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Teatro

Acabo de publicar Teatro (Lisboa,  Edição do Autor, 2021, 572 páginas), reunindo onze peças escritas entre 1973 - quando estudante no Liceu Nacional de Bragança - e 2020, já sob efeitos da Pandemia, como se intitula a última. Com excepção da dedicada aos derradeiros momentos da vida de Almeida Garrett, O Divino, abordam questões de Poder, manipulação e vingança - desde a vigilância policial no estertor do Estado Novo às relações interpessoais. São histórias que, mesmo em suspenso (já na construção de um tempo novo, já na dúvida sobre o êxito da revolução), ou nas soluções aparentemente delirantes, deixam germinar um grão de esperança e dignidade. 

As Farpas (2)

Inaugura-se o Ramalho viajante “Entre Minho e Douro”. Esta primeira secção leva-nos às margens do Lima, a Viana do Castelo e Ponte de Lima, e pelo sumário se concluirá dos assuntos tratados: os campos, os casais, as igrejas, as estradas, as diligências, os abades, o mercado, as mulheres, os trajos, a educação, os costumes, as influências estéticas. Tratando as aldeias minhotas, cuida da administração e polícia rural, lavoura, indústrias agrícolas e caseiras, a ignorância, a miséria e a acção do Estado. Seguem-se o natal minhoto, o presépio, a consoada e a ceia da família, derivando para reflexões sobre a jogatina – «O jogo é uma asneira» – que nada tem a ver com o anterior. Dá um salto a Braga, outro ao país vinhateiro na Régua (corroborando quanto diz em John Bull e na carta ao mesmo Bull do tomo II) e fecha por lição sobre o Porto matricial. Carta de Junqueiro (Guimarães, 1968) anima-o a retornar ao Minho no ano seguinte, porque «Viu apenas a terça parte do seu assunto. O Minho é enorme – termina em Pontevedra (Galiza).» E pede que lhe envie os folhetins sobre a região, que vinham saindo no Rio de Janeiro, antes de se encaparem.

No apartado “Entre o Tejo e o Douro”, atemo-nos a aspectos do Ribatejo e da Estremadura: Azambuja, Cercal, Caldas da Rainha, bela descrição de Óbidos, enfim Alcobaça e o mosteiro.

Molhando o pé, desce e dá-nos “As Praias” e como nelas se diverte o homem português: S. João da Foz, realce para Espinho, Figueira da Foz, Buarcos, pausa na Trafaria. O texto mais divertido tem a particularidade de reunir, num momento quase diríamos histórico, o célebre grupo dos cinco. Embora Ramalho seja avaro destas informações, «este ano» referido no texto significa 1884[1]. O poder enumerativo e descritivo, tocado pela verve irónica com que dá conta da chegada de banhistas de meia tigela que vêm desinquietar a alta sociedade, fá-lo regressar no pleno das suas qualidades folhetinescas – é na Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro que este se publica. É, pois, a refracção do farpeador, de novo imbuído pela ligeireza anti-argumentativa de folhetinista tout court. Razão tinha João Gaspar Simões (O Primeiro de Janeiro, 9-VII-1972) para chamar «memorável ágape» ao que no Palácio de Cristal reuniu, bem comidos, em célebre fotografia, e da esquerda para a direita, Eça de Queirós, Oliveira Martins, Antero de Quental, Ramalho Ortigão e Guerra Junqueiro[2]. Honra, pois, à casa portuense Fotografia União.

Após “A Vida Provincial”, qual dívida por cumprir (volume X, ou Farpas I, sem ‘Advertência’, da Colecção Geração de 70, no Círculo de Leitores, 1987; Jacinto Ramos gravou um disco de 33 rotações para a Sassetti, 1974), recorre-se, então, ao tido por melhor nos 42 caderninhos heróicos. O mesmo é dizer que entramos nos arranjos – inclusive, textuais, hierarquicamente definidos – da capital, abrindo pela corte.

O tomo II reúne “As Epístolas”. São doze. Destaquemos a já citada e dirigido ao então príncipe D. Carlos, sobre questões de educação ou da necessidade de aprender um ofício, não fosse ele juntar-se aos «Reis insalubres». É ainda sobre instrução secundária que interpela o ministro do Reino em 1875, tema a que voltará repetidamente. O «imposto industrial» lançado sobre os escritores arranca-lhe outro grito. De religião fala ao cardeal-patriarca:

 

Em matéria religiosa o estado dos espíritos em Portugal é o seguinte: As mulheres são devotas. Por várias razões. Umas por educação, outras por inclinação mística, outras por sensibilidade nervosa, outras por medo, o resto por moda.

Os homens, em geral, são indiferentes. Uns por simples atonia do espírito, irreflexão, frivolidade, descaso de todas as coisas superiores e elevadas; outros por sistema partidário, ódio ultraliberal aos padres, oposição económica às irmandades, às confrarias religiosas, às corporações de mão morta; um pequeno número por convicção filosófica: o resto por carência absoluta de convicções de crenças de qualquer natureza e de qualquer espécie.

 

Salientemos duas. “A Mr. John Bull”, à conversa com o Zé Povão inglês que domina Portugal, ou balanço dorido e violento da lusa anglomania. A francesia também bordeja, mas é ainda contra o príncipe de Gales que mais esponja de fel faz destilar o corrosivo destinador. A segunda rememora o Cenáculo.

O tomo III, “Os Indivíduos”, é indispensável para se conhecer gente principal do século XIX. Abre com Alexandre Herculano, evocado no mês da sua morte, e Ramalho, como em demais lugares, não pode esconder a animadversão que sempre dedicou ao solitário de Vale de Lobos. Escreveu Ricardo Jorge (p. 52) que «ninguém flagelou mais cruamente a deserção de Herculano, lançando-lha em rosto como um delito de consciência, uma traição vibrada contra os destinos da pátria. Intolerante para o espírito dos eleitos», acrescenta, Ramalho não lhes concede «sequer le droit de s’en aller, o direito inauferível reivindicado por Baudelaire».

João Pinto de Carvalho (p. 27-29) transcreve carta de Herculano ao director da Torre do Tombo, em 1874, onde também não é nada meigo com Ramalho, um «peralvilho»: «Deixem lá o pobre Ortigalho.»[3] E quando Gomes de Brito lhe pergunta «– Mestre, porque é que não responde às agressões do Ramalho Ortigão?», ele, lacónico: «– Não atiro a pardais.» No quadro da Geração de 70, que tanto admirava Herculano, a deserção ramalhiana dir-se-ia incongruente.

Seguem-se retratos do Duque de Saldanha, do bibliófilo Inocência Francisco da Silva, do velho Castilho, do desgraçado amigo Vieira de Castro, etc., num total de 23 capítulos. Releve-se a figura de Cruz Coutinho, dono d’O Jornal do Porto, para assim melhor situar Ramalho, evocando os primeiros passos naquele órgão e um pouco da vida intelectual portuense.

A visão da segunda metade do século no campo da governação, e referência doravante singular sempre que no país se fala de melhoramentos materiais, é Fontes Pereira de Meio, o político regenerador por excelência. Serve também para nos aproximarmos das ideias (diametralmente opostas às que, na risota, defendia o Cenáculo) de Ramalho sobre as formas de governo.

Ao poeta d’A Alma Nova, Guilherme de Azevedo, com quem fazia parelha no Álbum das Glórias, e estimado jornalista morto em Paris, dedica outra evocação; o mesmo ao pai espiritual, Garrett, a modos de gratidão. Enfim, e sempre sob a égide da dura Parca, junta-lhes o maior jornalista do século, António Rodrigues Sampaio, mais conhecido por Sampaio da Revolução, isto é, da Revolução de Setembro. Com ele, literatura, jornalismo e política conhecem grandes sínteses que, por seu lado, complementam a biografia de Ramalho.

O quarto tomo discorre sobre “O Parlamentarismo”. São, acaso, os textos mais conhecidos, de quando em vez citados se é questão de criticar os vícios do rotativismo, da retórica balofa, da extravagância e inutilidade das leis, dos deputados submissos aos líderes... Compulsamos o Diário das Câmaras, acompanhamos os deputados ao baile, vemos como ginasticam sobre patriotismo e como se defendem da ginástica: este ponto é de honra para o autor, que desejaria um povo mais atlético. São 33 capítulos de gargalhadas, governos que caem, fácil provimento dos empregos públicos, sessões mais ou menos cordatas, etc.

O tomo V associa no título, sem porquê, “A Religião e a Arte”. Intrigante é a não-datação dos 30 capítulos, connosco já perdidos nos dícticos temporais. De uma análise química e sociológica à água de Lourdes e a episódios de Natal, escapulários, etc., é um desbravar nada motivante de questões hoje ultrapassadas. Anticlerical, exceptua o padre de aldeia, «de ordinário, o melhor dos homens». Os padres das missões, aventureiros ou místicos, ora arrebanham negros que baptizam em massa, ora se deixam canibalizar. O padre de sala, quando não ressona, é tarefeiro e motivo de gáudio das meninas prendadas. Solução?

 

O padre estrangeiro tem sobre o padre indígena a vantagem de não se haver abandalhado nas eleições, e não ir para a plateia de S. Carlos aplaudir a ópera e dizer graçolas às senhoras suas confessadas, que estão nas bancadas ao pé dele, de não andar pelas casas particulares com as peúgas e com as fraquezas embrulhadas em papéis [...].

 

Assunto candente no século era, todavia, o celibato e o casamento dos sacerdotes, já eleito no Eurico, o Presbítero. O caso, citado, do padre Jacinto remete para a polémica à volta da “Carta do Padre Jacinto”, de facto, Hyacinthe Loyson, Paris, 25 de Agosto de 1872, saída no Soir em 4 de Setembro. Pode ser vista em apêndice a O Celibato Ecclesiastico – Reflexões à Carta do Padre Jacinto (1873), por A. A. Teixeira de Vasconcelos, director do Jornal da Noite, que sustentou farta discussão com outra Imprensa – mormente, Oliveira Pires, n’O Constituinte –, à qual também aderiu Ramalho. Começa aquele: «Casou em França um sacerdote católico, antigo frade e pregador insigne, e declarou que apesar de casado ficava sacerdote católico. Aquele facto causou por muitos motivos grande sensação, e maior escândalo talvez que o próprio casamento de Lutero.»

Leia-se, igualmente, parecer sobre A Velhice do Padre Eterno (1885), a que associa Baudelaire, Antero, Teófilo e João de Deus. À edição de 1946 acresce posfácio – “A última lição de Ramalho” – do Padre Moreira das Neves.

O sexto tomo, “A Sociedade”, invade mais directamente o quotidiano português oitocentista. Debruça-se sobre a alimentação e seus efeitos; caracteriza-nos como «ajustamento fortuito de quatro milhões de egoísmos explorando-se mutuamente e aborrecendo-se em comum», isto em 1882. Sucede ao também notável “A mania das grandezas e a melomania, doenças hereditárias na sociedade portuguesa”, ambos fundamentais para se compreender a matizada decadência – de pessoas, da literatura e portuguesa – e suas causas. Uma curiosa estatística dos divórcios em 1876 abre o tomo[4].

Passando do geral ao particular, “A Capital” define o sétimo. São 39 capítulos sobre a administração municipal e a saúde pública, revisão das casas, alimentação, aspecto dos habitantes, corridas de cavalos, serviço de incêndios, enterro de náufragos, bailes do Paço, o prego, casas de jogo, o fadista, cães e limpeza pública, a festa do Primeiro de Dezembro, o Carnaval, o Passeio Público, etc. Em três lugares larga estocadas em Herculano. A propósito da pena de morte, por exemplo: «Nunca, desde os nossos mais tenros anos até hoje, pudemos compreender as razões poéticas e sentimentais dos que aboliram ou querem abolido para os malfeitores a pena última.»

No largo espectro de visados estava A. P. Lopes de Mendonça (1843), entre os primeiros – Herculana fizera-o em 1838, no Diário do Governo – a defender a abolição da pena capital, visto que crime só existia onde faltava educação. Sobre esta discorre no tomo seguinte, ao lado de balanço do ano escolar, que neste país, em virtude dos feriados, se reduz a onze dias úteis. Antes, vamos à tourada, aguardamos no Grémio enquanto não há notícia das facadas sacramentais que todas as noites rasgam Lisboa e, por amor ao Portugal e o Socialismo, do amigo Oliveira Martins, trata de mulheres operárias.

O tomo VIII volta-se, por inteiro, para “Os Nossos Filhos – Instrução Pública”, preocupação transversal às cerca de três mil e quinhentas páginas por ele seleccionadas. Passa em revista os compêndios das várias disciplinas, os castigos corporais, as meninas no liceu, a educação religiosa, os colégios militares, a «decadência da raça pelos vícios da educação». Se o desenho, que educa a observação, já foi dado como prioritário desde a escola primária, ainda não chega; reiterante, considera que «em Portugal – país de magricelas, de derreados, de espinhelas caídas –, nada mais importante do que a educação física».

São complementos, a que se deve acrescentar a música, do único ensino completo, o secundário, que também prevê a aprendizagem de um ofício ou «arte mecânica». Letrados, jurisconsultos, doutores e retóricos já não bastavam para debelar o tão visível subdesenvolvimento, que requeria «hábeis produtores». O elemento político é subestimado na constituição da sociedade industrial – contra o parecer de Teófilo Braga, que «dele tudo faz depender», embora, à época, fosse exigível uma autêntica «revolução política», como resume Vasco Pulido Valente, que mais se alarga sobre projectos de vários reformadores em Uma Educação Burguesa (1974).

“O Movimento Literário e Artístico” compõe o tomo IX. Abre com a refutação do discurso de Pinheiro Chagas no Parlamento, em que defendia a proibição das Conferências do Casino: «A portaria que mandou fechar as conferências democráticas não foi só uma flagrante violação da lei aplicável àquele caso, foi também um atentado claro e terminante contra a liberdade da palavra sem a qual é nula a liberdade do pensamento.»

Elogia a Imprensa livre e o jornal, Rafael Bordalo Pinheiro e a caricatura; opina sobre peças de Dumas, Sardou e portugueses, e, em três locais, de novo carrega sobre o «finado escritor» Herculano, que já não trabalha, nem ensina, mas só repousa. Veja-se o seu entendimento sobre o teatro nacional e a recepção de O Crime do Padre Amaro (1876). Pode ser útil fazer acompanhá-la – bem como a crítica a O Primo Basílio – pela correspondência de Eça ao amigo.

Os tomos X e XI dizem-se “Aspectos Vários da Sociedade, da Política, da Administração”, com 36 e 34 capítulos, respectivamente. Além, fala-se muito do Brasil e rebate-se Herculano; observe-se a dificuldade ramalhiana em compreender a poesia de um jovem poeta, que aconselhava a tornar-se «cada vez menos Verde e mais Cesário». Cita-se o poema “Esplendor” (parcial), saído no Diário de Notícias em 22-III-1874. Neste, realce para o debate sobre a instrução secundária no parlamento – e, claro, a sem-razão de o termos aqui e não no tomo VIII. Conheceu primeira edição, em opúsculo, no Rio de Janeiro, sob o título “A lei da Instrução Secundária na Câmara dos Deputados em Portugal” (1883, 80 p.). Há outros domínios que estão fora do seu tomo: deputados, celibato, mortos ilustres e amigos (D. Luís, Júlio César Machado...), vilegiatura balnear, ginástica... O poeta agora visado, em termos chocarreiros, é Gomes Leal.

 

[1] Ver, também, carta a Emília de Castro, de 18-X-1885, em Eça de Queirós, Correspondência, 1.º vol., ed. de Guilherme de Castilho, Lisboa, INCM, 1983: 328 ss.

[2] O trecho sai n’A Illustração (Paris), 1885: 282, que diz extraí-lo de A Holanda.

[3] “Ramalhão Ortigalho” é título d’Os Ridiculos (redactor, Caracoles; Lisboa, 3-X-1895 / 1-VI-1898, n.º 279), quadras de 19-XII-1895, n.º 17, que sucediam a outro ataque no número anterior, de 15-XII.

[4] Desde 1868 até Junho de 1876, temos os seguintes números em acções de divórcios: 10 (intentadas pelas mulheres: 9), 21 (17), 25 (19), 20 (14), 30 (27), 33 (21), 25 (16), 18 (15), 5 (3). A diferença é mais flagrante no 1893 funchalense, quando, segundo o Registo Civil, 22 mulheres, contra 1 homem, requereram a separação de pessoas e bens.

As Farpas (1)

As farpas

Chronica mensal da politica, das letras e dos costumes, por Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão.

Saiu o 1.º numero e está à venda na livraria Pereira, na rua Augusta, na tabacaria Neves, ao Rocio. Recebem-se assignaturas na livraria Pereira.

 

Este número de 96 páginas, ao preço de 200 réis, irrompia da Typographia de Thomaz Quintino Antunes, Impressor da Casa Real, Rua dos Calafates, 110 (seja, da tipografia do Diário de Notícias), e, como se lia na contracapa, «Toda a correspondência relativa a esta publicação deverá ser dirigido aos Redactores das FARPAS, calçada dos Caetanos, 30, Lisboa», seja, a Ramalho, que aí habitava. Na capa, ilustração de Manuel Macedo dá-nos um diabrete alado com seu extenso rabo terminando em flecha, garras, cornos e barbicha eriçados, espreitando por óculo.

Desde Abril, anunciava-se a empresa, segundo o bem informado O Primeiro de Janeiro (28-V-1871), que, na edição de 21-VI[1], agradece a oferta do primeiro número e abre, em 9-VII, «uma série de folhetins» sobre as ditas, continuados em 12, 13 e 18. Agradece o segundo em 20 de Julho.

Em cartas para o amigo Fernandes Reis, na redacção d’O Jornal do Porto, podemos seguir o nascimento destes voluminhos. Em carta de 4 de Maio a Eduardo Garrido, anuncia-as para Junho: por cada correspondente que angariasse, Garrido teria um abatimento de vinte por cento[2]. Informa:

 

O primeiro volume, que aparecerá no princípio do mês próximo, entrou hoje no prelo. Diz uma multidão de coisas que ainda se não tinham escrito em Portugal e todas elas são justas, são verdadeiras e são dignas. No meio do ramerrão hipócrita do jornalismo e da literatura contemporânea este livro tornar-se-á sensível e virá talvez a ser apontado na história do pensamento moderno como um grande impulso das ideias para o direito e para a justiça.

 

Já então pressentia as «muitas negativas e muitas contestações», confirmadas post mortem por Júlio de Sousa e Costa (1946: 48): «Algumas pessoas que se diziam amigas de Ramalho Ortigão esfriaram as suas relações pessoais e alcunharam-no de demolidor antipático, revolucionário, e até de... provocador!»

A partir da sua casa e sede de redacção, impetra o amigo Manuel Fernandes Reis, correspondente no Porto do novo «periódico», a que lhe envie lucros entretanto feitos, pois «Como V. sabe nunca me coalha o dinheiro nestas minhas medonhas algibeiras rotas». E voltando-se para a administração d’As Farpas: «Os assinantes da província deverão pagar trimestres adiantados ou três volumes, e receberão os volumes directamente francos de porte do correio.» À frente: «Era bom que se arranjasse uma pessoa que durante os meses de banhos vendesse as Farpas em Espinho e na Póvoa de Varzim.»

Em carta seguinte, dá a entender que Cruz Coutinho proibiu todo o correspondente de Lisboa de falar em Ramalho Ortigão no seu jornal. Enquanto isso, envia 75 exemplares, dizendo: «A extracção dos nossos livrinhos tem aqui aumentado muito! Tiramos uma edição de 1 500 exemplares e esgotamos tudo de um mês para outro. Em Portugal, não se pode exigir mais, e ninguém ainda conseguiu tanto cá. No Rio de Janeiro têm ganho contos de réis aqueles que nos roubam.»

A reedição do número inaugural referente a Maio (no precioso formato de 11 por 14 cm) diz bem do sucesso da publicação, avidamente lida cá e pirateada no Brasil. «Não se descreve o successo da incomparável revista critica», confirmaria Fialho de Almeida[3]. O propósito ramalhiano, expresso noutra carta, de «organizar a publicação de modo que cada número saia num dia prefixo», foi por água abaixo. A periodicidade mensal aguenta-se nos primeiros tempos; depois, vê-se muitas vezes bimestral, perde-se nas férias do Verão ou por causa de alguma doença.

As três primeiras séries, na Tipografia Universal, encerram com o número de Fevereiro a Maio de 1878. A quarta série, já passada à Empresa Literária Luso-Brasileira-Editora, ainda em Lisboa, comporta três números: Junho a Julho de 1882; Novembro a Dezembro de 1882; Junho de 1883. Esta é a fase propriamente heróica – Maio de 1871-Junho de 1883 –, que termina com a “Carta a sua alteza real o sereníssimo príncipe snr. D. Carlos, regente em nome do rei”, 100 páginas datadas de 25 de Maio, hoje inserias no tomo II – sintomática despedida de quem se afastava de outras inquietações…

O futuro rei, honrado por pertencer, embora a «suplente», à famosa equipa dos 11 Vencidos da Vida, divertiu-se imenso com o tom respeitosamente irónico deste seu confrade, e amigo, e apologista, a quem oferece lugar de bibliotecário na Ajuda.

No total, 42 caderninhos que perfazem sete belíssimos tomos, raros e sumamente preciosos. A colaboração de Eça vai até Outubro de 1872. Escreve Ramalho ao amigo do Porto:

 

Queiroz vai, como saberá, para Havana, o que não obsta a que as Farpas prossigam no caminho em que estão, por isso que sou eu que tenho a chave literária desta porta. Sendo eu que a abri, é a mim que toca também fechá-la e quando entender. Não é natural que venha a ser tão lido. Veja se logo que possa me manda o saldo de Fevereiro, porque estamos em época de renda de casa e preciso cum quibus.

 

Também As Farpas de Novembro avisarão os leitores da partida de Eça, cujo nome, porém, constará até ao fim na capa da publicação. Já cônsul em Paris, revê profundamente a sua parte, que intitula Uma Campanha Alegre / De «As Farpas» e publica em dois volumes (1890-1891), constituindo os tomos 12.º e 13.º da completamente renovada edição d’As Farpas (desde 1887) sob a responsabilidade de Ramalho Ortigão.

Se Eça dispôs os seus textos por ordem cronológica, Ramalho veio confundir-nos o seu tanto. Preferiu uma disposição por matérias, com desrespeito total da cronologia. Assim, o primeiro texto com que actualmente deparamos é de Setembro de 1885; o segundo é de Janeiro; o terceiro não tem data... Dentro da matéria geral a que correspondem títulos para cada tomo, só há subtítulos para as grandes partes de que se compõe o primeiro tomo. Mas vejamos, em síntese, os grandes momentos editoriais d’As Farpas.

 

A fase entranhadamente panfletária, de gente que, na mais completa independência de espírito, nada pede nem tem a perder, vai de 1871 a 1883. Cada fascículo abre por um sumário, em geral longo, desenvolvido pelas cerca de 96 páginas, em que se respeita a ordem dos assuntos avançados naquele, tipograficamente destacados. Subordinados aqui a um lapso de tempo – a um mês, ou a dois, etc. –, e a simples asteriscos, muitos deles vão perder-se nas edições modernas, e, assim, falha-nos um contexto de que aproveitaria a leitura que hoje façamos dessas peças infelizmente atomizados.

O primeiro volume desta fase heróica, em colecção encadernada na Biblioteca Nacional – raridade que, em 1989, valia bem 80 mil escudos (Sousa, 1989); hoje, conjunto digitalizado na BND –, reúne os meses de Maio a Outubro. O segundo volume traz os de Novembro de 1871 a Abril de 1872. O terceiro volume, já no 2.º ano da publicação, comporta os seis fascículos seguintes: Junho a Julho, Julho a Agosto, Setembro a Outubro, Novembro, Dezembro de 1872, Janeiro a Fevereiro de 1873. O quarto volume reúne os de Março a Abril de 1873, entra no 3.º ano com o número XX, de Outubro a Novembro, acrescenta Janeiro a Fevereiro de 1874, Março a Abril de 1874, Outubro de 1874 e Novembro a Dezembro de 1874. O quinto volume oferece os de Janeiro a Fevereiro de 1875, Julho a Agosto de 1875, Dezembro de 1875 (com que se inaugura a Nova Série, tomo I), Janeiro de 1876, Fevereiro, Março a Abril de 1876 (ou, como se compreenderá, tomo IV desta Nova Série). O sexto volume comporta os de Maio a Junho de 1876, Junho a Agosto, Outubro a Novembro de 1876, Janeiro a Fevereiro de 1877, Maio a Junho, Agosto a Setembro de 1877 (ou tomo X da Nova Série). O sétimo e último volume reúne Janeiro de 1878 (Terceira Série, tomo I), Fevereiro a Maio de 1878 (tomo II da 3.ª série), Maio de 1879 (tomo III da 3.ª série), Junho a Julho de 1882 (4.ª série, n.º I, já em nova editora, como acima se disse), Novembro a Dezembro de 1882, Junho de 1883 (ou n.º 3 da 4.ª série).

No total, 42 cadernos rondando as 96 páginas cada, «irónicas, alegres, mordentes, justas», como se diz logo a abrir, na apresentação que coube a Eça.

 

[1] Fernando Castelo-Branco, “No centenário de «As Farpas»: uma carta de João Penha”, Colóquio/Letras, n.º 4, Dez. de 1971: 76, reproduz esta notícia.

[2] Cf. “Uma carta de Ramalho”, Quinzena Literária / dos Estudantes da Faculdade de Letras de Lisboa, n.º 2, 30-I-1940), datada de 4-V-1871.

[3] Cit.: 166.

História da Cultura Portuguesa: século XIX (3)

A Questão Coimbrã e o famoso duelo

Datada de 27 de Setembro de 1865, a «Carta do II.mo e Ex.mo Sr. António Feliciano de Castilho ao Editor», que subintitula a «Crítica Literária»-posfácio ao Poema da Mocidade de Chagas, veio entornar tudo. Dedicatário da obra, Castilho abre a matar: «Parabéns e agradecimentos por este livro, em tudo novo, com que V. S.a vai prendar a nossa literatura. Boa fortuna para a publicação escusado fora desejar-lha, pois a tem certa; afiança-lha o nome do autor, já com tanta razão popularíssimo.»

Posto o que, deriva, no primeiro longo terço, para generalidades estranhas à obra, aqui e ali concitando nomes de próximos – Mendes Leal, Júlio César Machado – ou já comprometendo, no elogio, Camilo Castelo Branco. A espaços, insinua ligações entre os novos conceptistas – «nóveis e boçais» – e alguns seiscentistas sobre os quais erra estrondosamente: «De tudo há nas rajadas líricas de certos poetas, menos assunto, ou menos o assunto.» Antero, que nesse ano publicara as revolucionárias Odes Modernas, sentiu o toque.

Latinando salteado, chega enfim Castilho à confissão do que ali o trazia, não sem antes recitar a quadrilha de amigos mais chegados: Mendes Leal, Tomás Ribeiro, Pereira da Cunha e Pinheiro Chagas, «belo nome, nascido ontem, e já hoje esplêndido, [que] me sugere um novo e derradeiro alvitre para a cura da gangrena que vai lavrando». Na literatura, quer dizer. O alvitre, sim, era o busílis da questão.

Pedro V instituíra o Curso Superior de Letras e, com «boa mão na escolha», provera as respectivas cadeiras: «[...]o mérito de todos os seus professores é real e reconhecido». Mas, além de a cadeira de literatura moderna ser «em verdade dificílima», uma qualquer maldição a perseguia. O seu primeiro titular, Antonio Pedro Lopes de Mendonça (1826-1865), príncipe dos folhetinistas, e nosso primeiro ensaísta literário, socialista utópico, entaramelava-se em público; não aqueceu a cadeira, passando os últimos cinco anos entre os doidos de Rilhafoles. Após duas «aparições brilhantes e passageiras» – Rebelo da Silva e Mendes Leal –, a disciplina estava de novo deserta, urgindo que se lhe acudisse. E, enquanto não chegava o concurso, «como a lei o exige [..], porque se não proveria interinamente, e desde já, o ofício em pessoa cujo aptidão fosse provada e incontestada?» E logo: «Ninguém, quanto a mim, estaria mais no caso do que Pinheiro Chagas.» Procede-se, aí, ao elogio do candidato.

Ora, havia mais três pretendentes: Antero, Teófilo Braga, Vieira de Castro, espantados que tal posfácio misturasse alhos e bugalhos indiscriminadamente lançados ao inocente editor. Retomando a estratégia de dividir para enfraquecer, do trio só considerava o amigo de Camilo, Vieira de Castro, que Chagas também vencia, e dos ilhéus ora coimbrões distanciava-se com golpe baixo: «Deixando de parte, por agora, Braga e Quental, de quem, pelas alturas em que voam, confesso, humilde e envergonhado, que muito pouco enxergo, nem atino para onde vão, nem avento o que será deles afinal, [...].»

Bastava. Louva, ainda, a obra-pretexto, que irmana com D. Jaime, desembocando em síntese manhosa: «Não dei sentenças decretórias sobre o livro, [...]. Expus e motivei conforme soube as minhas persuasões sobre o autor e a obra, assim como sobre uma e outra questão literária que acertou de me passar a talho de foice.»

Como não foi tanto assim, e já prevenindo a borrasca que não ignorava vir a levantar-se, adenda que «o Virgílio me não dá licença» para responder aos discordantes, pelo que o editor avisará de antemão quem quiser brigar. Voltando às suas traduções, Castilho preparava a defensiva. Já Antero lhe caía à perna.

A peça deste, “Bom Senso e Bom Gosto”, que deu nome à polémica logo desencadeado, trazia por subtítulo “Carta ao Excelentíssimo Senhor António Feliciano de Castilho” e breve concluía por um «Nem admirador nem respeitador / Antero de Quental / Coimbra, 2 de Novembro de 1865».

Dois «fortes motivos» levaram Antero a falar: «Um é a liberdade absoluta que a minha posição independentíssima de homem sem pretensões literárias me dá para julgar desassombradamente, com justiça, com frieza, com boa fé.»

A este direito de quem não pretende lugar algum acresce o dever de «erguer a voz pelo que julgamos a verdade, a erguer a mão pelo que acreditamos a justiça». Caracteriza então «as pequenas coisas e os pequenos homens das ínfimas questiúnculas literárias dum ignorado canto de terra, a que ainda se chama Portugal», e, sibilino, sem ignorar a cegueira física do adversário, junta: «Sim, Ex.mo Sr. Eu não sei se V. Ex.ª tem olhos para ver tudo isto. Cuido que não: porque a inteligência dos hábeis, dos prudentes, dos espertíssimos é muitas vezes cega em lhe faltando uma coisa bem pequena, que se encontra nos simples e nos humildes – a boa fé.»

Das «impensadas e infelizes palavras» de Castilho, «dignas, quando muito, de um sorriso de desdém e do esquecimento», resultou «uma acção desonesta». Para Antero, «O que se ataca na escola de Coimbra [...], não é uma opinião literária menos provada, uma concepção poética mais atrevida, um estilo ou uma ideia. Isso é o pretexto, apenas. Mas a guerra faz-se à independência irreverente de escritores, que entendem fazer por si o seu caminho, sem pedirem licença aos mestres, mas consultando só o seu trabalho e a sua consciência». O «herege» de Coimbra continua a alvejar o oficialato das letras, cuja «vaidade ferida» casa com o «espírito de rotina», a banalidade, a vulgaridade, a «baixeza e pequenez moral e intelectual»: «V. Ex.ª fez-se chefe desta cruzada tão desgraçada e tão mesquinha. Não posso senão dar-lhe os pêsames por tão triste papel.»

Segue-se, num arroubo, a defesa da independência e liberdade dos espíritos, propugnando por uma missão que reúna escritor, poeta e apóstolo. Aproveita para se distanciar dos adoradores da palavra, agradável ao ouvido, com que se ilude o vulgo e despreza a ideia, «que custa muito e nada luz». Numa insinuação ainda ad hominem atira: «São apóstolos do dicionário, e têm por evangelho um tratado de metrificação.»

Parte, logo, a costela classicizante do Castilho tradutor e autor de «versos sensabores», «idílios grotescos sem expressão nem originalidade, com alusões mitológicas que já faziam bocejar nossos avós», «com frases e sentimentos postiços de académico e retórico», etc., etc., num estendal violento que arrasa toda a obra castiliana e sua «crítica fradesca». Opõe-lhe, como projecto de modernidade extensivo a todos os domínios, aquilo que «a nossa divertida Academia das Ciências» não faz, mas fazem os grandes institutos europeus: resolver, decompor, classificar e explicar o mundo dos factos e das ideias.

Antero ainda acrescenta panóplia de argumentos para boa distinção de escolas, até que se decide por uma pausa: «[...] temo, no ardor do discurso, faltar ao respeito a V. Ex..ª, aos seus cabelos brancos. Cuido mesmo que já me escapou uma ou outra frase não tão reverente e tão lisonjeira como eu desejara.»

Reconhecendo dever a Castilho «o pouco francês que ainda hoje sei», quando seu aluno no Colégio do Pórtico (na Rua dos Navegantes, 40-43, Lisboa, que frequentou em 1852-1853), Antero vê, porém, «com desgosto, que temos muitas vezes de renegar aos vinte e cinco anos das autoridades dos dez», concluindo que «a idade não a fazem os cabelos brancos, mas a madureza das ideias, o tino e a seriedade; e, neste ponto, os meus vinte e cinco anos, têm-me as verduras de V. Ex.ª convencido valerem pelo menos os seus sessenta.» Era o fim: «A futilidade num velho desgosta-me tanto como a gravidade numa criança.»

Nada a fazer. Antero penitenciou-se, na “Carta Autobiográfica” de 1887, dos excessos nesta contidos, tanto mais que tivera no filho Júlio de Castilho, quando viveram nos Açores, «o meu mais antigo amigo. Brincavamos ora em casa d’elle ora na nossa.»

Por agora, o firmamento das letras escancarava-se e vinha abaixo. Já tempestuava.

Acesa a polémica, já com outros à compita, sai segundo folheto de Antero em Dezembro. O tom abrandava; Castilho, aliás, tinha os seus méritos – houvesse um olhar para a peça Camões, «um dos mais formosos dramas do teatro português e a única admirável e inatacável obra do Sr. Castilho», livro «surpreendente que excede muito o Camões de Garrett» em múltiplos campos... Ramalho vai pegar nesta e em muitas mais, em extenso folheto de 3 de Janeiro de 1866, o qual, por querer-se supra-partidário, «mais controvérsia levantou» por ter desagradado «a gregos e troianos», no dizer de Alberto Ferreira e Maria José Marinho, que o integram no vol. II da antologia Bom  Senso e Bom Gosto, 21985.

Nas Obras Completa do autor, abre o tomo I de Figuras e Questões Literárias, a que se seguem prefácios críticos a Os Lusíadas e ao Amor de Perdição, bem como estudo brevíssimo sobre Garrett. No tomo II (1945), é novo apanhado de dispersos sobre «perfis de escritores e problemas de estilo»: Eça, Oliveira Martins, Guilherme de Azevedo, D. João da Câmara, Conde de Ficalho, Teófilo Braga, Junqueiro, Ernesto Biester, Maria Amália Vaz de Carvalho e Flaubert são as principais referências desenvolvidas.

Mas, revertendo a Literatura de Hoje – M. Pinheiro Chagas, António Feliciano de Castilho, Vieira de Castro, Antero de Quental, Teófilo Braga –, com que Ramalho intervém na Questão Coimbrã, vejamos alguns aspectos e como se precipitou aquele tão falado duelo com Antero.

«O que muita gente ignora é que foi um padre que me meteu nessas grandes andanças!...», confessará a Júlio de Sousa e Costa (Ramalho Ortigão. Memórias do Seu Tempo, 1946: 27). E o que seria um divertimento, no distante Porto, quase ia dando para o torto. Ataquemos o texto.

«Estão-se dilacerando rancorosamente em Portugal duas seitas literárias a que chamam a coimbrã e a olissiponense. Dizem os de Lisboa que não percebem o palavroso e abstruso mistifório dos literatos de Coimbra. Gritam os de Coimbra que se lhes não dá com o paladar académico o palavrório delambido dos literatos de Lisboa.»

No terceiro parágrafo, e apresentados os contendores, esclarece Ramalho as condições em que, e para que, escreve:

«Como a questão é de terra para terra, aproveito a santa paz que reina por enquanto na minha freguesia, e nesta noite de 2 de Janeiro de 1866 procurarei eu, de pés ao lume e charuto no canto da boca, o mais sossegada e desapaixonadamente que se pode, ver se entendo os assinalados campeões, [...].»

Começa por situar a polémica entre «homens novos», não admitindo «cá tiaras que resguardem as frontes», uma directa contra Castilho, cuja intervenção, extemporânea, na luta «falseia a sorte do combate»: «Os próceres literários, de cujos ombros pendem já as insígnias da vitória, esses só devem descer à estacada para coroar o vencedor e dar a mão ao vencido.»

Castilho, claro, actuando na lógica da escola dita do elogio mútuo, não quis esperar por outros quaisquer veredictos e inverteu a situação. Para Ramalho, quem assim age «sujeita-se a que lhe desenastrem a coroa, a que lhe rasguem a toga, a que o dispam, o cuspam e o obriguem a reaver o seu lugar por entre os apupos da plebe, a qual [...] assim lhe bradará indignada de cada ponto do anfiteatro: – Fora o compadre! fora o agiota! fora o truão!»

Ramalho não aceita que se exerça crítica literária fora de três parâmetros, ou por «três diversos modos»: «Pela impressão dominante da leitura; pelo exame minucioso de cada uma das partes e dos mínimos acessórios de que consta a obra; pelo confronto do livro com todos os demais de natureza idêntica.»

A primeira forma de crítica era a mais usual nos noticiários da Imprensa oitocentista e ainda hoje conserva suas galas: diz-se bem ou mal da obra conforme nos causa boa ou má impressão (ou o seu autor por ela). É superlativa, adjectivante. A segunda forma «consiste em alumiar as belezas desapercebidas do vulgo, e apontar as discrepâncias em que delinquiu o autor». É evidente que, na prática, e em terra de sentimentos literários exacerbados, «neste lance a crítica, por um sentimento de reacção muito vulgar em certas organizações, desvela-se ordinariamente mais em agravar a penúria do que em assoprar a opulência». Na terceira forma de crítica, o livro em análise é acareado «cautelosamente com os seus predecessores e os seus pares, para averiguar nesse cotejo o lugar que lhe compete na literatura do país em que foi escrito».

Esta tipologia crítica, já então muito avançada, recusa a mesma bitola para todos os livros; não há grelha de leitura definitivamente dada, como não há molde comum a todos os vestidos.

Explicitadas as variantes críticas, Ramalho passa a analisar o Poema da Mocidade segundo «a última das fórmulas que estabeleci», confessando que, desde as primeiras estrofes do primeiro canto, «me senti cativo da mais viva simpatia a este livro»: «Isto é alegre, desartificioso, sincero e elegante.»

Ao nível da poesia lírica que se faz lá fora, Chagas «é a verdadeira expressão da arte moderna» no seu género, pela inspiração que o leva a «ser familiar sem descair no corriqueiro, de estar sem cerimónia sem se tornar grosseiro, de ser original sem se fazer afectado nem esquisito, de ser solene sem chorar, e engraçado sem dar risadas». Mas, se a inspiração vinga, a reflexão falha. Demonstra-se, na sequência, como esse livro foi «escrito intercadentemente e a trancos», circunstância que «explica a disparidade no mérito parcial de alguns trechos». Releva «mais de um erro, mais de uma discrepância na correcção do metro e da palavra»; todavia, sabe que livro sem erros pode ser péssimo e este, «inaugurando, bem ou mal, entre nós o poema-folhetim, inspirado no seio duma sociedade que todos conhecemos, e escrito na linguagem que todos falam, há-de ter por força um lugar distinto na literatura, [...]». No prenunciar do que será o programa de Cesário Verde (mas sovará este), vai, pois, a aprovação do crítico, que de imediato passa à carta-posfácio de Castilho.

O tom sério muda-se em jocoso: «Pede o Sr. Castilho que o não acordem, se é um sonho isto. Respeitemos a sonolência do Homero.»

Concorda que a afectação e a enfatuação, já denunciadas por Castilho, «são o achaque das nossas letras», cujo mal proviria «dum defeito orgânico; origina-o a deplorável penúria de imaginação e a lassidão crónica das faculdades observativas e investigadoras, defeitos que constituem o aleijão característico, mais ou menos saliente em quanta literatura se tem feito entre nós». Ai dos escritores, assevera Ramalho, que «as grandes comoções políticas» da sua época «ou as tempestades da existência pessoal» não tocaram! Mas, também, por que razão havemos de, fora de tais condicionalismos, deixar que a vontade vergue? «Será uma feição ingénita da nossa natural indolência, ou simplesmente o resultado do caprichoso desfavor da sorte que nunca nos dotou com elementos fertilizadores, [..]?»

Justifica, logo, essa falta de imaginação no teatro nacional e no romance, onde exceptua Camilo, embora «o segredo da pasmosa fecundidade» deste esteja não «na facilidade com que inventa, mas no admirável talento com que observa». Ou seja: «O que determina a avidez com que todas as obras deste admirável romancista são lidas e relidas não é a trama geral da acção, mas sim, sobre o prestígio da mais deliciosa linguagem, a perfeitíssimo corte dos caracteres e a inexcedível pintura dos costumes.»

Ramalho, como Castilho, não pretende alienar, na discussão, o valor que representava Camilo. Na correspondência deste para o patriarca lisboeta, Ramalho – que reiterava posições de admiração já expandidas n’O Jornal do Porto – não sairá beneficiado.

Posto esse acordo com Castilho, acerca dos males que afectam a nossa literatura, inquire da «receita para curativo deste mal» que aquele dá na carta ao editor Pereira. E é com espanto que nota: «A tradução dos poetas latinos é a triaga em que S. Ex.ª encontra mais virtudes medicinais.»

Era a prova de que o ilustríssimo e «reverendíssimo pontífice da literatura» já cavara fundo o abismo que o separava dos novos, indiferente que se mostrava «ao movimento das sociedades».

O pedido de nomeação de Chagas para a cadeira de Literatura Contemporânea é delinquir «perante o tribunal da equidade, da razão e da honra literária». Não podia ser mais justo ao ver denegada, ou desviada, a nobre tarefa da crítica:

«[...] converter um artigo de crítica em carta de empenho para um ministro, obrigar um poeta a figurar como um inválido amparado nos braços do seu editor e do seu crítico, e passeá-lo por esse mundo ao som dum chorado aranzel e duma lamúria cantarolando como lábia de pedintões de ofício, é ofender, conspurcando-a, a dignidade da nobre profissão das letras e da nobre profissão das armas, dupla dignidade que todos temos obrigação de respeitar na pessoa sã, escorreita e limpa do Sr. Pinheiro Chagas.»

A justeza, contudo, saía algo abalada pela imagem dos cegos papelistas e cegos de feira, cegos e poetas como Castilho. Assim se repetia uma infelicidade que já acometera Antero. A insinuação desequilibrava a elegância.

Um último, mais longo e importante ponto na abordagem da carta serve para refutar «as ideias que o Sr. Castilho tem acerca do modo por que se deve exercer a crítica», que, afinal, não passa «de impressão», a primeira modalidade já exarada por Ramalho.

Regressando ao passo em que mais abertamente arredava, porque citando-os, os três outros pretendentes à cadeira do Curso Superior de Letras, e convergindo no elogio a Vieira de Castro, analisa de seguida a carta de Antero e o opúsculo de Teófilo, Teocracias Literárias.

O autor conta como, abrindo «gulosa e sofregamente esta carta do ilustre académico», correu «logo ao fim, e a primeira coisa que li foi a última: a assinatura do autor e as linhas que a precedem». A guerra estava anunciada com a seguinte frase: «Causou-me profunda mágoa ver essas frases desabridamente insultuosas e provocadoras, escritas, assinadas, e directamente dirigidos por um moço de vinte e cinco anos a um varão respeitável pelos seus cabelos brancos, respeitável pela enfermidade horrível que o privou da vista [...].»

Discorda, com Antero, «das sentenças literárias lavradas pelo crítico do D. Jaime», como avisei acima, «e do Poema da Mocidade: prezo como os que mais prezam a liberdade de opinião e o denodo da verdade, mas repulso com tédio esse valor quando o vejo desenquadrado das questões de arte para se empregar sacrilegamente na baixeza plebeia do insulto pessoal descaradamente arremessado à face veneranda do decano dos escritores portugueses.»

Se dúvidas houvesse quanto a espadeiradas, chegava a confirmação: «Se o Sr. Quental já de antemão sabia, como afirma abrindo aí margem a novo insulto, que o Sr. Castilho é velho e cego, levará a bem dizer-se-lhe que maculou o Sr. Quental os seus vinte e cinco anos com a mais torpe das nódoas que um mancebo pode lançar no seu carácter: a covardia.»

Entrando nas obras representativas de uma suposta escola de Coimbra aventada por Antero, Ramalho, além de nada vislumbrar, ainda se diverte com as Odes Modernas, não sem antes recuar «espavorido da monstruosidade do seu talento». O problema reside na poesia filosófica, «mau género»: «O Sr. Antero de Quental [...] é mau poeta e é mau filosofo. É mau filósofo porque derriba em vez de edificar. É mau poeta porque discorre em vez de comover.»

Nenhuma contribuição deu, acrescenta, à religião, à política e à sociedade, como julga poder provar com algumas estrofes. Choca-o um revolucionarismo de terror, a «fria materialidade» e a «crua indiferença religiosa deste moço». Contesta, depois, a imodéstia e jactância de jovens que, pensam, ferem a vaidade dos mais velhos. Mais diz que dignidade e independência apregoadas por uma escola como a de Coimbra «são virtudes que se devem tomar à conta dum propósito da parte da mocidade académica, mas que não podemos já respeitar nem aplaudir como consumado merecimento».

Ainda tem espaço para desancar, inesperadamente, no segundo texto de Antero e que, a meio do seu escrito, lhe chega às mãos. Sobre A Dignidade das Letras e as Literaturas Oficiais resume o que já acima adiantei: que o poeta se desdiz «vergonhosamente» de quanto escrevera no primeiro. Dá como exemplo o elogio do drama Camões; e a estocada: «Como é que se muda assim de linguagem fazendo hoje o mais levantado, o mais descabido, e o mais torpe dos elogios à mesma obra que ontem se tinha por algarvia, estonteamento, banalidade e ninharia?»

E vai de analisar o dito drama, recriado do francês por Castilho, para concluir que tal volte-face só se compreende assim: «O Sr. Antero de Quental teve medo.» Medo, quer dizer, de infância estudiosa sob a férula de mestre Castilho e réplicas em cascata dos apaniguados deste. Imagina Antero a levar as primeiras palmatoadas de Castilho no colégio; e com cinismo: «Foram essas palmatoadas que lhe meteram medo depois de publicado o seu escrito.»

Avancemos para o terreiro da batalha, convictos de que, sobre as disputas mais ou menos literárias, há nos lusos contendores a emergência de paixões felizmente humanas. Fosse a questão puramente literária e talvez os seus efeitos se perdessem em mais umas tricas sem interesse. Desta, os campos ficavam logo bem demarcados e as consequências não se fariam esperar. Para já, e incidentalmente, declarava-se um duelo que tinha a virtude de veicular aquelas paixões e emoções para um outro tipo de diálogo, a saber, o que se processava entre jovens que, aliás, e a breve trecho, se tornariam amigos. Por arrastamento, a importância literária dos que, em Lisboa, dominaram nos últimos vinte anos, sairia minorada e cedo vencida pelos novos bárbaros. Acompanhemos, então, o rápido epílogo desta história.

Antero de Quental chega ao Porto a 25 de Janeiro, «com o propósito de deslombar o Ramalho», segundo carta de Camilo a Castilho. Traz com ele «espada que, por uns magros patacos, adquirira num adelo da velha Coimbra» (F. A. Oliveira Martins, Oliveira Martins e os Seus Contemporâneos, 1960: 33). Encontra Camilo: «Pediu-me que aceitasse a sua procuração para tratar diplomaticamente o prefácio do pugilato.»

Este, com também um folheto, Verdades Irritadas e Irritantes, prestes a sair, compromete-se a «fazer que o Ramalho lhe desse alguma espécie de satisfação; mas a concessão que o Ramalho lhe fazia era curta para o que ele queria, nada menos que a retirada das palavras ofensivas.»

Pelos botequins, salões e outros lugares de culto literário fazem-se apostas. Perguntado Antero, em casa de D. Ana Plácido e Camilo, «sobre o seu saber técnico da esgrima, respondeu risonho que a exercitara algumas vezes num quintal em Coimbra com os companheiros, floreteando os talos ressequidos da couve galega» (Ricardo Jorge, p. 18).

Elegem-se dois padrinhos de cada lado, que confirmam o desentendimento; os jornais noticiam a iminência do duelo; a polícia visita um padrinho; guarda-barreiras ficam alerta, etc. «Que can-can!», comentará Antero em carta a amigo, e já ao rubro com as «insolências bastante indignas a meu respeito» de um folheteiro a merecer «porrada». «O que eu quero porém é terminar isto que, sobretudo no meio estado de desespero, me aborrece mortalmente», diz ainda Antero.

«Cruzam-se enfim os ferros na Arca d’Água, e aos primeiros passes de armas Ramalho, em vez de rachar o Antero de meio a meio com o montante, sai ferido, não pelo calcanhar aquileu, mas, salvo seja, na canela», continua Ricardo Jorge (p. 16-17), que retrata o ambiente de espanto nas tertúlias: «Os cenáculos portuenses não caíam em si de pasmo; parecia impossível que o Ramalho se tivesse deixado jarretar, qual o gigante Golias pela mão arteira do lírico David. Deu que cismar esta vitória.» Esse fora o resultado, mais tarde resumido pelo próprio Ramalho a Júlio de Sousa e Costa (p. 28-29): «[...] um par de espadeiradas entre mim e o Antero, num dia frigidíssimo de Fevereiro, tendo eu ficado ferido numa asa!...»

O encontro desse dia 7 «durou pouco mais de dez minutos». Apesar da sua perícia nos jogos do sabre e do florete, reconhecia: «Uma destas circunstâncias imprevistas que apanha em cheio o melhor atirador!... Na resposta que dei ao meu antagonista não cobri o flanco e daí o golpe que apanhei, aliás de pequena importância.» Ferido no braço direito (Diário de Notícias, 9-II), tira lição do combate: «Arrependi-me a breve trecho de ter terçado armas por quem não as merecia, e, assim, andei embrulhado à espanhola num caso aborrecido!...» Refere-se a Castilho, que, em carta de 20 de Janeiro a Camilo, informa: «Ramalho Ortigão remeteu-me um exemplar do seu opúsculo precedido dum oferecimento muito cortês. Ainda o não pude ler. Mas se é como me informam em termos urbanos, hei-de tomar conhecimento dele, e responder ao autor. Seria confundi-lo com os Teófilos e Anteros, [...].»

Dois dias depois, nova carta e transcrição de dedicatória: «Ao seu inigualável mestre o Ex.mo Sr. António Feliciano de Castilho em testemunho de lealdade literária oferece respeitosamente o autor.»

Castilho conclui, afinal (ou quem lhe diz que não merece leitura), que «as palavrinhas melífluas do oferecimento» escondiam «o rancor de um malcriado»! «Era o Ramalho a disfarçar o Ortigão.»

A 27, pergunta-se «qual dos dois é mais javardo: se o Ramalho, se o Antero». Em carta do dia seguinte, aquele «é apenas uma bexiga inchada de ar fétido».

Camilo, por seu turno, muito se diverte com a desgraça alheia. Em carta de 5 (mas deve ser 8) de Fevereiro noticia:

«Disse ontem a V. Ex.ª que o Ramalho ficara levemente ferido. Enganei-o porque me enganaram enquanto ao ferimento, que foi uma profunda cutilada no braço direito. O Antero mostrou que era professor na espada. O outro cedeu-lhe todas as condições vantajosas, pensando que o adversário era leigo. O velhaco aproveitou-as todas. Terminado o duelo, Antero despediu-se de mim e foi para Coimbra.»

Camilo fica com a ideia de que o herói lhe perdoava quanto mal dele escrevera em Vaidades Irritadas e Irritantes. Teófilo, aí, sobe aos arames:

«[...] foi terrível a minha decepção, quando o vi ir cumprimentar no Porto Camilo Castelo Branco, que então morava na Rua do Almada, e almoçar com ele e rir-se das tremendas injúrias que o cáustico romancista lhe vibrara no folheto das Vaidades Irritadas e Irritantes. Depois do duelo, que se efectuou uma madrugada em uns campos, na estrada da Arca de Água, Antero de Quental voltou a casa de Camilo a despedir-se. Foi quando conheci o desequilíbrio moral.»

Prossegue a interlocução com Castilho, não raro em tom desbragado, e em Agosto de 1868 Camilo volta a falar-lhe de Ramalho:

«Lá tem o meu Castilho muito perto da sua cadeira académica o R. Ortigão. A nomeação dele para 1.º oficial da A. R. das Ciências argue pobreza de homens hábeis em Lisboa. Bom é que o Porto forneça a sua irmã duma fazenda que lhe sobra. Ficaram no Porto ainda 2 dúzias que servem para lá. Dizem-me que foi o Tomás de Carvalho que anichou o Ramalho. Simpatias dos apelidos. É ramalhagem tudo.»

Assim terminava, com reservados estados de alma, sucesso que dividiria o século literário.

História da Cultura Portuguesa: século XIX (2)

Entre 14 de Janeiro e 5 de Agosto de 1843, O Panorama oferece O BOBO. / 1128, modelo de romance histórico assente na primeira tarde da nacionalidade, 24 de Junho de 1128, quando o príncipe D. Afonso Henriques bate o exército da mãe e do amante galego.

Em Março e Abril, ferido numa perna, Almeida Garrett convalesce em casa, e aproveita para escrever Frei Luís de Sousa. Teve primeira récita no teatro da Quinta do Pinheiro, a 4 de Julho, e duas edições em livro no ano seguinte. Ainda em 1843, saía o tomo I do seu Romanceiro.

A Revista Universal Lisbonense (1841-1859), entretanto, com seis capítulos iniciais das Viagens na Minha Terra, abre o apetite para um novo tom, anunciando, já, uma «popularidade extraordinária», como se dizia no prólogo da edição em livro (1846).

A 27 de Abril desse «espantoso ano de 1843», o jovem Lopes de Mendonça assinava, com 17 anos, prólogo a ingénuas Cenas da Vida Contemporânea, antes de se afirmar no ensaísmo político de coloração socialista, com o jornal O Século (1848), literário, com Ensaios de Crítica e Literatura (1849; refundição em 1855, como Memórias de Literatura Contemporânea), e no romance psicológico, com Memórias de Um Doido (1849), de cortante actualidade, pelo retrato que esboçava de geração em perda de inocência social – essa que, entre medos, agoiros e lágrimas de papel, melhor se sairia na vida pública. De momento, Lopes de Mendonça esgrimia seis contarelos contra os efeitos maléficos do liberalismo, que reduzira sectores importantes da nação, quais os frades e os soldados, à mendicância, enquanto donzela sem meios se prostituía ou viúva incapaz de pagar uma renda se suicidava. Sobretudo, panfletava contra a pena de morte, leitor do Hugo de Le Dernier Jour d’un Condamné (1829).

A década já lia, outrossim, o diário emblemático do Romantismo, A Revolução de Setembro (22 de Junho de 1840) – onde ao renomado Lopes de Mendonça sucederia um não menos famoso folhetinista, Júlio César Machado –, periódico radical nas origens, intrépido batalhador pela liberdade de Imprensa (e, por isso, regularmente suspenso nos anos 40, ou transmudado no que seria o clandestino mais célebre de Oitocentos, O Espectro, entre 16-XII-1846 e 3-VII-1847, durante 63 números), tanto defensor da lisboeta Escola do Elogio Mútuo veneradora de Castilho contra a juventude coimbrã, em 1865, como, em Maio de 1871, ousadíssimo ao inserir o programa das Conferências do Casino...

A trindade de publicações aqui referidas – O Panorama, Revista Universal Lisbonense, A Revolução de Setembro – indicia, enquanto repositórios do frémito quotidiano de uma nação em curso, o peso que a literatura e um jornalismo de intelectuais ganham nas preocupações de quem, por séculos de Inquisição, anseia por originais que refresquem a memória pátria. A geral Imprensa, simultaneamente, debate-se com nascentes problemas censórios (é a ditadura de Costa Cabral, muito dura entre 1842 e 1846), sobretudo nesse 1843, em que se perfila legislação limitadora e vários órgãos são querelados. O jornalismo, decisivo na formação do século e da atmosfera romântica, tornava-se notícia. Mediador por excelência, substituía o púlpito perseguido por liberais, transmitia as vozes da tribuna parlamentar, recenseava as peças em cena.

 

Vemos a conjunção, em 1843, de um interesse confirmado pelo folhetim, imaginativo e alfabetizador, com crescente aproximação das leitoras, a quem era primacialmente dedicado; também, o folhetim como intermediário da tradução, que, todavia, se encontrava noutros espaços, do palco à livraria, à biblioteca e ao teatro. O público, convocado por empresas jornalísticas que fixavam os autores mais em vista, e já com mais do que a quarta página dedicada à publicidade, embaratece o produto e conquista assinantes e leitores.

Absorvendo esse ar do tempo, sobrelevando a repressão à Imprensa nesse faustoso ano de 1843, Garrett torna-se pioneiro em, pelo menos, três domínios fulcrais: no teatro, na literatura oral e tradicional (base para a escola etnográfica, retomada em Adolfo Coelho, Teófilo Braga e numa plêiade de ilustres), na moderna novelística, segundo feição mais aérea, sentimental e cúmplice do leitor – feição, entretanto, detectável em O Estudante de Coimbra (1840-1841), de Guilherme Centazzi.

Já diferente será se atentarmos um pouco na lição, de profunda carga ideológica, imanente à ficção d’O Bobo e, sobremaneira, ao leve peso do contado, que o título torna enganoso: Herculano procura instaurar uma escrita do pormenor, matérica, lenta, em que assentar pilares de uma modernidade que, infelizmente, ainda cala ou ignora os avós literários.

Temos, por outro lado, o exemplo de Lopes de Mendonça: a sua estreia precoce ou os descaminhos de um Maurício que protagoniza Memórias de Um Doido (1849) biografam a loucura da juventude conquistadora emergente, todos grandes poetas, a acreditarmos no crítico, geração que, após dois séculos de esterilidade, vinha fecundar o chão do lirismo pátrio. Esta agitação espiritual era vista como prova de, a breve trecho, verdadeira «regeneração» do país...

O que a história literária vem deduzindo desta leva de ultra-românticos – os tais que melhor gozaram os anos do constitucionalismo – é, na realidade, a imagem de Maurícios que (se) representaram. Habituados ao melodrama, ruidosos no dramalhão, deram-se em esqueleto (porque será a destes, afinal, uma poesia tão cemiterial?), guardando corpo e alma para boémias e pecadilhos que lançam outra luz sobre o que a crítica se recusa a ver: a ficcionalização do ser e estar, pela multiplicação de hipóteses e a repetição de experiências (daí o sentimento de naufragarmos em pantanosos lugares-comuns), à medida da crença na civilização e no progresso.

Garrett, senhor de facilidades rítmicas, é grandemente responsável por um epigonismo que atravanca os jornais da época. Mas, quando a toada frívola perceptível no referente ou na estrofe de redondilha maior se passa a eloquência, próxima do fôlego de um Victor Hugo humanitarista (epígrafe de Mendonça, em 1843) ou das graves e solitárias sensações à Lamartine (poeta revolucionário, em Mendonça; de paixões adejantes, propriamente ‘românticas’, num juvenil e despreocupado D. Pedro da Silva do camiliano Mistérios de Lisboa, 1854), aí, então, Herculano vem mais a calhar, antes de João de Lemos e Soares de Passos servirem de mote a milhentos versos perdidos nas folhas dos anos 50. A ligeireza com que se escolhia mestre – e como Castilho aceitava a devoção alheia – casa bem com as encenações repetidas que levaram os manuais a olhar toda aquela gente como uns infelizes. Essa representação, se ronda e até bebe em terrenos de Herculano, não o afecta. O mais que faz é chamar a atenção para a grandeza de um retiro: pelo tom, pela forma (que é sempre um artifício e, nestes poetas, uma exterioridade, simples revestimento), revela-se, de facto, um segmento de sociedade dúplice no seu ser e agir – enquanto todos sobem a ministros, deputados, professores –, relevando, em contraluz, o rosto criador de quem se caracterizou por recusas impensáveis nos contemporâneos.

Herculano tinha, como Garrett, um projecto para Portugal. Castilho, na impertinente cegueira, tanto visava a felicidade pela agricultura (título de 1849) como pelo abc e tratados de metrificação. Herculano perseguia a memória do que éramos com que ensinar o presente. Quanto à lavoura da sua última década, aí está o puro azeite, com prémios internacionais.

Quase naturalmente leitor, no exílio inglês de 1831, do historicismo de Walter Scott e de certa literatura negra, ‘gótica’ ou de terror com que os britânicos usavam tremer, em Herculano parecem descolar momentos de tensão comuns a obras menos estudadas (ou, entre nós, só traduzidos décadas mais tarde), caso da hugoliana Marion Delorme. Refiro-me ao cap. XIV de O Bobo, “Amor e Vingança”, em que, a exemplo do prisioneiro Didier recusando a liberdade que se lhe oferecia através de Marion (que aquele, já conhecedor do seu passado, explicava pela entrega carnal ao inimigo), Egas afasta a hipótese de liberdade que por Dulce (entretanto, «mulher do estrangeiro» Garcia Bermudes) lhe pode ser ofertada.

Esta atmosfera europeia essencialmente francesa não existia, ainda, em 1825 ou 1836. Outros acontecimentos (um célebre baile nas Laranjeiras, reunindo o jet set nacional; as ligações Norte-Sul, com a ponte pênsil no Porto) dão lustre a 1843. E quando o fim-de-século olhar para trás, e reflectir sobre a magreza social, fixa-se nos anos de 1842-1843 como caução dos novos tempos. Em Vida Irónica (1892), Fialho de Almeida convoca dois bailes de aniversário na época. Alonga-se em Vida Errante (Livro Póstumo): “A sociedade de Lisboa em 1840” descreve, pela mesma via, «I – Festas Líricas e Musicais», com relevo para a representação do Frei Luís de Sousa pela alta sociedade do tempo.

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