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Albano Martins: a letra e as tintas

 

Que diferença, e caminho percorrido, quando escandimos o poeta no dealbar de 50 ou lemos a sua tripla colaboração na Árvore – Folhas de Poesia! Assoma já, contudo, o que designará por «imagens surpreendentes», enquanto alimento e processo, como diz na entrevista-limiar em Álvaro Cardoso Gomes[1].

Artista jubiloso, mau grado a polarização da morte, também na variante do silêncio, quase todo ele é sinestésico, num sensualismo epigramatizado, em cujo quadro fazemos três cortes. Um combina tensão erótico-verbal, de sensualidade explosiva:

 

Não sei medir-te de outro modo:

te dispo e visto o tempo todo.

 

Ou:

 

Despir a água.

 

Morrer de sede[2].

 

Outro é reflexivo e avisado:

 

Imagem da morte

é o sono, dizem. Não:

que a morte não dorme[3].

 

Tem imperativos doces e bons conselhos, como se nos deparam em Escrito a Vermelho (1999), em cuja prosa quebrada o melhor é o rumor da escrita a tombar na folha (dos iniciais, veja-se “Maré”, p. 11) e a criação enquanto análogo da «cremação» (p. 25), com implicações que nos levavam a pesada tratadística.

Vem, enfim, a diferença sensível entre a prosa lírica – de, por exemplo, Rodomel. Rododendro (1988), «poema sinfónico em cinco andamentos», com estruturas de encantamento – e a diarística, ou para aí tendendo, de A Voz do Chorinho ou os Apelos da Memória (1987). Este é um aspecto a aprofundar.

Fruto de estada no Brasil, com redacção entre 30 de Setembro e 15 de Outubro de 1985 [1975, no texto], temos, aqui, um conjunto de reflexões, maioritariamente em prosa, esboços de peregrinação que lhe deu as partes do livro: Rio de Janeiro, Cabo Frio, Minas Gerais, a solidão da selva, retratos de amigos e algumas lembranças. Ouviu murmurar «o plácido Janeiro» de Bocage e entrou na glosa do «Rio longe no mar e perto nas pessoas» de Nemésio, que patrocinam, em epígrafe, a memória de tão curtos e cheios dias.

Recuperamos estas linhas ao demorarmos na poesia indicativa, olhar em forma de presente, e forte sensualismo na narrativa das imagens, em Castália e Outros Poemas (2001). Sobressaem, igualmente, amigos e relações literárias, e textos citados, desde Martim Codax a plêiade de estrangeiros. Mas falar destes, em autor de intensas translações de sentido, é arribar à segunda parte mais quantiosa da sua bibliografia, em que nos translada nomes que também o educaram. De remissa fica outra tarefa sobre o tradutor – lembro, ainda assim, Giacomo Leopardi, Cantos (2005) –, «esse taciturno Leopardi, que foi o aliado de Hartmann», na pena de Ramalho Ortigão[4].

...E, folheando “Tela”, em Escrito a Vermelho, vimos: 

 

[...] As tintas são letras

que não têm voz. (p. 33)

 

Deixada de lado ut pictura poesis, também abordada naquela entrevista, vejamos A Letra e as Tintas (2006): se a letra é «o carácter da escrita, o modo de escrever de alguém», as tintas seriam «as tonalidades (e, por isso, as modalidades) assumidas pela escrita», como se lê em nota-resumo. Continuamos em vasos comunicantes, espécie de homenagens e acenos fraternos em artigos de jornal e revista, prefácios e palestras, sobre Régio, Júlio / Saul Dias, Alberto de Serpa, um Torga importante na sua formação, Raul de Carvalho, Luísa Dacosta, além de autoria galega (Rosalía de Castro), espanhola (Juan Ramón Jiménez) e brasileira (Cecília Meireles), e um artigo sobre “Os poetas portugueses perante a poesia espanhola contemporânea”. São lampejos críticos, desde 1980, de um poeta que, a espaços, e logo nos primeiros trabalhos (“João Bensaúde: heterónimo ou alter-ego de José Régio?” e “Os Poemas de Deus e do Diabo, de José Régio, e a recepção da crítica”[5], este justamente dedicado a Luís Amaro), adquire profundidade ensaística.

 

 

 

 

[1] A Melodia do Silêncio. Subsídios para o Estudo da Poesia de Albano Martins, Vila Nova de Famalicão, Quasi, 2005: 20.

[2] Uma Colina para os Lábios, Porto, Edições Afrontamento, 1993: 33, 43.

[3] Com as Flores do Salgueiro. Homenagem a Bashô, Porto, Universidade Fernando Pessoa, 1995: 97.

[4] As Farpas Completas, ed. de Ernesto Rodrigues, quarto volume, Lisboa, Círculo de Leitores, 2007: 2247.

[5] Saídos na Colóquio/Letras, n.º 96, Mar.-Abr. de 1987, e n.º 113-114, Jan.-Abr. de 1990.

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