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História da Cultura Portuguesa: século XIX (1)

A Guerra das Laranjas inaugura Oitocentos. No quadro da ofensiva de Napoleão contra a Inglaterra, França e Espanha assinam uma convenção (Janeiro de 1801) com exigências gravosas para Portugal: adesão ao bloqueio continental, abrindo os portos somente a espanhóis e franceses, que teriam direito a reparações de guerra; e, entre outras intimações, revisão da fronteira com Espanha. Sem capacidade de comando e de resposta, entre 20 de Maio e 6 de Junho, caíam praças-fortes alentejanas e celebrava-se o Tratado de Badajoz: Portugal perdia Olivença, ferida ainda aberta na alma de nacionalistas. Com implicações na América do Sul, e elevado montante pago a França, para evitar invasão, aquele seria confirmado por um mais severo Tratado de Madrid (29 de Setembro de 1801). Laranjas de Elvas entregues por dois soldados ao comandante Manuel de Godoy, que ele enviou à rainha Maria Luísa acompanhando mensagem, deram nome a guerra fácil e denunciavam o amargor de uma nação sem rumo.

O reinado de D. Maria I (1777-1816) estava, desde 1792, por morte do príncipe herdeiro D. José (1788) e loucura da soberana, nas mãos de um impreparado filho segundo, que vai coroar-se em 1818, no Rio de Janeiro. Casado com a feia, inteligente, irrequieta e infiel Carlota Joaquina, filha de Carlos IV de Espanha, o futuro D. João VI entrega-se aos favores carnais e larga a pátria nas mãos de ministros. Internamente, o pensamento é vigiado pelos espiões de Pina Manique, chefe da polícia, que morre no ano de um constante inimigo seu, Manuel Maria Barbosa du Bocage (1805).

Em finais de 1806, Portugal é intimado a aderir ao bloqueio continental à Inglaterra, e relembrado, em 17 de Julho de 1807, a fechar definitivamente os portos aos ingleses; deve, até 1 de Setembro, confiscar-lhes os bens e prender os aí residentes. Após vários conselhos de Estado inconclusivos, anuncia-se adesão a 25 de Setembro. Mas, desde Agosto, os estaleiros e o arsenal recuperam navios para o que será a primeira retirada de uma corte europeia para os seus domínios ultramarinos.

 Com os mercadores ingleses de sobreaviso, D. João assina acordo secreto, escrito em francês, com Jorge III de Inglaterra (22 de Outubro, ratificado por Portugal em 8 de Novembro). Indiferentes à consabida duplicidade joanina, as tropas napoleónicas passam a fronteira em 19 de Novembro. Mesmo ignorando o Tratado de Fontainebleau, de 27 de Outubro – que tripartia Portugal e já cobiçava o Ultramar −, isolado de uma Espanha adversa que vai acrescentar 27 mil homens e 62 peças de artilharia aos 28 mil franceses, esperar pelo inimigo, ainda que maltrapilho, podia ser humilhante. Vencedor ou vencido, perda maior seria se a Inglaterra interpretasse mal aquela «adesão» e conquistasse possessões na Índia, no Brasil, no resto do Império. O último conselho de Estado, de 24 de Novembro, sobressalta-se, à notícia da chegada de Junot a Abrantes, localidade da qual a mulher, Laura Junot, tirará o título de duquesa de Abrantes. Três dias bastam para arranjos finais da administração régia, ora nomeando sete governos militares do reino, ora embarcando a Família Real e milhares de burocratas, mercadores, açafatas, lacaios, soldados, entre caixotes e baús escondendo o Tesouro, arquivos e outros bens. Comandada por ingleses, a armada sai a 29, ainda avistada pelas primeiras tropas francesas que desaguam em Lisboa…

O intendente-geral da polícia é, agora, Pierre Lagarde, cujo apelido servirá a título de jornal antinapoleónico – O Lagarde Português, ou Gazeta para Depois de Jantar (1808) – e a quadras de um poeta, folhetista satírico e jornalista temível: José Daniel Rodrigues da Costa (1757-1832). Os seus títulos, reeditados, são curiosos – além de críticos, morais e divertidos.

Opúsculos e folhetos, anónimos ou assinados com iniciais, fuzilam os invasores; mas, se não é algum cabeçalho forçado à subserviência ou a oficial Gazeta de Lisboa – com larga vida desde 10 de Agosto de 1715, até ser, hoje, Diário da República, em edição electrónica –, a quase totalidade das folhas corrói Napoleão e o apaniguado Godoy, acusado de traidor e vendido.

A pensar na degradada economia nacional está um vulto eminente formado em Leis, José Acúrsio das Neves (1766-1834), autor da fundamental História Geral da Invasão dos Franceses em Portugal e da Restauração deste Reino (5 tomos, 1810-1811). Literariamente, interessa a dúzia de escritos patrióticos, em que, ora interpelando «gazeteiro», ou seu mandante e usurpador francês, ora a alma da nação, anima esta à resistência solidária com Espanha e elogia a Inglaterra na figura de Jorge III, muito cantado na lírica nacional.

O Trono e o Altar têm um estrénuo defensor – e mais nesses dias negros de submissão aos três delegados de Napoleão, entre 29 de Novembro de 1807 e 17 de Abril de 1811: Junot, Soult, Massena – em José Agostinho de Macedo (1761-1831). Frade agostinho (1788) expulso da Ordem em 1792, por mau comportamento e vícios privados, é, desde 1802, pregador régio. Membro da Nova Arcádia e da Arcádia de Roma, terá alguns inimigos e invejas de estimação: os pedreiros-livres, em que inclui afrancesados, discípulos de Voltaire, Rousseau e demais iluministas, que ele ainda estudou, a par do elogio de Newton, título de poema épico (1813); Os Lusíadas, que rebaixa, para altear obra própria, O Oriente (1814), em 12 cantos, depois de Camões ser citado no limiar do ‘poema narrativo’ Gama (1811); Bocage e um amigo poeta, Nuno Álvares Pato Moniz (1781-1826); Almeida Garrett e liberais; Os Burros (título de 1827), isto é, a gente das letras. Inconstante e violento, polemista irredutível, bom argumentador e leve na prosa, o panfletário Macedo é excessivo, exibicionista, avesso à bondade, sem misericórdia. Fixou, porém, títulos de encher o olho: Motim Literário em forma de solilóquios (4 vols., 1811), que inspiraria Motim Literário, de David Mourão-Ferreira (1962), ou o periódico A Besta Esfolada (1828-1829, 1831).

Ainda sob ameaça francesa, algo mais desastroso está para acontecer no Rio de Janeiro, em 19 de Fevereiro de 1810, com o Tratado de Amizade e Aliança entre Sua Majestade Britânica e Sua Alteza Real o Príncipe Regente de Portugal, que vai vigorar até 1835. A abertura dos portos brasileiros à Inglaterra significará perda da capacidade reexportadora da metrópole e vai enfraquecer a economia de um país abandonado pela corte, e ora invadido, ora sob protectorado inglês. Nesse ano, entram 810 navios portugueses no Rio de Janeiro; em 1829, somente 57. O défice com o estrangeiro, em 1818 e 1819, atinge a avultada soma de 22,5 milhões de cruzados. A decadência industrial, também proveniente do atraso tecnológico, faz cair as exportações. Entre 1796 e 1820, há uma quebra de 40% nos tecidos de algodão; de 70% nos tecidos de lã; de 100% no ferro; de 15% nos artigos de luxo ou de artesanato.

Afastados os franceses, recresce a lírica laudatória dedicada ao régio casal. Ainda em 1811, Joaquim José Pedro Lopes (1778?-1840) propõe insossa “Ode ao faustosíssimo dia natalício de Sua Alteza Real o Príncipe Regente Nosso Senhor”, 18 sextilhas depois em volume epónimo reunindo 17 composições, em português e latim, desde o nascimento do Príncipe (1767) até 1817. Outra miscelânea, sem data, junta sete composições desde 1791 até ao sossego pós-invasões; o último de dois sonetos fecha: «Volve, oh PRÍNCIPE amado, à Pátria Terra!» Este apelo vence o Atlântico. Dentre as mais conseguidas reuniões de espíritos – Cândido Manuel da Costa, Filinto Elísio, António Dinis da Cruz e Silva, José Anastácio da Cunha, Silva Alvarenga ­–, citemos Colleção de Poesias Ineditas dos Melhores Auctores Portuguesez (2 vols., 1809-1811). Estas compilações, fundindo-se no mesmo espaço tipográfico e mental, promovem um entendimento patriótico das partes, que, todavia, ainda se dilaceram, ideologicamente.

O Jornal Poético (1812) retoma essa atmosfera, com ode em 26 oitavas, não assinada, “Ao Príncipe Regente Nosso Senhor”, renovada sedução para líricos menores. No ano seguinte, Joaquim José Pedro Lopes responde com “Ode aos faustíssimos Anos de S. A. R. a Princesa Carlota Joaquina N. S.”. A alternância entre o aniversário joanino de 13 de Maio e o 25 de Abril natalício de Carlota Joaquina Nossa Senhora será uma constante. São em menor número as odes, louvor a que não faltaram José Agostinho de Macedo e, com soneto, Francisco José Bingre (1763-1856). Morre D. Maria (1816), coberta de elegias; casam Pedro, o primogénito, e Leopodina, ida de Viena de Áustria (1817); aclama-se D. João VI (1818). 

No primeiro trimestre de 1820, acentua-se quebra comercial no Reino, seguida de falências. A autoridade inglesa supervisiona o país. O marechal Beresford – que dera prova de força ao mandar enforcar o general Gomes Freire de Andrade e outros onze «mártires da Pátria» acusados de maçons (18 de Outubro de 1817) – reorganiza o exército, sob protestos crescentes da nação. Em 13 de Agosto, desloca-se ao Rio de Janeiro. A atmosfera pesada anima um grupo de burgueses do Porto ligados à Maçonaria a conspirar, desde jantar de 22 de Janeiro de 1818 (jantar que se repetia, em cada dia 22, na Foz do Douro), assim preparando a Revolução Liberal de 24 de Agosto de 1820. Pela primeira vez, haverá eleições em 10, 17 e 24 de Dezembro.

Espalha-se regozijo pela resposta favorável de D. João VI à convocação das Cortes Constituintes – o Congresso Nacional das Cortes estreia-se em 26 de Janeiro de 1821, dois dias após a «sessão particular» que juntou deputados na «sala das Cortes». O rei sai do Rio de Janeiro a 26 de Abril. Desembarca no Terreiro do Paço a 4 de Julho de 1821, enquadrado pelo poder legislativo, que redige a Constituição.

Os versejadores entram na liça, saudando esta volta do Brasil. Já, entretanto, molharam pena mais ágil Almeida Garrett (desde um soneto de 1814) e António Feliciano de Castilho (1816), que, nas suas primícias, fazem a síntese de dois processos literários em curso: filintismo e elmanismo.

Louvor e Ilustração da Língua Portuguesa

[...] porque a língua e a unidade dela

é mui certo apelido do reino,

do senhor e da irmandade dos vassalos.

Fernão de Oliveira [1536], 1975: 88.

 

Partindo das «qualidades que deve ter qualquer língua para ser perfeita» (Manuel Severim de Faria, Discursos Vários Políticos, 1624), encontramos gramáticos e poetas do século XVI que, em fase eufórica, saudaram a Língua; colocamos a tónica, porém, no quadro disfórico sob os Filipes, em que o idioma funciona como peça de resistência.

Recorrendo a nomes de Seiscentos, quase todos desconhecidos, com particular incidência em paratextos de obras maioritariamente de História, doutrinação e sermonário, andaremos à volta das cinco qualidades que Severim de Faria desenvolve, a saber: cópia de palavras – também para não enfadar o ouvinte; boa pronunciação; brevidade e gravidade; ortografia perfeita, pronunciarmos como escrevemos (e vice-versa; em cuja pronúncia só repugna o malfadado ão); finalmente, a aptidão da língua para todos os estilos, como se vê pelas diferentes matérias em que entra o Português, seja o estilo humilde, grave ou mediano.

 

  1. A força da nossa língua advém de uma universalidade que não é igual a um todo como soma dos lugares onde ela se fala (necessariamente constrangedor, em laivos normativos), mas de um todo condicionado pelas potencialidades locais, onde a língua, de choque em choque, se enriquece.

Os «caminhos do Português»[1] revolvem gentes e não só territórios; são, por vezes, insondáveis, do vocabulário vicentino ininteligível em Exortação da Guerra (1514) aos modos de composição em João Guimarães Rosa ou Mia Couto, reconhecida, ainda, a necessidade de guias aquilinianos ou das Terras de Riba-Coa. Nas comunidades no estrangeiro, será o Frantuguês (Francês e Português) o mais activo[2]. Mas o intercâmbio com o Oriente, se diluído, não deixou de promover outras veredas, caso do tâmul (ou tâmil) falado em Cochim, pois do indiano malabar já trata Duarte Nunes de Leão, e João de Barros alarga-se na importância de orientalismos[3].

Se o argumento principal – ilusório, em tantos casos – ainda releva da quantidade, ou projecção materna e veicular da língua, a base de argumentação nos séculos XVI-XVII, tomando embora este dado como reforço, incidia sobre factores de qualidade, interiores à língua, dirigidos. O idioma, como superestrutura, torna-se plurifuncional. Sabemos, porém, como existe sempre um desfasamento desta com as realidades mais comezinhas e prementes, aguardando, por largo tempo, a caminhada a par. João Franco Barreto, sob a Monarquia Dual, pressentia tese marxista: mudança de império, mudança de língua[4].

Passava-se, assim, da euforia linguística quinhentista, centrada nos quatro primeiros gramáticos (1536-1606) – Fernão de Oliveira, João de Barros, Pêro de Magalhães de Gândavo, Duarte Nunes de Leão, que Maria Leonor Carvalhão Buescu estudou, e resumimos – a uma quebra nacional, que também era de um sujeito já pós-tridentinamente abalado. A língua do leite torna-se, no novo quadro político (nem sempre na literatura de cada um), objecto de reflexão e, além de peça de resistência, complexo de identidade nacional. Os oitocentistas reactivam a ideia de que, face à ruína iminente da nacionalidade, «La langue est le dernier symbole de l’existence d’un peuple»[5].

Se, também nesta frente, o século XVI continua a atrair cultores, já o século XVII passa pelos estudiosos como gato por brasas. Os linguistas, outrossim, não investigam fundamentos ideológicos e reservas mentais. Ora, em tempo de Filipes – e século arauto do jornalismo, que bebe na língua a sua razão –, a relação de cada um não pode evitar o fundo da questão linguística. Não é só identidade, que pode não ser suficiente; é situar-se na pluralidade, que Paul Ricœur resumia, à luz de simpósio compostelano de 1998, ‘Identidad y cultura. El papel de la lengua’:

 

La identidad siempre está ligada a lo exterior, a lo extraño. La lengua funciona como un mecanismo interno entre sus hablantes, pero también como una manifestación hacia el exterior de una comunidad. El hecho fundamental no es la identidad, sino la pluralidad humana. Y el problema para cualquier grupo cultural es cómo situarse ante los otros, preguntarse: “cuál es mi lugar entre la pluralidad humana?”»[6]

 

Da análise de Barros por Buescu (1984a: LVII), e, em particular, do “Diálogo em lovvor da nóssa lingvágem» (1540)[7] –, ressaltam «seis motivos de louvor» calhando bem à língua pátria: «riqueza vocabular; conformidade com a língua latina e filiação nela; sonoridade e majestade; sonoridade agradável; carácter abstracto; possibilidade de enriquecimento do vocabulário por meio de adopções e adaptações (sobretudo de latinismos).»

Posta a leitura circunstanciada de Fernão de Oliveira (1536), de Barros, dos interlocutores português e castelhano (diálogo áspero[8], ao contrário da relação pai-filho, no anterior) em Gândavo e de Duarte Nunes de Leão (1576, 1606), e conhecido balanço de Santos (1975), convém descer aos clássicos mais próximos e estabelecer comparações: Dante, Vita Nuova (1292-1293) – cujo § 25 aclara que «Il volgare è promosso a lingua della poesia» (p. XXXVIII) – e De Vulgari Eloquentia (1304-1305); Nebrija, Arte de Gramática Castellana, 1492; Bembo, Prose della Volgar Lingua (1525); Juan de Valdés, Diálogo de la Lengua (1535?); Du Bellay, La Deffence... (1549). Sem esquecer quatrocentismos: o Condestável D. Pedro justificando uso do castelhano em sátira de entre 1449-1453[9]; o elogio de Valentim Fernandes – sensível aos modernos vocábulos «gentijs e doçes» – a Frei André, que superintendeu a revisão alcobacense da Vita Christi destinada ao prelo (1495)[10].

No momento seguinte, organiza-se conjunto de referências metalinguísticas – não só sobre linguagem ou estatísticas[11] –, em que se perceba o empenhamento reflexivo dos criadores no tocante ao idioma. O enquadramento faz-se a partir de Cuesta (1988), Serrão (1994), Bouza Álvarez (2000), títulos igualmente úteis para o apartado III, onde são citados. Para as questões da língua, L. C. Buescu, algum Ares Montes (1956), Picchio (1959), Teyssier (1990), Ana Isabel Buescu[12]. De preferência, disponibilizando recensões, como Teyssier[13].

Em atmosfera bilingue, Gil Vicente e Camões são os casos mais flagrantes, indo além, mesmo, dos dois idiomas, no uso próprio e na referência. Aptidão para a carnavalização do português está naquele; neste, e fora os lugares-comuns conhecidos d’Os Lusíadas, importa mostrar a caracterização frente ao Outro, oriental com sua «linguagem tão bárbara e enleada» (I, 62: 4) ou «língua escura» (I, 64: 2). Ao contrário, os porta-vozes desejados serão de «palavras sinceras, não dobradas», e «prática elegante» (II, 76: 2, 78: 1).

Seguem-se Sá de Miranda e António Ferreira, que o editor da poesia daquele, em 1784, irmanou no prólogo, enquanto valorosos defensores da competência do idioma.

Jorge Ferreira de Vasconcelos, na póstuma Comedia Avlegrafia (1619: fol. 67r-v), retoma diálogo entre português, Artur do Rego, e castelhano, Agrimonte. Aquele resume pecha antiga: «Somos taõ inclinados à lingoa Castelhana, que nos descontenta a nossa, sendo dina de mayor estima, & não ha antre nòs quem perdoa a hũa Trova Portuguesa, que muytas vezes he de vantagem das castelhanas, que se tem aforado com nosco, & tomado posse do nosso ouvido que nenhũas lhe soão melhor: em tanto, que fica em tacha anichilarmos sempre o nosso, por estimarmos o alheio.»[14]

É do elogioso prólogo, entretanto – sobre a «gravidade, graça Lacónica, e autorizada pronunciação [que] nada deve á Latina» – que bebe o Diccionario da Lingoa Portugueza (1793), cujas “Memorias e Louvores da Lingoa Portugueza, que se achão em diversos autores” (p. XXI-XLI) constituem a primeira antologia sobre a matéria.

Abrindo, sem razão, pelo Marquês de Santillana, e logo Barros ­(esquece Oliveira), acrescenta Jorge Ferreira e «O autor incerto do Dialogo das Lingoas» (a nossa língua distingue-se do castelhano na pronúncia e ortografia), Duarte de Resende (é a que melhor trata «graves e excellentes materias»), Francisco de Morais (é a mais copiosa), André de Resende, Ferreira, Camões, Gândavo, Miguel Leite Ferreira (todos nela podem cantar, tal a cópia e gravidade de estilo).

Segundo Barros, ecuménica, mas apostolizando pelas «Reaes Quinas de Christo», e cuspida ao latim, «Esta prerrogativa tem sobre todalas lingoagens presentes: magestade pera cousas graves, e hũa eficácia baroil, que representa grandes feitos». De música «grave e sentida», «pureza e sequidão pera cousas baixas» (ou «tão honesta e casta, que parece não consentir em si huma tal obra como a Celestina», logo se desculpando, mal, Gil Vicente), a nossa linguagem «não perde a força pera declarar, mover, deleitar, e exhortar a parte, a que se inclina». De Barros e nomes acima citados se serve o Petrónio de Gândavo para contrapor a Falêncio ser a nossa mais suave, enquanto a castelhana «se póde chamar barbara» – combate-se, assim, crítica do francês Nicolau de Grouchy[15] –, porque, tomando da arábica «a maior parte dos vocábulos, fallais de papo, com aspiração; e assi fica uma lingoagem imperfecta, e mais corrupta do que dizeis que a nossa he». Ora, quer Gândavo, quer Barros, entre outros, concedem alguma impureza ao português por força da entrada dos Mouros: é o que lembra Manuel Correia, no «Commento aos Lusíadas, cant. I est. 33».  

  1. O Duarte Nunes da Origem da Língua Portuguesa (1606) dá passagem ao século XVII. Reitera a sua expansão no mundo, pelo que «com razão se póde ter em muito, e chamar ditosa, pois por ella se anunciou, e manifestou a tantas gentes, e de tão remotas e estranhas províncias a Fé de Nosso Senhor Jesu Christo, e foi causa de se tirarem as erróneas e trevas, em que o mundo vivia»; e, com poemas à maneira de Barros, a semelhança entre o latim e o português, que beneficiou, sobre o galego, da existência de corte, para polir o verbo. Aqui, faz-se ligação excelente com “Discurso Segundo. Das partes que há-de haver na lingoagem para ser perfeita, e como a Portugueza as tem todas e algumas com eminência de outras lingoas”, incluso nos Discursos Vários Políticos, de Severim de Faria, notabilíssimo e precursor.

Hábil e subtilmente, constrói um esquema / ambiente fechado – o esquema da língua portuguesa –, cujos pressupostos (convicções pessoais e colectivas) visam a construção de premissas pseudocientíficas, que, claramente, informam a conclusão final. Se, antes das provas, a nossa língua se iguala às melhores da Europa, mais tarde, é já uma das melhores do mundo. Não negamos que a Europa fosse, então, o mundo; observamos só o trânsito Europa / Mundo, como do nada (ou a língua tendo-se a si própria, em círculo) à explosão desse centro, cuja gravidade o obriga a flutuar.

Reafirma-se uma perfeição convencional. Não é por acaso que, no século XX, autores como Antero de Figueiredo, António Correia de Oliveira, Afonso Lopes Vieira, recuperam a mesma diligência: pois que o Império é um facto, a língua há-de ser – é – (a mais) completa e perfeita. O que vem desembocar no raciocínio seiscentista: esta língua é a mais completa e perfeita, e só assim está de acordo com a grandeza do Império. Atenuando a grandeza de um Império quase alienado, o intelectual assimila aquele à língua e, como João Pinto Ribeiro, afirma que é forte «disparate» pensar que se podiam «confundir as línguas»; nós interpretamo-lo: confundir as pátrias. A identidade linguística sempre existe para alguma coisa. Voltemos a Severim de Faria.

Como muitos outros – João Franco Barreto, Álvaro Ferreira de Vera, Bernardo de Brito, Fr. Bernardino da Silva, António de Sousa de Macedo[16], etc. –, também este dá crédito à lenda de Túbal, primeiro povoador de Portugal e Espanha[17], o qual falava hebraico, língua que viria a corromper-se. Esta notícia da corrupção das línguas perspectiva-se em dois campos: por um lado, refere-se a sucessão que, da língua primeira, o hebraico (utilizado por Adão)[18], aconteceu, pelo castigo pós-diluviano que Deus lançou sobre os homens construtores da Torre de Babel: uma das setenta e duas era o grego, que gerou o latim e, depois, o português – para os de Seiscentos, a nossa língua tem «a origem da Grega» (Rodrigues Lobo); por outro lado, tem-se consciência da diferente corrupção do romance conforme as regiões portuguesas (Faria e Sousa), e, diacronicamente, fazendo da língua um corpo vivo, conclui-se da renovação por força do uso e necessidade, não caindo na ilusão da imutabilidade da língua (Barreto, Severim, Brito, Faria e Sousa[19]). Vasco Mousinho de Quevedo vislumbra-a como eterna fénix renascida...

Mas não só Túbal. Ferreira de Vera refere a vinda de Hércules a Espanha[20], que, por duas vezes, governaria. Refere a vinda de Ulisses. De Baco. Dos Romanos. Já, Faria e Sousa não esquece os francesismos e castelhanismos que, por vinda do Conde D. Henrique e esposa – mais o vasto séquito –, precederam os alvores da nacionalidade e informaram o então latim corrupto. (Considera, ainda, que a corrupção deste foi menor nas «línguas vulgares» de Portugal e Castela do que em França e Itália.) Para Vilas-Boas e Sampaio, se há tantas vozes estranhas na nossa língua, tal é devido à passagem de inúmeros povos, entre os quais enumera fenícios, gregos, messénios, lacedemónios, forenses, ródios, gálios, cartagineses, etc., para, em 412 (segundo Paulo Osório), chegarem os vândalos, suevos, silingos, e, em 711, os árabes... Condena Faria e Sousa a «ceguedad» dos godos; ele e Manuel Correia o «furor» dos mouros, sendo ainda Barreto a equilibrar os pesos: «Não há lingoagem pura, e sem mistura de outras línguas.»

Intercalando este fio, atente-se na defesa que o penúltimo faz do uso dos latinismos n’Os Lusíadas (por excessivos? por um movimento de contra-latim, que está presente no Auto do Fidalgo Aprendiz?); para, demolidor, surgir Faria e Sousa, chamando «cobarde» ao que não ousa «introduzir algumas vozes estranhas na sua língua, e singularmente da Latina». Já Manuel de Galhegos diz ter-se valido «de alguns vocábulos, e termos estranhos: com toda a moderação, e com todo o rigor da retórica»; já Manuel do Sepulcro e Fr. Agostinho de Sousa investem contra os que mendigam vocábulos estrangeiros; desde há muito, também, optar pelo castelhano em Felicissima Victoria… (1578) levava a censurar Hieronymo [Jerónimo] Corte Real; eis que, logo, Vieira nos sobra.

Ele aí está: conhecedor das «subtilezas do idioma português» ou «um grande adorador da linguagem antiga» (Francisco José Freire), «o mais puro, o mais castigado dos nossos Escritores»[21] e «imperador da língua portuguesa» (F. Pessoa) elogiadíssimo, singularizado por D. Frei Alexandre Lobo[22] e Raymond Cantel[23], é Vieira quem melhor acorre ao nosso propósito. Quer no Sermão da Terceira Quarta Feira da Quaresma, quer nos prolegómenos à História do Futuro, «Vieira recomenda aos seus leitores latinistas passarem sem ler a tradução em português de uma longa citação de Lactâncio, [evitando] uma aproximação aborrecida entre as duas línguas: “[...] para que não fiquem com o sentimento de quão mal se pode trasladar à nossa língua”»[24].

De resto, toda a versão de texto latino em Português é, nele, uma aventura: se, por um lado, subsistem aí fins evidentes, pode também pensar-se que, estruturalmente, Vieira sentia essa fraca correspondência da «filha primogénita» do Latim. De todas as línguas novilatinas, alguma ressurgiria hierarquicamente superior: «consciente da riqueza da língua, o grande orador é um purista. Não admite os empréstimos das restantes línguas»[25], embora a prática o desmentisse, pela presença – que Cantel quantifica – de castelhanismos, italianismos, etc. Assim, interpolando temas como a origem (mítica) e formação da língua, vislumbrando-se já um sentimento de proclamada autonomia pela demarcação nos empréstimos, vejamos como a língua se individualiza e sobrepaira às restantes.

Partindo de que «[...] nem por primeira antiguidade, nem por incorrupção do idioma, pode nenhuma lingoa ser tida por melhor que a outra» (p. 120), Severim de Faria vai dar-nos as suas razões.

Logo a abrir, desenvolve a primeira qualidade, cópia de palavras. Nisto, diz, é a nossa língua «abundantíssima», contrariando Benito Caldera, que, no prólogo da tradução d’Os Lusíadas, a julgara «pobre». Em termos de cópia, a grega ocuparia o primeiro lugar, a hebraica o último.

Segue-se a boa pronunciação (como, também, do grego), «muy fácil, grave, y suave, como dizen los Authores, que abaixo iran alegados”, e são – fora portugueses quais João de Barros, Bernardo de Brito, etc. – os castelhanos João de Mariana, Cervantes, Lope de Vega, acrescentando nós D. Antonio de Capmany y de Montpalau, o qual, porém, lamenta «la exâgeracion é hinchazon, de onde vino a contraer un caracter asiatico el estilo nacional”[26] (refere-se, claro está, aos Cultos). Sem isso, «hubiera sido inimitable en las demás lenguas vivas».

Em terceiro lugar, a brevidade (ao lado da gravidade: ver Amador Arrais, Diálogos, 1600) –, e logo nos ocorre Bernardo de Brito, dando a língua como a mais própria para a História e para os conceitos, qualidade que António Delicado e Bernardes sentem nos adágios, de cuja cópia a língua é, ainda, senhora.

A quarta característica: ortografia perfeita (apesar do ditongo ão: cf. Bento Pereira e o citado José de Macedo[27]) serve, com Barreto, para ser considerada a primeira excelência da língua portuguesa, e só dela, em toda a Europa. Aquelas três eminentes qualidades («muy fácil, grave, y suave») ficam provadas pela facilidade com que todos os povos – à excepção dos castelhanos (e explica porquê) – aprendem a falar português. Facilidade que Ferreira de Vera crê não existir nos estrangeiros...

Finalmente, a aptidão da língua para todos os estilos, como se vê pelas diferentes matérias em que entra o português, quer no estilo humilde, grave ou mediano. Com vantagem, sem mais, e pelo menos, no tratamento do erótico e do heróico (Faria e Sousa).

Eis, em resumo, Severim de Faria. Lemos esta enumeração de perfeições numa cadência bem diferente em Rodrigues Lobo (1619). Porém, tratadistas posteriores – António de Sousa de Macedo, Álvaro Ferreira de Vera, João Franco Barreto, Faria e Sousa –, para lá de comuns referências, citam já Severim de Faria, parafraseando-o, ofuscados pela quantidade de exemplos que, numa segunda fase, explicitam as ditas perfeições. Aos predecessores referidos, acrescentemos Fernão Álvares do Oriente (1607).

A possibilidade de, aprofundando o estudo, depararmos com detractores da língua não é hipótese descabida: quando, nas comparações com as línguas cultas da época e ao lado do trabalho obscuro dos, sobretudo, missionários (organizando gramáticas e vocabulários dos povos em vias de civilização, «lançando assim os fundamentos da glotologia comparada»[28]), acontecem referências aos «filhos ingratos», a justificação imediata é a de estes escreverem em língua castelhana. Mas não só: aqui, as insinuações de Rodrigues Lobo podem valer como aviso e, em arquivo ou desaparecidos, alguns textos teriam feito época.

Manuel Correia, a propósito da tradução d’Os Lusíadas, contrapõe «a humildade da nossa língua portugueza» à «formosura da língua Latina». Não é depreciativo, porque tal humildade é requerida pelo termo de comparação. É, antes, sintomático do respeito que o século XVII votava ao latim. E como não, quando Faria e Sousa e Ferreira de Vera nos contam que um menino, em Évora, falava, com dois anos, «além da sua lingua Portuguesa a Latina perfeitamente»? Relembrando Vieira: e se o valor da língua portuguesa lhe adviesse da sua semelhança com a latina? O factor da dilatação da língua, já então importante, só virá a ser decisivo três séculos depois.

Com efeito: a provada cópia de verbos – em que se exprime o génio da língua, segundo Francisco Evaristo Leoni[29] – serve já a Severim de Faria para a aproximar do latim. Barreto vê na oração de língua portuguesa as oito partes que existem na latina (nome, pronome, verbo, particípio, preposição, advérbio, conjunção, interjeição) e, como quem, amiúde, procura e/ou reafirma uma génese, acrescenta o artigo, que o latim não conhece, mas conhece o grego. Mais argumenta que palavras como mano / mana nenhuma língua, nem mesmo o latim, as poderá dizer. Repete Leão (1606). António de Sousa Macedo dará uma lista maior, onde saudade toma o seu lugar (ou saudades, em Ferreira de Vera). Beberam em Nunes de Leão. Para uma melhor aproximação ao latim, existem propostas pontuais: Bento Pereira apela à substituição de ão por am. Duas razões, porém, sobrelevam as restantes.

A primeira é de origem mitológica – e poucos deixam de se escudar nela. Camões transforma-se no paradigma a retomar (para a pureza da língua e não-empréstimos será Fr. Luís de Sousa); melhor, a sua estrofe 33, canto I, é a pedra de toque: eis Vénus: o (re)verso – um halo poético – sobre a justificação dada à língua como construção lenta onde as armas (também) escreviam.

A segunda é ambígua: os textos que podem ser, simultaneamente, latinos e portugueses, tanto em prosa como em verso (e ainda aqui os autores se repetem), assentam num vocabulário nada espectacular, empobrecendo-se gradualmente, em curto-circuito. Também os castelhanos fabricaram tais exemplos (cf. Luís Afonso de Carvalho, Cisne de Apolo). O que, se prova algo, não é por si convincente. Para as modas da época, contudo, era suficiente.

O bilinguismo literário manteve-se, entre nós, até cerca de 1680[30], «mas, a partir de 1640 – diz R. Cantel, p. 83 –, empregar a língua espanhola era empregar a língua dos inimigos».

Afirma Manuel de Galhegos (1635) que os engenhos se esqueceram da língua portuguesa, «e quem agora se atreve a sahir ao mudo com hum livro de versos em Portuguez arriscase a parecer humilde». António de Sousa de Macedo (1631) escreve em castelhano, porque este é mais conhecido na Europa. Antes que o filho Pedro de Faria e Sousa (1674) e António Álvares da Cunha (1678) retomem a defesa de Manuel de Faria e Sousa, este fizera já uma auto-defesa em 1639, reiterada mais energicamente na pós-Independência, em 1646, ao proclamar: «Yo no soy Castellano.»

Era incómoda a situação, pois a um bilinguismo castelhanizante não correspondeu «um bilinguismo lusitanizante dos castelhanos»[31]. Para Jorge de Sena, durante esta época, o sentimento resistente «é mais ideológico-religioso do que patrioticamente político», pois «A união de coroas na pessoa de um príncipe estrangeiro não afectava necessariamente uma concepção de patriotismo, que era sobretudo geo-cultural (e não mitologicamente romântica)» (ob. cit., p. 14-15). Para concluir:

 

De modo que o Faria e Sousa que escolheu ser, em Espanha, e através do espanhol, um propagandista de Portugal e de Camões, nem é nem mais nem menos castelhanizante que muitos outros que passaram a fronteira, ou em Portugal estavam, e que continuaram, em pleno estado de guerra, que durou quase três décadas, o bilinguismo cultural e linguístico. E realmente só a partir dos fins do século XVII começa a transformar-se, e Portugal passa a viver, ou a subsistir, contra a Espanha. [...]. Mas naquele tempo do século XVII, cuja segunda metade Faria e Sousa não teve vida para ver, até os judeus portugueses, e que portugueses se declaram nos seus exílios europeus, escreviam as suas obras no que fora e ainda era a língua franca: o castelhano[32].

 

Pois sim. Mas esta abertura de espírito é moderna. E teria uma explicação conjuntural. A insurreição anticastelhana matiza-se, no campo das letras, singularmente. Não é por escrever em castelhano que um autor é condenado; é por, escrevendo em português (com ou sem empréstimos) e/ou castelhano[33], escrever escuramente, opção tida como derivada de Gôngora; digamos que, em alguns casos, uma reabilitação é sempre possível. Contra os Cultos não se levantaram poucos: Diogo Camacho, Fr. António da Encarnação, Vieira, Bernardes... Uma evidência, porém, subsiste em muito bons portugueses: basta que os interlocutores sejam estrangeiros para, logo, falarem como «cães». Sempre guturais! É visceral[34]: como acontece num poema de Jorge da Câmara.

Vamos terminando. Tratou-se da origem, formação e evolução da língua – e chamamos a atenção para momentos decisivos: a leva de invasores; a vinda do conde D. Henrique; enriquecimento e perfeição em tempo de D. Dinis (Fr. Francisco Brandão, Faria e Sousa); o reinado, áureo em todos os campos, de D. Manuel I. Contra os arcaísmos, a mendicância de termos, pela recolha daqueles que o uso e a necessidade impuseram ou foram utilizados pelos quinhentistas[35]. Sobre as excelências da língua portuguesa, sem rival em perfeição, própria para todos os géneros e estilos, que, manifestando-se a tantas e tão estranhas gentes, lhes anunciou a Fé Católica e a Civilização Ocidental, tornando-se um vínculo de comércio (linguístico e não só) e unidade, de conservação, enfim (Amaro de Reboredo).

Acessível ou não aos estrangeiros, por alguns reconhecida como excelsa[36], transladada em muitas obras, retoma, em 1640, o estatuto de língua de todos os Portugueses – ou quase: que o povo nunca a enjeitou.

 

Linguagem dos Media: 3 de Fevereiro

Breve história dos media. 

Visuais. Arte rupestre. Datações. Interpretações.Origens da escrita.

Resumo:

A história da Humanidade é documentada, em primeiro lugar, pelos media visuais e impressos. Nestes, a literatura ganha corpo já nos primórdios da escrita e na Antiguidade clássica greco-latina, com textos fundadores absorvidos pela Europa desde a Idade Média. Cumpre-nos, assim, pactuar numa definição de literatura e ver em que medida é berço ou inspiração de outros segmentos patrimoniais.

 

As pinturas rupestres enquadram-se nas datações da teoria Out of Africa, segundo a qual o Homo sapiens africano se dispersou pela Europa e Médio Oriente há 50 mil anos e criou sociedades de recolectores-caçadores com suas trocas comerciais, ritos religiosos e manifestações artísticas. Estas tanto são explicáveis por razões sociais ou demográficas, como pela «survenue d’une mutation génétique três avantageuse qui a favorisé le cerveau d’Homo sapiens»[1]. A arte parietal pode ter vindo até há oito mil anos[2], considerando-se de há 15 mil anos, no mínimo, Lascaux e Altamira (as datações variam, mais do que duplicando esta idade), e, quanto à galeria de ar livre do Côa, 25 mil anos. Descoberta recente[3] de uma pintura figurando cenas de caça, em gruta da ilha de Celebes, Indonésia, terá 44 mil anos. Podemos supor lapsos mais vastos? Estudo da Nature (ver El País de 3-XII-2014) mostrou o talvez primeiro desenho da Humanidade, em Trinil, Indonésia: ziguezagues de há 400 mil anos. São o primeiro medium – meio visual – na história da Humanidade.

É de mais fácil interpretação, e datação menos problemática, a escrita, em que assentam formas de comunicação e expressão.

 

Nasce há pouco mais de seis mil e quatrocentos anos no Irão (4 400 a. C., elamita linear), segundo estudos recentes[4], que vão além dos cinco mil anos na Baixa Mesopotâmia (pictográfica, c. 3 300) e no Egipto (hieroglífica, c. 3 100; variantes hierática e demótica, c. 650 a. C.). Entre 2 800 e 2 600 a. C., a escrita suméria torna-se cuneiforme, sobre argila[5]

Em 2 400 a. C., havia já listas bilingues acadianas-sumérias, sendo o acadiano (assírio-babilónico) a língua diplomática do Médio Oriente (c. 1 800 a. C.). No início deste segundo milénio, uma tábua de argila cataloga 68 obras sumérias.

Nos mil anos seguintes, florescem outras escritas, incluindo a ideográfica chinesa (c. 1 500 a. C.), interessando-nos os alfabetos fenício, consonântico (c. 900 a. C.), disseminado pelo Mediterrâneo, e grego (c. 800 a. C.), já com vogais.

No segundo milénio a. C., e, sobretudo, a partir do século XIII a. C., encontramos tabuinhas sumérias de teor literário, com novas línguas assentes no sistema cuneiforme. Texto acadiano do séc. XVII a. C. conta a criação do homem, o que levanta o problema das relações temáticas da Bíblia com essas literaturas orientais.

O Egipto inventa a ilustração no Livro dos Mortos (c. 1 500 a. C.) e vários exemplos de banda desenhada nas paredes dos templos.

Enquanto os sumérios usam cunhas ou pregos sobre argila, os egípcios servem-se do cálamo de junco tintado de negro ou vermelho sobre folha de papiro, «pa-per-aâ» (grego: papuros), donde vem a palavra papel – suporte, todavia, inventado pelos chineses. Interessante é a igual etimologia de ‘faraó’ e ‘papiro’: este significa «do rei», por ser monopólio daquele. A cor vermelha deu, em latim, ruber, donde vem a palavra ‘rubrica’. O suporte de escrita mais usado – durante 4 000 anos, até ao séc. XI – é, pois, o papiro, agora acompanhado pelo pergaminho – cuja mais nobre variante é o velino. Outros suportes são paredes, túmulos, madeiras, restos de calcário – é mais conhecida a Pedra de Rosetta (196 a. C.) –, que contêm a primeira literatura da Humanidade.

A tradição greco-latina, entretanto, fazia-se mater (daí, ‘matriz’) do Ocidente. No séc. V a. C., Protágoras de Abdera já listava as palavras difíceis em Homero, cuja Odisseia é, a vários títulos, a principal matriz literária do Ocidente. Gramáticas e comentários gramaticais, dicionários (os primeiros dicionários chineses são do séc. II a. C.), etimologias, glossários bilingues, há de tudo um pouco até ao séc. XIII. Índices pioneiros, cerca de 1200, ainda alimentam a desordem; em 1287, ordenam-se as palavras. Quando o séc. XVII assim ordenar os autores pelo primeiro nome, entrámos no domínio da bibliografia, e, em parte, na dicionarística literária, formulação só assumida no séc. XX.

Com a explosão da imprensa de Gutenberg – anos 40-50 do séc. XV –, os caracteres móveis não aniquilam as belas capitulares iluminadas dos manuscritos, conjugando impresso e visual. 

Lembremos a arte de calígrafos e alfabetos dois milénios antes de Cristo, qual lettering dos convites de casamento e moderno design; entremos nos scriptoria conventuais. O que a letra tem de cenografia saturada entranhou-se na íris do último milénio. Hoje, somos visão, mais dramaticamente, vistos e voyeurs. Salientaria, aqui, o signismo da poesia visual barroca, com desenvolvimentos no futurismo e, nos anos 60 do século passado, no experimentalismo de tipo vário. 

Paginemos um João Vieira com alfabetos pictóricos, de que, só para o séc. XX, darei a leytra pintada em Sonia Delaunay, Chocolat, 1914, Fernand Léger, Nature morte ABC, 1927,  Jasper Johns, Grey Alphabets, 1956, Jon Miró, Silence, 1968.  

João Vieira, antes de pintar versos dos nossos maiores poetas, em tela e azulejo, fez-se o principal curador da letra desde os anos 50: assim Alfabeto a Preto e Branco e a variante do Alfabeto a Cores (1981) adquirem um belo efeito de sólida massa em movimento, numa respiração colectiva dos elementos, comum ao seu processo de escrita, e individualizados segundo várias técnicas, seja nos vestidos de letras na passerelle (Lisboa, 1971; Porto, 2002), no M (1958; Sem Título, 1970), no A Grande (1970-1999) e A múltiplo em caixas altas e baixas (1981), seja no X Grande (1970) ou mero X (1990), nas letras de MAR (Dar o Mar ao Mar, c. 1970; Projecto M. A. R., 1970-2002), no L (Ele, 1971), no B (1981), no (1981), no M e N (1981), no O (1985), em Alfabeto Latino e Grego (2000).    

As gramáticas de línguas vulgares, a partir de 1492, reproduzem, com os meios gráficos do tempo, as letras estudadas. Servem-se, também, de exemplos literários, caso do primeiro, Fernão de Oliveira (1536), apoiando-se em Gil Vicente. Da letra ao exemplo, parece natural que um espírito do Renascimento em si deseje concentrar o saber da Humanidade. O mesmo Oliveira é também especialista na arte da guerra, pioneiro europeu na fabricação das naus, historiador. A visão planetária do pedagogo, gramático e cronista João de Barros mostra como História, Geografia (com o desenho de mapas) e Linguística são as novas disciplinas, enquanto a Astronomia vai substituindo a Astrologia. Os Lusíadas resumem, além de inúmeros processos artísticos, estas e outras ciências, prefigurando a Encyclopédie, ou la suite et liaison de tous les Arts et sciences (1587), de Jean II de Gourmont, que nos lembra, com suas linkagens, uma internet de rosto humano. Nos seus elos principais, a literatura divide-se em gramática, retórica, poesia, dialéctica, rítmica, seguindo-se caracterizações internas.


[1] Richard G. Klein, “L’art est-il né d’une mutation génétique?”. In: AA. VV., Homo Sapiens, Paris: Tallandier Éditions, 2005: 220.

[2] Paul Bahn, “Ne cherchez pas le berceau de l’art”, id., ibid., p. 248.

[3] Ver Público, 11-XII-2019, citando artigo da Nature no mesmo dia. Há datações aquém sobre “Os primeiros artistas” em National Geographic Portugal, Janeiro de 2015.

[4] Science et Avenir (Paris), 7-XII-2020.

[5] Exposição no Grand Palais (Paris, 1982) deixou o excelente catálogo Naissance de l’Écriture: Cunéiformes et Hiéroglyphes.

História da Cultura Portuguesa: plano e sumário

4-3. Formas de ser e estar no Antigo Regime.

 Um olhar sobre nós e sobre o Outro, em termos morais, sociopolíticos, linguísticos, religiosos. 

Exemplos em Gil Vicente, Sá de Miranda, João de Barros, Fernão Mendes Pinto. 
Século XVI: um século de ouro?
 

2-3. Épocas da Cultura Portuguesa 

«Existe uma cultura portuguesa?» (Silva; Jorge, 1993)
As épocas da cultura portuguesa, segundo A. J. Saraiva (2007). O critério Dentro-Fora.

Bibliografia:
Saraiva, A. J. 2007. A Cultura em Portugal. Teoria e História. Livro I. Introdução Geral à Cultura Portuguesa. Lisboa: Gradiva. 109-153.
Silva, Augusto Santos; Jorge, Vítor Oliveira, orgs. 1993. Existe Uma Cultura Portuguesa?. Porto: Afrontamento. [Recensão: Rodrigues, E. 2002. Revista da Faculdade de Letras (Lisboa), 5.ª série, 26. 41-45. Em www.culturaport.blogs.sapo.pt]

28-1. Entendimentos de 'cultura'  
Considerações sobre História da Cultura em Portugal, Cultura Portuguesa, História da Cultura Portuguesa, História da Cultura dos Portugueses.
Entendimento de ‘cultura’ antes e depois de E. B. Tylor (1871).
A ‘transmissão hereditária’ de T. S. Eliot (1948) contrariada pela ‘memória não hereditária’ de Lótman / Uspenskii (1971).
Oito definições operativas em Gustavo Bueno (1997).

Bibliografia:
Bueno, Gustavo, El Mito de la Cultura, Barcelona: Editorial Prensa Ibérica, 1997. [Bibliog. comentada nas p. 223-227]
Eliot, T. S. 1965 [1948, 1961. Notes Towards the Definition of Culture.]. Notas para a Definição de Cultura. Rio de Janeiro: Zahar Editôres. [Edição port.: 1996. Notas para Uma Definição de Cultura. Lisboa: Edições Século XXI]
Lótman, Iúri; Uspenskii, Borís A. [1971]. Sobre o Mecanismo Semiótico da Cultura. In: Iúri Lótman, Borís Uspenskii, V. Ivanóv. 1981. Lisboa: Livros Horizonte. 37-65.
Tylor, Edward B. 1883-1889 [1871]. Primitive Culture. New York: Henry Holt and Co., 2 vols.

 

 

26.1. Apresentação do programa, plano de aulas e bibliografia activa.

Elementos de avaliação: dois exercícios escritos presenciais.
Os estrangeiros podem redigir numa língua a combinar.
Se útil ao aluno, aceita-se um trabalho preparado em casa e apresentado, individual e oralmente, na sala de aula.
Datas dos testes: a combinar

www.culturaport.blogs.sapo.pt

Exige-se uma frequência mínima de 75 por cento de aulas.

Horário de atendimento: www.ernestorodrigues@campus.ul.pt; telemóvel / WhatSapp: 968047944: 5.ª feira, 19,30-20,30h.

Objectivos. Estudar a representação de acontecimentos, mitos e temas da História de Portugal no pensamento, na literatura e nas artes, num quadro de relações interculturais e construções identitárias, concorrendo para uma ‘personalidade cultural portuguesa’ definida desde a Idade Média. Comprometer os estudantes no processo de investigação e na leitura de obras de referência que acompanhem os antecedentes e instauração do Liberalismo em Portugal, há 200 anos.

Conteúdos programáticos

Definições de cultura: enquadramento.
Períodos e movimentos culturais portugueses.
Portugal segundo os portugueses e na relação com o Outro (séculos XVI-XVIII): sociedade, política, religião e língua.
O património intangível, documental e monumental como inscrição renacionalizadora no século XIX.
No debate entre Progresso e Decadência, emergência de Camões e da solução provincial.
Revisões republicanas (1890-).
Sínteses antropológicas, psicanalíticas e culturais sobre a ‘personalidade cultural portuguesa’.

Plano

1. Entendimento de ‘cultura’ antes e depois de E. B. Tylor (1871). A ‘transmissão hereditária’ de T. S. Eliot (1948) contrariada pela ‘memória não hereditária’ de Lótman / Uspenskii (1971). Oito definições operativas em Gustavo Bueno (1997). [Aula 1]
2. «Existe uma cultura portuguesa?» (Silva; Jorge, 1993) As épocas da cultura portuguesa, segundo A. J. Saraiva (2007). O critério Dentro-Fora. [2]
3. Formas de ser e estar no Antigo Regime.
3. 1. Um olhar sobre nós e sobre o Outro, em termos morais, sociopolíticos, linguísticos, religiosos. Exemplos em Gil Vicente, Sá de Miranda, João de Barros, Fernando Oliveira, Pero de Magalhães de Gândavo, Fernão Mendes Pinto. [3-4]
3. 2. No espelho castelhano, sob a Monarquia Dual.
3. 2. 1. O fervor da Língua, peça de resistência política, em Seiscentos. Idiossincrasias nacionais, segundo Duarte Nunes de Leão (1606). [5]
3. 2. 2. Tomé Pinheiro da Veiga, Fastigínia (1605). Portugueses, castelhanos, ingleses e italianos em diálogo. [6]
3. 3. O Padre António Vieira entre brancos, índios, escravos negros. [7]
4. Apreciações de visitantes estrangeiros e olhares nacionais sobre os reinados de D. João V e D. José I. [8]
5. O país liberal: democracia, guerra civil, exílios. Almeida Garrett, síntese do Português novo, matriz do património cultural intangível. [9-10]
5. 1. Pensar Portugal na balança da Europa (1830) até à solidariedade da geração ultra-romântica com a Primavera das nações (1848-1849). [11]
5. 2. Um paradigma cultural: Camões, em Portugal e na Europa, desde o século XVI. [12]
5. 3. Outro paradigma cultural: a linhagem de Viagens na Minha Terra (1843-1993). [13]
6. Viajantes portugueses na sua e em terra alheia, confrontados com olhares estrangeiros, de Victor Hugo à Madame Rattazzi. [14-15]
7. O mito do Progresso e o contramito da Decadência.
7. 1. A. Herculano versus António Pedro Lopes de Mendonça (1853). [16]
7. 2. Na Geração de 70: Antero de Quental. Oliveira Martins e Eça de Queirós: “A catástrofe”. [17-18]
7. 3. ‘Portugal contemporâneo’ n’As Farpas de Ramalho Ortigão (1871-1883; 1887-1890) e na Crónica Ocidental (1878-1880) de Guilherme de Azevedo. [19-20]
7. 4. O Ultimatum (1890) e um país contrastante: humilhação e bancarrota (1892). A virulência da Imprensa: Alves Correia, João Chagas, Brito Camacho. Decadentismo e neogarrettianismo. [21]
8. Olhares sobre a condição nacional.
8. 1. A literatura e a caricatura ao serviço da República. O Viriato (1904) de Teófilo Braga. Aquilino Ribeiro. Um brasileiro entre Lisboa e Porto: João do Rio ([1909] 1911) [22]
8. 2. Na República: Fernando Pessoa. Teixeira de Pascoaes e A. Sérgio. [23]
9. Balanço de E. Lourenço (1978), ou os três traumas da História nacional: trauma das origens, em que um filho se rebela contra a mãe (24-VI-1128); (2) trauma de «um povo naturalmente destinado à subalternidade» (última edição: 72010: 27), emergindo de 60 anos de domínio castelhano (1580-1640); e «o traumatismo-resumo de um século de existência nacional traumatizada» (p. 30) sob figura de Ultimatum inglês (11-I-1890).
9. 1. A leitura de E. Lourenço por Maria de Lourdes Belchior (1978, 1982), acrescida de síntese de Jorge Dias (1950) e outras. [24]
9. 2. Balanço de A. J. Saraiva, entre a polémica com Fernando Castelo Branco, “Universalismo, Particularismo ou Cosmopolitismo” (Litoral, 1, Junho; 3, Agosto-Setembro de 1944), e O Que É Cultura (1993).

Linguagem dos Media: plano e sumários

Modelos de comunicação  
Preocupações comunicacionais: quem comunica com quem? porquê comunicar? como se efctua a comunicação? sobre o quê?com que efeitos?
Quatro modelos de comunicação, conforme incidência maior no emissor ou no receptor:
modelo de transmissão: transferência de sentido; processamento cognitivo
ritual ou expressivo: desempenho, experiência comum
publicitário: espectáculo concorrencial, para captar a atenção do espectador
modelo de recepção: codificação preferencial, com descodificação diferencial; construção de sentido

 

Informar e comunicar.
Níveis ou redes de comunicação.
Dos media: objectivos, necessidades, usos de comunicação. Tecnologias.

Informação: a) conjunto de saberes; b) processo de transmissão desses saberes.
Comunicação: a) conjunto dos media transmissores de informação.
a. 1. communis = cum munus; a. 2. communicatio; a. 3. communicatio / excommunicatio; a. 4. séc. XVIII; a. 5. Kant, 1790; a. 6. séc. XIX; a. 7. Adriano Duarte Rodrigues, O Paradigma Comunicacional, Lisboa, F. C. Gulbenkian, 2011: 25; a. 8. pôr em comum; negociar sentidos.

A pirâmide comunicacional.
Oito atributos dos media.

 
Dos media: objectivos, necessidades, usos de comunicação. Tecnologias.

Informação: a) conjunto de saberes; b) processo de transmissão desses saberes.
Comunicação: a) conjunto dos media transmissores de informação.
a. 1. communis = cum munus; a. 2. communicatio; a. 3. communicatio / excommunicatio; a. 4. séc. XVIII; a. 5. Kant, 1790; a. 6. séc. XIX; a. 7. Adriano Duarte Rodrigues, O Paradigma Comunicacional, Lisboa, F. C. Gulbenkian, 2011: 25; a. 8. pôr em comum; negociar sentidos.

1.Apresentação do programa, plano de aulas e bibliografia.

Elementos de avaliação: dois exercícios escritos presenciais.
Os estrangeiros podem redigir numa língua a combinar.
Se útil ao aluno, aceita-se um trabalho preparado em casa e apresentado, individual e oralmente, na sala de aula.
Datas dos testes: em suspenso.
Exige-se uma frequência mínima de 75 por cento de aulas.
Horário de atendimento: www.ernestorodrigues@campus.ul.pt; telemóvel / WhatSapp: 968047944: 5.ª feira, 19,30-20,30h.

Bibliografia geral:
BELL, Allan. 1991. The Language of New Media.  ‎Hoboken, New Jersey: Wiley-Blackwell.
(The) Language of the Media.www.bbc.co.uk/worldservice/learningenglish/.../langmedia.pdf.
MANOVICH, Lev. 2001. The Language of New Media. Cambridge, Massachusetts, London: The MIT Press.
McLUHAN, Marshall. 1994 [1964]. Understanding Media: The Extensions of Man. Cambridge, Massachusetts, London: The MIT Press.
McQUAIL, Denis. 2003. Teoria da Comunicação de Massas. Lisboa: F. C. Gulbenkian.
RODRIGUES, Ernesto. 1998. Mágico Folhetim. Literatura e Jornalismo em Portugal. Lisboa: Editorial Notícias.

Recomendação: culturaport.blogs.sapo.pt.

O aluno será capaz de
a) reconhecer a especificidade de cada meio e compreender as vias para maximizar a mensagem;
b) analisar a complexidade de algumas questões mediáticas, caso da violência, censura, globalização, etc.;
c) escrever e expressar-se em moldes efectivamente comunicacionais;
d) articular massa de informação complexa de modo estruturado e sistemático.

2. Informar e comunicar.
Níveis ou redes de comunicação.
Dos media: objectivos, necessidades, usos de comunicação. Tecnologias.

Informação: a) conjunto de saberes; b) processo de transmissão desses saberes.
Comunicação: a) conjunto dos media transmissores de informação.
a. 1. communis = cum munus; a. 2. communicatio; a. 3. communicatio / excommunicatio; a. 4. séc. XVIII; a. 5. Kant, 1790; a. 6. séc. XIX; a. 7. Adriano Duarte Rodrigues, O Paradigma Comunicacional, Lisboa, F. C. Gulbenkian, 2011: 25; a. 8. pôr em comum; negociar sentidos.

A pirâmide comunicacional.

3. Quatro modelos de comunicação, conforme incidência maior no emissor ou no receptor:
modelo de transmissão: transferência de sentido processamento cognitivo
ritual ou expressivo: desempenho, experiência comum
publicitário: espectáculo concorrencial, captar a atenção do espectador
modelo de recepção: codificação preferencial, descodificação diferencial; construção de sentido

4. Tipologia dos meios: impressos; sonoros; visuais; digitais.
Breve história dos media.
Visuais. Arte rupestre. Datações. Interpretações.

5. Os media impressos.
O livro e suas linguagens.
Autógrafos e dedicatórias.
Bibl.: Ernesto Rodrigues, “Impressões de eternidade”; “Dedicatória: relação e discurso”. Ensaios de Cultura. Lisboa: Editora Theya, 2016. Ebook.

6. Imprensa periódica.
A linguagem na Relação Universal, na Gazeta e no Mercúrio Português.
Gazeta de Lisboa.
Uma pré-crónica, em O Anónimo (1752).
Outros exemplos até 1821.
Bibliografia: Ernesto Rodrigues, Mágico Folhetim. Literatura e Jornalismo em Portugal. Lisboa: Editorial Notícias, 1998; A Corte Luso-Brasileira no Jornalismo Português (1807-1821). Lisboa: Ed. do Autor, 2008.

7. O folhetim, memória do quotidiano no século XIX.
1. Origens e definição.
2. Influência da escola francesa.
2.1. Um país ‘adaptado’, traduzido do francês.
3. As imposições de um género in fieri. Aproximações aos traços folhetinescos relevantes.
4. Modalidades.
5. Gabrielomania – impacto na sociedade portuguesa.

8. Géneros de opinião.
Opinião pública e publicada.

A crónica.
Características.
Quatro tipos particulares: a primeira crónica, a última, metacrónica, sobre nada.
Exemplos de crónica jornalística no século XIX.
A Internet antecipada em 1868: “O jornalismo no ano 2000”.
Na actualidade.
Bibliografia: Ernesto Rodrigues, Crónica Jornalística. Século XIX. Lisboa: Círculo de Leitores, 2004.
Fernando Venâncio, Crónica Jornalística. Século XX. Lisboa: Círculo de Leitores, 2005.
Guilherme de Azevedo, Crónica Ocidental. Edição de Ernesto Rodrigues. Lisboa: Esfera do Caos, 2016.

Fait divers.

9. Definição de notícia.
Considerações sobre os vocábulos contidos em «facto actual de interesse geral».
Partes da notícia. O título.

10. Introdução à técnica jornalística.
A. Técnica.
B. Redacção.
Prontuário.
Livros de estilo.

Exercícios sobre análise e redacção de peças.

11. Recolha e selecção de informação.
Fontes: pessoais, documentais, de agência.
Da proximidade.

12. Entrevista.
Exemplos. [O caso Paris Review. Ver El País, 28-XI-2020.]

13. Reportagem.

14. Literatura e Jornalismo.

15. Actualizações sonoras. Viagem ao universo da música mecânica: um ouvido sobre caixas de música, fonógrafos e gramofones.
Rádio.

16. Visuais. Pintura, fotografia.
Iconografia na Imprensa escrita.

17. Audiovisuais. Cinema, televisão.

18. Funções e características da linguagem dos media de massas.
Media de massas e indústria cultural.

19. Os novos media.
Poder e interdependência: do individual ao convergente; liberdade e controlo. Manipulação.
Ciberjornalismo.

20. Trânsitos discursivos.
Do jornal / revista ao livro, ao cinema e à ópera, à internet, etc.
O caso de Os Canibais: de Álvaro do Carvalhal a Manoel de Oliveira.

21. Propaganda. Marketing e publicidade.

22. Legislação e deontologia.

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