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A Terceira Margem

Acaba de sair o meu oitavo romance, A Terceira Margem, Lisboa, Guerra & Paz, 2021, 192 páginas.

A Terceira Margem ficciona sete gerações de uma família luso-brasileira (com pozinhos de Europa Central) entre 1756 e 7 de Setembro de 2022, quando se comemora o bicentenário do Grito do Ipiranga. Nestes 266 anos, ergue-se dinastia com raízes no navegador Pedro Álvares Cabral e em desembargador na Casa da Suplicação centrada no avô (1870-1966) do narrador, em defesa da dignidade humana, margem que recusa a escravatura, a pena de morte, os aljubes do pensamento. Momentos altos e figuras maiores de aquém e além-Atlântico, com a presença especial de Machado de Assis, aproximam-nos de uma História comum que esta prosa singular também celebra.

Algumas feições persistentes da personalidade cultural portuguesa

Vejamos, pois, desse Livro I, “Algumas feições persistentes da personalidade cultural portuguesa” (32007: 75-107), de modo a conjugar na imagologia epocal do autor os mais contingentes textos de Filhos de Saturno.

 

António José Saraiva serve-se de índices «relativamente consistentes», em que também funda estes Escritos sobre o Tempo Que Passa do subtítulo: factos históricos significativos nos séculos XVI e XX; jogos com a língua e sua manipulação; instituições, algumas reduzidas a siglas hoje custosamente entendíveis, e tendências sociais; observações de estrangeiros e de portugueses; documentos contrastantes «de costumes e mentalidades» (p. 78); enfim, literatura e artes, reflexões sobre Autor e Escritor, ou dedicadas à Verdade.

Geografia, história e língua favoreceram um Estado-nação homogéneo e coeso (monolítico, mesmo), opondo-se, desde as origens, à maciça Castela e à mourama. A geografia, complementando Norte e Sul, intercambiando valores, oceaniza-se. As diferenças económicas e climáticas «nunca foram bastante acentuadas para criarem pólos de poder ou de irradiação cultural» (p. 80). Têm-se sucedido, quando não coexistido, topografias centrípetas, desde Guimarães e Coimbra: Lisboa nem tudo absorve − a força das capitais é contrabalançada por outros núcleos −, sendo inquestionável a sua excelente colocação ibérica, que os Filipes desaproveitaram.

Decidida a independência em Aljubarrota, urgia sustentá-la economicamente: Ceuta fez-se, por isso, «aventura fora da Península». Em O Crepúsculo da Idade Média em Portugal (1988), Saraiva vê Ceuta como primeiro passo na retaguarda guerreira que constituíam as descobertas, face à ameaça turca, antes de estas serem olhadas como mercantis.

No que ele define como consequência − «um certo sentimento de isolamento, porque, entre a Europa e Portugal, Castela tem funcionado como um deserto isolador […]» (p. 81) −, leio eu um pressuposto, ou condição para outros voos. Discorre, então, sobre as características dessa ‘personalidade cultural’, via-sacra que justifica atitudes e opções combatidas em Filhos de Saturno.

Habita-nos, desde logo, um espírito de ilhéu, «oscilando entre a aventura fora e a passividade dentro, ou ainda vivendo a aventura pela imaginação, sem sair do mesmo lugar». O português inferioriza-se, «refugiando-se numa auto-ironia perfurante, como a de Eça de Queirós, ou numa autocrítica flageladora da sua própria história, como em Oliveira Martins; ora incha o peito para desafiar o mundo ou para o conduzir, […].» (p. 82) Estamos perante um humor entre a chacota e a auto-ironia de Zé Povinho, que, a espaços, de si mesmo se condói, na lucidez que faltava aos fidalgarrões de Seiscentos verberados por Tomé Pinheiro da Veiga, em Fastigínia (1605), obra que recusa, porém, aquela inferioridade. Num arrasador «Panegírico do oportunista»[1] após o 28 de Setembro de 1974, a verve vira sarcasmo: não só lamenta o passivo e resignado, como alerta para o oportunista competente e talentoso em tempos de viragem…

Ao messianismo, crente num destino providencial, associa-se o complexo da saudade, por sua vez, ligado ao amor «à portuguesa, que parece comprazer-se na distanciação» (p. 84). Não me parece: a distância é inelutável, João Zorro traz, mesmo, suidade[2], traduzindo-se em coita[3] – cuja enunciação pode envolver comprazimento, ou significar culto da dor, esse «gosto de ser triste» (p. 86), que perpassa no fado −, mas, ainda na morte, amor deseja-se à beira, como nos túmulos de Pedro e Inês, ou no noivado sepulcral de Soares de Passos. Em Filhos de Saturno, a variante sebástica sai zombada; os messianismos políticos, seja no molde estalinista, em estruturas partidárias, personalizados em Álvaro Cunhal ou Mário Soares, não merecem confiança. A Constituição de 1976 é outro fantasma, que um referendo (reiterada paixão do autor) poderia ter exorcizado[4]. Quatro décadas depois, impõe-se que os deputados e refundadores do sistema eleitoral conheçam estes textos.

Demos cursivo a outros traços nacionais. A obliquidade das relações transfere o tratamento binário tu / vós para um sistema ternário, «um tratamento oblíquo na terceira pessoa (usando o nome do interlocutor, o que parece ser uma maneira de evitar o frente-a-frente; ou o você de amizade, […]», quando não outros, acrescentemos: o senhor, o pai, etc. Nego, pois, que não haja equivalente a Monsieur, como Saraiva diz, para «interpelar alguém fora da sua intimidade» (p. 85). O supracitado humor agre e auto-irónico «É talvez uma forma de protesto também oblíqua, uma compensação do sentimento de inferioridade colectiva, tão frequente em Portugal» (p. 86), «subalternidade» que Eduardo Lourenço (72010: 27) situou nos 60 anos de dominação filipina. “Cravo de Maio flor da liberdade” (texto 3) é a expressão de que, «sem Messias», almejamos ser LIVRES, maiúsculas reiteradas como só veremos em DESCENTRALIZAÇÃO, ao defender, ainda em Maio, “Eleições” locais ou parciais (autárquicas, sindicais, empresariais; texto 2). 

A doce, dorida religiosidade, sem a veemência castelhana, revê-se no culto de Maria («que tem sem dúvida raízes psicanalíticas», 32007: 88), tão presente no onomástico, e no culto dos mortos. Mas nem estes nos criam interesse pela filosofia (aliás, nem pela teologia), nem aquela religiosidade pelo misticismo: graduamo-nos em história pátria, na aguda consciência nacional, limitados a uma historiografia que favorece «um contemplativismo passadista, uma procura da idade do ouro no passado – uma forma, afinal, de saudosismo» (p. 90). É um parágrafo não desenvolvido em Filhos de Saturno, que só compara “Cristianismo e Marxismo” (texto 50) ‒ muito pouco, na conjuntura de 1979, e mais em 1975, quando os púlpitos do Norte colaboraram no incêndio de vidas, automóveis, sedes partidárias, como se fosse entendimento do Céu danar aos bens das esquerdas…

O aldeanismo – a aldeia na corte – é uma velha guerra contra a cidade e o aristocrático, na arte ou na escala social. Poderia significar democraticidade, mas virou ilusão; ser conúbio de estratos (popular e erudito), mas fez-se demagogia, impotência. A cantiga de amigo deslustrava o provençal; nacionalizou-se, porém, a redondilha; e, aclamados bastos poetas fáceis, a indigência cresceu, como nas letras do fado, na langue de bois partidária, no cada vez mais pobre discurso familiar. A ficção pós-camiliana ressente-se de luta surda: na falta de espaços citadinos com vida própria, recorre a modelo estrangeiro. A linguagem vê-se no fio, gasta, serva, instrumentalizada; e, pedagógico, explicador de palavras para entender as coisas, iluminando os valores do signo, Saraiva faz profilaxia etimológica, semântica e moral. É uma das suas especialidades, ou não fosse autor do Dicionário Crítico de Algumas Ideias e Palavras Correntes[5]

Aquela estrangeirização tem implicações socioeconómicas, na ausência do espírito burguês, desse burgalês (séc. XI; de burgalense) ou burguês medieval com direito de cidade – de burgo [burgus], datável de 1123 –, um empreendedor distinto do aristocrata e do lavrador, cujo comércio o alcandorou, em Setecentos, a classe social: ao contrário dele, ora nos sacrificamos para bafejar herdeiros, ora vivemos no luxo possível e impossível, sem investir o acumulado, como se fosse pecado multiplicar o dinheiro. Não se trata de especulação, de simples numerário, aquela e este regularmente criticados pelo autor. Mercado e tecnologia (o «ferramental» do capitalismo) desembocam em número, no alegadamente ‘científico’, não forçosamente em produtividade e, menos ainda, em liberdade. Logo, onde reside o progresso, a tal ponto discordam estrangeiro e nação, se dissociam topo e base? É uma velha preocupação, recorrente em Filhos de Saturno, sobre que também sintetizava em carta a Óscar Lopes:

 

A verdadeira revolução terá que ser espiritual. O homem é agora feito por e para o mercado […]; o que é preciso é que o mercado seja feito para o homem. […] Estou muito pessimista quanto ao processo do «progresso», que é fundamentalmente um automatismo de mercantilização, lógico, mas humanamente irracional. É preciso procurar outra forma de organização das relações humanas, incluindo a relação do homem com as coisas. (22005: 405)

 

Nesta parte, seria útil confrontar a imagem de jardim à beira-mar ‒ «reserva bucólica de uma Europa em acentuado processo de urbanização de técnica e tecnicismo» ‒ com o esforço progressivo fontista, lendo, diverso daquele aldeanismo, Portugal como «uma espécie de aldeia orgulhosamente feliz na sua marginalidade, na sua diferença», que o salazarismo disfarçou em «dimensão imperial imaginária» (Lourenço, 2014: 303-304). 

É de ordem cultural, mais do que biológica, e um facto político (se representa povoamento), a «tendência para a miscigenação com outros povos» (32007: 96). Saraiva vê este processo como «uma certa liberdade em relação às fronteiras culturais, uma certa promiscuidade entre o Eu e o Outro, uma certa falta de preconceitos culturais, a ausência do sentimento de superioridade que caracteriza, de modo geral, os povos de cultura ocidental». Demasiado bondoso nestas últimas palavras, é facto que, face ao mais ocidentalizado, a nossa atitude «é a de ensimesmamento, de refluxo» (p. 98) sobre nós mesmos, próprio de espírito ilhéu, que nova globalização vem derrotando[6]. Justificado o desinvestimento comercial, quando o português de Quatrocentos tanto arriscou, parece ter-nos acontecido, após Quinhentos, um país póstumo, suficientemente apático para, no momento da escrita, ser embalado vez primeira pelo FMI ‒­ Fundo Monetário Internacional. 

Poderemos, de tanta passividade e ares contemplativos, deduzir uma celebrada brandura de costumes, que um Miguel Torga contesta, desde as guerras civis de Trezentos à hipocrisia de não matar o touro na arena? Ocorre brandir a humanidade da abolição da pena de morte; os efeitos, por baixo, de algumas batalhas; e, na relatividade destas condutas, dar nota de chacinas, lá fora, que nos relegam para o fundo das tabelas. Será «uma certa aversão ao espectáculo público do assassínio, a piedade pelos mortos e supliciados, o horror do sangue», mau grado tantos autos-de-fé? Referida a «maviosidade» (p. 100) lusitana em Fernão Lopes, justificar-se-á tal, acaso, «por uma certa sensibilidade à flor da pele, ou pela falta de firmeza nos juízos sobre o próximo, ou pelo esquecimento das culpas, ou pelo baixo tónus de agressividade» (p. 101). A desorganização, o instintivo, o «logo se vê», uma brandura que é medo, fuga ou desinteresse, agem contra nós. Se se fizer um jeito ou favor, por interesse ideológico ou outro, cai-se em não poucas vergonhas. Entrevêem-se as razões maiores para o falhanço do 25 de Abril, segundo Saraiva.

A conclusão, ou décima quarta estação desta via-sacra caracteriológica, remete para um povo não propriamente guerreiro, em valores e actos, mas, tão-só, «um povo obstinado quando se trata de defender o terrunho. A padeira de Aljubarrota é, possivelmente, o melhor símbolo do espírito guerreiro português.» (p. 103) Seja esta heroína exemplo menos feliz, não é pequeno espanto a resistência ao Castelhano, que Agostinho da Silva considerava feito maior que os descobrimentos, conquistas e ultramares. Hoje, as defesas são um trabalho rigoroso e honesto, que, produzindo (idealmente, reproduzindo-nos), esquive a corrupção.

 

[1] Este texto 15 de Filhos de Saturno não vem registado na preciosa “Bibliografia de António José Saraiva”, organizada por Leonor Curado Neves, que encerra Estudos Portugueses. Homenagem a António José Saraiva, Lisboa: Instituto de Cultura e Língua Portuguesa / Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 1990.

[2] «Mete el-rei barcas no rio forte; / quem amigo há, que Deus lho amostre: / alá vai, madre, ond'hei suidade!» ((B 1156, V 758)

[3] …Se não for irónica: «Isto é quanto à saudade / que eu dela posso ter», diz, em relação à mulher que dele se afastou, interlocutor na vicentina Farsa dos Almocreves, 1526, versos 461-462.

[4] Os três artigos que à questão constitucional dedica em 1978, no Diário Popular, são respondidos por Óscar Lopes na Correspondência (p. 415-418; contra-resposta nas p. 422-423).

[5] 1960; na capa, Dicionário Crítico, Lisboa: Gradiva, 1996.

[6] Giddens, 42005: 53, define globalização como «a intensificação das relações sociais de escala mundial, relações que ligam localidades distintas de tal maneira que as ocorrências locais são moldadas por acontecimentos que se dão a muitos quilómetros de distância, e vice-versa». Analisa quatro dimensões da globalização: economia capitalista mundial, sistema do Estado-nação, ordem militar mundial, divisão internacional do trabalho. «Uma das principais características das implicações globalizadoras do industrialismo é a difusão universal das tecnologias da máquina.»

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