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As Farpas (2)

Inaugura-se o Ramalho viajante “Entre Minho e Douro”. Esta primeira secção leva-nos às margens do Lima, a Viana do Castelo e Ponte de Lima, e pelo sumário se concluirá dos assuntos tratados: os campos, os casais, as igrejas, as estradas, as diligências, os abades, o mercado, as mulheres, os trajos, a educação, os costumes, as influências estéticas. Tratando as aldeias minhotas, cuida da administração e polícia rural, lavoura, indústrias agrícolas e caseiras, a ignorância, a miséria e a acção do Estado. Seguem-se o natal minhoto, o presépio, a consoada e a ceia da família, derivando para reflexões sobre a jogatina – «O jogo é uma asneira» – que nada tem a ver com o anterior. Dá um salto a Braga, outro ao país vinhateiro na Régua (corroborando quanto diz em John Bull e na carta ao mesmo Bull do tomo II) e fecha por lição sobre o Porto matricial. Carta de Junqueiro (Guimarães, 1968) anima-o a retornar ao Minho no ano seguinte, porque «Viu apenas a terça parte do seu assunto. O Minho é enorme – termina em Pontevedra (Galiza).» E pede que lhe envie os folhetins sobre a região, que vinham saindo no Rio de Janeiro, antes de se encaparem.

No apartado “Entre o Tejo e o Douro”, atemo-nos a aspectos do Ribatejo e da Estremadura: Azambuja, Cercal, Caldas da Rainha, bela descrição de Óbidos, enfim Alcobaça e o mosteiro.

Molhando o pé, desce e dá-nos “As Praias” e como nelas se diverte o homem português: S. João da Foz, realce para Espinho, Figueira da Foz, Buarcos, pausa na Trafaria. O texto mais divertido tem a particularidade de reunir, num momento quase diríamos histórico, o célebre grupo dos cinco. Embora Ramalho seja avaro destas informações, «este ano» referido no texto significa 1884[1]. O poder enumerativo e descritivo, tocado pela verve irónica com que dá conta da chegada de banhistas de meia tigela que vêm desinquietar a alta sociedade, fá-lo regressar no pleno das suas qualidades folhetinescas – é na Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro que este se publica. É, pois, a refracção do farpeador, de novo imbuído pela ligeireza anti-argumentativa de folhetinista tout court. Razão tinha João Gaspar Simões (O Primeiro de Janeiro, 9-VII-1972) para chamar «memorável ágape» ao que no Palácio de Cristal reuniu, bem comidos, em célebre fotografia, e da esquerda para a direita, Eça de Queirós, Oliveira Martins, Antero de Quental, Ramalho Ortigão e Guerra Junqueiro[2]. Honra, pois, à casa portuense Fotografia União.

Após “A Vida Provincial”, qual dívida por cumprir (volume X, ou Farpas I, sem ‘Advertência’, da Colecção Geração de 70, no Círculo de Leitores, 1987; Jacinto Ramos gravou um disco de 33 rotações para a Sassetti, 1974), recorre-se, então, ao tido por melhor nos 42 caderninhos heróicos. O mesmo é dizer que entramos nos arranjos – inclusive, textuais, hierarquicamente definidos – da capital, abrindo pela corte.

O tomo II reúne “As Epístolas”. São doze. Destaquemos a já citada e dirigido ao então príncipe D. Carlos, sobre questões de educação ou da necessidade de aprender um ofício, não fosse ele juntar-se aos «Reis insalubres». É ainda sobre instrução secundária que interpela o ministro do Reino em 1875, tema a que voltará repetidamente. O «imposto industrial» lançado sobre os escritores arranca-lhe outro grito. De religião fala ao cardeal-patriarca:

 

Em matéria religiosa o estado dos espíritos em Portugal é o seguinte: As mulheres são devotas. Por várias razões. Umas por educação, outras por inclinação mística, outras por sensibilidade nervosa, outras por medo, o resto por moda.

Os homens, em geral, são indiferentes. Uns por simples atonia do espírito, irreflexão, frivolidade, descaso de todas as coisas superiores e elevadas; outros por sistema partidário, ódio ultraliberal aos padres, oposição económica às irmandades, às confrarias religiosas, às corporações de mão morta; um pequeno número por convicção filosófica: o resto por carência absoluta de convicções de crenças de qualquer natureza e de qualquer espécie.

 

Salientemos duas. “A Mr. John Bull”, à conversa com o Zé Povão inglês que domina Portugal, ou balanço dorido e violento da lusa anglomania. A francesia também bordeja, mas é ainda contra o príncipe de Gales que mais esponja de fel faz destilar o corrosivo destinador. A segunda rememora o Cenáculo.

O tomo III, “Os Indivíduos”, é indispensável para se conhecer gente principal do século XIX. Abre com Alexandre Herculano, evocado no mês da sua morte, e Ramalho, como em demais lugares, não pode esconder a animadversão que sempre dedicou ao solitário de Vale de Lobos. Escreveu Ricardo Jorge (p. 52) que «ninguém flagelou mais cruamente a deserção de Herculano, lançando-lha em rosto como um delito de consciência, uma traição vibrada contra os destinos da pátria. Intolerante para o espírito dos eleitos», acrescenta, Ramalho não lhes concede «sequer le droit de s’en aller, o direito inauferível reivindicado por Baudelaire».

João Pinto de Carvalho (p. 27-29) transcreve carta de Herculano ao director da Torre do Tombo, em 1874, onde também não é nada meigo com Ramalho, um «peralvilho»: «Deixem lá o pobre Ortigalho.»[3] E quando Gomes de Brito lhe pergunta «– Mestre, porque é que não responde às agressões do Ramalho Ortigão?», ele, lacónico: «– Não atiro a pardais.» No quadro da Geração de 70, que tanto admirava Herculano, a deserção ramalhiana dir-se-ia incongruente.

Seguem-se retratos do Duque de Saldanha, do bibliófilo Inocência Francisco da Silva, do velho Castilho, do desgraçado amigo Vieira de Castro, etc., num total de 23 capítulos. Releve-se a figura de Cruz Coutinho, dono d’O Jornal do Porto, para assim melhor situar Ramalho, evocando os primeiros passos naquele órgão e um pouco da vida intelectual portuense.

A visão da segunda metade do século no campo da governação, e referência doravante singular sempre que no país se fala de melhoramentos materiais, é Fontes Pereira de Meio, o político regenerador por excelência. Serve também para nos aproximarmos das ideias (diametralmente opostas às que, na risota, defendia o Cenáculo) de Ramalho sobre as formas de governo.

Ao poeta d’A Alma Nova, Guilherme de Azevedo, com quem fazia parelha no Álbum das Glórias, e estimado jornalista morto em Paris, dedica outra evocação; o mesmo ao pai espiritual, Garrett, a modos de gratidão. Enfim, e sempre sob a égide da dura Parca, junta-lhes o maior jornalista do século, António Rodrigues Sampaio, mais conhecido por Sampaio da Revolução, isto é, da Revolução de Setembro. Com ele, literatura, jornalismo e política conhecem grandes sínteses que, por seu lado, complementam a biografia de Ramalho.

O quarto tomo discorre sobre “O Parlamentarismo”. São, acaso, os textos mais conhecidos, de quando em vez citados se é questão de criticar os vícios do rotativismo, da retórica balofa, da extravagância e inutilidade das leis, dos deputados submissos aos líderes... Compulsamos o Diário das Câmaras, acompanhamos os deputados ao baile, vemos como ginasticam sobre patriotismo e como se defendem da ginástica: este ponto é de honra para o autor, que desejaria um povo mais atlético. São 33 capítulos de gargalhadas, governos que caem, fácil provimento dos empregos públicos, sessões mais ou menos cordatas, etc.

O tomo V associa no título, sem porquê, “A Religião e a Arte”. Intrigante é a não-datação dos 30 capítulos, connosco já perdidos nos dícticos temporais. De uma análise química e sociológica à água de Lourdes e a episódios de Natal, escapulários, etc., é um desbravar nada motivante de questões hoje ultrapassadas. Anticlerical, exceptua o padre de aldeia, «de ordinário, o melhor dos homens». Os padres das missões, aventureiros ou místicos, ora arrebanham negros que baptizam em massa, ora se deixam canibalizar. O padre de sala, quando não ressona, é tarefeiro e motivo de gáudio das meninas prendadas. Solução?

 

O padre estrangeiro tem sobre o padre indígena a vantagem de não se haver abandalhado nas eleições, e não ir para a plateia de S. Carlos aplaudir a ópera e dizer graçolas às senhoras suas confessadas, que estão nas bancadas ao pé dele, de não andar pelas casas particulares com as peúgas e com as fraquezas embrulhadas em papéis [...].

 

Assunto candente no século era, todavia, o celibato e o casamento dos sacerdotes, já eleito no Eurico, o Presbítero. O caso, citado, do padre Jacinto remete para a polémica à volta da “Carta do Padre Jacinto”, de facto, Hyacinthe Loyson, Paris, 25 de Agosto de 1872, saída no Soir em 4 de Setembro. Pode ser vista em apêndice a O Celibato Ecclesiastico – Reflexões à Carta do Padre Jacinto (1873), por A. A. Teixeira de Vasconcelos, director do Jornal da Noite, que sustentou farta discussão com outra Imprensa – mormente, Oliveira Pires, n’O Constituinte –, à qual também aderiu Ramalho. Começa aquele: «Casou em França um sacerdote católico, antigo frade e pregador insigne, e declarou que apesar de casado ficava sacerdote católico. Aquele facto causou por muitos motivos grande sensação, e maior escândalo talvez que o próprio casamento de Lutero.»

Leia-se, igualmente, parecer sobre A Velhice do Padre Eterno (1885), a que associa Baudelaire, Antero, Teófilo e João de Deus. À edição de 1946 acresce posfácio – “A última lição de Ramalho” – do Padre Moreira das Neves.

O sexto tomo, “A Sociedade”, invade mais directamente o quotidiano português oitocentista. Debruça-se sobre a alimentação e seus efeitos; caracteriza-nos como «ajustamento fortuito de quatro milhões de egoísmos explorando-se mutuamente e aborrecendo-se em comum», isto em 1882. Sucede ao também notável “A mania das grandezas e a melomania, doenças hereditárias na sociedade portuguesa”, ambos fundamentais para se compreender a matizada decadência – de pessoas, da literatura e portuguesa – e suas causas. Uma curiosa estatística dos divórcios em 1876 abre o tomo[4].

Passando do geral ao particular, “A Capital” define o sétimo. São 39 capítulos sobre a administração municipal e a saúde pública, revisão das casas, alimentação, aspecto dos habitantes, corridas de cavalos, serviço de incêndios, enterro de náufragos, bailes do Paço, o prego, casas de jogo, o fadista, cães e limpeza pública, a festa do Primeiro de Dezembro, o Carnaval, o Passeio Público, etc. Em três lugares larga estocadas em Herculano. A propósito da pena de morte, por exemplo: «Nunca, desde os nossos mais tenros anos até hoje, pudemos compreender as razões poéticas e sentimentais dos que aboliram ou querem abolido para os malfeitores a pena última.»

No largo espectro de visados estava A. P. Lopes de Mendonça (1843), entre os primeiros – Herculana fizera-o em 1838, no Diário do Governo – a defender a abolição da pena capital, visto que crime só existia onde faltava educação. Sobre esta discorre no tomo seguinte, ao lado de balanço do ano escolar, que neste país, em virtude dos feriados, se reduz a onze dias úteis. Antes, vamos à tourada, aguardamos no Grémio enquanto não há notícia das facadas sacramentais que todas as noites rasgam Lisboa e, por amor ao Portugal e o Socialismo, do amigo Oliveira Martins, trata de mulheres operárias.

O tomo VIII volta-se, por inteiro, para “Os Nossos Filhos – Instrução Pública”, preocupação transversal às cerca de três mil e quinhentas páginas por ele seleccionadas. Passa em revista os compêndios das várias disciplinas, os castigos corporais, as meninas no liceu, a educação religiosa, os colégios militares, a «decadência da raça pelos vícios da educação». Se o desenho, que educa a observação, já foi dado como prioritário desde a escola primária, ainda não chega; reiterante, considera que «em Portugal – país de magricelas, de derreados, de espinhelas caídas –, nada mais importante do que a educação física».

São complementos, a que se deve acrescentar a música, do único ensino completo, o secundário, que também prevê a aprendizagem de um ofício ou «arte mecânica». Letrados, jurisconsultos, doutores e retóricos já não bastavam para debelar o tão visível subdesenvolvimento, que requeria «hábeis produtores». O elemento político é subestimado na constituição da sociedade industrial – contra o parecer de Teófilo Braga, que «dele tudo faz depender», embora, à época, fosse exigível uma autêntica «revolução política», como resume Vasco Pulido Valente, que mais se alarga sobre projectos de vários reformadores em Uma Educação Burguesa (1974).

“O Movimento Literário e Artístico” compõe o tomo IX. Abre com a refutação do discurso de Pinheiro Chagas no Parlamento, em que defendia a proibição das Conferências do Casino: «A portaria que mandou fechar as conferências democráticas não foi só uma flagrante violação da lei aplicável àquele caso, foi também um atentado claro e terminante contra a liberdade da palavra sem a qual é nula a liberdade do pensamento.»

Elogia a Imprensa livre e o jornal, Rafael Bordalo Pinheiro e a caricatura; opina sobre peças de Dumas, Sardou e portugueses, e, em três locais, de novo carrega sobre o «finado escritor» Herculano, que já não trabalha, nem ensina, mas só repousa. Veja-se o seu entendimento sobre o teatro nacional e a recepção de O Crime do Padre Amaro (1876). Pode ser útil fazer acompanhá-la – bem como a crítica a O Primo Basílio – pela correspondência de Eça ao amigo.

Os tomos X e XI dizem-se “Aspectos Vários da Sociedade, da Política, da Administração”, com 36 e 34 capítulos, respectivamente. Além, fala-se muito do Brasil e rebate-se Herculano; observe-se a dificuldade ramalhiana em compreender a poesia de um jovem poeta, que aconselhava a tornar-se «cada vez menos Verde e mais Cesário». Cita-se o poema “Esplendor” (parcial), saído no Diário de Notícias em 22-III-1874. Neste, realce para o debate sobre a instrução secundária no parlamento – e, claro, a sem-razão de o termos aqui e não no tomo VIII. Conheceu primeira edição, em opúsculo, no Rio de Janeiro, sob o título “A lei da Instrução Secundária na Câmara dos Deputados em Portugal” (1883, 80 p.). Há outros domínios que estão fora do seu tomo: deputados, celibato, mortos ilustres e amigos (D. Luís, Júlio César Machado...), vilegiatura balnear, ginástica... O poeta agora visado, em termos chocarreiros, é Gomes Leal.

 

[1] Ver, também, carta a Emília de Castro, de 18-X-1885, em Eça de Queirós, Correspondência, 1.º vol., ed. de Guilherme de Castilho, Lisboa, INCM, 1983: 328 ss.

[2] O trecho sai n’A Illustração (Paris), 1885: 282, que diz extraí-lo de A Holanda.

[3] “Ramalhão Ortigalho” é título d’Os Ridiculos (redactor, Caracoles; Lisboa, 3-X-1895 / 1-VI-1898, n.º 279), quadras de 19-XII-1895, n.º 17, que sucediam a outro ataque no número anterior, de 15-XII.

[4] Desde 1868 até Junho de 1876, temos os seguintes números em acções de divórcios: 10 (intentadas pelas mulheres: 9), 21 (17), 25 (19), 20 (14), 30 (27), 33 (21), 25 (16), 18 (15), 5 (3). A diferença é mais flagrante no 1893 funchalense, quando, segundo o Registo Civil, 22 mulheres, contra 1 homem, requereram a separação de pessoas e bens.

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