. Mas não só: aqui, as insinuações de Rodrigues Lobo podem valer como aviso e, em arquivo ou desaparecidos, alguns textos teriam feito época.

Manuel Correia, a propósito da tradução d’Os Lusíadas, contrapõe «a humildade da nossa língua portugueza» à «formosura da língua Latina». Não é depreciativo, porque tal humildade é requerida pelo termo de comparação. É, antes, sintomático do respeito que o século XVII votava ao latim. E como não, quando Faria e Sousa e Ferreira de Vera nos contam que um menino, em Évora, falava, com dois anos, «além da sua lingua Portuguesa a Latina perfeitamente»? Relembrando Vieira: e se o valor da língua portuguesa lhe adviesse da sua semelhança com a latina? O factor da dilatação da língua, já então importante, só virá a ser decisivo três séculos depois.

Com efeito: a provada cópia de verbos – em que se exprime o génio da língua, segundo Francisco Evaristo Leoni[29] – serve já a Severim de Faria para a aproximar do latim. Barreto vê na oração de língua portuguesa as oito partes que existem na latina (nome, pronome, verbo, particípio, preposição, advérbio, conjunção, interjeição) e, como quem, amiúde, procura e/ou reafirma uma génese, acrescenta o artigo, que o latim não conhece, mas conhece o grego. Mais argumenta que palavras como mano / mana nenhuma língua, nem mesmo o latim, as poderá dizer. Repete Leão (1606). António de Sousa Macedo dará uma lista maior, onde saudade toma o seu lugar (ou saudades, em Ferreira de Vera). Beberam em Nunes de Leão. Para uma melhor aproximação ao latim, existem propostas pontuais: Bento Pereira apela à substituição de ão por am. Duas razões, porém, sobrelevam as restantes.

A primeira é de origem mitológica – e poucos deixam de se escudar nela. Camões transforma-se no paradigma a retomar (para a pureza da língua e não-empréstimos será Fr. Luís de Sousa); melhor, a sua estrofe 33, canto I, é a pedra de toque: eis Vénus: o (re)verso – um halo poético – sobre a justificação dada à língua como construção lenta onde as armas (também) escreviam.

A segunda é ambígua: os textos que podem ser, simultaneamente, latinos e portugueses, tanto em prosa como em verso (e ainda aqui os autores se repetem), assentam num vocabulário nada espectacular, empobrecendo-se gradualmente, em curto-circuito. Também os castelhanos fabricaram tais exemplos (cf. Luís Afonso de Carvalho, Cisne de Apolo). O que, se prova algo, não é por si convincente. Para as modas da época, contudo, era suficiente.

O bilinguismo literário manteve-se, entre nós, até cerca de 1680[30], «mas, a partir de 1640 – diz R. Cantel, p. 83 –, empregar a língua espanhola era empregar a língua dos inimigos».

Afirma Manuel de Galhegos (1635) que os engenhos se esqueceram da língua portuguesa, «e quem agora se atreve a sahir ao mudo com hum livro de versos em Portuguez arriscase a parecer humilde». António de Sousa de Macedo (1631) escreve em castelhano, porque este é mais conhecido na Europa. Antes que o filho Pedro de Faria e Sousa (1674) e António Álvares da Cunha (1678) retomem a defesa de Manuel de Faria e Sousa, este fizera já uma auto-defesa em 1639, reiterada mais energicamente na pós-Independência, em 1646, ao proclamar: «Yo no soy Castellano.»

Era incómoda a situação, pois a um bilinguismo castelhanizante não correspondeu «um bilinguismo lusitanizante dos castelhanos»[31]. Para Jorge de Sena, durante esta época, o sentimento resistente «é mais ideológico-religioso do que patrioticamente político», pois «A união de coroas na pessoa de um príncipe estrangeiro não afectava necessariamente uma concepção de patriotismo, que era sobretudo geo-cultural (e não mitologicamente romântica)» (ob. cit., p. 14-15). Para concluir:

 

De modo que o Faria e Sousa que escolheu ser, em Espanha, e através do espanhol, um propagandista de Portugal e de Camões, nem é nem mais nem menos castelhanizante que muitos outros que passaram a fronteira, ou em Portugal estavam, e que continuaram, em pleno estado de guerra, que durou quase três décadas, o bilinguismo cultural e linguístico. E realmente só a partir dos fins do século XVII começa a transformar-se, e Portugal passa a viver, ou a subsistir, contra a Espanha. [...]. Mas naquele tempo do século XVII, cuja segunda metade Faria e Sousa não teve vida para ver, até os judeus portugueses, e que portugueses se declaram nos seus exílios europeus, escreviam as suas obras no que fora e ainda era a língua franca: o castelhano[32].

 

Pois sim. Mas esta abertura de espírito é moderna. E teria uma explicação conjuntural. A insurreição anticastelhana matiza-se, no campo das letras, singularmente. Não é por escrever em castelhano que um autor é condenado; é por, escrevendo em português (com ou sem empréstimos) e/ou castelhano[33], escrever escuramente, opção tida como derivada de Gôngora; digamos que, em alguns casos, uma reabilitação é sempre possível. Contra os Cultos não se levantaram poucos: Diogo Camacho, Fr. António da Encarnação, Vieira, Bernardes... Uma evidência, porém, subsiste em muito bons portugueses: basta que os interlocutores sejam estrangeiros para, logo, falarem como «cães». Sempre guturais! É visceral[34]: como acontece num poema de Jorge da Câmara.

Vamos terminando. Tratou-se da origem, formação e evolução da língua – e chamamos a atenção para momentos decisivos: a leva de invasores; a vinda do conde D. Henrique; enriquecimento e perfeição em tempo de D. Dinis (Fr. Francisco Brandão, Faria e Sousa); o reinado, áureo em todos os campos, de D. Manuel I. Contra os arcaísmos, a mendicância de termos, pela recolha daqueles que o uso e a necessidade impuseram ou foram utilizados pelos quinhentistas[35]. Sobre as excelências da língua portuguesa, sem rival em perfeição, própria para todos os géneros e estilos, que, manifestando-se a tantas e tão estranhas gentes, lhes anunciou a Fé Católica e a Civilização Ocidental, tornando-se um vínculo de comércio (linguístico e não só) e unidade, de conservação, enfim (Amaro de Reboredo).

Acessível ou não aos estrangeiros, por alguns reconhecida como excelsa[36], transladada em muitas obras, retoma, em 1640, o estatuto de língua de todos os Portugueses – ou quase: que o povo nunca a enjeitou.

 

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