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O Humanismo em Portugal

Um olhar sobre o Humanismo deve considerar a ruptura civilizacional que significaram os Descobrimentos. Saía-se do mare clausum de um Deus europeu para o universo de gentes diversas e lugares distantes, actualizando a máxima terenciana segundo a qual, doravante, nada do que era humano seria alheio ao mesmo homem . A empresa marítima tornava-se fonte de interculturalidade. Oferecia às inteligências uma nova dimensão da história e da geografia, que o humanista João de Barros percebeu soberbamente.
Quatro anos depois de editar o segundo volume de História da Cultura em Portugal (1955), donde sai O Humanismo em Portugal , António José Saraiva proferia na Faculdade de Letras de Aix-en-Provence (Abril de 1959) conferência intitulada «Uma concepção planetária da história em João de Barros» . Primeiro, definia os cuidados humanísticos; depois, enquadrava a visão de Barros:

«Os humanistas aprofundaram o conhecimento do mundo greco-latino e, estabelecendo pela primeira vez com clareza, por um lado, a ligação e, por um outro, o contraste com aquele e o mundo seu contemporâneo, esboçaram a dimensão do tempo histórico, que não existe realmente na mentalidade medieval, para quem a sucessão dos acontecimentos constitui um enredo como o dos romances de cavalaria. Mas para os humanistas o mundo greco-latino era de alguma forma a Idade de Ouro da civilização, da qual se decaíra na barbárie medieval.» (p. 270)

Esta apreciação de dez séculos de trevas fez fortuna até ao Romantismo, e A. J. Saraiva não a contesta devidamente. Avança, entretanto, para formas de concretização desse ‘tempo histórico’:

«Uma concepção planetária da história pode caracterizar-se por dois elementos principais. Em primeiro lugar, um laço muito estreito entre a história e a geografia. Os acontecimentos foram situados no espaço. Tudo começa hoje pelo mapa, quer se trate de linguística, de etnografia, de história económica ou de história política. […]
O outro elemento característico desta concepção planetária da história é o que poderíamos chamar o ponto de vista múltiplo, ou, por outras palavras, o pressuposto de que cada civilização tem a sua própria história, de que não está subordinada à civilização europeia e cristã, dependendo de ou conduzindo a esta.» (p. 271-272)

Desde a Década I, Barros «propunha-se nada menos que uma história de Portugal em escala mundial, dividida pelos quatro continentes. Além disso, essa história, ou enciclopédia, considerava não só as efemérides militares, mas abrangia também a descrição geográfica do mundo e a do comércio mundial, compreendendo nela os produtos naturais e os da indústria (a que ele chama ‘artificiais’) e ainda o que no texto se designa por ‘regras do comércio’, incluindo os pesos e as medidas.» (p. 280) Reencontramos estas ideias ao tratar do historiador e moralista, no que será o melhor momento deste livro.
Prossegue Saraiva:

«Pela boca do seu agente comercial Damião de Góis, o rei de Portugal fazia declarar que a empresa da Índia lhe trazia mais prejuízo que proveito material e que só o amor da Fé o movia a persistir nela. O monopólio queria-o apenas para sustentar o empreendimento espiritual.
Em João de Barros este tema da cruzada ganha aquela grandeza espacial e temporal que é peculiar ao nosso autor.» (p. 281)

Não vem ao caso analisar o régio processo de intenções, ou pura propaganda, a que, decerto incomodado, dava eco o bom diplomata Damião de Góis; já o tema da cruzada em Barros deve ser confrontado com a posição anticruzadística de Rópica Pnefma (1532) , de Sá de Miranda e António Ferreira.
Mais importante, Barros declara que nem a Europa é maior que outras paragens nem a cristandade mais difundida, e que «a nossa civilização não é a civilização, que os nossos valores não são os valores universais» (p. 284). Assim se inscreve uma cultura mundi, mérito inquestionável de humanistas. Atento ao Chinês, que nunca viu, «Esta circunstância concorre certamente para tornar possível uma visão do mundo como a de João de Barros, cheia de admiração por civilizações não europeias, capaz de aceitar a ideia da exiguidade da Europa e a relatividade da sua civilização, e de considerar, enfim, o mundo de um ponto de vista múltiplo e segundo uma escala planetária.» (p. 290)
Eis como das humanidades ressurrectas se passa, indo além de nós mesmos, à Humanidade, à luz de um Humanismo bem mais do que greco-latino, erasmizante, reformador, contra-reformista. Evoquemos nomes simples, antes dos nomes próprios.

Se o vocábulo ‘homem’, com rostos vários, aparece regularmente na nossa Idade Média, a par do mais raro ‘humano’ (sécs. XIII. XIV), de ‘humanus’, atrasámo-nos em relação ao ‘humain’ francês (c. 1150, ou 1160), no sentido de ‘compreensivo’, ‘bondoso’. ‘Humanidade’ (‘humanité’), que o oitocentista Ernest Renan tomará como ‘civilização’, já em 1120 se referia ao carácter, à natureza humana (entre nós, desde o séc. XIII), e, desde 1485, ao género, aos homens em geral – em português, deparam-se-nos as fórmulas ‘omanidade’ e ‘umanidade’, no séc. XV e em 1569 –, quando muitos estavam ainda por achar, descobrir, contactar. No plural, ou ‘studia / artes humanitatis’, ‘litteræ humaniores’, o termo afirma-se desde inícios do século XVI. ‘Humanidades’, contudo, começa por ser ‘estudos da natureza humana’, antes de em si conjugar o estudo da gramática, poesia, história, retórica, filosofia moral, artes liberais referidas ao grego e latim, disciplinas que absorveriam quase inteiramente os humanistas.
Ora, entre nós, o latim era já corrente na corte de Avis. D. Pedro traduzira De Officiis (Livro dos Ofícios) de Cícero antes de 1438; Mateo de Pisano ofereceu crónica da guerra de Ceuta (De Bello Septensi, 1460) à corte do bibliófilo D. Afonso V; o bispo eborense D. Garcia de Meneses, que estudara em Perugia, leu diante do Papa (Roma, 1481) um discurso sobre o cruzadismo antiturco dos reis portugueses; Cataldo Parísio Sículo é chamado, cerca de 1485, à corte de D. João II, para instrução de príncipes, nobres e senhoras. O primeiro de dois volumes das suas Epistolæ sai em Lisboa, 1500 .
Com a queda de Constantinopla (1453) – segundo momento decisivo −, os letrados bizantinos transportam para Itália os seus conhecimentos de grego, emergindo escaramuças intelectuais de que a latinidade sai reforçada, pelo maior número e qualidade de, sobretudo, poetas neolatinos – mas impõe-se também a filologia agora aplicada aos textos antigos, incluindo os hebraicos. No quadro institucional, nascem tensões com os mestres universitários.
Um terceiro acontecimento, nesses anos 50, vem ajudar o fervilhar de ideias e sua mais consentânea divulgação: a tipografia. Sem menoscabo para as línguas vulgares, que conhecem as primeiras gramáticas (desde a de Nebrija, em 1492; a portuguesa, em 1536) e vingam no ultramar, a Europa culta estende-se, entende-se, em latim, mas os seus protagonistas só tardiamente tiram o nome do medieval ‘humanista’ (em italiano, 1490; francês, 1539; espanhol, 1613; alemão, 1784), que, na Inglaterra de 1617, começa por ser «alguém interessado nos assuntos de Estado e na história. O uso de humanista para referir-se a um grupo de preeminentes no Renascimento e na Restauração do Saber parece ocorrer em um momento no S17 [século XVII]», informa Raymond Williams . Mais tardio, contudo, é o que eles praticam, ‘humanismo’ (do alemão ‘humanismus’, 1808), que, na França de 1765, ainda é ‘philantropie’, antes de ser o movimento de ideias que espiritualiza o Renascimento (1877). Em Portugal, o rápido uso de ‘humanista’ (1540) foi mal acompanhado de ‘humanismo’ (1899).

[...]

A definição de Humanismo percorre vários campos: filosófico, religioso, social, estético. O conhecimento crítico das fontes textuais, a partir de línguas e ciências restauradas, embate contra a Escolástica, que tão-só comentava, parafraseava, especulava, interpretava formalística e alegoricamente alguns corpora. Isso tem efeitos na revisão de Aristóteles, mas também na releitura do Novo Testamento, a partir de manuscritos gregos anteriores à Vulgata latina. Busca-se a pura mensagem evangélica alheia aos «comentários dos teólogos e toda uma massa de sobreposições dogmáticas e rituais, como o culto dos santos, as indulgências, os jejuns». A experiência de Cristo faz-se intimidade e «coerência pessoal entre as crenças e os actos», como defendia a Reforma. No social e no estético, porém, tudo fiava mais fino. O saber precederia o sangue; a tolerância irmanava povos, pacificados em Cristo, salvo se urgia guerrear o Turco; e as desigualdades eram aguareladas por, afinal, dependentes de senhores, antes de muitos se prenderem nas teias da Contra-Reforma. Por último, se o latim reunia esses intelectuais, a revivescência da mitologia e de formas na poesia veio estiolando, mesmo se um Baudelaire ainda escreve na língua do Lácio, e o teatro religioso, mormente jesuítico, é um treino excelente para cumes de oratória latina.
Ao desacompanhar a cultura científica, que se secularizava, o ensino e prática das Humanidades retraem-se, até ao inane e à frivolidade. Já tivéramos desencontros de estrangeiros em solo nacional; sobrevêm a asfixia inquisitorial, invejas e denúncias torpes, que perseguem um aqui brevemente referido Fernão de Oliveira (1507-1581?) e um celebrado Damião de Góis (1502-1574) . Este, representante comercial de D. João III, imagem do Portugal culto na interlocução com Erasmo e outros, justifica páginas seguras. O cruzadismo nacional, dizia ele, olhava menos aos bens índicos e expansão imperial que à dilatação da Fé. Angelo Poliziano , J. L. Vives e demais estrangeiros remunerados pela Coroa da pimenta convergiam nessa opinião irradiada Europa fora.
Desde D. João II, percebeu-se a necessidade de homogeneização na cúpula do poder, que D. Afonso V deixara entregue a ducados soberanos. A força destes e o governo das ordens militares vão passando ao rei; como a concentração do poder exige, ainda, o domínio da família real em instituições religiosas entretanto melhoradas ou criadas, convém educar os novos dirigentes, acolhendo a nata da inteligência, nacional e estrangeira, ou concedendo bolsas lá fora a frades e seculares. Aos nossos «estrangeirados e erasmistas» dedica Saraiva larga atenção, salientando alguns: André de Gouveia (1497-1548) , Frei Roque de Almeida, D. Lopo de Almeida , tidos mesmo por luteranos, ou os erasmistas D. Martinho de Portugal, Góis, André de Resende, Fr. Diogo de Murça. Contrapõe «escassas manifestações» anti-erasmistas (Diogo de Gouveia, Aires Barbosa), mas, ainda aqui, alguma bibliografia deve completar este apartado .
Nesse quadro, «a manifestação mais completa e mais explícita do erasmismo português» é Rópica Pnefma, de João de Barros (c. 1496-1570) : a inesperada e funda análise a tão insólita ‘mercadoria espiritual’ deliciará quem nunca leu o estranho título. Se a estrutura alegórica é medieva, a dialogal – Entendimento, Vontade e Tempo face à Razão – atravessa séculos, defendendo cada interlocutor seu ‘senhorio’ e hierarquia. É, ainda, um pensamento feudal, e, por isso, mais incongruente o uso do paradoxo: como em Gil Vicente ou no Elogio da Loucura, dizem-se as maiores verdades com desculpa da irresponsabilidade. Ousa-se uma interpretação perigosa de passos da Bíblia, enquanto o clero e a nobreza, médicos e juristas saem malferidos, em sátira contundente. Não menos heterodoxa é assinalá-la como «vestígio da difusão em Portugal do averroísmo paduano, ou melhor, do materialismo italiano do século XV», numa tripla frente: Vontade, Tempo e Entendimento «negam a imortalidade da Alma, a existência de prémios e castigos na outra vida e a superioridade da religião de Cristo sobre as outras religiões».

 

Ernesto Rodrigues, "Introdução", in  António José Saraiva, O Humanismo em Portugal, Lisboa, Gradiva, 2012. [Excerto.]

Opinião

Qualquer assunto noticiado pode merecer uma tripla abordagem opinativa: editorial (da direcção), comentário (do jornalista ou editor) e opinião propriamente dita (de colaborador).
O primeiro decorre de um estatuto editorial por que toda a publicação se rege. Assinado, ou não, pelo director e/ou director-adjunto, responsabiliza a linha do jornal.
Carreados elementos informativos e argumentos clara e metodicamente expressos, toma-se uma posição, evitando transformá-lo em panfleto.
Nasceu do artigo de fundo que inundava a primeira página na Imprensa oitocentista, maioritariamente votada à defesa do partido ou de famílias políticas, religiosas e outras. O redactor político, que não precisava de assinar, ascenderia, cedo ou tarde, a lugares de eleição.
Hoje, pede-se verdade, isenção e objectividade, além de brevidade (alguém chega a propor uma média de 4 600 caracteres) e clareza. Caluniar ou difamar não constam do programa; e hemos de equacionar a relação público-privado, denunciando este se, de facto, vem reflectir-se negativamente na coisa pública.
Há uma exposição sucinta do acontecimento confirmado, segue-se um desenvolvimento cartesiano que opera do mais simples para o mais complexo, desaguamos em conclusão não forçosamente unilateral ou dogmática.
Para bom entendedor, o colorido do tom e a veemência de algumas posições só por milagre, acaso ou grande arte não deitarão a perder a suposta objectividade. Mas é um horizonte a atingir.
O comentário (em princípio, graficamente solto) do jornalista ou editor da página, precedido de breve análise e propostas de interpretação, é antecâmara de sentido para o editorial.
Sem querer ludibriar o leitor, ou apertá-lo numa teia de posições alheias que o redactor toma como suas, passa-se tal responsabilidade para colaboradores regulares/episódicos, que marcarão o ponto de vista que, sempre dentro do estatuto editorial, entenderem marcar.
Os equívocos e dados positivos que desta tripla conjugação aflorarem justificam a participação dos leitores, enquanto partes directa ou indirectamente interessadas.
Para lá da secção própria de correspondência – desde as primeiras décadas de Oitocentos, e mesmo no espaço nobre do folhetim –, a publicação faz prova de isenção se do próprio corpo redactorial fizer emergir um jornalista provedor dos leitores (ombusdman), independente da direcção e administração.
Neste quadro – quando não é a folha a motivá-la –, nasce uma forma rica e de largas tradições na Imprensa e na literatura que é a polémica, desembocando tantas vezes num registo "baixo". Tivemos cinco grandes momentos nesse âmbito: a recepção setecentista ao Verdadeiro Método de Estudar, de Verney, e, com larguíssimo e fundamental desenvolvimento na Imprensa periódica, a polémica à volta da publicação do poema anti-ibérico D. Jaime (1862), de Tomás Ribeiro, que prenunciava a ruidosa Questão do Bom Senso e Bom Gosto (1865-66) e a dissolução das Conferências do Casino (1871). A derradeira seria a reacção popular e intelectual ao Ultimatum inglês de 1890.
Entre os autores, Camilo Castelo Branco, multímodo colaborador de Imprensa, leva, por certo, a palma, seja pela quantiosa actividade neste domínio, seja pela virulência com que respondia aos detractores.
Espécies da tipologia que avançamos são, pois, o artigo de análise e de opinião (se conseguirmos destrinçar entre ambos), o artigo de fundo propriamente dito (que não responsabiliza quanto o editorial), o apontamento, o bilhete, o eco - conforme a mancha gráfica se reduz e ganha em densidade, pessoalização, crítica e humor, mesmo.
Estas serão devidas a gente da casa ou de fora, assinadas também por iniciais e, até, nomes enigmáticos (vejam-se os bilhetes de Vítor Direito na página 2 do Correio da Manhã, brevíssimos editoriais que já trazia da última página do antigo República, e o cortante Au Jour le Jour, antes, não-assinado, na primeira página do Monde, agora regressado à última sob nome factício).
Já o colunismo, por seu lado, convida personalidades de fora, sendo mister referir o que decorre da crítica e da crónica.
A crítica varia quanto à matéria (desportiva, tauromáquica, teatral, etc.; o mesmo se passa com a crónica) e quanto à sua formalização. Se descermos à particularidade literária, subdivide-se em mera impressão ou juízo de valor, em nota, recensão, ensaio, tratado, sistema.
Há uma importância crescente nesta hierarquização, já com foros de revista literária e até universitária a partir da recensão: é preciso dizer do que consta a obra ou artigo em causa e questionar os pontos mais fracos, dando-lhes solução ainda que provisória. O ensaio também chega a ocupar as efémeras páginas de um diário; jamais os dois últimos.
A crítica e a crónica tiveram uma infância jornalística próxima, que chegou a confundir-se. Muito ficaram a dever a outro espaço - aquele que, efectivamente, mais concorreu para que se fale em mass media e que, hoje, ressurge de forma insuspeitada. Estamos a falar do folhetim.

A CRÓNICA
A crónica releva da História, da Literatura e do Jornalismo. A "chronica do dia", com que o Diário de Notícias abria nos seus primórdios, informava de entrada, ronceiramente, que «Suas Magestades e Altezas passam sem novidade em suas importantes saudes». Seguiam o calendário litúrgico, nascimento e ocaso do sol, efemérides, despachos telegráficos e locais que, hoje, nunca consideraríamos notícia. Era uma salada a sobrevoar a unidade do folhetim, firme no seu poiso. A História do dia cumpria-se no Jornalismo possível. Em breve, a Literatura tomaria o lugar daquela e, no presente, seria possível associar-lhes outras disciplinas (sociologia, psicologia, etc.).
O que interessa, todavia, é que, deslaçando-se do folhetim, manteve a constante da voz pessoal, fez-se paleta de uma íntima e suspensa reportagem por que dá a cara o subscritor.
É à luz daquelas três macro-estruturas que José Marques de Melo elabora um útil texto de síntese (“A crónica”, em Jornalismo e Literatura, 1988, pp. 41-53), contrapondo, depois, a crónica do jornalismo hispano-americano à do luso-brasileiro.
Aqui, «é um gênero jornalístico opinativo, situado na fronteira entre a informação de atualidade e a narração literária, configurando-se como um relato poético do real».
Contestamos, de seguida, que ela deva obedecer às «três condições essenciais de qualquer manifestação jornalística: atualidade, oportunidade e difusão coletiva». Não: a crónica pode, e deve, criar as duas primeiras, alargando a terceira. É, como não nota o articulista, uma das facetas do poético, que solta e se liberta do nada.
O folhetinista sabia isso: acusado regularmente de não ter ideias, reinventava situações que o país não favorecia e brincava com essa desgraça no próprio texto. Queria-se menos crítico que bem-disposto; antes diletante que doutrinário; preferindo os brincos da frivolidade à sisudez conselheiral.
Tudo isso passou para a crónica moderna, mais irónica do que austera, a favor de jogos linguísticos contra lugares conceituosos. A sua função «educativa» é bem menor do que pensam Nuno Rocha e o autor do artigo.
Victor Silva Lopes (Iniciação ao Jornalismo, 2ª ed., 1981, p. 103), aí citado, é modelar: «A crónica é um pequeno texto narrativo que se ocupa de um episódio (às vezes, banal ou insólito) do quotidiano [pessoal ou colectivo, acrescentamos]. O cronista prevalece o comentário, numa linguagem expressiva, por vezes poética, mas simples e clara.»
E depois: «A crónica permite uma interpretação subjectiva da realidade e, frequentemente, faculta ao seu autor a possibilidade de revelar seus ideais. [...] A ironia, o humor ou a dureza do tema são formas geralmente escolhidas para rematar uma crónica. Aliás, o cronista num jornal procura observar a realidade (sem muitas das vezes se servir da entrevista), julga-a e procura extrair um comportamento social [não forçosamente, juntamos].»
Daniel Ricardo (ob. cit., p. 31), opondo traços distintivos entre reportagem e crónica, na perspectiva de José A. Benitez (Tecnica Periodistica, 1971), oferece seis alíneas, sendo, todavia, problemáticas as duas últimas:
«e) à vivência pessoal, na reportagem, contrapõe-se a reacção pessoal, na crónica.
f) A reportagem explica, interpreta, analisa; a crónica propõe, sugere, convida a imaginar.»
Bom: quanto a f), é um caso de gradação, porque estes géneros podem intercambiar-se; quanto a e), a inanidade da diferença vivência/reacção surge clara se fecharmos com a definição que defende Óscar Mascarenhas (“Crónica nada!”, Diário de Notícias, 26-11-1992): «Crónica é relato pincelado, é reportagem na primeira pessoa. Acompanha um acontecimento num dado tempo e transporta o leitor nos nossos olhos.»
De imediato, como a negar a citada diferença: «Crónica é o recurso jornalístico a que se lança mão quando a descrição seria fastidiosa, impossível ou ociosa.»
Ou seja: a oposição entre géneros não vinga; modelização de um programa, qualquer género é singular, contaminado embora. É notório que, nestas aspas de Mascarenhas, só há reacção com vivência.
Informação alheia ou que de nós extraímos, a notícia pesa e a ela voltamos, porque, sobre as breves ou a síntese – de facto, só título e lead, e nem sempre aquele –, a apreensão dos elementos cronísticos nasce, muitas vezes, do hoje omnipoderoso fait divers.

FAIT DIVERS
Os exemplos seriam muitos, pelo que indicamos, tão-só, o Memorial de Pero Roiz Soares, manuscrito (contido na Biblioteca Nacional, com primeira impressão em 1953) sobre os acontecimentos vividos e contados em Lisboa entre 1565 e 1628.
A grande e pequena política sebástica ou filipina margina uma série infindável de eventos assumidos como verdadeiros, quase sempre vistos: cataclismos, peste, sinais no céu (aparecimento de cometas), freiras chagadas, os falsos D. Sebastião, ruídos no túmulo coimbrão de D. Afonso Henriques, nascimento de siameses, etc.
É desta diversidade que também se faz a História e daí a importância crescente que obras deste género vêm assumindo, como serão nucleares os incidentes do nosso quotidiano que, de modo mais ou menos sensacional, decoram as hodiernas folhas.
O século XVIIII será, ainda, mais tentado por feitos sobrenaturais, narrados em folhas volantes que os cegos capelistas anunciam ou dependuradas pelo célebre cordel que deu título à literatura desse nome.
Era, já, a paixão pela anedota, cedo renovada, com ingredientes e leves variantes que relançassem o fenómeno, em boa hora aproveitado pelos que reduziram o folheto de cordel ao folhetim em entregas diárias, com que aumentaram o negócio – antes de outros apostarem, então, em textos mais longos sob forma de fascículos.
O fait divers caminha, assim, a par dos iniciais caracteres impressos (na ficção medieval, coexistem o charro e o sobrenatural ou estranho); disputa, em Setecentos, à monarquia absoluta, a capacidade de dirigir as fantasias dos cidadãos; um século decorrido, constitui-se a matéria-prima de imaginosos ficcionistas, de que, aos poucos, os localistas mais sérios e tecnicamente informados se apropriaram, ora destacando a sua raridade em páginas nobres, ora remetendo-o para as últimas páginas pares, onde só um curioso se demora. Alicerce da Imprensa sensacionalista de Oitocentos, de destinação popular, invadiu a televisão nacional, quando nascem as privadas (1991). À cabeça do alinhamento de muita informação, pelo dramático e insólito que veicula, o seu particularismo adormece as consciências, inibindo projectos de destinação colectiva, mais grave em canais de serviço público. Manipula e inventa, se necessário: quando assim é, notícia é, afinal, o jornal ou quem assina.
O fait divers exerce uma iniludível sedução sobre o repórter inquieto, ansioso de alargar o sentido e universo daquilo que enforma alguns dos nossos segredos e fantasmas mais recalcados. Estamos no limiar de género nobilíssimo – pelo menos, o mais completo.

[...]

 

Dedicatória: Relação e Discurso

Inscrição peculiar do universo artístico, da arquitectura à música (Souriau, 1999: 553-555), tem a dedicatória mais largo curso no domínio bibliográfico. Em artigo no número 13 de Românica (Rodrigues, 2004: 18-19), esbocei um esquema sobre o assunto em epígrafe agora refundido:

 

  1. Dedicatória impressa; 2. dedicatória manuscrita
  2. introdução: dedicatória de obra e de exemplar; pública e privada; 1. 1. como parte integrante da épica; 1. 1. 1. lugar e extensão da dedicatória; 1. 2. como elemento peritextual; 1. 2. 1. título-dedicatória (ou título dedicatório); 1. 2. 2. prólogo, proémio e prefácio-dedicatória; 1. 2. 3. carta-dedicatória; 1. 2. 4. poema-dedicatória; 1. 2. 4. formas em verso; 1. 2. 5. lugar; 1. 2. 6. Língua; 1. 2. 6. 1. bilingues; 1. 3. momento; 1. 3. 1. razão e função da dedicatória: necessidade e reconhecimento, admiração e proximidade; 1. 3. 2. relações dedicador (autor, impressor, editor, editor literário...)-dedicatário, e caracterização destes: mecenas, senhor, poderoso; 1. 3. 3. dupla dedicação, e dobrada ou multiplicada; 1. 3. 4. subscrição; 1. 4. na moderna lírica; 1. 4. 1. estrutura organizacional; composição avulsa; 1. 4. 2. cultores; 1. 4. 2. 1. na ficção; 1. 5. trocas e rasuras; 1. 6. conclusão.
  3. ementas para a história da dedicatória manuscrita: de D. Pedro (1418) a exemplos pós-oitocentistas; 2. 1. local, data e assinatura; 2. 1. 1. falsificações; 2. 1. 2. valor da dedicatória e da assinatura; 2. 2. o modo institucional; 2. 2. 1. sessões de autógrafos; 2. 2. 2. indicações de catálogo e outras; 2. 3. dedicatória-inédito (poema, carta...), à entrada e no texto; noutros suportes; 2. 3. 1. artísticas; 2. 3. 2. dedicatória rasgada, riscada.

 

  1. Esta proposta diverge da avançada por Gérard Genette em Seuils (1987: 110-133), que distingue entre «dédicace d’œuvre» – o verbo é dédier – e «dédicace d’exemplaire» – o verbo é dédicacer[1]. Maria José Meira (1999: col. 1409) propôs dedicatória pública («o dedicador indica o dedicatário») e privada, ou de exemplar. Maria Isabel Faria e Maria da Graça Pericão (1999: 175) oferecem ‘dedicatória’ autoral e ‘dedicatória autografada’, sendo esta «da autoria do próprio autor da obra ou de uma pessoa que a oferece a outra».

Espanto maior ao ler G. Genette não é que “Les dédicaces” não justifiquem bem-disposto capítulo; mas que não aprofunde a riqueza da forma (que será género traduzido por Jorge de Sena em Dedicácias[2], termo ausente, como ausente está ‘dedicatário’, dos melhores dicionários) enquanto elemento fora do paratexto.

  1. 1. A dedicatória é parte indissociável de alguma épica, avulsa ou integradamente recuperada na lírica moderna, mas o ensaísta limita-se a quatro linhas sobre Orlando Furioso e Jerusalém Libertada. Se evocarmos o molde camoniano, algumas questões ficam de pé: quem dedica, autor ou narrador? A que Rei se dirige? Se D. Sebastião, não há mostras de desrespeito que confundem o sentido – seja, o que não é indicado – deste terceiro gesto na ordem das quatro partes? Como justificar treze estâncias (I, 6-18) em vésperas de Gerusalemme Liberata (1575), com duas (I, 4-5) em vinte cantos? Onde e quando foi o Poema redigido, em especial, as três partes iniciais, e as oitavas finais? Das não-épicas Geórgicas virgilianas a Valério Flaco, de Ariosto à Araucana (três partes – 1569, 1578, 1589 – reunidas em Madrid, 1590), de Alonso de Ercilla, dirigida a Filipe II, Luís Pereira Brandão (Elegíada, 1588, dedicada ao cardeal Alberto, governador filipino de Portugal) e Francisco de Andrade (O Primeiro Cerco Que os Turcos Puseram à Fortaleza de Diu nas Partes da Índia, Coimbra, 1589) a Gabriel Pereira de Castro, cuja Ulisseia ou Lisboa Edificada (1636) não exagera no preito a Filipe IV (I, 3-8), há um trabalho a empreender, que reverte aquela tipologia, ou limita o estudo da dedicatória enquanto segmento peritextual. Ficam de fora casos como o de uma dedicatória-livro[3].

 

  1. 2. Esta executa-se título subsumindo género (por exemplo, carta em verso: Epistola ad Pisones) ou aproveita-o, na duplicação frontispicial, para celebrar alguém tido por ajuda, nem sempre confirmada. Grosso modo, a tradição aristocrática viria até à queda do Antigo Regime, quando se passa ao alinhamento burguês e a dedicatória se perfila manifesto ou apologia, capaz de substituir prefácio, prólogo, etc. Num terceiro momento, a dedicatória simplifica-se, reduzida a parcas linhas – escapa Gomes Leal, “Dedicatória a Fauchette” (Mefistófeles em Lisboa, 1907), conjunto de três sonetos – em mostras de afecto, amizade, admiração, camaradagem literária. Ora, estas modalidades confundem-se nos tempos, pelo que não nos serve tão fácil cronologia. As dedicatórias fictícias, as paródicas e as que agravam quem, alegadamente, seduziriam também diluem a diacronia.

A designação simples – Dedicatória, à cabeça – é poucas vezes declarada, por tautológica: se Francisco de Sá de Miranda abre a égloga Basto com informação saturada, mas, ao tempo, compreensível – “Dedicatória / A Nuno Alvares Pereira”, em quatro ou cinco décimas[4] –, e semelhantemente Matias Pereira da Silva, que edita os póstumos Apólogos Dialogais (1721) de D. Francisco Manuel de Melo, inscrevendo «Ao Senhor D. Antonio Estêvão da Costa / […] / Dedicatória»; se, ao editar Comedias Famosas Portvguesas (1622) de Sá de Miranda e António Ferreira, António Álvares coloca à cabeça do fólio, no verso, «Dedicatoria», como percebêramos desde o título e recto do fólio, «Dedicadas a Gaspar Seuerim de Faria», e “Dedicatória” à princesa do Brasil se explicita a do criptónimo e «fidelissíma escrava» Dorothea Engrassia Tavarede Dalmira (=Teresa Margarida da Silva e Orta, Máximas de Virtude e Formosura, 1752; 2.ª ed., Aventuras de Diófanes, Lisboa, 1777), já Herberto Helder opera marcação que só à segunda o satisfaz: assim, ao reunir poemas “De «Photomaton & Vox»” em Poesia Toda (1990: 403), o primeiro texto avisa: «(é uma dedicatória)». Ao refundir aquela em Ou o Poema Contínuo (2004: 359), substitui essa parte e ‘livro’ Photomaton & Vox por Dedicatória, sem mais avisos. 

A par, existe a designação simples de carta (“Carta sua a Garcia de Resende”, endereça Duarte de Resende [1982], em 1531) ou existem as designações compostas, proémio-dedicatória, prólogo-dedicatória e carta-dedicatória. Há, também, sequência de dedicatória e carta-dedicatória, como em António de Oliveira Cadornega, Descrição de Vila Viçosa: ao nome do destinatário, lugar e data de 1683, num oferecimento neutro, sucede o nome completo do autor em quatro parágrafos de justificação dirigidos ao “Excelentíssimo Senhor, da Ericeira Conde”.

O prólogo-dedicatória é uma especialidade seiscentista, geralmente reduzida a ‘Prólogo’. Separados os termos, distinguem-se pela destinação, respectivamente, colectiva e individual, olhando, além, ao leitor ou leitores coloquialmente atraídos, e, aqui, ao ilustre hiperbolizado. Alguns exemplos daquele em regime de captatio benevolentiæ ilustrariam Garrett: «Aos beneuolos leitores», «Ao Pio Leitor», «Ao Deuoto Lector», «Prologo ao agradecido Leitor». Lucília Gonçalves Pires (1980: 47-48) analisou «dois textos em que confluem características destes dois géneros». Desejado explicitamente indiviso, aí está Compendio das mais notaveis cousas qve no reyno de Portugal acontecerão desde a pera dl Rey D. Sebastião até o anno de 1627. [...] // Composto por Lvis de Torres de Lyma. / Em Coimbra / [...] 1654. Prologo / dedicatorio ao Rey- / no, & Nobresa delle. Em Catastrophe de Portvgal na deposição d’El Rei D. Afonso o Sexto, [...], por / Leando Dorea Caceres e Faria (1669), nome que esconde o de Fernando Correia de Lacerda na “Dedicatoria / ao / Leitor”: «Esta he a primeira vez que o prologo, & a Dedicatoria Se naõ separão, ou he dedicatoria o mesmo prologo.» (p. 3)

Enquanto forma explicitada, o proémio-dedicatória é raro, assim expresso em Lusitânia Transformada (1607): «Ao marquês de Vila Real / Proémio Dedicatório». Seguem nove oitavas.

Entre as mais famosas cartas-dedicatórias, temos uma de Erasmo a D. João III, datada de Basileia, 24 de Março de 1527, anteposta à 1.ª ed. das Chrysostomi Lucubrationes, e já traduzida do latim. É uma prática regular do segundo quartel de Quinhentos. Centrando-nos em Sá de Miranda, a comédia em prosa Os Estrangeiros, escrita por 1527-1528 (1559), cria a incerteza do dedicatário, se o infante D. Henrique, se D. Duarte, como assinala Carolina Michaëlis de Vasconcelos (p. XVII, nota). De facto, a edição de 1561 ou a inclusa nas citadas Comedias Famosas Portvguesas explicitam o «Iffante Cardeal Dom Anrique» (1561)[5]. Mas a verdade é que, na seara de nomes, de títulos nobiliárquicos, militares, religiosos, etc., persiste, não raro, a indefinição. Aliás, não menos ambiguamente o verbo dirigir substitui dedicar em manuscrito das Obras de Francisco de Sá de Miranda Dirigidas ao príncipe nosso senhor que lhas mandou pedir (p. 1), sendo logo o “Soneto I. / Ao príncipe nosso senhor” (p. 3) –, por onde se vê que não há só obra e exemplar, mas se alcança, já, forma ou espécie particular, podendo esta assumir-se obra, quando mais extensa. Identicamente, «Dirigidos a Este Reino», traz D. Francisco Child Rolim de Moura, em Os Novíssimos do Homem / Poema em Quatro Cantos (1623), entre muitos outros. Reforça-se a fórmula em «oferecido e dedicado», ou «que dedica, & offerece» [«Á Soberana e Clementissima Senhora de Todas as Creaturas / Maria»], para citar Luz e Calor (1696), de Manuel Bernardes. Deus ‒ «Ó Deus, Supremo Artífice Divino / Da humana construção maravilhosa,» ‒ está em “Dedicatória” precedendo “Sete salmos penitenciais ao Ente Supremo” de Bingre, o qual, sob o mesmo título “Dedicatória”, reúne dois “Sonetos aos heróis da independência of’recidos à glória” (2003: 202, 262).

São epístolas em verso, justamente, as mais dedicadas em Sá de Miranda: seis cartas referem destinatários precisos, que problematizam a distinção genetteana dos dedicatários privados e públicos:

 

J’entends par dédicataire privé une personne, connue ou non du public, à qui une œuvre est dédiée au nom d’une relation personnelle; amicale, familiale ou autre. […] Le dédicateur public est une personne plus ou moins connue, mais avec qui l’auteur manifeste, par sa dédicace, une relation d’ordre publique: intellectuel, artistique, politique ou autre. (p. 123)

 

Além de se não compreender o exclusivo de «une personne», quando animais irracionais, nomes colectivos e abstractos se disputam, nem se atender a jogos de fingimento e protocolos narrativos (como autor, pseudónimo, heterónimo ou personagem dedicarem obra a personagem, autor, amigo, etc.), fica ainda a imprecisão daquele «plus ou moins connue». A incerteza quanto à relação de ordem pessoal ou pública não é menor em leitura de hoje: qual seria a de Miranda com «El Rei nosso senhor» (regressado na “Fabula do Mondego”), João Ruiz de Sá de Meneses (que merecerá carta-dedicatória em verso), Pero Carvalho, seu irmão Mem de Sá, António Pereira (retomado na égloga “Nemoroso” e em epístola solta) e Dom Fernando de Meneses? Que reputação teriam estes, efectivamente?

Eis algumas razões para a dedicatória mudar frequentemente de lugar, desobrigada do título e de frontispício, ora avançando para a página ímpar após este, ou, hoje, inclusive, para o verso da folha de rosto ou das guardas. Mais: doravante, encontramo-la em final de poema, romance, ensaio, etc. Ou. sendo poema-dedicatória avulso, muito depois de ter morrido o dedicatário, como o “Poema-dedicatória” de António Ramos Rosa a Jorge de Sena (Sena, Rosa, 2012: 11-12), em 10-VII-2000. Tomaz de Figueiredo, em A Toca do Lobo (2005: 577), fecha com dedicatória «À Memória, que sempre em mim vive, da nossa criada Maria Rodrigues […]». Quando um volume reúne ‘livros’, o lugar varia, naturalmente. O mesmo pode acontecer em obra de vários tomos: as Memórias (Lisboa, I, 1919; II, 1925; III, 1933) de Raul Brandão são dedicadas “Aos Mortos”, “A Teixeira de Pascoaes”, “A Luís da Câmara Reys”.

Entre lugar e momento, a língua tem desmaios e canta dobres: André Falcão de Resende soneteia “À vila de Madrid, em quatro línguas” – latim, italiano, castelhano, francês –, regular este no Cavaleiro de Oliveira, caso de Mémoires de Portugal avec la Bibliothèque Lusitane de Diez… (Amsterdam, 1741), e em Júlio de Castilho, Memorias de Castilho (21928: 142), com soneto em francês.

Diferente é o caso da mesma, bilingue, sob dois textos diferentes. Brincando com a mesma fórmula, José de Almada Negreiros (2001), em “Mimi-Fataxa”, propõe: «A ti [,] para que não julgues que a dedico a outra.» Mas, em “Histoire du Portugal par cœur”, surpreende: «A Toi, pour que tu ne crois que je vais le dédier à une autre.» 

      

  1. 3. O momento é questão mais sensível. Engloba o tempo da edição em vida, póstuma, reedição e refundição, mudança de título e lapso da redacção. Perfilam-se reis; na falta de um rei nacional, nobreza próxima da Casa Real, em minoria face aos Filipes da monarquia dual.

A Crónica do Imperador Clarimundo (1522) é prologada “Ao mui alto, e poderoso rei D. João III, deste nome, por João de Barros, seu criado”.

Não espanta que o neto, em curto reinado, seja tão epigrafado: há carta em António Tenreiro, Itinerário… (Coimbra, 1560); no Memorial das Proezas da Segunda Tauola Redonda (Coimbra, 1567), Vasconcelos esclarece de vez que é “Prologo a el-Rei, nosso senhor»; outro prólogo “De Andre de Burgos impressor ao muito alto e poderoso Rei dom Sebastiam […]”, no Tratado… (Évora, 1569) de Frei Gaspar da Cruz; Duarte Nunes de Leão só faz o que deve na colecção das Leis Extravagantes e Repertório das Ordenações (1569); esse «mvito poderoso» está noutro prólogo de Jerónimo Corte Real, Sucesso do Segundo Cerco de Diu (1574).

Na falta de rei natural, pode ir “Dirigido ao excelentíssimo príncipe D. Theodosio Duque de Bragança”, como em, do mesmo Corte Real, Naufragio e Lastimoso Svcesso da Perdiçam de Manoel de Sousa de Sepulveda… (1594), edição da responsabilidade do sogro, António de Sousa, «com obrigação que tenho de criado» – o que o desculpabiliza face a castelhanizantes.

Outros resignam-se: assim Bernardo de Brito, na ofertória de Monarchia Lvsytana. Parte primeira. Que contém as histórias de Portugal desde a criação do mundo té o nascimento no nosso sñr Jesu Christo. Dirigida ao Catholico Rey Dõ Philippe segundo do nome, Rey de Espanha etc. (Alcobaça, 1597); Fernão Mendes Pinto não podia ser tido nem achado para obstar ao nome de Filipe III na Peregrinação (1614; e de Richelieu, na tradução francesa de 1628, cardeal também dedicatário em Manuel Fernandes de Vila Real, Epítome Genealógico do Eminentíssimo Cardeal Duque de Richelieu…, primeiro, em castelhano, Pamplona, 1641); Manuel de Faria e Sousa, aculturado, oferta a Filipe IV Lusiadas de Camões, principe de los poetas de España. Al Rey nuestro señor Felipe Quarto, el grande. Comentados, etc. (Madrid, 1639).

Desde Barros, criado dizia assaz. Durante séculos, artistas houve simples serviçais de uma casa fidalga. Se o labor intelectual era retribuído, a necessidade económica tingia-se de reconhecimento, forma pessoal de agradecimento ou declaração pública das virtudes do senhor. Com as editoras de Setecentos, a literatura engana a fome fora de portas senhoriais, e Bocage troca versos por comida, sem outras louvações. Mas escrever o nome ao lado do de um patrono ilustre pode trazer proveito. Por isso, quando, na viragem para Oitocentos, se opta pela subscrição (Rodrigues, 1999: 7-11), o autor deseja trocar um produto – o volume que vai pagar, e cujo preço de capa é mais favorável ao subscritor do que ao comprador em livraria (seja, o rico paga menos) – e não uma actividade ainda há pouco reduzida à criadagem e humilhação. Os subscritores, designados um a um (o que não significa pelo próprio nome, pois tanto se indica um estado como profissão, ou mesmo anónimo), convivem numa dedicação colectiva, além de, eventualmente, receberem dedicatória manuscrita. Neste caso, seria dobrada.

Não creio que os dois últimos séculos tenham posto fim à dedicatória interessada, agora, sob múltiplos disfarces. Ou que, antes, ela visasse necessariamente a pedinchice. Razão e função podem divergir, compareça ou não motivação, como homologar a fortaleza ou heroicidade do interpelado, nem sempre tido e achado na história em que o precipitam. Oliveira Cadornega fica descansado, não pela sua obra em si e sua indignidade autoral, mas pelo respeito que lhe votarão enquanto obra «favorecida e emparada da valerosa mão e grandeza de Vossa Senhoria […]» (1982: 21).

Ofuscados pela imprensa recente, os quinhentistas enredam-se num jogo em que irrompe a variedade de relações. Ora, pormenor mirandino é servir-se de um pretexto inédito, qual nas redondilhas I e II: “A Antonio de Sá na fugida de ums [sic] seus criados” (1989: 60; retoma aquele Sá num epitalâmio pastoril) e “Sobre a prisão d’um seu galego. A seu cunhado Manuel Machado […]” (p. 61; este reaparece em carta); ou, na esparsa X, segundo manuscrito: “A Pero Carvalho mandando ũas luvas em Evora ardendo em calmas” (p. 63). Mau grado razões, sequer inócuas, interessa a função, mesmo reconhecendo que “Canção. / A nossa senhora” (p. 87) possa ter outro alcance. “Prologo Á Rainha Nossa Senhora” dará Trancoso nos Contos e Histórias de Proveito e Exemplo (1575).

Epigrafa-se nome alheio aquando de uma oferta ou de carta recebida. Certos corpora de propósito teórico tornam-se ‘resposta’, maneira de dialogar por interposto verso com quem, fingidamente ou não, nos interpela; agradece-se num soneto “A Diogo Bernardes” (p. 453), com elegia “A Antonio Ferreira em resposta de outra sua” (p. 461). Líricos preiteiam Sá de Miranda na parte quinta das Poesias, servindo-se de églogas, sonetos, cartas, elegias, carmina e epitáfios: Bernardim, Dom Manoel de Portugal, Diogo Bernardes, António Ferreira, Jorge de Montemayor, Pedro de Andrade Caminha, André Falcão de Resende, Manoel Machado de Azevedo, D. Sebastianus d’Alfaro, Martim Gonçalvez da Camara. A rede relacional mais completa estará em António Ferreira, que inaugura Poemas Lusitanos com ciclo de sonetos “Aos bons ingenhos” e convoca meia centena de nomes régios e literários – mortos, inclusive – até aos epitáfios terminais.

Percebemos, por conseguinte, uma ligação de dependência, familiaridade, admiração ou respeito de vassalo, uma dedicação que pede a sinónima dedicatória, e leva António Coimbra Martins, ao editar Diogo do Couto, O Primeiro Soldado Prático, a desconfiar «da falta de epístola dedicatória nos livros seus que não a ostentam» (2001: 277). O momento político explicá-lo-á? um sentimento de patriota? Mesmo confutando em castelhano, o patriota P. M. Fr. Francisco de S. Agvstin abre Philippica Portvguesa contra la Invectiva Castellana (1645) com “Epistola Dedicatoria / A El Rey N. Señor / D. Ivan el IV. / El Prometido”. 

Entretanto, observa-se flagrantemente esse olhar para cima nos editores tipógrafos de Setecentos reeditando clássicos. Ao repegar em Duarte Galvão, Chronica d’El-Rei D. Affonso Henriques (1726), o editor literário Miguel Lopes Ferreira dirige-a ao monarca, D. João V, e a Fernão Teles da Silva (marquês de Alegrete), subrogando neste o ofertório ao rei. O mesmo ao reeditar Francisco Soares Toscano, Parallelos de Principes e Varoens Illustres Antigos (Évora, 1623), dedicado, antes, “Ao Excellentissimo senhor / D. Theodosio / segundo de nome, […]”, e, agora (1733), “Ao Excellentissimo senhor / D. Francisco / Xavier de Menezes”. Pereniza-se o sentido originário da ‘dedicatio’, enquanto ‘acto de dedicar, de consagrar aos deuses’, desta feita, terrenos, ou meros cortesãos (Maffre, 2008). Com algumas ironias: oferecer a Nuno da Cunha e Ataíde, inquisidor-geral, o tomo primeiro das Cartas (1735) de Vieira é de arrepiar…

Na dedicatória, seguida de prólogo, à edição de Lisboa, 1785, de Rui Gonçalves, Dos Privilegios & Praerogativas… (Lisboa?, 1557), o «humilde capelão» J. A. opera adaptação (até suprime Dos), e não esconde ao que vem:

 

Senhora

Este livro que ofereço a Vossa Magestade há duzentos e vinte sete anos foi dedicado à Sereníssima Rainha de Portugal, a Senhora D. Catarina de gloriosa memória, pelo licenciado Rui Gonçalves, lente da Universidade de Coimbra; e desejando eu que tornasse agora a ser impresso em obséquio a todas as Senhoras Portuguesas, me lembrei consagrá-lo a Vossa Majestade por que [sic] seria repreensível descuido não o fazer assim, […].

Eu nesta dedicatória não tenho por principal objecto os interesses, as riquezas ou honras com que Vossa Majestade me pode fazer feliz. Obsequiar a minha Augusta Rainha, mostrar aos vindouros que foi Protectora do seu sexo contra as mentirosas opiniões dos antigos escritores é todo o meu empenho. (Gonçalves, 1992: 19)

 

Acrescente-se que, em 1557, a dedicatória está encimada por ‘Prologo’.

No século XX, optando por lugares diferentes – sendo diferentes os sentidos –, Florbela Espanca abre Livro de Mágoas (1919) num significativo quiasmo semântico (mais do que formal), “A meu Pai / Ao meu melhor amigo”, e, duas páginas à frente, “À querida Alma irmã da minha, / Ao meu Irmão”. 

A Historia da Prouincia Sãcta Cruz… (1576), de Magalhães de Gândavo, comporta, precedendo ‘Prologo ao Lector’, dedicatória “Ao Mvito illustre Senhor / Dom Lionis Pereira, / Epistola de Pero de Magalhães”, conjunto precedido por tercetos e soneto de Camões, duplicando ofertório: “Ao muito illustre senhor Dom / Lionis Pereira sobre o liuro que lhe / offerece Pero de Magalhães: […]”. A tal excesso de nomeação, que dá um singular dobrado, contrapõe-se rasura de nomes diferente da de Couto, qual no dedicador Francisco Rodrigues Lobo, ora explicitando interlocutores, ora escondendo nomes de amigos nas epístolas das peças bucólicas.

Caso diverso é termos dois dedicadores e dois dedicatários, simultaneamente, que G. Genette e demais não prevêem: a Cõpilação de 1562 é exemplo de dedicatória dupla. Abre com “Prologo deregido ao muito alto e poderoso rei nosso senhor Dom Sebastião o primeiro do nome, per Luís Vicente» (Vicente, 2002: 11), seguindo-se “Prologo em que o autor deregia esta cópia de suas obras ao muito excelso príncipe El Rei Dom João o Terceiro deste nome em Portugal” (p. 13).

Em contraponto, viceja a falta de identificação, em que se especializam barrocos, anunciados por elegia “A ũa senhora muito lida em nome de um seu servidor” (Miranda, 1989: 341) ou soneto “A ũa dama áspera e fermosa” (p. 421). Soneto “Ao tempo” (p. 422) desloca a interlocução para cambiantes mais profundas, em séculos de incremento do relógio. Mas a rede de confrades é prioritária, retomada em maneiristas: Agostinho da Cruz, André Falcão de Resende, Baltasar Estaço, António de Abreu, Jerónimo Corte Real, Manuel de Portugal, Manuel Soares de Albergaria, Caminha, Quevedo Castelbranco… Este encontrou modo de dirigir Discvrso sobre a Vida, e Morte, de Santa Isabel Rainha de Portugal, & Outras Varias Rimas (1596) a D. Álvaro de Lencastre, 3.º duque de Aveiro. Da falange seiscentista, retenho D. Francisco Manuel de Melo.

 Vai com o tempo: as Epanaphoras de Varia Historia Portvgueza (1660) são para Afonso VI; as Obras Métricas (Lyon, 1665), para o infante D. Pedro. No limiar da Carta de Guia de Casados […] A Hvm Amigo (1651), dedicada ao primo D. Francisco de Melo, teoriza: «Para haver no mundo uma dedicatória perfeita, assim havia de ser feita ao descuido.» (Melo, 1965: 21) O impressor Craesbeeck rogava-lhe urgência: «[...] que ou a dedique eu por mim mesmo, ou lhe deixe fazer dela convite a quem a estime e lha agradeça».  Eis a utilidade, também, de um paratexto. Mas há uma surpresa: «Escrevi a um amigo estas observações.» (p. 22) Seja: dirigiu a amigo o que dedica a primo, e que os tratadistas não prevêem. É um descaminho na matéria, em que ‘dirigir’ não significa ‘dedicar’.

Outro caso. Escrevendo da «Torre, em 6 de Janeiro de 1650», a Luís de Azevedo, pede-lhe introdução às cartas que intenta reunir, já «prólogo e introdução, ou prólogo que o fosse; e que V. M. houvesse por bem descrever ũa dedicatória da obra ao senhor Rui de Moura Teles, […]» (Melo, 1981: 311). É o momento, a prisão que pesa na decisão de Melo: a confiança suscita uma dedicatória alógrafa, que se autorizam muitos tradutores e editores. De chofre, abre a Primeira Parte das Cartas Familiares, Roma, 1664: “À insigne Academia dos Generosos de Lisboa António Luís de Azevedo, seu académico, deseja perpétua felicidade”, assinando no fim. Segue-se, não assinado, em terceira pessoa, “Aos Discretos” – será dedicatória dobrada –, e, logo, “Carta do autor aos leitores de suas cartas”. O tempo derruiu, como se vê, os merecimentos de Rui de Moura Teles… Tem algumas afinidades o caso da Ulisseia castriana: postumamente editada pelo irmão, Luís Pereira de Castro, que a dedica a Filipe IV, já, na 2.ª ed. (s. l., 1642), pós-Restauração, dedica-a ao príncipe D. Teodósio, e triplica no novidoso “Prefácio-Dedicatória” a D. João V da 3.ª ed., por Matias Pereira da Silva. Caso para, em vez de momento, preferir oportunidade.   

 

Não entrevejo novidade em Oitocentos, se não é a introdução maciça da Imprensa periódica, aspecto desprezado em G. Genette, que lhe complicaria a tipologia: artigos em jornal, revista, potenciais obras em folhetim e almanaques, repletos de iniciais e nomes correntes. Tal quantidade, reforçada em volume, apaga a memória de lembretes significativos: Antero de Quental chamado por Guilherme de Azevedo, em A Alma Nova (1874); Junqueiro, antes de A Farsa brandoniana (1903; “Ao grande Poeta / Guerra Junqueiro”), acompanhando “O sentimento dum ocidental” – pano para larga prosa, que Junqueiro desapareceu no novo livro de Cesário Verde (2006; o qual também dedicava “Ao Diário Ilustrado”). A propósito, veja-se “Dedicatória” de A Musa em Férias (1879) e “Aos simples” de A Velhice do Padre Eterno (Porto, 1885), que inspirará título de obra (Os Simples, Porto, 1892). Desde finais do séc. XIX, cuida-se do in memoriam, a par de «À memória de», conjugando respeito e saudade. Não sendo pioneiro, Anthero de Quental: In Memoriam (Porto, 1896) é o mais conhecido.

O teor programático e de manifesto, ao ataque e à defesa, circula pelos prefácios, mas não só. Camilo Castelo Branco exigia parte de leão, em matéria de dedicatória, desde O Juízo Final e O Sonho do Inferno (Porto, 1845) à cedência institucional, ao nomear o Imperador D. Pedro II no Livro de Consolação (Porto, 1872). Veja-se, tão-só, a de Eusébio Macário (Porto, 1879), interrogando «querida amiga» sobre se «um velho escritor de antigas novelas poderia escrever, segundo os processos novos, um romance com todos os ‘tiques’ do estilo realista». Desafio aceite, diz perdida a aposta quem sabe de antemão ter lucrado com essa coisa «oca e fútil» (Castelo Branco, 1975: 446), alvejando o Realismo ainda no berço. Simula-se uma adesão que vira sarcasmo contra os cultores da Ideia Nova, reduzidos a «uma adjectivação de casta estrangeira» (“Prefácio da segunda edição”, Castelo Branco, s. d. [1992]: 39-40). Neste, de Setembro de 1879, a leitora amiga da “Dedicatória”, lugar-comum na ficção romântica, é retratada como «pessoa de minha família», ciente daqueles ‘tiques’: «É a tua velha escola com uma adjectivação de casta estrangeira e uma profusão de ciência compreendida na “Introdução aos três reinos”. Além disso tens de pôr a fisiologia onde os românticos punham a sentimentalidade: derivar a moral das bossas, e subordinar à fatalidade o que, pelos velhos processos, se imputava à educação e à responsabilidade.» (p. 40)

 

  1. 4. A estrutura épica hodierna tem alguns bons exemplos, caso de Luiza Neto Jorge, Dezanove Recantos (1969), «epopeia sumária» com proposição, invocação, dedicatória; José Martins Garcia, Feldegato Cantabile (1973), com “Dedicataria”, um poema intervalar, “Proposição”, “Invocação”; e Manuel Gusmão, que, desde “A mesa (d) o mar (preparativos de viagem)”, no colectivo Mar (1979), investia na sintaxe camoniana: proposição, invocação, dedicatória, narração. Em Dois Sóis, a Rosa: Arquitectura do Mundo (1990) e Teatros do Tempo (2001), refaz esse percurso. José Antunes Ribeiro (O Difícil Comércio das Palavras, 1984) opta por Dedicatória, Invocação, Canto, Viagens. Jorge Guimarães (1979) ficou-se por proposição e invocação.

Avulso, “Dedicatória” é título em lugares vários: Cândido de Figueiredo, Parietárias [Brinde aos Senhores Assignantes do Diario de Noticias em 1870], 1870; abrindo Elegias (1912; s. d.: 201), de Pascoaes: “Dedicatória / A minha irmã Miquelina”; expressiva em Luís Quintais, “Dedicatória (um poema de Czeslaw Milosz, Varsóvia, 1943)”, Verso Antigo, 2001: 60. Título-dedicatória recobre poemário Dedicado a Eva (s. l., 1983), de Júlio Conrado. Já, em página ímpar inicial, miríade de lusos comunga da fórmula. Outros nomes de Novecentos: Alfredo Brochado, Carlos Cochofel, Nemésio (para carta-dedicatória em Paço do Milhafre [Coimbra, 1924], ver Marques, 2002: 223 ss), Namora, Sophia[6], Almeida Faria, A. Oliveira Cruz, Irene Lucília, José Viale Moutinho, José Manuel Mendes, Fernando-António Almeida, José António Gonçalves, Maria Helena Salgado (= Maria do Rosário Pedreira)… Em catálogos da BN sobre Adolfo Casais Monteiro e Camilo Pessanha (ambos de 2008, respectivamente: p. 26, 234; p. 22, 50, 117-119; neste, dedicatória de Wenceslau de Moraes a João Vasco e Pessanha, p. 104), correm novos exemplos. Mais em Camilo Pessanha, Correspondência, Dedicatórias e Outros Textos (2012: 279-288), seja em volume, seja no verso de fotografia, já longas e justificativas, ou de auto-apoucamento. O olhar de Mário de Sá-Carneiro, em 29-VIII-1912, sobre Pessoa fala acerca dos dois, enquanto, «com um grande abraço», oferece Princípio “Ao seu querido amigo Fernando Pessoa – ao alto espírito, ao artista, ao pensador”. 

As trocadas entre José Régio e Jorge de Sena, deste com Vergílio Ferreira, Eduardo Lourenço e José-Augusto França, vêm registadas nos três volumes de Correspondência organizados por Mécia de Sena (Lisboa: INCM, 1986: 229-238; 1987: 19-24; 1991: 19-23; 2007: 21-31; sucedeu, com Jorge Fazenda Lourenço, Correspondência 1952-1978. Jorge de Sena e António Ramos Rosa, Lisboa: Guimarães, 2012: 286-292). Enquanto assinala edições modificadas e melhorias, a dedicatória regiana pode acusar a recepção de carta; Sena oscila entre A / Ao / Para, ecoando em auto-referencialidade. Vergílio Ferreira, temporalmente próximo, vai incorrendo na facilidade, e tem arte de se repetir em obras de 1971, 1975, 1977: «Ao Jorge de Sena com a estima e a camaradagem, do Vergílio Ferreira» (p. 21). Sena, contagiado, pouco altera as fórmulas: com a melhor amizade e camaradagem (duas vezes), com a melhor camaradagem (duas vezes), com a melhor estima, com a melhor estima e a camaradagem (duas vezes), com a velha camaradagem amiga, com a velha estima e camaradagem (duas vezes), com a velha estima e a mais alta camaradagem. Desta passa ao regular «abraço» a França, que o devolve, com variações, subentendidos e reencontros em lugares vários assinalados. Entre Régio e Sena decorrem várias de autores da Presença saudando Fernando Lopes Graça, que Alves e Cascudo (2013) reuniram en separata.

Ficção recente encena o acto dedicatário: no conto “A dedicatória”, Teolinda Gersão (2002: 31-41) dá-nos adquirente que fica para o fim na sessão de autógrafos e, a sós, requer «uma dedicatória, mas não exactamente igual às outras» (p. 33). Crente no sortilégio da palavra, acrescenta: «Com a data de hoje bem visível – porque faz hoje precisamente um ano que ela se foi embora.» (p. 40) Final: «[…] se não voltar é porque a senhora não lhe soube dizer quanto eu a quero e escreveu a dedicatória errada.» (p. 41) Com outra distância, A Blusa Romena, de António Mega Ferreira (2008: 13), faz o processo de «uma lenga-lenga que lembrava as dedicatórias setecentistas: “Ao Senhor Vasco de Almeida-França (o hífen inventou-o ela), insigne Escritor […], que tanto dignifica a República das Letras e, com isso, em muito honra os seus confrades, entre os quais modestamente se conta a autora destes versos, etc.”»

Destilando veneno são, por exemplo, as de José Vilhena (1971)[7] e as 24 “Egy magyar író dedikációi” [Dedicatórias de um escritor húngaro] do ficcionista e dramaturgo Őrkény István (1912-1979; 1981). De visita ao Museu Tá. Dê. Vê., onde não faltam canetas, cafeteiras e cartões de partidos do «grande realista», prende-se o visitante às obras expostas e respectivas dedicatórias:

 

  1. À Mamã e Papá, o filho fiel. 2. A Ella. 3. A Bella. 4. A Karolina. 5. Lina. […] 11. A Ostorovics Kornél, crítico extraordinário, autor do ensaio A Prosa de Goebbels. […] 13. Ao Dr. Berény Aladár, pelo seu divórcio genial. […] 16. A Ostorovits Kornél, autor de Sinais de Desviacionismo nas Obras de Juventude de Kautsky. […] 20. A Ostorovits Kornél, corajoso autor de Sufixos Impropriamente Usados na Prosa de Estaline. 21. Minha coelhinha, tu és a única! Ainda perdoarás ao teu Coelhinho? 22. Ao Dr. Hajmási Péter, o grande urologista, o seu doente, reconhecido. 23. Ao Dr. Hajmási Pál, o grande cardiologista, o seu doente, reconhecido. 24. A Ostorovits Kornél. // Ofereço esta obra póstuma do meu marido, agradecendo o necrológio em que tão bem salientou a sua intransigência, que lhe valeu perseguições amargas. // A senhora Tá. Dê. Vê., Gró Etel, em solteira. // […].

 

  1. 5. Aspecto menos edificante, que pudéramos tratar no momento ou no quadro das relações, é o das supressões, trocas e rasuras de dedicatória. Se um novo amor apaga antigo, ainda vá: «À Isabel, sempre.» era retórica do coração; mas ser ingrato para a generosidade de dezasseis camponeses, sem os quais «não teria sido escrito este livro», Levantado do Chão (1980), custa a admitir. Some-se a terceira parte: «À memória de Germano Vidigal e José dos Santos, assassinados.», única mantida por José Saramago. É, também, um caso singular de redução.

Uma das mais divertidas cabe a Cela, após rasura do nome de Víctor Ruiz Iriarte em La Familia de Pascual Duarte: «Dedico este libro a mis enemigos, que tanto me han ayudado en mi carrera.»[8] Retiramos do diário madrileno ABC outra, significativa: Heidegger dedicou Ser e Tempo “A Edmund Husserl, con admiración y amistad”[9]. Não era caso para menos, se lhe ofereceu a sua cátedra. Em 1941, já Heidegger membro do partido nazi, e Husserl perseguido por ser judeu, suprimiu-a na quinta edição. Outros acrescentam-na, de edição para edição, à medida que nascem, por exemplo, filhos. 

 

  1. 6. Aqui chegados, vimos o protector secular em figura de dedicatário, requerendo discurso à altura, eloquente, figurado; se possível, motivador do que lhe é oferecido, seja por qualidades declaradas, seja por heroicidade, ainda que de empréstimo. Não se imagina quão presente está, assim, o conde de Oeiras e marquês de Pombal. Daí, a lista dos títulos de glória, que envolvem o nome de um ilustre: Manuel de Galhegos tem que os reduzir em Templo da Memoria: poema epithalamico nas felicíssimas bodas do Excelentíssimo Sr. Duque de Bragança e de Barcellos, Marquez de Villa-Viçosa, Conde de Ourém, etc…(1635), e o mesmo João Soares de Brito, em Apologia em que se defende a poesia do príncipe dos poetas de Hespanha Luís de Camões, no canto IV, da estancia 67 a 75, e canto I, estancia 21; e responde ás censuras de um critico destes tempos. A João Rodrigues de Sá Menezes, cavalheiro da Ordem de Santiago, Camareiro-mor d’el-rei D. João IV, etc., etc… (1641). A prática é corrente.

 Quando se lhe atribuem méritos no próprio texto, porque o inspirou ou facilitou, essa espécie de co-autoria envaidece um e segura o outro, inclusive, nas relações entre literatos, cujas invejas fuzilam. Em era inquisitorial, a dedicatória representa segurança, tença, emprego; contra eventual castigo público, significa reconhecimento e molde de integração. Se necessário, acaricia-se inquisidor, qual obrou livreiro com Os Lusíadas do grande Luís de Camoens, Príncipe da poesia heróica. Commentadas pelo licenciado Manuel Corrêa. Dedicadas ao doutor D. Rodrigo d’Acunha, inquisidor apostólico do Sancto Officio de Lisboa. Por Domingos Fernandes, seu livreiro (1613).

Convém olhar a destinações especiais: entidades civis, como em Frei Luís de Sousa, Vida de Dom Frei Bertolameu dos Martyres… (Viana [do Castelo], 1619), “À Câmara e Governo da Notável Vila de Viana”; feminina, para lá de Nossa Senhora: v. g., “Á Illvstrissima / Senhora Dona Lvisa / Covtinha, Condessa do Sabvgal, &c.”, em Duarte Pacheco, Epitome da Vida Apostolica, e Milagres de S. Thomas de Villa Nova, […]» (1629); familiar: seja filial, como em Os Novíssimos do Homem, ou conjugal, como em El-Rei Junot (1912), de Raul Brandão, “A Maria Angelina”, já reverenciando avô em Os Pescadores (Paris, 1923): “À memória de meu avô, morto no mar”; e discipular, “Ao Mestre Columbano”, em Húmus (Porto, 1917).

Impresso ou manuscrito, é um jogo de reciprocidades, que o editor substitui, no século XVIII, ao afixar na portada as suas insígnias e permitindo-se dedicatórias, timidamente assumidas nos séculos anteriores. Neste trânsito da aristocracia para o livre comércio, não isento de enganos e roubos em tiragens e contrafacções, entreabre-se a questão dos direitos de autor, que revê a propriedade literária, em vigor desde Quinhentos.

A dedicatória pode, agora, reduzir-se ao mínimo – algumas trazem água no bico, tal a secura de “A Eça de Queiroz // Machado de Assis // 16-4-92”, em exemplar de Quincas Borba –, a uma interrogação subvertora[10], a misteriosas iniciais e personagens, ou nome não identificado, mesmo aleatório, e, até, desaparecer. Este «degré zero» não significará, parafraseando G. Genette (p. 126), que ninguém merece esta obra ou que a obra não merece ninguém? Isso não impede que obras-primas da literatura mundial primem por essa ausência…

 

  1. Não é o caso do manuscrito, mesmo se alguns adquirem a importância do impresso, ou lhe são superiores, se caligraficamente retrabalhados por autor ou artista emérito. Em manuscrito, é-se escritor; autor, no impresso – que, muitas vezes, só existe como pessoa na interposta dedicatória. Mas em manuscrito também se cria uma identidade e se confere autoridade ao texto – seja embora entre nome próprio e fingido, ou entre dois fingidos acrescidos de nome próprio, Tomé Pinheiro da Veiga. Assim é na “Dedicatória” sobre a amizade de Fastigínia (1605; 2011), reiterando uma autoficção: Fr. Pantaleão, que houve achamento das histórias, dirige-se a Jorge Calepino.

A história manuscrita talvez comece em 1418, quando se inicia a redacção de Dos Benefícios, pelo infante D. Pedro (1994), que Frei João Verba refundiu até 1433 como Livro da Vertuosa Benfeytoria, contendo no fol. 1r: “Muy alto príncipe, de grande poderio, e muyto honrado e prezado senhor iffante Eduarte, primogénito herdeyro dos reynos de Portugal e do Algarve” –, e prosseguindo até 2r, antes da tavoa. Por 1437-1438, D. Duarte compõe o Leal Conselheiro e extensa carta à rainha D. Leonor, sua mulher

Na fronteira do manuscrito potenciando impresso está “Incendio” (1914), soneto autógrafo de Augusto Santa-Rita, reproduzido no Catálogo de Um Seleccionado Leilão de Manuscritos, Autógrafos e Fotografias (p. 113), realizado em Lisboa (13-XII-2008). Interessa a particular autodedicatória, «A mim mesmo», que alegraria G. Genette: «[…] je ne vois manquer, dans cet ensemble un peu déviant, et sans doute ludique, que l’autodédicace, ou dédicace à l’auteur par l’auteur lui-même» (p. 25).

Posto o que, desde finais de Setecentos, lá fora[11], e, em Portugal, desde, ao menos, os anos 40 de Oitocentos, de A. F. de Castilho e A. P. Lopes de Mendonça a Camilo, é fácil encontrar a fórmula repetida contaminando frontispícios, qual um de António Augusto Teixeira de Vasconcelos, em exemplar de A Ermida de Castromino (1870): «Ao seu excellente amigo / Conego Lima / em testemunho de affectuosa saud.e / offerece / A. A. Teixeira de Vasconcellos». Troca-se o poder ou sangue azul pela nobreza de coração e de carácter. O copista quase desaparece; e, mau grado discurso pobre, comove a letra de intelectuais que quase vimos viver

Os cuidados a haver não são poucos, a tal ponto uma dedicatória nos compromete. É rara a dedicatória que exprima o máximo de consideração ao negar-se a dizê-la, por escrito; veja-se Antero, em exemplar dos seus Sonetos (1861) oferecido ao dilecto Alberto Sampaio: «Para o meu amigo Alberto, não são necessarios cavacos na primeira pagina d’este livro.» (Faria; Martins, 2012: 60) No calor da Questão Coimbrã, escreve Castilho a Camilo, em 20-I-1866: «Ramalho Ortigão remetteu-me um exemplar do seu opusculo precedido d’um oferecimento muito cortez. Ainda o não pude lêr. Mas se é como me informão em termos urbanos, hei-de tomar conhecimento d’elle, e responder ao autor. Seria confundil-o com os Theophilos e Antheros, [...].» (Costa, 1924: 47). Dois dias depois, nova carta e transcrição de dedicatória: «Ao seu inegualável mestre o Ex.mo Sr. Antonio Feliciano de Castilho em testemunho de lealdade litteraria offerece respeitosamente o auctor.» (p. 48) Em ar de balanço, Castilho concluirá, nesse 22-I-1866, que «as palavrinhas melifluas do offerecimento» escondiam «o rancor de um malcreado»! E a estocada: «Era o Ramalho a desfarçar o Ortigão.» (p. 49)

 

  1. 1. Se a assinatura é fundamental, a par do nome de quem recebe (sem o qual há mero autógrafo, e, às vezes, incompleto[12]; agora, Deus, a Virgem Maria e os mortos não são convidados), lugar e data dir-se-iam convenientes; em última instância, só o lugar é prescindível. Outra condição é a legibilidade. Aproveita-se a folha de rosto para sintaxar, eventualmente, com o título, e mesmo, para as mais longas, a folha de guarda. É o caso das dez linhas, nítidas e separadas, que preenchem o recto da folha de protecção de Maria Benigna (1933), que o autor dedica ao já não Presidente, mas assim tratado em família, até, pelo menos, aos netos: «Ao Ex.mo Senhor Presi- / dente, Dr. Bernar- / dino Machado, / meu prezado sogro, / homenagem do / seu mais devotado / admirador, enter- / necidamente. / Aquilino Ribeiro / Lisboa Nov. 1933.» (Rêgo, 1981) Não há regra na escolha da lauda (de ‘laudare’, que serve para louvar dedicatário, impresso ou manuscrito).

Além dos exemplares contratualmente oferecidos ao autor e tradutor, há um certo número a remeter à crítica e autores ou amigos da editora. Maratona desagradável, segundo a fórmula ‘A / Ao / Para X com a admiração de Y’ – em que só a ‘admiração’ varia, eventualmente justificada em prosa breve –, treina-se este numa assinatura, que alguns saberão falsificar, depois de outros autógrafos forjados.

O negócio da dedicatória (às vezes, do simples autógrafo) é rendoso, multiplicando o preço.  

 

  1. 2. Daí, as sessões de lançamento e de autógrafos, com preço muitas vezes de favor. Ao lado de compras vultosas por organismos, para que também urge assinar dezenas de exemplares, ou de pedidos especiais e aquisições em circuito fechado (com a diferença de que empresas patrocinadoras não são um clube do livro, embora a qualidade gráfica do objecto melhore, sugerindo dedicatórias mais compassadas), temos as regulares sessões de lançamento e de autógrafos, abertas a todos, num ou vários locais, dentro e fora do país. A escolha do dia foge a constrangimentos sociais, caindo, sobretudo, numa terça ou quinta-feira. A sociedade do ‘croquete’ faz sala; a imaginação autoral ensaia a boa gramática. Em casos restritos, há repasto só para jornalistas.

No ciclo do livro, chega, um dia, a vez do alfarrabista, mesmo se algumas livrarias podem assegurar exemplares dedicados. As indicações de catálogo procuram valorizar exemplar dito «Com uma dedicatória autografada do autor», ou dita «expressiva», justificando, assim, os preços. Desde notícia em papel à Internet, a sedução desliza.

 

  1. 3. Mas não é nesse frenesi que encontramos as melhores espécies. Reunir dezenas de formulários debitados em horas de tortura pessoal não é instrutivo: investe-se no formulário; evola-se muita hipocrisia, além de falsa admiração; resulta melhor quando no silêncio da dedicatória única. Nascem, deste modo, verdadeiros inéditos – seja poema, carta, etc. –, geralmente, à entrada do impresso, que também pode ser alterado na perspectiva de variantes. Há uma, curiosa, «dactiloscrita em folha adicionada ao interior da capa da publicação» de A. Cortez Pinto oferecida a Mário Saa, segundo Pereira (2010: 76), que rastreia centenas de dedicatórias a este dirigidas. A Livraria Antiquária do Calhariz anunciou, no 4.º Boletim Bibliográfico (2008: 45), a 2.ª ed. de Do Tempo ao Coração (1966), de David Mourão-Ferreira, «valorizada pela extensa dedicatória pelo autor, ao jeito de carta, a um casal de amigos pessoais. Esta edição é constituída por uma versão inteiramente nova do trecho incluído na página 29, sob o título de “Coração”.» Cada exemplar diverso completa a obra, mais evidente em exercícios antigos de Herberto Helder, corrigindo-se à mão, em exemplares impressos, na inspiração do momento: o momento da dedicatória é o de outra escrita. E interrogar-me sobre que dedicatórias manuscrevem dedicatários impressos: por exemplo, Aquilino Ribeiro Machado, em Arca de Noé, III Classe (1935), ou a filha Mariana Ribeiro Machado no Livro da Marianinha (escrito em 1962, editado em 1967), que o avô Aquilino lhe dedicou.

Não nos restrinjamos, contudo, aos suportes consabidos. Mostrei a vantagem de estudar almanaques, álbuns, leques, carteiras, objectos de cerâmica (Rodrigues, 1999: 37-64), onde também cristalizam dedicatórias. Reproduzidos em As Mãos da Escrita (Duarte, Oliveira, 2007: 344 ss), juntemos convites e menus, agendas, etc. A páginas 357-358, deparamos com diário dedicado, em 11. 4. 73, «À menina Margarida Victória, “luz dos meus olhos” (como se dizia em tempos): […]», por V. Nemésio. Em exemplar de Ode ao Rio / ABC do Rio de Janeiro (Rio de Janeiro, 1965), com dedicatória manuscrita a Maria da Costa Parreira, já Nemésio inscrevera um «à memória de» cinco amigos, duplicando com oferecimento aos familiares.

Mais doloroso é quando as relações azedam, e se rasga ou risca dedicatória. Se o livro é vendido com aquela (desde que não seja para instituições), degradando-se na rua, deve o dedicatário adquiri-lo e reenviá-lo ao ingrato, com segunda dedicatória…

Destinatários maiores eram, num tempo revoluto, certos editores, amigos dos seus autores. Foi o caso de Agostinho Fernandes, da Portugália Editora, como provam 28 dedicatórias reproduzidas no livro com que os netos o homenagearam (Santos, 22008). Luís Amaro, cujo Diário Íntimo (s. l., 32011) é alfobre de sinais amigos, tornou-se também, entre nós, dos principais dedicatários, com largas saudações do estrangeiro. Entre algumas de página cheia, realço as de Régio, e, destas, um desenho a cores de menina (Vila do Conde, Março de 1968) acompanhando texto contíguo ao título de Histórias de Mulheres. O poeta brasileiro Ribeiro Couto dedicou-lhe Dia Longo (Poesias Escolhidas): «A Luís Amaro, pai, parteiro e padrinho desta criança manhosa – artista de rara sensibilidade, amigo seguro, colaborador perfeito, com a gratidão do Ribeiro Couto / Lisboa, 24-X-1944.» Vergílio Ferreira dedicou-lhe exemplar da 3.ª edição de Mudança: «Ao Luís Amaro / que não sendo ‘pai’ dos meus livros, é todavia quase ‘tio’ ou ‘padrinho’ pela assistência que lhes tem dado, / com o abraço amigo / do Vergílio Ferreira / Lxª, 5 Maio 969». Eugénio Lisboa fê-lo, de forma impressa, «colaborador» de José Régio. A Obra e o Homem (1976) e, em dedicatória manuscrita na edição de 1987, «primus inter pares regianos». Em Uma Época no Inferno (1960), o tradutor Mário Cesariny de Vasconcelos considerou-o «introdutor portucalense / de Rimbaud», porque editado na Portugália, onde Amaro trabalhou entre Setembro de 1942 e Março de 1970. Com Luís Amaro fecha-se o círculo antigo do ‘protector’, não financeira ou politicamente forte, mas companheiro atento e generoso. Este ensaio é-lhe dedicado[13].

Ernesto Rodrigues, Ensaios de Cultura, Lisboa: Theya, 2016. [Excertos. Omite-se, também, a Bibliografia.]   

Personalidade cultural portuguesa

Ao abordar “As épocas da cultura portuguesa” (32007: 109-153 [112]), sugeriu António José Saraiva quatro critérios: a perspectiva mítica; a relação entre topo e base, situando naquele a força económica e política, não forçosamente cultural; a nossa pertença «ao sistema cultural europeu-ocidental», que já fora somente peninsular, na tensão lusitana com o lá fora; enfim, «o valor para cada época do signo linguístico e, portanto, do próprio discurso», seja, o difícil convívio entre palavras e coisas (ou a realidade), quando somos seres discursivos, em que se joga a ideologia.

Face aos 54 textos reunidos em Filhos de Saturno[1], precedidos de um Prólogo ‒ tomando o sexénio pós-abrilino como etapa decisiva na construção democrática, para Saraiva, fracassada ‒, poderíamos enquadrá-los nessa quádrupla vertente, de acordo com os assuntos tratados, alguns dos quais citamos: Cinco de Outubro e República de 1910, D. Sebastião (indexado pelo título “Loucura e História”), Tecnologia e Progresso, Vinte e Cinco de Abril; Sociedade de abundância e de consumo, Capitalismo de Estado e privado, Pauperização; Cristianismo e Marxismo, Descolonização, Eurocomunismo, Leninismo, Multinacionais, Social-Democracia; Capitalismo, Cultura, Direita, Esquerda… Há outras maneiras de ler este volume: a) cronologicamente, de 14 de Janeiro de 1974 a 26 de Outubro de 1979: nesse caso, o Prólogo, de 13 de Janeiro de 1980, fica para o fim, síntese e cúpula; b) pelo índice, seleccionando de acordo com a nossa mundivisão; c) por temas, seguindo a Tábua, alfabeticamente.

Salvo três inéditos de 1974 e um quarto de 1977 [“A seta e o anel (Notas sobre o ‘Progresso’)”, o mais longo, notabilíssimo, nascido de palestra), a cinquentena foi publicada no Jornal do Fundão, República, Diário Popular, Vida Mundial, Critério e, sobretudo, no Diário de Notícias. Outros teriam cabimento, entretanto coligidos por Maria José Saraiva (2004). Justificava-se, nesse alinhamento de época decisiva para nós, e quando mais interveio o Historiador da Cultura, que entrassem os seguintes: «O essencial e o acessório (a propósito de Soljenitsine)», Diário Popular, 18-III-1974; «Economia e democracia política», Vida Mundial, 9-I-1975; «Não se salvou o nome do país nem a honra das Forças Armadas», O Primeiro de Janeiro, 25-II-1979; «A diplomocracia», Diário de Notícias, 31-VIII-1979 (sucedâneo do texto 32, de 10-XI-1978); e, da quinzena de artigos no Diário de Notícias em 1980, teria sido bom fechar com «Política» (1-III-1980), síntese do que deve preocupar governantes e governados (estes confundem ‘governantes’ com ‘políticos’), exemplar de como Saraiva trabalha a relação entre palavras e coisas e argumenta singela mas poderosamente: se, como se julga, a política fosse «a arte de bem governar a cidade», então, «não haveria diferença entre política e administração»:

 

A arte de bem governar é a arte de bem gerir e administrar os seus recursos em proveito de todos os membros da comunidade, de manter a ordem necessária para a vida em comum, etc. Se a política fosse isso, um poder paternal seria o melhor governo, e o melhor político seria o melhor administrador, o que é falso com toda a evidência. O bom administrador percebe de coisas, mas nem sempre de pessoas. […]

A política é um jogo de paixões, de um certo tipo de paixões. […] [É] o estado social resultante das paixões em jogo.

Que paixões? Aqui temos de distinguir os protagonistas e o coro, os manipuladores e os manipulados. Os primeiros podem servir-se da política para satisfazer os seus fins particulares: […] Mas os que estão no coro e só têm voz passiva, esses são movidos por uma espécie de paixão pública e abstracta, como a paixão da igualdade, a paixão da justiça, a paixão da liberdade, a paixão «patriótica» ou tribal, etc. Os melhores políticos activos são aqueles que, em cada momento, sabem apostar na paixão dominante, por ser a de maior número ou por ser a mais dinâmica nas circunstâncias. Lenine jogou na paixão igualitária, Hitler na paixão tribal. 

 

O «jogo de paixões» de Saraiva transcende o realismo cínico de Paul Valéry (1960: 947) ‒ «La politique fut d’abord l’art d’empêcher les gens de se mêler de ce qui les regarde. À une époque suivante, on y adjoignit l’art de contraindre les gens à décider sur ce qu’ils n’entendent pas» ‒, apelando à confluência, no mesmo indivíduo, de sábia administração das coisas e domínio pertinente da emoção colectiva.

Qual a importância, pois, deste olhar lustral de um grande pensador, vencido quadragésimo aniversário nostálgico dessa luminosa quinta-feira de 1974, que tantas esperanças deixou pelo caminho?

Na última semana de 1973, quando troca Amsterdão pelas férias do Natal em Paris, onde celebra 56 anos, A. J. Saraiva espelha indecisões:

 

Outro problema é decidir-me por um caminho de investigação. Continuo muito tentado pelo problema da relação entre língua e literatura. Mas também me fascina o estado dessa coisa particular que tem o nome de Portugal (a problemática dos meus artigos na Vida Mundial). Tenho a mitomania das grandes catedrais ‒ o que me levaria a continuar noutro estilo (como as catedrais românticas continuadas em estilo gótico ou até barroco) a História da Cultura. E estou indeciso quando o tempo urge[2].

 

A tripla frente ‒ investigação, Portugal, História da Cultura em Portugal ‒ está em vias de resolver-se, com a chegada de Abril. Ter assistido, em Lisboa, ao Primeiro de Maio fá-lo declarar: «Mas é claro que já não tenho nada que fazer aqui. Agora ainda me sinto mais exilado e quero voltar definitivamente.» A vida «controlada e computada» (p. 385) dos holandeses, contudo, serve-lhe de exemplo para tratar de tecnologia e suas perversões.

Concomitante, essa «coisa particular que tem o nome de Portugal» começa a impor-se, seja em reforçada intervenção jornalística, seja no regresso, em 1975, à Universidade portuguesa, a qual exige uma revisão profunda a quem estava ausente desde 1959. Assim, no domínio académico, o reencontro desemboca em cinco capítulos notáveis, redigidos entre 1977 e 1980, coetâneos do corpus de Filhos de Saturno, o terceiro dos quais nos serve de pano de fundo: «Génese da nação portuguesa»; «A língua»; «Algumas feições persistentes da personalidade cultural portuguesa»; «As épocas da cultura portuguesa»; «A literatura tradicional do povo português».

Desejando dar rosto novo e outra metodologia à História da Cultura em Portugal (3 vols., 1950, 1955, 1962), esse quinteto compõe A Cultura em Portugal. Teoria e História. Livro I. Introdução Geral à Cultura Portuguesa, cujo Livro II traz o subtítulo Primeira Época: A Formação (1991, 22007). Nos anos 60, julgou poder entrar pelo Barroco e períodos seguintes, revendo, e concluindo, a monumental História da Cultura em Portugal, esgotadíssima. Sobreveio a morte, em 1993; reeditar-se-ia, pois, o remanescente, já não revisto pelo autor. Assim, Leonor Curado Neves deu Renascimento e Contra-Reforma e Gil Vicente, Reflexo da Crise (2000); eu acrescentei As Navegações e as Origens da Mentalidade Científica (2011), fechando um quarto volume com O Humanismo em Portugal (2013). Não confundir o saldo final destes seis volumes com os dois de Para a História da Cultura em Portugal (1995-1996).

Vejamos, pois, desse Livro I, “Algumas feições persistentes da personalidade cultural portuguesa” (32007: 75-107), de modo a conjugar na imagologia epocal do autor os mais contingentes textos de Filhos de Saturno.

 

António José Saraiva serve-se de índices «relativamente consistentes», em que também funda estes Escritos sobre o Tempo Que Passa do subtítulo: factos históricos significativos nos séculos XVI e XX; jogos com a língua e sua manipulação; instituições, algumas reduzidas a siglas hoje custosamente entendíveis, e tendências sociais; observações de estrangeiros e de portugueses; documentos contrastantes «de costumes e mentalidades» (p. 78); enfim, literatura e artes, reflexões sobre Autor e Escritor, ou dedicadas à Verdade.

Geografia, história e língua favoreceram um Estado-nação homogéneo e coeso (monolítico, mesmo), opondo-se, desde as origens, à maciça Castela e à mourama. A geografia, complementando Norte e Sul, intercambiando valores, oceaniza-se. As diferenças económicas e climáticas «nunca foram bastante acentuadas para criarem pólos de poder ou de irradiação cultural» (p. 80). Têm-se sucedido, quando não coexistido, topografias centrípetas, desde Guimarães e Coimbra: Lisboa nem tudo absorve − a força das capitais é contrabalançada por outros núcleos −, sendo inquestionável a sua excelente colocação ibérica, que os Filipes desaproveitaram.

Decidida a independência em Aljubarrota, urgia sustentá-la economicamente: Ceuta fez-se, por isso, «aventura fora da Península». Em O Crepúsculo da Idade Média em Portugal (1988), Saraiva vê Ceuta como primeiro passo na retaguarda guerreira que constituíam as descobertas, face à ameaça turca, antes de estas serem olhadas como mercantis.

No que ele define como consequência − «um certo sentimento de isolamento, porque, entre a Europa e Portugal, Castela tem funcionado como um deserto isolador […]» (p. 81) −, leio eu um pressuposto, ou condição para outros voos. Discorre, então, sobre as características dessa ‘personalidade cultural’, via-sacra que justifica atitudes e opções combatidas em Filhos de Saturno.

Habita-nos, desde logo, um espírito de ilhéu, «oscilando entre a aventura fora e a passividade dentro, ou ainda vivendo a aventura pela imaginação, sem sair do mesmo lugar». O português inferioriza-se, «refugiando-se numa auto-ironia perfurante, como a de Eça de Queirós, ou numa autocrítica flageladora da sua própria história, como em Oliveira Martins; ora incha o peito para desafiar o mundo ou para o conduzir, […].» (p. 82) Estamos perante um humor entre a chacota e a auto-ironia de Zé Povinho, que, a espaços, de si mesmo se condói, na lucidez que faltava aos fidalgarrões de Seiscentos verberados por Tomé Pinheiro da Veiga, em Fastigínia (1605), obra que recusa, porém, aquela inferioridade. Num arrasador «Panegírico do oportunista»[3] após o 28 de Setembro de 1974, a verve vira sarcasmo: não só lamenta o passivo e resignado, como alerta para o oportunista competente e talentoso em tempos de viragem…

Ao messianismo, crente num destino providencial, associa-se o complexo da saudade, por sua vez, ligado ao amor «à portuguesa, que parece comprazer-se na distanciação» (p. 84). Não me parece: a distância é inelutável, João Zorro traz, mesmo, suidade[4], traduzindo-se em coita[5] – cuja enunciação pode envolver comprazimento, ou significar culto da dor, esse «gosto de ser triste» (p. 86), que perpassa no fado −, mas, ainda na morte, amor deseja-se à beira, como nos túmulos de Pedro e Inês, ou no noivado sepulcral de Soares de Passos. Em Filhos de Saturno, a variante sebástica sai zombada; os messianismos políticos, seja no molde estalinista, em estruturas partidárias, personalizados em Álvaro Cunhal ou Mário Soares, não merecem confiança. A Constituição de 1976 é outro fantasma, que um referendo (reiterada paixão do autor) poderia ter exorcizado[6]. Quatro décadas depois, impõe-se que os deputados e refundadores do sistema eleitoral conheçam estes textos.

Demos cursivo a outros traços nacionais. A obliquidade das relações transfere o tratamento binário tu / vós para um sistema ternário, «um tratamento oblíquo na terceira pessoa (usando o nome do interlocutor, o que parece ser uma maneira de evitar o frente-a-frente; ou o você de amizade, […]», quando não outros, acrescentemos: o senhor, o pai, etc. Nego, pois, que não haja equivalente a Monsieur, como Saraiva diz, para «interpelar alguém fora da sua intimidade» (p. 85). O supracitado humor agre e auto-irónico «É talvez uma forma de protesto também oblíqua, uma compensação do sentimento de inferioridade colectiva, tão frequente em Portugal» (p. 86), «subalternidade» que Eduardo Lourenço (72010: 27) situou nos 60 anos de dominação filipina. “Cravo de Maio flor da liberdade” (texto 3) é a expressão de que, «sem Messias», almejamos ser LIVRES, maiúsculas reiteradas como só veremos em DESCENTRALIZAÇÃO, ao defender, ainda em Maio, “Eleições” locais ou parciais (autárquicas, sindicais, empresariais; texto 2). 

A doce, dorida religiosidade, sem a veemência castelhana, revê-se no culto de Maria («que tem sem dúvida raízes psicanalíticas», 32007: 88), tão presente no onomástico, e no culto dos mortos. Mas nem estes nos criam interesse pela filosofia (aliás, nem pela teologia), nem aquela religiosidade pelo misticismo: graduamo-nos em história pátria, na aguda consciência nacional, limitados a uma historiografia que favorece «um contemplativismo passadista, uma procura da idade do ouro no passado – uma forma, afinal, de saudosismo» (p. 90). É um parágrafo não desenvolvido em Filhos de Saturno, que só compara “Cristianismo e Marxismo” (texto 50) ‒ muito pouco, na conjuntura de 1979, e mais em 1975, quando os púlpitos do Norte colaboraram no incêndio de vidas, automóveis, sedes partidárias, como se fosse entendimento do Céu danar aos bens das esquerdas…

O aldeanismo – a aldeia na corte – é uma velha guerra contra a cidade e o aristocrático, na arte ou na escala social. Poderia significar democraticidade, mas virou ilusão; ser conúbio de estratos (popular e erudito), mas fez-se demagogia, impotência. A cantiga de amigo deslustrava o provençal; nacionalizou-se, porém, a redondilha; e, aclamados bastos poetas fáceis, a indigência cresceu, como nas letras do fado, na langue de bois partidária, no cada vez mais pobre discurso familiar. A ficção pós-camiliana ressente-se de luta surda: na falta de espaços citadinos com vida própria, recorre a modelo estrangeiro. A linguagem vê-se no fio, gasta, serva, instrumentalizada; e, pedagógico, explicador de palavras para entender as coisas, iluminando os valores do signo, Saraiva faz profilaxia etimológica, semântica e moral. É uma das suas especialidades, ou não fosse autor do Dicionário Crítico de Algumas Ideias e Palavras Correntes[7]

Aquela estrangeirização tem implicações socioeconómicas, na ausência do espírito burguês, desse burgalês (séc. XI; de burgalense) ou burguês medieval com direito de cidade – de burgo [burgus], datável de 1123 –, um empreendedor distinto do aristocrata e do lavrador, cujo comércio o alcandorou, em Setecentos, a classe social: ao contrário dele, ora nos sacrificamos para bafejar herdeiros, ora vivemos no luxo possível e impossível, sem investir o acumulado, como se fosse pecado multiplicar o dinheiro. Não se trata de especulação, de simples numerário, aquela e este regularmente criticados pelo autor. Mercado e tecnologia (o «ferramental» do capitalismo) desembocam em número, no alegadamente ‘científico’, não forçosamente em produtividade e, menos ainda, em liberdade. Logo, onde reside o progresso, a tal ponto discordam estrangeiro e nação, se dissociam topo e base? É uma velha preocupação, recorrente em Filhos de Saturno, sobre que também sintetizava em carta a Óscar Lopes:

 

A verdadeira revolução terá que ser espiritual. O homem é agora feito por e para o mercado […]; o que é preciso é que o mercado seja feito para o homem. […] Estou muito pessimista quanto ao processo do «progresso», que é fundamentalmente um automatismo de mercantilização, lógico, mas humanamente irracional. É preciso procurar outra forma de organização das relações humanas, incluindo a relação do homem com as coisas. (22005: 405)

 

Nesta parte, seria útil confrontar a imagem de jardim à beira-mar ‒ «reserva bucólica de uma Europa em acentuado processo de urbanização de técnica e tecnicismo» ‒ com o esforço progressivo fontista, lendo, diverso daquele aldeanismo, Portugal como «uma espécie de aldeia orgulhosamente feliz na sua marginalidade, na sua diferença», que o salazarismo disfarçou em «dimensão imperial imaginária» (Lourenço, 2014: 303-304). 

É de ordem cultural, mais do que biológica, e um facto político (se representa povoamento), a «tendência para a miscigenação com outros povos» (32007: 96). Saraiva vê este processo como «uma certa liberdade em relação às fronteiras culturais, uma certa promiscuidade entre o Eu e o Outro, uma certa falta de preconceitos culturais, a ausência do sentimento de superioridade que caracteriza, de modo geral, os povos de cultura ocidental». Demasiado bondoso nestas últimas palavras, é facto que, face ao mais ocidentalizado, a nossa atitude «é a de ensimesmamento, de refluxo» (p. 98) sobre nós mesmos, próprio de espírito ilhéu, que nova globalização vem derrotando[8]. Justificado o desinvestimento comercial, quando o português de Quatrocentos tanto arriscou, parece ter-nos acontecido, após Quinhentos, um país póstumo, suficientemente apático para, no momento da escrita, ser embalado vez primeira pelo FMI ‒­ Fundo Monetário Internacional. 

Poderemos, de tanta passividade e ares contemplativos, deduzir uma celebrada brandura de costumes, que um Miguel Torga contesta, desde as guerras civis de Trezentos à hipocrisia de não matar o touro na arena? Ocorre brandir a humanidade da abolição da pena de morte; os efeitos, por baixo, de algumas batalhas; e, na relatividade destas condutas, dar nota de chacinas, lá fora, que nos relegam para o fundo das tabelas. Será «uma certa aversão ao espectáculo público do assassínio, a piedade pelos mortos e supliciados, o horror do sangue», mau grado tantos autos-de-fé? Referida a «maviosidade» (p. 100) lusitana em Fernão Lopes, justificar-se-á tal, acaso, «por uma certa sensibilidade à flor da pele, ou pela falta de firmeza nos juízos sobre o próximo, ou pelo esquecimento das culpas, ou pelo baixo tónus de agressividade» (p. 101). A desorganização, o instintivo, o «logo se vê», uma brandura que é medo, fuga ou desinteresse, agem contra nós. Se se fizer um jeito ou favor, por interesse ideológico ou outro, cai-se em não poucas vergonhas. Entrevêem-se as razões maiores para o falhanço do 25 de Abril, segundo Saraiva.

A conclusão, ou décima quarta estação desta via-sacra caracteriológica, remete para um povo não propriamente guerreiro, em valores e actos, mas, tão-só, «um povo obstinado quando se trata de defender o terrunho. A padeira de Aljubarrota é, possivelmente, o melhor símbolo do espírito guerreiro português.» (p. 103) Seja esta heroína exemplo menos feliz, não é pequeno espanto a resistência ao Castelhano, que Agostinho da Silva considerava feito maior que os descobrimentos, conquistas e ultramares. Hoje, as defesas são um trabalho rigoroso e honesto, que, produzindo (idealmente, reproduzindo-nos), esquive a corrupção. Ora, começam aqui e no parágrafo anterior os problemas.

 

[1] De 1980, na Livraria Bertrand, há correcções pertinentes na minha edição (32015): passagem de controle a controlo, de massivo (e seus derivados) a maciço e reforço da pontuação.

[2] Carta de 24-XII-1973. Ver António José Saraiva e Óscar Lopes: Correspondência, 22005: 375.

[3] Este texto 15 de Filhos de Saturno não vem registado na preciosa “Bibliografia de António José Saraiva”, organizada por Leonor Curado Neves, que encerra Estudos Portugueses. Homenagem a António José Saraiva, Lisboa: Instituto de Cultura e Língua Portuguesa / Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 1990.

[4] «Mete el-rei barcas no rio forte; / quem amigo há, que Deus lho amostre: / alá vai, madre, ond'hei suidade!» ((B 1156, V 758)

[5] …Se não for irónica: «Isto é quanto à saudade / que eu dela posso ter», diz, em relação à mulher que dele se afastou, interlocutor na vicentina Farsa dos Almocreves, 1526, versos 461-462.

[6] Os três artigos que à questão constitucional dedica em 1978, no Diário Popular, são respondidos por Óscar Lopes na Correspondência (p. 415-418; contra-resposta nas p. 422-423).

[7] 1960; na capa, Dicionário Crítico, Lisboa: Gradiva, 1996.

[8] Giddens, 42005: 53, define globalização como «a intensificação das relações sociais de escala mundial, relações que ligam localidades distintas de tal maneira que as ocorrências locais são moldadas por acontecimentos que se dão a muitos quilómetros de distância, e vice-versa». Analisa quatro dimensões da globalização: economia capitalista mundial, sistema do Estado-nação, ordem militar mundial, divisão internacional do trabalho. «Uma das principais características das implicações globalizadoras do industrialismo é a difusão universal das tecnologias da máquina.»

 

Ernesto Rodrigues, Ensaios de Cultura, Lisboa: Theya, 2016. [Excerto.]   

Caracterizações do ser nacional

Os Elementos Fundamentais da Cultura Portuguesa, de Jorge Dias, devem ser vistos, antes de mais, no quadro do Estado Novo ‒ representativo de um I Colóquio Internacional de Estudos Luso-Brasileiros (Washington, 1950), enquanto retrato antigo, mas não menos polémico e fecundo.
Desde os nossos primórdios, onde quer que os situemos – na Antiguidade, com suas colónias de fenícios, normandos, celtas, romanos, até aos suevos, visigodos e árabes –, a influência do exterior é inegável e criadora de antinomias. Propiciando diversidade cultural, aquela alargou-se em conquistas políticas descendo do Norte celta e germânico ao Sul mediterrânico e berbere; com a crescente maritimização, e sucessiva litoralização do país, soltou-se para uma diversidade geográfica global que ainda hoje nos interpela. A Expansão descobre, acha, encontra e, tolerante, no seu espírito mercuriano, aproxima a «gente ousada» camoniana (V, 41): «[…] Portugal é menos um país do que um povo em movimento, pois que aquilo que melhor o define é a Expansão. É essa a palavra-chave, sem a qual nunca se chegará a compreender a alma portuguesa. (Oliveira, 1944: 136) Quais os traços de personalidade daí decorrentes?
O Português é, primeiro, um «misto de sonhador e de homem de acção» – tanto cabe D. Sebastião como acreditar em jogos de azar; o que E. Lourenço contesta –, devotado a uma cultura de idealismo, emoção – com predomínio «sobre a paixão» (F. Pessoa, 1979) –, de imaginação – com predomínio «sobre a inteligência» (F. Pessoa, 1979), sem reflexão, donde, ausência de filósofos, místicos (mas não de espiritualidade, acrescente-se) e pensamento abstracto. Os gramáticos e doutrinadores dos séculos XVI-XVII elogiavam este tipo de pensamento; quanto a filósofos, muito boa gente discorda…
O desprezo do mesquinho, utilitarismo e conforto não obnubila o prazer da ostentação, seja riqueza ou luxo. Com temperaturas amenas, o interior das nossas casas é mais frio e desconfortável do que em regiões polares; o querer parecer vai de um consumismo inconsciente ao risco de se endividar ou aumentar o mal-parado bancário só por um capricho ou indissimulada vaidade. Somos, diria E. Lourenço (1978), pobres com mentalidade de ricos, vivendo, indivíduos e Estado, acima das posses, sem esconder a humildade do subalterno e resignado, do indiferente e pouco amável, caracterização que Jorge Dias esquiva.
Afectivo, de sentimento à flor da pele (e não acima da razão, se esta há muito foi ofuscada), o Português derrete-se, coração aberto, em bondade, empatia – «aquela capacidade franciscana, que Gilberto Freyre atribui aos portugueses, de amarem todas as coisas […]» (Oliveira, 1944: 31) – e, dirá o século XVII espanhol, ‘amorosidad’. Os exemplos fuzilam, desde a lírica medieval; e mesmo a tourada sem sangue na arena é mostra de afectividade. (Hoje, esta conversa fiava mais fino.) Não se nos chegue, todavia, a mostarda ao nariz; e, se crime existe, é passional, não vampírico, nem canibal ou com outras modulações.
A religiosidade vai pouco além da fachada milagreira, e, como a ermida singela ou igreja de porte, é simples, tranquila, acolhedora. Algum «panteísmo sentimental» quase só nos Jerónimos.
A adaptabilidade («instintiva», diz F. Pessoa [1979]) e capacidade assimilatória será duplo traço logo reconhecível, também em E. Lourenço (1988: 14; ainda assim, cria a nuance de «aparência de ductilidade»), que os malévolos reduzem a imitação, sendo certo que, desde o ombro estrangeiro originário, o macaqueio é grave infiltração: para E. Lourenço, «somos um país fascinado em grau patológico pelo estrangeiro» (1976: 23), o que conduz a «uma descentragem permanente […] da nossa própria realidade» (p. 77). Fidelino de Figueiredo (Últimas Aventuras, cit. em Oliveira, 1944: 163) é duro, a esse respeito: «Somos vaidosos como indivíduos, mas, ao mesmo tempo, estamos sempre prontos a declarar-nos inferiores como nacionais, pois que expontâneamente reconhecemos precisar das lições do Estrangeiro, ao contrário dos espanhois, que só na Espanha se inspiram.» A imitação, ainda que fosse poliglota, não enquadraria a tolerância bem entendida ou os efeitos e frutos da miscigenação. Há adopção e adaptação, mas não é por isso que se é «cosmopolita», como julga Castelo Branco Chaves.
Duas palavras sobre “Universalismo, particularismo ou cosmopolitismo”, seguido pela resposta de António José Saraiva, “O português e o universalismo” .
No calor das comemorações centenárias nacionais e da Segunda Guerra Mundial, aquele separa «um século de esplêndido universalismo» do génio «característica e acentuadamente universalista» que não temos (p. 11). Entende por «génio universalista a expressão original do que no homem existe de mais profundo e permanente, a elaboração de uma cultura, a criação de uma metafísica da vida e de um estilo de forma particular mas de entendimento universal». Perdão: não foi um, foram dois séculos:

Nos séculos XV e XVI a acção portuguesa no Mundo teve um alcance universalista nos domínios do temporal e, reflexamente, nas ciências de aplicação. A grandeza dêsse alcance só pode ser dignamente comparada à que, nos domínios do social e do moral, atingiu o cristianismo, e entretanto êste povo que realiza obra tão formidável e tão irresistìvelmente transformadora dos destinos do Mundo não enriqueceu a humanidade nem com uma filosofia, nem com uma religião nova, nem com outra cultura, nem com uma arte original. (p. 12)

Esta conclusão é lamentável: a humanidade por onde navegámos não reconhece cultura que ainda (sem razão, pelos vistos) dizemos portuguesa, e nem um resquício de ‘arte original’ se salvou. A relação com o mar, de frutos literários, científicos, humanistas – celebrados até num J. L. Borges, e não tomados como meras «fontes de informação» (p. 15) –, e nascimento de novas nações, é ignorada pelo articulista.
Hesitante no porquê dos Descobrimentos – «fatalidade geográfica» (p. 12), «propaganda e dilatação da Fé», «interesses económicos» –, concede, ainda assim, termos ‘cultura’, irresponsabilizando-se num «talvez» e na crítica ao «utilitarismo»:

Os condicionalismos mesológicos e económicos a que estava sujeita a empresa dos Descobrimentos, impondo ao português uma actividade de fins utilitários, prejudicaram talvez irremediavelmente a sua cultura. Esta só se gera, desenvolve e desabrocha ali onde o desinteresse seja a feição predominante. O utilitarismo pode fazer os povos grandes e fortes, mas não os faz cultos; por si só pode dotá-los com o saber científico e o aprfeiçoamento técnico, mas não lhes dará nem filósofos nem grandes artistas; […]. (p. 13)

Receoso de exemplificar com os impérios inglês ou francês, que nunca quiseram ser ricos nem poderosos, nem criar filósofos – é caso para concluir –, opõe o espírito de Atenas à Roma «brutal e apenas digna de secundário interêsse», mesmo na literatura. A crassa ignorância do articulista estabelece, então, uma analogia entre a «expansão imperial» romana e aquele nosso «grande empreendimento mercantil e guerreiro», o qual, cantado n’Os Lusíadas serviçais («ao serviço dêle»), faz com que, «talvez, seja nulo o valor humano dessa obra estèticamente tão bela». Outro «talvez» cobarde, em conclusão inadmissível. Sem «uma concepção de vida que lhe seja própria» (p. 15), o português lê-se à luz de «concepções alheias»: sem universalismo, o, apesar de tudo, «génio português [cursivo meu] é eminentemente plástico», e «Daí ser impreciso e vário, daí a facilidade com que apreende, imita e adapta, e a falta de singularidade no que realiza e expressa». Decorre que, além de não possuir «génio universalista», também não tem «um definido e afinado particularismo nacional» (p. 16), antes «um universalismo de forma sem unidade de estilo, e sem conteúdo intelectual e étnico», que se designa por «cosmopolitismo». Prova, risível: falar bem línguas estrangeiras (ainda que não fale bem a sua?). Informado? erudito? Sim; culto é que não. Sem «resistência interior que singulariza o carácter», sem «dramatismo que provoca o desajuste entre o que permanentemente se é, e tudo o que vai sendo a fantasmagoria da vida», conclusão derradeira: «O português, em suma, adopta e adapta-se – é cosmopolita.» (p. 18)
Na história das nações, não há génio universalista dado, ou permanente; vão de si os particularismos nacionais, afinal, corroborados nesta prosa; cosmopolitas, sim, mais ou menos em função das eras, eivados, mesmo, de um sentido estóico (que, por ser sobretudo romano, não lanço contra Castelo Branco Chaves).
O jovem António José Saraiva julga perceber que universal (a Expansão, por exemplo, é contingente, um facto) não é o mesmo que universalista, lei constante do espírito, do logos. Mas os gregos não foram contingência e um certo logos? Há um ‘génio universalista’, que só «certas raças» possuem, «conceito qualitativo» absurdo (p. 300)? Não haverá aí uma «concepção qualitativa, substancialista, mitológica, particularista» (p. 299) de ‘génio’? Donde, «uma contradição irredutível»:

Por um lado, o Autor define o universal em função do contingente histórico, separando as duas coisas: o universal está nas leis do espírito, mas, por outro lado, afirmando que os Portugueses – que são, como os Gregos, etc., um facto histórico – não trazem dentro de si «um génio universal», confundiu os dois planos que pretendeu distinguir. Assim, fêz o universal solidário com o contingente e avulso; assim, negou a lei pelo facto. Insisto na contradição: ou o logos é o universal e, portanto, não é específico de certas raças; ou se é específico de certas raças não é o universal.

Posto o que, é já outra conversa saber se «o logos floresceu mais entre os Gregos que os Portugueses» (p. 300), ou se não há «resistência interior» no Camões lírico (e porque não n’Os Lusíadas, que Saraiva, corroborante, ainda não abordara, como não estudara o século XVII que maltrata, na sequência?). Importam menos as derivas sobre o Sebastianismo, ou tão-só enquanto significando recusa de «uma atitude crítica», «de iniciativa», desembocando nisto:

O Português é, como qualquer outro povo, o resultado de uma conjugação de elementos, uma relação, um cruzamento de fios numa rêde. O logos, o universal, a inteligibilidade (três maneiras de dizer a mesma coisa) consiste em que êsse enredamento se torna compreensível e destrinçável. Se desistimos de o compreender, inventamos um D. Sebastião ou um absoluto, que simplesmente suprime o problema, negando a inteligibilidade das coisas. (p. 304)

Prosseguindo. Aquilino Ribeiro, no Guia de Portugal (“O Português”, 1924), coloriu-nos de «sociabilidade», e, paradoxalmente, inaglutinação; pior, libelou-nos insolidários:

[…] O português é o homem mais sociável deste mundo. […] Onde o português chega, há tertúlia; desenvolve-se a afabilidade; alarga-se o halo humano. […] Essa expressão “é muito dado” existe apenas na nossa língua. Com ela se traduz a despreocupada lhaneza, espírito de comunicabilidade, nenhum preconceito nem timbre na vida das relações. Axioma: de todos os europeus o português é o mais tratável. […] Não há que discutir: o português é o bicho mais adaptável do universo. […]
Com certeza que significa ânimo prazenteiro, […]. Representa ainda gosto de folgar; tendência para a irradiação; abandono – vá – aos impulsos do bem ou do mal, para o caso pouco importa; efuzibilidade [sic]; descuido; hábitos de mentidero; sentimento atenuado das responsabilidades; uma certa lassidão perante a vida e uma certa filosofia de lazzarone que se resume em considerar a luta como coisa tonta e vã perante a eternidade.
E por cima de tudo, a coroar estes sentimentos, […] uma grande simpatia humana.
Sendo o português sociável por excelência, na vida prática, para lá da boa intenção, é o mais inaglutinativo dos viventes. E porquê? Porque associação implica vontade, disciplina, sobretudo esforço a longo prazo, […]. Mas nesta aversão pelo associanismo o elemento de repulsa não é representado pelo amor da liberdade […]. É antes rebeldia aos vínculos morais, atonia perante o dever social, impropriedade do seu individualismo para tudo o que tenha carácter colectivo. Fraterno, já dissemos que o era, mas duma fraternidade de casa da malta, sem sanção nem obrigação, toda eventual e caprichosa, pois. E, ó paradoxo, […] é insolidário com o próximo. Neste particular, a História Trágico-Marítima constitui o pior requisitório que se poderia instaurar contra um povo.

Eduardo Lourenço (72010: 78) matiza o fundamento de Aquilino: «Os portugueses não convivem entre si […], espiam-se, controlam-se uns aos outros; não dialogam, disputam-se, […].» Marcello Duarte Mathias (1980) diverte-se:

Nessa altura ainda não compreendera que não há coisa que o Português mais deteste do que estar só – viver sozinho, viajar sozinho, almoçar sozinho, ter de engatar sozinho ou ir duas horas por ano sozinho ao cinema (é o suficiente aliás para ter enxaquecas e não conseguir ver o filme) faz-lhe perder o apetite e andar abatido.
De resto, quando assim sucede telefona desesperadamente a um amigo para se encontrar com ele, após o que os dois procuram outros amigos. Uma vez reunidos e em quantidade numerosa, vão juntos desperdiçar o resto do tempo que lhes sobra (outra grande e irreprimível vocação nacional) para sítios de preferência cheios de muita malta conhecida onde possa, novamente e todos juntos, avistar as caras familiares de outros tipos também em grupo e para ali perdidos a olharem de soslaio uns para os outros, falando a mesmíssima coisa que eles, ou seja, nada. A matar o tempo, à roda do vazio, per secula seculorum, como se a vida afinal não lhes pertencesse.

Das premissas de Jorge Dias conclui-se, só em parte, por um «vivo sentimento da natureza e fundo poético e contemplativo estático» e, no prazer da repetição e da imobilidade (porque não imobilismo?), um certo «obstinatismo». Veja-se a Saudade, segundo três tipos: a do «lírico sonhador», num sentimento poético amoroso e religioso; fáustica, associada à ânsia permanente de distância; fatalística oriental, vivendo de glórias passadas. Não recobre, todavia, a definição de Duarte Nunes de Leão (1606: 124).
Seria contraditório, se não fosse problemático, o medo, não de «dar nas vistas» (ostentação), mas de ser pasto do ridículo e da má-lingua, já opressivos no escárnio e mal-dizer medievais. É uma das vias do comportamento anti-social, que contradiz empatias supracitadas. Salvo o que, aquele coração aberto perscruta as falhas da lei e derrama-se em simpatia, já cunha e suborno. Quem eufemiza isso em ‘valores humanos’ sobrepondo-se ao lucro e utilitário – donde, negando um espírito capitalista –, nem vê vantagens neste, nem compreende para que serve a lei.
Maria de Lourdes Belchior (1982: 30) resumiu o Jorge Dias de 1950 e seus «elementos fundamentais da cultura portuguesa» (sem vencerem alguns miasmas do salazarismo) a uma novena por vezes imprecisa:

1 – expansividade [J. Dias: «A cultura portuguesa tem carácter essencialmente expansivo, determinado em parte por uma situação geográfica que lhe conferiu a missão de estreitar os laços entre os continentes e os homens […)»]; 2 – adaptabilidade e pendor activista; 3 – vivo sentimento da natureza, poético e contemplativo-estático; 4 – gosto pela ostentação; 5 – afectividade e humanidade profundas («o coração como medida de todas as coisas»); 6 – saudade e obstinatismo (alma contemplativa e obstinada dos portugueses); 7 – tendência para sobrepor a simpatia humana às prescrições da lei; 8 – pessimismo; 9 – menos exuberância do que noutros meridionais.

Esta síntese não resolve outras de J. Dias, taxativas, úteis aos governantes:
«O Português não tem muito humor, mas um forte espírito crítico e trocista e uma ironia pungente.» «O Português tem um forte sentimento de individualismo, que se não deve confundir com o de personalidade.» «É um povo paradoxal e difícil de governar.»

 

Ernesto Rodrigues, Ensaios de Cultura, Lisboa: Theya, 2016. Ebook. [Excerto. Ver, aqui, as referências bibliográficas.]

Impressões de eternidade

I

1. «Este é papel escrito por que lemos»

No Capítulo XXX, “Das dicções”, da Grammatica da Lingoagem Portuguesa, divide Fernão de Oliveira a etimologia em «nossa, alheia e comum», precisando «cada uma destas» em «apartadas» ou «juntas», «velhas» ou «novas», «usadas», mas também «próprias, como livro (por que lemos) [,] ou mudadas, como o livro (instrumento de música); ou são primeiras, como livro, ou tiradas, como livreiro e livraria» . Abre o capítulo XXXIX com a matéria agora em causa: «Dicções próprias chamamos àquelas que servem na sua primeira e principal significação, como livro, que desde seu princípio e principal intento sempre quis e agora quer dizer este é papel escrito por que lemos […].» Cabe às dicções próprias «a principal parte da boa e clara linguagem e desta usaremos mais ameúde» [no original, a meude].
Quanto às dicções mudadas, ou trasladadas, «são as que por necessidade ou melhoria da significação ou voz estão fora de seu próprio significado e ou estão em lugar de outra dicção que não era tão boa como nós queríamos para nosso intento ou estão onde não havia dicção própria, como livro, quando quer dizer instrumento músico, o qual, por ser novo e não ter nome ou voz própria e ser semelhante ao livro de papel que é o próprio, lhe chamaram assim […]» (p. 99). Cura, no mesmo capítulo, das dicções primeiras, ou primitivas, que só procedem «da vontade livre daquele que as primeiro pôs», e logo das tiradas, ou derivadas, «cujos nascimentos vêm de outras algumas dicções donde estas são tiradas» (p. 100). Não recorre, agora, a livro, livreiro, livraria – serve-se de outros exemplos –, pois precisa deles no capítulo XL, “Das analogias”, em que «a semelhança das dicções nos abre caminho para que conheçamos umas coisas por outras» (p. 101). Ao tratar do número, no capítulo XLV, vem o nosso exemplo: «Os nomes que somente acrescentam s no plural são todos os que no singular acabavam em vogal, como livro, no singular [,] e, no plural, livros, [...].» (p. 115)
Assim, no primeiro terço da pós-incunabulística, em 27 de Janeiro de 1536, a frequência e significado deste campo lexical – para lá do reiterado livro como parte de obra – numa normativa pioneira é de assinalar. Corolário, e penúltimo exemplo no penúltimo capítulo, sobre a «composição ou concerto que as partes ou dicções da nossa língua têm entre si» (p. 123) – a saber, neste caso: «que alguma hora os verbos infinitivos [servem por nomes, como o ler faz bem aos homens» (p. 124) –, temos o elogio da leitura, melhor, dirá no derradeiro capítulo L, dos muitos livros, ainda que trabalhosamente lidos e entendidos. Não basta ser um ‘papel escrito’; mas um ‘papel escrito por que lemos’.
Para evitar discussão à volta do indefinido, nessa bela definição de livro em que não vou demorar-me, notar-se-á que o díctico autoral este nos acorda para o livro em acção: isto é, redacção e já leitura. Sem aprofundar, também, aquele escrito, não vá sem dizer 1) que se exige, sempre, um título (no mínimo, factício): podem as páginas estar em branco, como num caderno, mas tudo se altera se inscrevermos Memórias de Um Amnésico ou Book of Nothing; e que 2) compositor e impressor devem ser úteis, na falta de um bom corrector de provas, pois ainda não havia revisor censório, nem literário.
Sirva isto para lembrar que não há texto sem suporte e sem complexas formas de intermediação. R. E. Stoddard (1984) escreve, mesmo: «Whatever they may do, authors do not write books. Books are not written at all. They are manufactured by scribes and other artisans, by mechanics and other engineers, and by printings presses and other machines.» (apud Chartier, 1988: 126, n. 6) Como o percebo e, se nos descuidamos, lhe dou razão! Mas podemos afastar alguns fantasmas. Não deixa de ser verdade que pôr cá fora um livro é assunto delicado.
Mestre de primeiras letras em casa de João de Barros, Oliveira provará, tal a sua bibliografia, ser um leitor omnívoro; e, pelo que sabemos das peregrinações europeias, um dos raros a quem as línguas clássicas não bastavam, se houve de marinhar com franceses e ingleses. Estreia-se, pois, com um título exemplar, tirando proveito de objecto a entrar na moda, e dos serviços do francês Germão Galharde, impressor entre 1519 e 1560, e, desde 1530, titular da Casa Real; enquanto isso, medica-nos com leitura particular, a da sua «anotação da Língua Portuguesa» (p. 126).

2. «A nobre arte de impressão»

Seja, ou não, esse Fernão de Oliveira o revisor da imprensa da Universidade de Coimbra provido em 1554, certo é que «a nobre arte de ympresam» teve, se parcos, grandes cultores, nacionais e estrangeiros, sobretudo alemães. Era o gene originário a pesar, embora, em esquecida síntese histórica, os primórdios tivessem muito de rocambolesco. Sobre as origens da imprensa, vale a pena citar um parágrafo de Tomé Pinheiro da Veiga, em Fastigínia, pelo que se pensava, em 1605, desta questão. Transcrevo da minha edição (2011), suprimidas variantes:

A impressão, que alguns dizem foi trazida da China por um alemão, porque já lá a acharam os portugueses por coisa mui antiga: mas, na verdade, foi inventada no ano de 1440, em Harlem de Holanda, por um Lourenço Joanes, que em formas de pau imprimiu Speculum Nostræ Salutis, que é o primeiro livro que se imprimiu em Europa, e furtou-lhe a invenção, e moldes, que fazia de estanho, Fausto, seu criado, e fugiu para Colónia e Mogúncia, onde imprimiu, no ano de 1442, o Doutrinal de Alexandre Galo, e logo Lactâncio, e Agostinho, De Civitate Dei.

São linhas curiosas, também na solução xilográfica, em que só adivinhamos o nome de Johann Fust, rico ourives de Mogúncia, na figura de «Fausto, seu criado», que processou judicialmente (1455) Gutenberg, sócio trabalhador .
Desses alemães, demandaram alguns Portugal, e sabemos pouco de outros, caso de Jacobo Cromberger, «alemam imprimidor de lyuros», confirmado em carta (8-II-1508) de D. Manuel, passada em Santarém, mas do qual não encontrou Venâncio Deslandes – que contesta a hipótese de ser o nosso Oliveira aquele revisor – rasto em livro impresso anterior a 1521. Insere-o, porém, nos Documentos para a História da Tipografia Portuguesa nos Séculos XVI e XVII, reconhecida a importância que os nossos soberanos atribuíam à arte nascente «pera o bom governo, porque [= para que com mais facellidade e menos despeza os menistros de yustiça posam vsar de nosas leys e ordenações e os sacerdotes posam administrar os sacramentos da madre santa egreya» (p. 12). Assim convocados os ministros do Rei e de Deus, evitemos comentar as delongas da nação, não sem louvar monarca inteligente.
Abrindo com Valentim Fernandes – O Manuscrito de Valentim Fernandes ainda comparece em leilões –, Deslandes elabora a melhor galeria de nomes fundadores, também fundamentais no acesso ao livro antigo. Deve ser acompanhado pela Bibliografia das Obras Impressas em Portugal no Século XVI, de António Joaquim Anselmo – que já vê a «decadência» da nossa arte tipográfica «na segunda metade do século XVI» (p. 1) – e pelos volumes da Bibliografia Geral Portuguesa, editados pela Academia das Ciências de Lisboa . Entre as Bibliografias saídas pela Biblioteca Nacional, João Frederico de Gusmão C. Arouca deixou já póstuma Bibliografia das Obras Impressas em Portugal no Século XVII (Letras A-C, 2001; D-L, 2003; M-R, 2005; S-Z, 2011; vol. 5, Índices, 2016).
Em 1995, No Quinto Centenário da «Vita Christi», título de exposição-catálogo organizada pela Biblioteca Nacional, o respectivo subtítulo dizia tudo: Os primeiros impressores alemães em Portugal. A. H. de Oliveira Marques e João José Alves Dias historiam essa presença, fechando por útil bibliografia. São coetâneos os estudos de Artur Anselmo sobre Valentim Fernandes e, nomeadamente, João [Johann Gherlinc, retomados em Estudos de História do Livro. No intervalo, J. V. de Pina Martins impusera-se como estudioso maior do livro português e sua iconografia, de que deu verbete no Dicionário de Literatura, no qual Mário Martins escrevia artigo sobre “Tipografia”, a que muito acrescentei no volume 3 de Actualização (2003).
Após o exemplo de Alexandre Herculano curando de litografia (O Panorama, 6-IV-1839), o interesse que à tipografia se dedica, de dicionários da língua ao Novo Dicionário do Livro, de Maria Isabel Freire e Maria da Graça Pericão (1999), atesta a importância de domínio industrial e cultural – longe, porém, da relevância perceptível nos três volumes de E. C. Bigmore and C. W. H. Wyman, A Bibliography of Printing, de 1880-1886, ou dos trabalhos de Donald F. McKenzie. O prelo mecânico a vapor de Koenig (1814) é uma revolução: The Times, que primeiramente o usa, tira por hora 1100 exemplares, que a imprensa de cilindros de Hoe (1848) decuplica. O branqueamento do papel com cloro, cerca de 1830 (ano em que as máquinas de papel inglesas começam a ser exportadas), e a substituição, em 1860, do trapo pela madeira (nestes trinta anos, a produtividade inglesa sextuplica), acompanhando a rotativa (1857), liberta-nos da era artesanal. Em menos de cinquenta anos, avançara-se decisivamente até ao offset (1904), com acenos à heliogravura (1880; heliogravura rotativa, com impressão de imagens, em 1895), à linotype (1884; nasce da ligação do compositor à máquina de escrever), à fotogravura em madeira (1891), decisiva no boom publicitário. Concomitantemente, nasce uma rara Imprensa da especialidade – Typographia Portuguesa, Porto, Setembro de 1887 / Agosto de 1888, 12 números –, que historia as casas tipográficas (tantas vezes, proprietários de jornais e revistas) e defende os operários do sector.
Desde o século XVI português, e mais intensamente desde o século XVII, as virtualidades estéticas da tipografia aproveitam à poesia. Caracteres tipográficos, livro e biblioteca são motivos pictóricos e de gravura ao longo dos séculos, de que há boa amostra em extratextos de Henri Meschonic (1991). Ou seja, livros de livros. De acrósticos a dificultosos labirintos e caligramas, os compositores obrigam-se a igual ginástica, como demonstrado fica em antologia do seiscentismo e setecentismo visuais organizada por Ana Hatherly (1983). Se Rimbaud vem, sinestesicamente, falar da cor das vogais, que inspiraria alfabetos em muita arte moderna – no caso português, tratei o assunto em João Vieira (2003), das telas e outros materiais a recentes vitrais catedralícios –, é com as vanguardas literárias que as letras adquirem maior expressividade. Do papel às fontes, a geração de Orpheu prima pela exemplaridade; e Mário de Sá-Carneiro joga, mesmo, com famílias de tipos e corpos em vários poemas. A lírica concreta – portuguesa, brasileira, húngara, europeia, oulipiana, etc. – é homenagem regular ao prazer do grafismo, segundo técnicas e conhecimentos da arte negra.

Ernesto Rodrigues, “Impressões de eternidade”, Ensaios de Cultura. Lisboa: Editora Theya, 2016. Ebook. [Excerto. Além de títulos e certos vocábulos em itálico, aqui perdido, faltam as notas do original.]

 

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