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As Farpas (1)

As farpas

Chronica mensal da politica, das letras e dos costumes, por Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão.

Saiu o 1.º numero e está à venda na livraria Pereira, na rua Augusta, na tabacaria Neves, ao Rocio. Recebem-se assignaturas na livraria Pereira.

 

Este número de 96 páginas, ao preço de 200 réis, irrompia da Typographia de Thomaz Quintino Antunes, Impressor da Casa Real, Rua dos Calafates, 110 (seja, da tipografia do Diário de Notícias), e, como se lia na contracapa, «Toda a correspondência relativa a esta publicação deverá ser dirigido aos Redactores das FARPAS, calçada dos Caetanos, 30, Lisboa», seja, a Ramalho, que aí habitava. Na capa, ilustração de Manuel Macedo dá-nos um diabrete alado com seu extenso rabo terminando em flecha, garras, cornos e barbicha eriçados, espreitando por óculo.

Desde Abril, anunciava-se a empresa, segundo o bem informado O Primeiro de Janeiro (28-V-1871), que, na edição de 21-VI[1], agradece a oferta do primeiro número e abre, em 9-VII, «uma série de folhetins» sobre as ditas, continuados em 12, 13 e 18. Agradece o segundo em 20 de Julho.

Em cartas para o amigo Fernandes Reis, na redacção d’O Jornal do Porto, podemos seguir o nascimento destes voluminhos. Em carta de 4 de Maio a Eduardo Garrido, anuncia-as para Junho: por cada correspondente que angariasse, Garrido teria um abatimento de vinte por cento[2]. Informa:

 

O primeiro volume, que aparecerá no princípio do mês próximo, entrou hoje no prelo. Diz uma multidão de coisas que ainda se não tinham escrito em Portugal e todas elas são justas, são verdadeiras e são dignas. No meio do ramerrão hipócrita do jornalismo e da literatura contemporânea este livro tornar-se-á sensível e virá talvez a ser apontado na história do pensamento moderno como um grande impulso das ideias para o direito e para a justiça.

 

Já então pressentia as «muitas negativas e muitas contestações», confirmadas post mortem por Júlio de Sousa e Costa (1946: 48): «Algumas pessoas que se diziam amigas de Ramalho Ortigão esfriaram as suas relações pessoais e alcunharam-no de demolidor antipático, revolucionário, e até de... provocador!»

A partir da sua casa e sede de redacção, impetra o amigo Manuel Fernandes Reis, correspondente no Porto do novo «periódico», a que lhe envie lucros entretanto feitos, pois «Como V. sabe nunca me coalha o dinheiro nestas minhas medonhas algibeiras rotas». E voltando-se para a administração d’As Farpas: «Os assinantes da província deverão pagar trimestres adiantados ou três volumes, e receberão os volumes directamente francos de porte do correio.» À frente: «Era bom que se arranjasse uma pessoa que durante os meses de banhos vendesse as Farpas em Espinho e na Póvoa de Varzim.»

Em carta seguinte, dá a entender que Cruz Coutinho proibiu todo o correspondente de Lisboa de falar em Ramalho Ortigão no seu jornal. Enquanto isso, envia 75 exemplares, dizendo: «A extracção dos nossos livrinhos tem aqui aumentado muito! Tiramos uma edição de 1 500 exemplares e esgotamos tudo de um mês para outro. Em Portugal, não se pode exigir mais, e ninguém ainda conseguiu tanto cá. No Rio de Janeiro têm ganho contos de réis aqueles que nos roubam.»

A reedição do número inaugural referente a Maio (no precioso formato de 11 por 14 cm) diz bem do sucesso da publicação, avidamente lida cá e pirateada no Brasil. «Não se descreve o successo da incomparável revista critica», confirmaria Fialho de Almeida[3]. O propósito ramalhiano, expresso noutra carta, de «organizar a publicação de modo que cada número saia num dia prefixo», foi por água abaixo. A periodicidade mensal aguenta-se nos primeiros tempos; depois, vê-se muitas vezes bimestral, perde-se nas férias do Verão ou por causa de alguma doença.

As três primeiras séries, na Tipografia Universal, encerram com o número de Fevereiro a Maio de 1878. A quarta série, já passada à Empresa Literária Luso-Brasileira-Editora, ainda em Lisboa, comporta três números: Junho a Julho de 1882; Novembro a Dezembro de 1882; Junho de 1883. Esta é a fase propriamente heróica – Maio de 1871-Junho de 1883 –, que termina com a “Carta a sua alteza real o sereníssimo príncipe snr. D. Carlos, regente em nome do rei”, 100 páginas datadas de 25 de Maio, hoje inserias no tomo II – sintomática despedida de quem se afastava de outras inquietações…

O futuro rei, honrado por pertencer, embora a «suplente», à famosa equipa dos 11 Vencidos da Vida, divertiu-se imenso com o tom respeitosamente irónico deste seu confrade, e amigo, e apologista, a quem oferece lugar de bibliotecário na Ajuda.

No total, 42 caderninhos que perfazem sete belíssimos tomos, raros e sumamente preciosos. A colaboração de Eça vai até Outubro de 1872. Escreve Ramalho ao amigo do Porto:

 

Queiroz vai, como saberá, para Havana, o que não obsta a que as Farpas prossigam no caminho em que estão, por isso que sou eu que tenho a chave literária desta porta. Sendo eu que a abri, é a mim que toca também fechá-la e quando entender. Não é natural que venha a ser tão lido. Veja se logo que possa me manda o saldo de Fevereiro, porque estamos em época de renda de casa e preciso cum quibus.

 

Também As Farpas de Novembro avisarão os leitores da partida de Eça, cujo nome, porém, constará até ao fim na capa da publicação. Já cônsul em Paris, revê profundamente a sua parte, que intitula Uma Campanha Alegre / De «As Farpas» e publica em dois volumes (1890-1891), constituindo os tomos 12.º e 13.º da completamente renovada edição d’As Farpas (desde 1887) sob a responsabilidade de Ramalho Ortigão.

Se Eça dispôs os seus textos por ordem cronológica, Ramalho veio confundir-nos o seu tanto. Preferiu uma disposição por matérias, com desrespeito total da cronologia. Assim, o primeiro texto com que actualmente deparamos é de Setembro de 1885; o segundo é de Janeiro; o terceiro não tem data... Dentro da matéria geral a que correspondem títulos para cada tomo, só há subtítulos para as grandes partes de que se compõe o primeiro tomo. Mas vejamos, em síntese, os grandes momentos editoriais d’As Farpas.

 

A fase entranhadamente panfletária, de gente que, na mais completa independência de espírito, nada pede nem tem a perder, vai de 1871 a 1883. Cada fascículo abre por um sumário, em geral longo, desenvolvido pelas cerca de 96 páginas, em que se respeita a ordem dos assuntos avançados naquele, tipograficamente destacados. Subordinados aqui a um lapso de tempo – a um mês, ou a dois, etc. –, e a simples asteriscos, muitos deles vão perder-se nas edições modernas, e, assim, falha-nos um contexto de que aproveitaria a leitura que hoje façamos dessas peças infelizmente atomizados.

O primeiro volume desta fase heróica, em colecção encadernada na Biblioteca Nacional – raridade que, em 1989, valia bem 80 mil escudos (Sousa, 1989); hoje, conjunto digitalizado na BND –, reúne os meses de Maio a Outubro. O segundo volume traz os de Novembro de 1871 a Abril de 1872. O terceiro volume, já no 2.º ano da publicação, comporta os seis fascículos seguintes: Junho a Julho, Julho a Agosto, Setembro a Outubro, Novembro, Dezembro de 1872, Janeiro a Fevereiro de 1873. O quarto volume reúne os de Março a Abril de 1873, entra no 3.º ano com o número XX, de Outubro a Novembro, acrescenta Janeiro a Fevereiro de 1874, Março a Abril de 1874, Outubro de 1874 e Novembro a Dezembro de 1874. O quinto volume oferece os de Janeiro a Fevereiro de 1875, Julho a Agosto de 1875, Dezembro de 1875 (com que se inaugura a Nova Série, tomo I), Janeiro de 1876, Fevereiro, Março a Abril de 1876 (ou, como se compreenderá, tomo IV desta Nova Série). O sexto volume comporta os de Maio a Junho de 1876, Junho a Agosto, Outubro a Novembro de 1876, Janeiro a Fevereiro de 1877, Maio a Junho, Agosto a Setembro de 1877 (ou tomo X da Nova Série). O sétimo e último volume reúne Janeiro de 1878 (Terceira Série, tomo I), Fevereiro a Maio de 1878 (tomo II da 3.ª série), Maio de 1879 (tomo III da 3.ª série), Junho a Julho de 1882 (4.ª série, n.º I, já em nova editora, como acima se disse), Novembro a Dezembro de 1882, Junho de 1883 (ou n.º 3 da 4.ª série).

No total, 42 cadernos rondando as 96 páginas cada, «irónicas, alegres, mordentes, justas», como se diz logo a abrir, na apresentação que coube a Eça.

 

[1] Fernando Castelo-Branco, “No centenário de «As Farpas»: uma carta de João Penha”, Colóquio/Letras, n.º 4, Dez. de 1971: 76, reproduz esta notícia.

[2] Cf. “Uma carta de Ramalho”, Quinzena Literária / dos Estudantes da Faculdade de Letras de Lisboa, n.º 2, 30-I-1940), datada de 4-V-1871.

[3] Cit.: 166.

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