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História da Cultura Portuguesa: século XIX (3)

A Questão Coimbrã e o famoso duelo

Datada de 27 de Setembro de 1865, a «Carta do II.mo e Ex.mo Sr. António Feliciano de Castilho ao Editor», que subintitula a «Crítica Literária»-posfácio ao Poema da Mocidade de Chagas, veio entornar tudo. Dedicatário da obra, Castilho abre a matar: «Parabéns e agradecimentos por este livro, em tudo novo, com que V. S.a vai prendar a nossa literatura. Boa fortuna para a publicação escusado fora desejar-lha, pois a tem certa; afiança-lha o nome do autor, já com tanta razão popularíssimo.»

Posto o que, deriva, no primeiro longo terço, para generalidades estranhas à obra, aqui e ali concitando nomes de próximos – Mendes Leal, Júlio César Machado – ou já comprometendo, no elogio, Camilo Castelo Branco. A espaços, insinua ligações entre os novos conceptistas – «nóveis e boçais» – e alguns seiscentistas sobre os quais erra estrondosamente: «De tudo há nas rajadas líricas de certos poetas, menos assunto, ou menos o assunto.» Antero, que nesse ano publicara as revolucionárias Odes Modernas, sentiu o toque.

Latinando salteado, chega enfim Castilho à confissão do que ali o trazia, não sem antes recitar a quadrilha de amigos mais chegados: Mendes Leal, Tomás Ribeiro, Pereira da Cunha e Pinheiro Chagas, «belo nome, nascido ontem, e já hoje esplêndido, [que] me sugere um novo e derradeiro alvitre para a cura da gangrena que vai lavrando». Na literatura, quer dizer. O alvitre, sim, era o busílis da questão.

Pedro V instituíra o Curso Superior de Letras e, com «boa mão na escolha», provera as respectivas cadeiras: «[...]o mérito de todos os seus professores é real e reconhecido». Mas, além de a cadeira de literatura moderna ser «em verdade dificílima», uma qualquer maldição a perseguia. O seu primeiro titular, Antonio Pedro Lopes de Mendonça (1826-1865), príncipe dos folhetinistas, e nosso primeiro ensaísta literário, socialista utópico, entaramelava-se em público; não aqueceu a cadeira, passando os últimos cinco anos entre os doidos de Rilhafoles. Após duas «aparições brilhantes e passageiras» – Rebelo da Silva e Mendes Leal –, a disciplina estava de novo deserta, urgindo que se lhe acudisse. E, enquanto não chegava o concurso, «como a lei o exige [..], porque se não proveria interinamente, e desde já, o ofício em pessoa cujo aptidão fosse provada e incontestada?» E logo: «Ninguém, quanto a mim, estaria mais no caso do que Pinheiro Chagas.» Procede-se, aí, ao elogio do candidato.

Ora, havia mais três pretendentes: Antero, Teófilo Braga, Vieira de Castro, espantados que tal posfácio misturasse alhos e bugalhos indiscriminadamente lançados ao inocente editor. Retomando a estratégia de dividir para enfraquecer, do trio só considerava o amigo de Camilo, Vieira de Castro, que Chagas também vencia, e dos ilhéus ora coimbrões distanciava-se com golpe baixo: «Deixando de parte, por agora, Braga e Quental, de quem, pelas alturas em que voam, confesso, humilde e envergonhado, que muito pouco enxergo, nem atino para onde vão, nem avento o que será deles afinal, [...].»

Bastava. Louva, ainda, a obra-pretexto, que irmana com D. Jaime, desembocando em síntese manhosa: «Não dei sentenças decretórias sobre o livro, [...]. Expus e motivei conforme soube as minhas persuasões sobre o autor e a obra, assim como sobre uma e outra questão literária que acertou de me passar a talho de foice.»

Como não foi tanto assim, e já prevenindo a borrasca que não ignorava vir a levantar-se, adenda que «o Virgílio me não dá licença» para responder aos discordantes, pelo que o editor avisará de antemão quem quiser brigar. Voltando às suas traduções, Castilho preparava a defensiva. Já Antero lhe caía à perna.

A peça deste, “Bom Senso e Bom Gosto”, que deu nome à polémica logo desencadeado, trazia por subtítulo “Carta ao Excelentíssimo Senhor António Feliciano de Castilho” e breve concluía por um «Nem admirador nem respeitador / Antero de Quental / Coimbra, 2 de Novembro de 1865».

Dois «fortes motivos» levaram Antero a falar: «Um é a liberdade absoluta que a minha posição independentíssima de homem sem pretensões literárias me dá para julgar desassombradamente, com justiça, com frieza, com boa fé.»

A este direito de quem não pretende lugar algum acresce o dever de «erguer a voz pelo que julgamos a verdade, a erguer a mão pelo que acreditamos a justiça». Caracteriza então «as pequenas coisas e os pequenos homens das ínfimas questiúnculas literárias dum ignorado canto de terra, a que ainda se chama Portugal», e, sibilino, sem ignorar a cegueira física do adversário, junta: «Sim, Ex.mo Sr. Eu não sei se V. Ex.ª tem olhos para ver tudo isto. Cuido que não: porque a inteligência dos hábeis, dos prudentes, dos espertíssimos é muitas vezes cega em lhe faltando uma coisa bem pequena, que se encontra nos simples e nos humildes – a boa fé.»

Das «impensadas e infelizes palavras» de Castilho, «dignas, quando muito, de um sorriso de desdém e do esquecimento», resultou «uma acção desonesta». Para Antero, «O que se ataca na escola de Coimbra [...], não é uma opinião literária menos provada, uma concepção poética mais atrevida, um estilo ou uma ideia. Isso é o pretexto, apenas. Mas a guerra faz-se à independência irreverente de escritores, que entendem fazer por si o seu caminho, sem pedirem licença aos mestres, mas consultando só o seu trabalho e a sua consciência». O «herege» de Coimbra continua a alvejar o oficialato das letras, cuja «vaidade ferida» casa com o «espírito de rotina», a banalidade, a vulgaridade, a «baixeza e pequenez moral e intelectual»: «V. Ex.ª fez-se chefe desta cruzada tão desgraçada e tão mesquinha. Não posso senão dar-lhe os pêsames por tão triste papel.»

Segue-se, num arroubo, a defesa da independência e liberdade dos espíritos, propugnando por uma missão que reúna escritor, poeta e apóstolo. Aproveita para se distanciar dos adoradores da palavra, agradável ao ouvido, com que se ilude o vulgo e despreza a ideia, «que custa muito e nada luz». Numa insinuação ainda ad hominem atira: «São apóstolos do dicionário, e têm por evangelho um tratado de metrificação.»

Parte, logo, a costela classicizante do Castilho tradutor e autor de «versos sensabores», «idílios grotescos sem expressão nem originalidade, com alusões mitológicas que já faziam bocejar nossos avós», «com frases e sentimentos postiços de académico e retórico», etc., etc., num estendal violento que arrasa toda a obra castiliana e sua «crítica fradesca». Opõe-lhe, como projecto de modernidade extensivo a todos os domínios, aquilo que «a nossa divertida Academia das Ciências» não faz, mas fazem os grandes institutos europeus: resolver, decompor, classificar e explicar o mundo dos factos e das ideias.

Antero ainda acrescenta panóplia de argumentos para boa distinção de escolas, até que se decide por uma pausa: «[...] temo, no ardor do discurso, faltar ao respeito a V. Ex..ª, aos seus cabelos brancos. Cuido mesmo que já me escapou uma ou outra frase não tão reverente e tão lisonjeira como eu desejara.»

Reconhecendo dever a Castilho «o pouco francês que ainda hoje sei», quando seu aluno no Colégio do Pórtico (na Rua dos Navegantes, 40-43, Lisboa, que frequentou em 1852-1853), Antero vê, porém, «com desgosto, que temos muitas vezes de renegar aos vinte e cinco anos das autoridades dos dez», concluindo que «a idade não a fazem os cabelos brancos, mas a madureza das ideias, o tino e a seriedade; e, neste ponto, os meus vinte e cinco anos, têm-me as verduras de V. Ex.ª convencido valerem pelo menos os seus sessenta.» Era o fim: «A futilidade num velho desgosta-me tanto como a gravidade numa criança.»

Nada a fazer. Antero penitenciou-se, na “Carta Autobiográfica” de 1887, dos excessos nesta contidos, tanto mais que tivera no filho Júlio de Castilho, quando viveram nos Açores, «o meu mais antigo amigo. Brincavamos ora em casa d’elle ora na nossa.»

Por agora, o firmamento das letras escancarava-se e vinha abaixo. Já tempestuava.

Acesa a polémica, já com outros à compita, sai segundo folheto de Antero em Dezembro. O tom abrandava; Castilho, aliás, tinha os seus méritos – houvesse um olhar para a peça Camões, «um dos mais formosos dramas do teatro português e a única admirável e inatacável obra do Sr. Castilho», livro «surpreendente que excede muito o Camões de Garrett» em múltiplos campos... Ramalho vai pegar nesta e em muitas mais, em extenso folheto de 3 de Janeiro de 1866, o qual, por querer-se supra-partidário, «mais controvérsia levantou» por ter desagradado «a gregos e troianos», no dizer de Alberto Ferreira e Maria José Marinho, que o integram no vol. II da antologia Bom  Senso e Bom Gosto, 21985.

Nas Obras Completa do autor, abre o tomo I de Figuras e Questões Literárias, a que se seguem prefácios críticos a Os Lusíadas e ao Amor de Perdição, bem como estudo brevíssimo sobre Garrett. No tomo II (1945), é novo apanhado de dispersos sobre «perfis de escritores e problemas de estilo»: Eça, Oliveira Martins, Guilherme de Azevedo, D. João da Câmara, Conde de Ficalho, Teófilo Braga, Junqueiro, Ernesto Biester, Maria Amália Vaz de Carvalho e Flaubert são as principais referências desenvolvidas.

Mas, revertendo a Literatura de Hoje – M. Pinheiro Chagas, António Feliciano de Castilho, Vieira de Castro, Antero de Quental, Teófilo Braga –, com que Ramalho intervém na Questão Coimbrã, vejamos alguns aspectos e como se precipitou aquele tão falado duelo com Antero.

«O que muita gente ignora é que foi um padre que me meteu nessas grandes andanças!...», confessará a Júlio de Sousa e Costa (Ramalho Ortigão. Memórias do Seu Tempo, 1946: 27). E o que seria um divertimento, no distante Porto, quase ia dando para o torto. Ataquemos o texto.

«Estão-se dilacerando rancorosamente em Portugal duas seitas literárias a que chamam a coimbrã e a olissiponense. Dizem os de Lisboa que não percebem o palavroso e abstruso mistifório dos literatos de Coimbra. Gritam os de Coimbra que se lhes não dá com o paladar académico o palavrório delambido dos literatos de Lisboa.»

No terceiro parágrafo, e apresentados os contendores, esclarece Ramalho as condições em que, e para que, escreve:

«Como a questão é de terra para terra, aproveito a santa paz que reina por enquanto na minha freguesia, e nesta noite de 2 de Janeiro de 1866 procurarei eu, de pés ao lume e charuto no canto da boca, o mais sossegada e desapaixonadamente que se pode, ver se entendo os assinalados campeões, [...].»

Começa por situar a polémica entre «homens novos», não admitindo «cá tiaras que resguardem as frontes», uma directa contra Castilho, cuja intervenção, extemporânea, na luta «falseia a sorte do combate»: «Os próceres literários, de cujos ombros pendem já as insígnias da vitória, esses só devem descer à estacada para coroar o vencedor e dar a mão ao vencido.»

Castilho, claro, actuando na lógica da escola dita do elogio mútuo, não quis esperar por outros quaisquer veredictos e inverteu a situação. Para Ramalho, quem assim age «sujeita-se a que lhe desenastrem a coroa, a que lhe rasguem a toga, a que o dispam, o cuspam e o obriguem a reaver o seu lugar por entre os apupos da plebe, a qual [...] assim lhe bradará indignada de cada ponto do anfiteatro: – Fora o compadre! fora o agiota! fora o truão!»

Ramalho não aceita que se exerça crítica literária fora de três parâmetros, ou por «três diversos modos»: «Pela impressão dominante da leitura; pelo exame minucioso de cada uma das partes e dos mínimos acessórios de que consta a obra; pelo confronto do livro com todos os demais de natureza idêntica.»

A primeira forma de crítica era a mais usual nos noticiários da Imprensa oitocentista e ainda hoje conserva suas galas: diz-se bem ou mal da obra conforme nos causa boa ou má impressão (ou o seu autor por ela). É superlativa, adjectivante. A segunda forma «consiste em alumiar as belezas desapercebidas do vulgo, e apontar as discrepâncias em que delinquiu o autor». É evidente que, na prática, e em terra de sentimentos literários exacerbados, «neste lance a crítica, por um sentimento de reacção muito vulgar em certas organizações, desvela-se ordinariamente mais em agravar a penúria do que em assoprar a opulência». Na terceira forma de crítica, o livro em análise é acareado «cautelosamente com os seus predecessores e os seus pares, para averiguar nesse cotejo o lugar que lhe compete na literatura do país em que foi escrito».

Esta tipologia crítica, já então muito avançada, recusa a mesma bitola para todos os livros; não há grelha de leitura definitivamente dada, como não há molde comum a todos os vestidos.

Explicitadas as variantes críticas, Ramalho passa a analisar o Poema da Mocidade segundo «a última das fórmulas que estabeleci», confessando que, desde as primeiras estrofes do primeiro canto, «me senti cativo da mais viva simpatia a este livro»: «Isto é alegre, desartificioso, sincero e elegante.»

Ao nível da poesia lírica que se faz lá fora, Chagas «é a verdadeira expressão da arte moderna» no seu género, pela inspiração que o leva a «ser familiar sem descair no corriqueiro, de estar sem cerimónia sem se tornar grosseiro, de ser original sem se fazer afectado nem esquisito, de ser solene sem chorar, e engraçado sem dar risadas». Mas, se a inspiração vinga, a reflexão falha. Demonstra-se, na sequência, como esse livro foi «escrito intercadentemente e a trancos», circunstância que «explica a disparidade no mérito parcial de alguns trechos». Releva «mais de um erro, mais de uma discrepância na correcção do metro e da palavra»; todavia, sabe que livro sem erros pode ser péssimo e este, «inaugurando, bem ou mal, entre nós o poema-folhetim, inspirado no seio duma sociedade que todos conhecemos, e escrito na linguagem que todos falam, há-de ter por força um lugar distinto na literatura, [...]». No prenunciar do que será o programa de Cesário Verde (mas sovará este), vai, pois, a aprovação do crítico, que de imediato passa à carta-posfácio de Castilho.

O tom sério muda-se em jocoso: «Pede o Sr. Castilho que o não acordem, se é um sonho isto. Respeitemos a sonolência do Homero.»

Concorda que a afectação e a enfatuação, já denunciadas por Castilho, «são o achaque das nossas letras», cujo mal proviria «dum defeito orgânico; origina-o a deplorável penúria de imaginação e a lassidão crónica das faculdades observativas e investigadoras, defeitos que constituem o aleijão característico, mais ou menos saliente em quanta literatura se tem feito entre nós». Ai dos escritores, assevera Ramalho, que «as grandes comoções políticas» da sua época «ou as tempestades da existência pessoal» não tocaram! Mas, também, por que razão havemos de, fora de tais condicionalismos, deixar que a vontade vergue? «Será uma feição ingénita da nossa natural indolência, ou simplesmente o resultado do caprichoso desfavor da sorte que nunca nos dotou com elementos fertilizadores, [..]?»

Justifica, logo, essa falta de imaginação no teatro nacional e no romance, onde exceptua Camilo, embora «o segredo da pasmosa fecundidade» deste esteja não «na facilidade com que inventa, mas no admirável talento com que observa». Ou seja: «O que determina a avidez com que todas as obras deste admirável romancista são lidas e relidas não é a trama geral da acção, mas sim, sobre o prestígio da mais deliciosa linguagem, a perfeitíssimo corte dos caracteres e a inexcedível pintura dos costumes.»

Ramalho, como Castilho, não pretende alienar, na discussão, o valor que representava Camilo. Na correspondência deste para o patriarca lisboeta, Ramalho – que reiterava posições de admiração já expandidas n’O Jornal do Porto – não sairá beneficiado.

Posto esse acordo com Castilho, acerca dos males que afectam a nossa literatura, inquire da «receita para curativo deste mal» que aquele dá na carta ao editor Pereira. E é com espanto que nota: «A tradução dos poetas latinos é a triaga em que S. Ex.ª encontra mais virtudes medicinais.»

Era a prova de que o ilustríssimo e «reverendíssimo pontífice da literatura» já cavara fundo o abismo que o separava dos novos, indiferente que se mostrava «ao movimento das sociedades».

O pedido de nomeação de Chagas para a cadeira de Literatura Contemporânea é delinquir «perante o tribunal da equidade, da razão e da honra literária». Não podia ser mais justo ao ver denegada, ou desviada, a nobre tarefa da crítica:

«[...] converter um artigo de crítica em carta de empenho para um ministro, obrigar um poeta a figurar como um inválido amparado nos braços do seu editor e do seu crítico, e passeá-lo por esse mundo ao som dum chorado aranzel e duma lamúria cantarolando como lábia de pedintões de ofício, é ofender, conspurcando-a, a dignidade da nobre profissão das letras e da nobre profissão das armas, dupla dignidade que todos temos obrigação de respeitar na pessoa sã, escorreita e limpa do Sr. Pinheiro Chagas.»

A justeza, contudo, saía algo abalada pela imagem dos cegos papelistas e cegos de feira, cegos e poetas como Castilho. Assim se repetia uma infelicidade que já acometera Antero. A insinuação desequilibrava a elegância.

Um último, mais longo e importante ponto na abordagem da carta serve para refutar «as ideias que o Sr. Castilho tem acerca do modo por que se deve exercer a crítica», que, afinal, não passa «de impressão», a primeira modalidade já exarada por Ramalho.

Regressando ao passo em que mais abertamente arredava, porque citando-os, os três outros pretendentes à cadeira do Curso Superior de Letras, e convergindo no elogio a Vieira de Castro, analisa de seguida a carta de Antero e o opúsculo de Teófilo, Teocracias Literárias.

O autor conta como, abrindo «gulosa e sofregamente esta carta do ilustre académico», correu «logo ao fim, e a primeira coisa que li foi a última: a assinatura do autor e as linhas que a precedem». A guerra estava anunciada com a seguinte frase: «Causou-me profunda mágoa ver essas frases desabridamente insultuosas e provocadoras, escritas, assinadas, e directamente dirigidos por um moço de vinte e cinco anos a um varão respeitável pelos seus cabelos brancos, respeitável pela enfermidade horrível que o privou da vista [...].»

Discorda, com Antero, «das sentenças literárias lavradas pelo crítico do D. Jaime», como avisei acima, «e do Poema da Mocidade: prezo como os que mais prezam a liberdade de opinião e o denodo da verdade, mas repulso com tédio esse valor quando o vejo desenquadrado das questões de arte para se empregar sacrilegamente na baixeza plebeia do insulto pessoal descaradamente arremessado à face veneranda do decano dos escritores portugueses.»

Se dúvidas houvesse quanto a espadeiradas, chegava a confirmação: «Se o Sr. Quental já de antemão sabia, como afirma abrindo aí margem a novo insulto, que o Sr. Castilho é velho e cego, levará a bem dizer-se-lhe que maculou o Sr. Quental os seus vinte e cinco anos com a mais torpe das nódoas que um mancebo pode lançar no seu carácter: a covardia.»

Entrando nas obras representativas de uma suposta escola de Coimbra aventada por Antero, Ramalho, além de nada vislumbrar, ainda se diverte com as Odes Modernas, não sem antes recuar «espavorido da monstruosidade do seu talento». O problema reside na poesia filosófica, «mau género»: «O Sr. Antero de Quental [...] é mau poeta e é mau filosofo. É mau filósofo porque derriba em vez de edificar. É mau poeta porque discorre em vez de comover.»

Nenhuma contribuição deu, acrescenta, à religião, à política e à sociedade, como julga poder provar com algumas estrofes. Choca-o um revolucionarismo de terror, a «fria materialidade» e a «crua indiferença religiosa deste moço». Contesta, depois, a imodéstia e jactância de jovens que, pensam, ferem a vaidade dos mais velhos. Mais diz que dignidade e independência apregoadas por uma escola como a de Coimbra «são virtudes que se devem tomar à conta dum propósito da parte da mocidade académica, mas que não podemos já respeitar nem aplaudir como consumado merecimento».

Ainda tem espaço para desancar, inesperadamente, no segundo texto de Antero e que, a meio do seu escrito, lhe chega às mãos. Sobre A Dignidade das Letras e as Literaturas Oficiais resume o que já acima adiantei: que o poeta se desdiz «vergonhosamente» de quanto escrevera no primeiro. Dá como exemplo o elogio do drama Camões; e a estocada: «Como é que se muda assim de linguagem fazendo hoje o mais levantado, o mais descabido, e o mais torpe dos elogios à mesma obra que ontem se tinha por algarvia, estonteamento, banalidade e ninharia?»

E vai de analisar o dito drama, recriado do francês por Castilho, para concluir que tal volte-face só se compreende assim: «O Sr. Antero de Quental teve medo.» Medo, quer dizer, de infância estudiosa sob a férula de mestre Castilho e réplicas em cascata dos apaniguados deste. Imagina Antero a levar as primeiras palmatoadas de Castilho no colégio; e com cinismo: «Foram essas palmatoadas que lhe meteram medo depois de publicado o seu escrito.»

Avancemos para o terreiro da batalha, convictos de que, sobre as disputas mais ou menos literárias, há nos lusos contendores a emergência de paixões felizmente humanas. Fosse a questão puramente literária e talvez os seus efeitos se perdessem em mais umas tricas sem interesse. Desta, os campos ficavam logo bem demarcados e as consequências não se fariam esperar. Para já, e incidentalmente, declarava-se um duelo que tinha a virtude de veicular aquelas paixões e emoções para um outro tipo de diálogo, a saber, o que se processava entre jovens que, aliás, e a breve trecho, se tornariam amigos. Por arrastamento, a importância literária dos que, em Lisboa, dominaram nos últimos vinte anos, sairia minorada e cedo vencida pelos novos bárbaros. Acompanhemos, então, o rápido epílogo desta história.

Antero de Quental chega ao Porto a 25 de Janeiro, «com o propósito de deslombar o Ramalho», segundo carta de Camilo a Castilho. Traz com ele «espada que, por uns magros patacos, adquirira num adelo da velha Coimbra» (F. A. Oliveira Martins, Oliveira Martins e os Seus Contemporâneos, 1960: 33). Encontra Camilo: «Pediu-me que aceitasse a sua procuração para tratar diplomaticamente o prefácio do pugilato.»

Este, com também um folheto, Verdades Irritadas e Irritantes, prestes a sair, compromete-se a «fazer que o Ramalho lhe desse alguma espécie de satisfação; mas a concessão que o Ramalho lhe fazia era curta para o que ele queria, nada menos que a retirada das palavras ofensivas.»

Pelos botequins, salões e outros lugares de culto literário fazem-se apostas. Perguntado Antero, em casa de D. Ana Plácido e Camilo, «sobre o seu saber técnico da esgrima, respondeu risonho que a exercitara algumas vezes num quintal em Coimbra com os companheiros, floreteando os talos ressequidos da couve galega» (Ricardo Jorge, p. 18).

Elegem-se dois padrinhos de cada lado, que confirmam o desentendimento; os jornais noticiam a iminência do duelo; a polícia visita um padrinho; guarda-barreiras ficam alerta, etc. «Que can-can!», comentará Antero em carta a amigo, e já ao rubro com as «insolências bastante indignas a meu respeito» de um folheteiro a merecer «porrada». «O que eu quero porém é terminar isto que, sobretudo no meio estado de desespero, me aborrece mortalmente», diz ainda Antero.

«Cruzam-se enfim os ferros na Arca d’Água, e aos primeiros passes de armas Ramalho, em vez de rachar o Antero de meio a meio com o montante, sai ferido, não pelo calcanhar aquileu, mas, salvo seja, na canela», continua Ricardo Jorge (p. 16-17), que retrata o ambiente de espanto nas tertúlias: «Os cenáculos portuenses não caíam em si de pasmo; parecia impossível que o Ramalho se tivesse deixado jarretar, qual o gigante Golias pela mão arteira do lírico David. Deu que cismar esta vitória.» Esse fora o resultado, mais tarde resumido pelo próprio Ramalho a Júlio de Sousa e Costa (p. 28-29): «[...] um par de espadeiradas entre mim e o Antero, num dia frigidíssimo de Fevereiro, tendo eu ficado ferido numa asa!...»

O encontro desse dia 7 «durou pouco mais de dez minutos». Apesar da sua perícia nos jogos do sabre e do florete, reconhecia: «Uma destas circunstâncias imprevistas que apanha em cheio o melhor atirador!... Na resposta que dei ao meu antagonista não cobri o flanco e daí o golpe que apanhei, aliás de pequena importância.» Ferido no braço direito (Diário de Notícias, 9-II), tira lição do combate: «Arrependi-me a breve trecho de ter terçado armas por quem não as merecia, e, assim, andei embrulhado à espanhola num caso aborrecido!...» Refere-se a Castilho, que, em carta de 20 de Janeiro a Camilo, informa: «Ramalho Ortigão remeteu-me um exemplar do seu opúsculo precedido dum oferecimento muito cortês. Ainda o não pude ler. Mas se é como me informam em termos urbanos, hei-de tomar conhecimento dele, e responder ao autor. Seria confundi-lo com os Teófilos e Anteros, [...].»

Dois dias depois, nova carta e transcrição de dedicatória: «Ao seu inigualável mestre o Ex.mo Sr. António Feliciano de Castilho em testemunho de lealdade literária oferece respeitosamente o autor.»

Castilho conclui, afinal (ou quem lhe diz que não merece leitura), que «as palavrinhas melífluas do oferecimento» escondiam «o rancor de um malcriado»! «Era o Ramalho a disfarçar o Ortigão.»

A 27, pergunta-se «qual dos dois é mais javardo: se o Ramalho, se o Antero». Em carta do dia seguinte, aquele «é apenas uma bexiga inchada de ar fétido».

Camilo, por seu turno, muito se diverte com a desgraça alheia. Em carta de 5 (mas deve ser 8) de Fevereiro noticia:

«Disse ontem a V. Ex.ª que o Ramalho ficara levemente ferido. Enganei-o porque me enganaram enquanto ao ferimento, que foi uma profunda cutilada no braço direito. O Antero mostrou que era professor na espada. O outro cedeu-lhe todas as condições vantajosas, pensando que o adversário era leigo. O velhaco aproveitou-as todas. Terminado o duelo, Antero despediu-se de mim e foi para Coimbra.»

Camilo fica com a ideia de que o herói lhe perdoava quanto mal dele escrevera em Vaidades Irritadas e Irritantes. Teófilo, aí, sobe aos arames:

«[...] foi terrível a minha decepção, quando o vi ir cumprimentar no Porto Camilo Castelo Branco, que então morava na Rua do Almada, e almoçar com ele e rir-se das tremendas injúrias que o cáustico romancista lhe vibrara no folheto das Vaidades Irritadas e Irritantes. Depois do duelo, que se efectuou uma madrugada em uns campos, na estrada da Arca de Água, Antero de Quental voltou a casa de Camilo a despedir-se. Foi quando conheci o desequilíbrio moral.»

Prossegue a interlocução com Castilho, não raro em tom desbragado, e em Agosto de 1868 Camilo volta a falar-lhe de Ramalho:

«Lá tem o meu Castilho muito perto da sua cadeira académica o R. Ortigão. A nomeação dele para 1.º oficial da A. R. das Ciências argue pobreza de homens hábeis em Lisboa. Bom é que o Porto forneça a sua irmã duma fazenda que lhe sobra. Ficaram no Porto ainda 2 dúzias que servem para lá. Dizem-me que foi o Tomás de Carvalho que anichou o Ramalho. Simpatias dos apelidos. É ramalhagem tudo.»

Assim terminava, com reservados estados de alma, sucesso que dividiria o século literário.

História da Cultura Portuguesa: século XIX (2)

Entre 14 de Janeiro e 5 de Agosto de 1843, O Panorama oferece O BOBO. / 1128, modelo de romance histórico assente na primeira tarde da nacionalidade, 24 de Junho de 1128, quando o príncipe D. Afonso Henriques bate o exército da mãe e do amante galego.

Em Março e Abril, ferido numa perna, Almeida Garrett convalesce em casa, e aproveita para escrever Frei Luís de Sousa. Teve primeira récita no teatro da Quinta do Pinheiro, a 4 de Julho, e duas edições em livro no ano seguinte. Ainda em 1843, saía o tomo I do seu Romanceiro.

A Revista Universal Lisbonense (1841-1859), entretanto, com seis capítulos iniciais das Viagens na Minha Terra, abre o apetite para um novo tom, anunciando, já, uma «popularidade extraordinária», como se dizia no prólogo da edição em livro (1846).

A 27 de Abril desse «espantoso ano de 1843», o jovem Lopes de Mendonça assinava, com 17 anos, prólogo a ingénuas Cenas da Vida Contemporânea, antes de se afirmar no ensaísmo político de coloração socialista, com o jornal O Século (1848), literário, com Ensaios de Crítica e Literatura (1849; refundição em 1855, como Memórias de Literatura Contemporânea), e no romance psicológico, com Memórias de Um Doido (1849), de cortante actualidade, pelo retrato que esboçava de geração em perda de inocência social – essa que, entre medos, agoiros e lágrimas de papel, melhor se sairia na vida pública. De momento, Lopes de Mendonça esgrimia seis contarelos contra os efeitos maléficos do liberalismo, que reduzira sectores importantes da nação, quais os frades e os soldados, à mendicância, enquanto donzela sem meios se prostituía ou viúva incapaz de pagar uma renda se suicidava. Sobretudo, panfletava contra a pena de morte, leitor do Hugo de Le Dernier Jour d’un Condamné (1829).

A década já lia, outrossim, o diário emblemático do Romantismo, A Revolução de Setembro (22 de Junho de 1840) – onde ao renomado Lopes de Mendonça sucederia um não menos famoso folhetinista, Júlio César Machado –, periódico radical nas origens, intrépido batalhador pela liberdade de Imprensa (e, por isso, regularmente suspenso nos anos 40, ou transmudado no que seria o clandestino mais célebre de Oitocentos, O Espectro, entre 16-XII-1846 e 3-VII-1847, durante 63 números), tanto defensor da lisboeta Escola do Elogio Mútuo veneradora de Castilho contra a juventude coimbrã, em 1865, como, em Maio de 1871, ousadíssimo ao inserir o programa das Conferências do Casino...

A trindade de publicações aqui referidas – O Panorama, Revista Universal Lisbonense, A Revolução de Setembro – indicia, enquanto repositórios do frémito quotidiano de uma nação em curso, o peso que a literatura e um jornalismo de intelectuais ganham nas preocupações de quem, por séculos de Inquisição, anseia por originais que refresquem a memória pátria. A geral Imprensa, simultaneamente, debate-se com nascentes problemas censórios (é a ditadura de Costa Cabral, muito dura entre 1842 e 1846), sobretudo nesse 1843, em que se perfila legislação limitadora e vários órgãos são querelados. O jornalismo, decisivo na formação do século e da atmosfera romântica, tornava-se notícia. Mediador por excelência, substituía o púlpito perseguido por liberais, transmitia as vozes da tribuna parlamentar, recenseava as peças em cena.

 

Vemos a conjunção, em 1843, de um interesse confirmado pelo folhetim, imaginativo e alfabetizador, com crescente aproximação das leitoras, a quem era primacialmente dedicado; também, o folhetim como intermediário da tradução, que, todavia, se encontrava noutros espaços, do palco à livraria, à biblioteca e ao teatro. O público, convocado por empresas jornalísticas que fixavam os autores mais em vista, e já com mais do que a quarta página dedicada à publicidade, embaratece o produto e conquista assinantes e leitores.

Absorvendo esse ar do tempo, sobrelevando a repressão à Imprensa nesse faustoso ano de 1843, Garrett torna-se pioneiro em, pelo menos, três domínios fulcrais: no teatro, na literatura oral e tradicional (base para a escola etnográfica, retomada em Adolfo Coelho, Teófilo Braga e numa plêiade de ilustres), na moderna novelística, segundo feição mais aérea, sentimental e cúmplice do leitor – feição, entretanto, detectável em O Estudante de Coimbra (1840-1841), de Guilherme Centazzi.

Já diferente será se atentarmos um pouco na lição, de profunda carga ideológica, imanente à ficção d’O Bobo e, sobremaneira, ao leve peso do contado, que o título torna enganoso: Herculano procura instaurar uma escrita do pormenor, matérica, lenta, em que assentar pilares de uma modernidade que, infelizmente, ainda cala ou ignora os avós literários.

Temos, por outro lado, o exemplo de Lopes de Mendonça: a sua estreia precoce ou os descaminhos de um Maurício que protagoniza Memórias de Um Doido (1849) biografam a loucura da juventude conquistadora emergente, todos grandes poetas, a acreditarmos no crítico, geração que, após dois séculos de esterilidade, vinha fecundar o chão do lirismo pátrio. Esta agitação espiritual era vista como prova de, a breve trecho, verdadeira «regeneração» do país...

O que a história literária vem deduzindo desta leva de ultra-românticos – os tais que melhor gozaram os anos do constitucionalismo – é, na realidade, a imagem de Maurícios que (se) representaram. Habituados ao melodrama, ruidosos no dramalhão, deram-se em esqueleto (porque será a destes, afinal, uma poesia tão cemiterial?), guardando corpo e alma para boémias e pecadilhos que lançam outra luz sobre o que a crítica se recusa a ver: a ficcionalização do ser e estar, pela multiplicação de hipóteses e a repetição de experiências (daí o sentimento de naufragarmos em pantanosos lugares-comuns), à medida da crença na civilização e no progresso.

Garrett, senhor de facilidades rítmicas, é grandemente responsável por um epigonismo que atravanca os jornais da época. Mas, quando a toada frívola perceptível no referente ou na estrofe de redondilha maior se passa a eloquência, próxima do fôlego de um Victor Hugo humanitarista (epígrafe de Mendonça, em 1843) ou das graves e solitárias sensações à Lamartine (poeta revolucionário, em Mendonça; de paixões adejantes, propriamente ‘românticas’, num juvenil e despreocupado D. Pedro da Silva do camiliano Mistérios de Lisboa, 1854), aí, então, Herculano vem mais a calhar, antes de João de Lemos e Soares de Passos servirem de mote a milhentos versos perdidos nas folhas dos anos 50. A ligeireza com que se escolhia mestre – e como Castilho aceitava a devoção alheia – casa bem com as encenações repetidas que levaram os manuais a olhar toda aquela gente como uns infelizes. Essa representação, se ronda e até bebe em terrenos de Herculano, não o afecta. O mais que faz é chamar a atenção para a grandeza de um retiro: pelo tom, pela forma (que é sempre um artifício e, nestes poetas, uma exterioridade, simples revestimento), revela-se, de facto, um segmento de sociedade dúplice no seu ser e agir – enquanto todos sobem a ministros, deputados, professores –, relevando, em contraluz, o rosto criador de quem se caracterizou por recusas impensáveis nos contemporâneos.

Herculano tinha, como Garrett, um projecto para Portugal. Castilho, na impertinente cegueira, tanto visava a felicidade pela agricultura (título de 1849) como pelo abc e tratados de metrificação. Herculano perseguia a memória do que éramos com que ensinar o presente. Quanto à lavoura da sua última década, aí está o puro azeite, com prémios internacionais.

Quase naturalmente leitor, no exílio inglês de 1831, do historicismo de Walter Scott e de certa literatura negra, ‘gótica’ ou de terror com que os britânicos usavam tremer, em Herculano parecem descolar momentos de tensão comuns a obras menos estudadas (ou, entre nós, só traduzidos décadas mais tarde), caso da hugoliana Marion Delorme. Refiro-me ao cap. XIV de O Bobo, “Amor e Vingança”, em que, a exemplo do prisioneiro Didier recusando a liberdade que se lhe oferecia através de Marion (que aquele, já conhecedor do seu passado, explicava pela entrega carnal ao inimigo), Egas afasta a hipótese de liberdade que por Dulce (entretanto, «mulher do estrangeiro» Garcia Bermudes) lhe pode ser ofertada.

Esta atmosfera europeia essencialmente francesa não existia, ainda, em 1825 ou 1836. Outros acontecimentos (um célebre baile nas Laranjeiras, reunindo o jet set nacional; as ligações Norte-Sul, com a ponte pênsil no Porto) dão lustre a 1843. E quando o fim-de-século olhar para trás, e reflectir sobre a magreza social, fixa-se nos anos de 1842-1843 como caução dos novos tempos. Em Vida Irónica (1892), Fialho de Almeida convoca dois bailes de aniversário na época. Alonga-se em Vida Errante (Livro Póstumo): “A sociedade de Lisboa em 1840” descreve, pela mesma via, «I – Festas Líricas e Musicais», com relevo para a representação do Frei Luís de Sousa pela alta sociedade do tempo.

História da Cultura Portuguesa: século XIX (1)

A Guerra das Laranjas inaugura Oitocentos. No quadro da ofensiva de Napoleão contra a Inglaterra, França e Espanha assinam uma convenção (Janeiro de 1801) com exigências gravosas para Portugal: adesão ao bloqueio continental, abrindo os portos somente a espanhóis e franceses, que teriam direito a reparações de guerra; e, entre outras intimações, revisão da fronteira com Espanha. Sem capacidade de comando e de resposta, entre 20 de Maio e 6 de Junho, caíam praças-fortes alentejanas e celebrava-se o Tratado de Badajoz: Portugal perdia Olivença, ferida ainda aberta na alma de nacionalistas. Com implicações na América do Sul, e elevado montante pago a França, para evitar invasão, aquele seria confirmado por um mais severo Tratado de Madrid (29 de Setembro de 1801). Laranjas de Elvas entregues por dois soldados ao comandante Manuel de Godoy, que ele enviou à rainha Maria Luísa acompanhando mensagem, deram nome a guerra fácil e denunciavam o amargor de uma nação sem rumo.

O reinado de D. Maria I (1777-1816) estava, desde 1792, por morte do príncipe herdeiro D. José (1788) e loucura da soberana, nas mãos de um impreparado filho segundo, que vai coroar-se em 1818, no Rio de Janeiro. Casado com a feia, inteligente, irrequieta e infiel Carlota Joaquina, filha de Carlos IV de Espanha, o futuro D. João VI entrega-se aos favores carnais e larga a pátria nas mãos de ministros. Internamente, o pensamento é vigiado pelos espiões de Pina Manique, chefe da polícia, que morre no ano de um constante inimigo seu, Manuel Maria Barbosa du Bocage (1805).

Em finais de 1806, Portugal é intimado a aderir ao bloqueio continental à Inglaterra, e relembrado, em 17 de Julho de 1807, a fechar definitivamente os portos aos ingleses; deve, até 1 de Setembro, confiscar-lhes os bens e prender os aí residentes. Após vários conselhos de Estado inconclusivos, anuncia-se adesão a 25 de Setembro. Mas, desde Agosto, os estaleiros e o arsenal recuperam navios para o que será a primeira retirada de uma corte europeia para os seus domínios ultramarinos.

 Com os mercadores ingleses de sobreaviso, D. João assina acordo secreto, escrito em francês, com Jorge III de Inglaterra (22 de Outubro, ratificado por Portugal em 8 de Novembro). Indiferentes à consabida duplicidade joanina, as tropas napoleónicas passam a fronteira em 19 de Novembro. Mesmo ignorando o Tratado de Fontainebleau, de 27 de Outubro – que tripartia Portugal e já cobiçava o Ultramar −, isolado de uma Espanha adversa que vai acrescentar 27 mil homens e 62 peças de artilharia aos 28 mil franceses, esperar pelo inimigo, ainda que maltrapilho, podia ser humilhante. Vencedor ou vencido, perda maior seria se a Inglaterra interpretasse mal aquela «adesão» e conquistasse possessões na Índia, no Brasil, no resto do Império. O último conselho de Estado, de 24 de Novembro, sobressalta-se, à notícia da chegada de Junot a Abrantes, localidade da qual a mulher, Laura Junot, tirará o título de duquesa de Abrantes. Três dias bastam para arranjos finais da administração régia, ora nomeando sete governos militares do reino, ora embarcando a Família Real e milhares de burocratas, mercadores, açafatas, lacaios, soldados, entre caixotes e baús escondendo o Tesouro, arquivos e outros bens. Comandada por ingleses, a armada sai a 29, ainda avistada pelas primeiras tropas francesas que desaguam em Lisboa…

O intendente-geral da polícia é, agora, Pierre Lagarde, cujo apelido servirá a título de jornal antinapoleónico – O Lagarde Português, ou Gazeta para Depois de Jantar (1808) – e a quadras de um poeta, folhetista satírico e jornalista temível: José Daniel Rodrigues da Costa (1757-1832). Os seus títulos, reeditados, são curiosos – além de críticos, morais e divertidos.

Opúsculos e folhetos, anónimos ou assinados com iniciais, fuzilam os invasores; mas, se não é algum cabeçalho forçado à subserviência ou a oficial Gazeta de Lisboa – com larga vida desde 10 de Agosto de 1715, até ser, hoje, Diário da República, em edição electrónica –, a quase totalidade das folhas corrói Napoleão e o apaniguado Godoy, acusado de traidor e vendido.

A pensar na degradada economia nacional está um vulto eminente formado em Leis, José Acúrsio das Neves (1766-1834), autor da fundamental História Geral da Invasão dos Franceses em Portugal e da Restauração deste Reino (5 tomos, 1810-1811). Literariamente, interessa a dúzia de escritos patrióticos, em que, ora interpelando «gazeteiro», ou seu mandante e usurpador francês, ora a alma da nação, anima esta à resistência solidária com Espanha e elogia a Inglaterra na figura de Jorge III, muito cantado na lírica nacional.

O Trono e o Altar têm um estrénuo defensor – e mais nesses dias negros de submissão aos três delegados de Napoleão, entre 29 de Novembro de 1807 e 17 de Abril de 1811: Junot, Soult, Massena – em José Agostinho de Macedo (1761-1831). Frade agostinho (1788) expulso da Ordem em 1792, por mau comportamento e vícios privados, é, desde 1802, pregador régio. Membro da Nova Arcádia e da Arcádia de Roma, terá alguns inimigos e invejas de estimação: os pedreiros-livres, em que inclui afrancesados, discípulos de Voltaire, Rousseau e demais iluministas, que ele ainda estudou, a par do elogio de Newton, título de poema épico (1813); Os Lusíadas, que rebaixa, para altear obra própria, O Oriente (1814), em 12 cantos, depois de Camões ser citado no limiar do ‘poema narrativo’ Gama (1811); Bocage e um amigo poeta, Nuno Álvares Pato Moniz (1781-1826); Almeida Garrett e liberais; Os Burros (título de 1827), isto é, a gente das letras. Inconstante e violento, polemista irredutível, bom argumentador e leve na prosa, o panfletário Macedo é excessivo, exibicionista, avesso à bondade, sem misericórdia. Fixou, porém, títulos de encher o olho: Motim Literário em forma de solilóquios (4 vols., 1811), que inspiraria Motim Literário, de David Mourão-Ferreira (1962), ou o periódico A Besta Esfolada (1828-1829, 1831).

Ainda sob ameaça francesa, algo mais desastroso está para acontecer no Rio de Janeiro, em 19 de Fevereiro de 1810, com o Tratado de Amizade e Aliança entre Sua Majestade Britânica e Sua Alteza Real o Príncipe Regente de Portugal, que vai vigorar até 1835. A abertura dos portos brasileiros à Inglaterra significará perda da capacidade reexportadora da metrópole e vai enfraquecer a economia de um país abandonado pela corte, e ora invadido, ora sob protectorado inglês. Nesse ano, entram 810 navios portugueses no Rio de Janeiro; em 1829, somente 57. O défice com o estrangeiro, em 1818 e 1819, atinge a avultada soma de 22,5 milhões de cruzados. A decadência industrial, também proveniente do atraso tecnológico, faz cair as exportações. Entre 1796 e 1820, há uma quebra de 40% nos tecidos de algodão; de 70% nos tecidos de lã; de 100% no ferro; de 15% nos artigos de luxo ou de artesanato.

Afastados os franceses, recresce a lírica laudatória dedicada ao régio casal. Ainda em 1811, Joaquim José Pedro Lopes (1778?-1840) propõe insossa “Ode ao faustosíssimo dia natalício de Sua Alteza Real o Príncipe Regente Nosso Senhor”, 18 sextilhas depois em volume epónimo reunindo 17 composições, em português e latim, desde o nascimento do Príncipe (1767) até 1817. Outra miscelânea, sem data, junta sete composições desde 1791 até ao sossego pós-invasões; o último de dois sonetos fecha: «Volve, oh PRÍNCIPE amado, à Pátria Terra!» Este apelo vence o Atlântico. Dentre as mais conseguidas reuniões de espíritos – Cândido Manuel da Costa, Filinto Elísio, António Dinis da Cruz e Silva, José Anastácio da Cunha, Silva Alvarenga ­–, citemos Colleção de Poesias Ineditas dos Melhores Auctores Portuguesez (2 vols., 1809-1811). Estas compilações, fundindo-se no mesmo espaço tipográfico e mental, promovem um entendimento patriótico das partes, que, todavia, ainda se dilaceram, ideologicamente.

O Jornal Poético (1812) retoma essa atmosfera, com ode em 26 oitavas, não assinada, “Ao Príncipe Regente Nosso Senhor”, renovada sedução para líricos menores. No ano seguinte, Joaquim José Pedro Lopes responde com “Ode aos faustíssimos Anos de S. A. R. a Princesa Carlota Joaquina N. S.”. A alternância entre o aniversário joanino de 13 de Maio e o 25 de Abril natalício de Carlota Joaquina Nossa Senhora será uma constante. São em menor número as odes, louvor a que não faltaram José Agostinho de Macedo e, com soneto, Francisco José Bingre (1763-1856). Morre D. Maria (1816), coberta de elegias; casam Pedro, o primogénito, e Leopodina, ida de Viena de Áustria (1817); aclama-se D. João VI (1818). 

No primeiro trimestre de 1820, acentua-se quebra comercial no Reino, seguida de falências. A autoridade inglesa supervisiona o país. O marechal Beresford – que dera prova de força ao mandar enforcar o general Gomes Freire de Andrade e outros onze «mártires da Pátria» acusados de maçons (18 de Outubro de 1817) – reorganiza o exército, sob protestos crescentes da nação. Em 13 de Agosto, desloca-se ao Rio de Janeiro. A atmosfera pesada anima um grupo de burgueses do Porto ligados à Maçonaria a conspirar, desde jantar de 22 de Janeiro de 1818 (jantar que se repetia, em cada dia 22, na Foz do Douro), assim preparando a Revolução Liberal de 24 de Agosto de 1820. Pela primeira vez, haverá eleições em 10, 17 e 24 de Dezembro.

Espalha-se regozijo pela resposta favorável de D. João VI à convocação das Cortes Constituintes – o Congresso Nacional das Cortes estreia-se em 26 de Janeiro de 1821, dois dias após a «sessão particular» que juntou deputados na «sala das Cortes». O rei sai do Rio de Janeiro a 26 de Abril. Desembarca no Terreiro do Paço a 4 de Julho de 1821, enquadrado pelo poder legislativo, que redige a Constituição.

Os versejadores entram na liça, saudando esta volta do Brasil. Já, entretanto, molharam pena mais ágil Almeida Garrett (desde um soneto de 1814) e António Feliciano de Castilho (1816), que, nas suas primícias, fazem a síntese de dois processos literários em curso: filintismo e elmanismo.

Louvor e Ilustração da Língua Portuguesa

[...] porque a língua e a unidade dela

é mui certo apelido do reino,

do senhor e da irmandade dos vassalos.

Fernão de Oliveira [1536], 1975: 88.

 

Partindo das «qualidades que deve ter qualquer língua para ser perfeita» (Manuel Severim de Faria, Discursos Vários Políticos, 1624), encontramos gramáticos e poetas do século XVI que, em fase eufórica, saudaram a Língua; colocamos a tónica, porém, no quadro disfórico sob os Filipes, em que o idioma funciona como peça de resistência.

Recorrendo a nomes de Seiscentos, quase todos desconhecidos, com particular incidência em paratextos de obras maioritariamente de História, doutrinação e sermonário, andaremos à volta das cinco qualidades que Severim de Faria desenvolve, a saber: cópia de palavras – também para não enfadar o ouvinte; boa pronunciação; brevidade e gravidade; ortografia perfeita, pronunciarmos como escrevemos (e vice-versa; em cuja pronúncia só repugna o malfadado ão); finalmente, a aptidão da língua para todos os estilos, como se vê pelas diferentes matérias em que entra o Português, seja o estilo humilde, grave ou mediano.

 

  1. A força da nossa língua advém de uma universalidade que não é igual a um todo como soma dos lugares onde ela se fala (necessariamente constrangedor, em laivos normativos), mas de um todo condicionado pelas potencialidades locais, onde a língua, de choque em choque, se enriquece.

Os «caminhos do Português»[1] revolvem gentes e não só territórios; são, por vezes, insondáveis, do vocabulário vicentino ininteligível em Exortação da Guerra (1514) aos modos de composição em João Guimarães Rosa ou Mia Couto, reconhecida, ainda, a necessidade de guias aquilinianos ou das Terras de Riba-Coa. Nas comunidades no estrangeiro, será o Frantuguês (Francês e Português) o mais activo[2]. Mas o intercâmbio com o Oriente, se diluído, não deixou de promover outras veredas, caso do tâmul (ou tâmil) falado em Cochim, pois do indiano malabar já trata Duarte Nunes de Leão, e João de Barros alarga-se na importância de orientalismos[3].

Se o argumento principal – ilusório, em tantos casos – ainda releva da quantidade, ou projecção materna e veicular da língua, a base de argumentação nos séculos XVI-XVII, tomando embora este dado como reforço, incidia sobre factores de qualidade, interiores à língua, dirigidos. O idioma, como superestrutura, torna-se plurifuncional. Sabemos, porém, como existe sempre um desfasamento desta com as realidades mais comezinhas e prementes, aguardando, por largo tempo, a caminhada a par. João Franco Barreto, sob a Monarquia Dual, pressentia tese marxista: mudança de império, mudança de língua[4].

Passava-se, assim, da euforia linguística quinhentista, centrada nos quatro primeiros gramáticos (1536-1606) – Fernão de Oliveira, João de Barros, Pêro de Magalhães de Gândavo, Duarte Nunes de Leão, que Maria Leonor Carvalhão Buescu estudou, e resumimos – a uma quebra nacional, que também era de um sujeito já pós-tridentinamente abalado. A língua do leite torna-se, no novo quadro político (nem sempre na literatura de cada um), objecto de reflexão e, além de peça de resistência, complexo de identidade nacional. Os oitocentistas reactivam a ideia de que, face à ruína iminente da nacionalidade, «La langue est le dernier symbole de l’existence d’un peuple»[5].

Se, também nesta frente, o século XVI continua a atrair cultores, já o século XVII passa pelos estudiosos como gato por brasas. Os linguistas, outrossim, não investigam fundamentos ideológicos e reservas mentais. Ora, em tempo de Filipes – e século arauto do jornalismo, que bebe na língua a sua razão –, a relação de cada um não pode evitar o fundo da questão linguística. Não é só identidade, que pode não ser suficiente; é situar-se na pluralidade, que Paul Ricœur resumia, à luz de simpósio compostelano de 1998, ‘Identidad y cultura. El papel de la lengua’:

 

La identidad siempre está ligada a lo exterior, a lo extraño. La lengua funciona como un mecanismo interno entre sus hablantes, pero también como una manifestación hacia el exterior de una comunidad. El hecho fundamental no es la identidad, sino la pluralidad humana. Y el problema para cualquier grupo cultural es cómo situarse ante los otros, preguntarse: “cuál es mi lugar entre la pluralidad humana?”»[6]

 

Da análise de Barros por Buescu (1984a: LVII), e, em particular, do “Diálogo em lovvor da nóssa lingvágem» (1540)[7] –, ressaltam «seis motivos de louvor» calhando bem à língua pátria: «riqueza vocabular; conformidade com a língua latina e filiação nela; sonoridade e majestade; sonoridade agradável; carácter abstracto; possibilidade de enriquecimento do vocabulário por meio de adopções e adaptações (sobretudo de latinismos).»

Posta a leitura circunstanciada de Fernão de Oliveira (1536), de Barros, dos interlocutores português e castelhano (diálogo áspero[8], ao contrário da relação pai-filho, no anterior) em Gândavo e de Duarte Nunes de Leão (1576, 1606), e conhecido balanço de Santos (1975), convém descer aos clássicos mais próximos e estabelecer comparações: Dante, Vita Nuova (1292-1293) – cujo § 25 aclara que «Il volgare è promosso a lingua della poesia» (p. XXXVIII) – e De Vulgari Eloquentia (1304-1305); Nebrija, Arte de Gramática Castellana, 1492; Bembo, Prose della Volgar Lingua (1525); Juan de Valdés, Diálogo de la Lengua (1535?); Du Bellay, La Deffence... (1549). Sem esquecer quatrocentismos: o Condestável D. Pedro justificando uso do castelhano em sátira de entre 1449-1453[9]; o elogio de Valentim Fernandes – sensível aos modernos vocábulos «gentijs e doçes» – a Frei André, que superintendeu a revisão alcobacense da Vita Christi destinada ao prelo (1495)[10].

No momento seguinte, organiza-se conjunto de referências metalinguísticas – não só sobre linguagem ou estatísticas[11] –, em que se perceba o empenhamento reflexivo dos criadores no tocante ao idioma. O enquadramento faz-se a partir de Cuesta (1988), Serrão (1994), Bouza Álvarez (2000), títulos igualmente úteis para o apartado III, onde são citados. Para as questões da língua, L. C. Buescu, algum Ares Montes (1956), Picchio (1959), Teyssier (1990), Ana Isabel Buescu[12]. De preferência, disponibilizando recensões, como Teyssier[13].

Em atmosfera bilingue, Gil Vicente e Camões são os casos mais flagrantes, indo além, mesmo, dos dois idiomas, no uso próprio e na referência. Aptidão para a carnavalização do português está naquele; neste, e fora os lugares-comuns conhecidos d’Os Lusíadas, importa mostrar a caracterização frente ao Outro, oriental com sua «linguagem tão bárbara e enleada» (I, 62: 4) ou «língua escura» (I, 64: 2). Ao contrário, os porta-vozes desejados serão de «palavras sinceras, não dobradas», e «prática elegante» (II, 76: 2, 78: 1).

Seguem-se Sá de Miranda e António Ferreira, que o editor da poesia daquele, em 1784, irmanou no prólogo, enquanto valorosos defensores da competência do idioma.

Jorge Ferreira de Vasconcelos, na póstuma Comedia Avlegrafia (1619: fol. 67r-v), retoma diálogo entre português, Artur do Rego, e castelhano, Agrimonte. Aquele resume pecha antiga: «Somos taõ inclinados à lingoa Castelhana, que nos descontenta a nossa, sendo dina de mayor estima, & não ha antre nòs quem perdoa a hũa Trova Portuguesa, que muytas vezes he de vantagem das castelhanas, que se tem aforado com nosco, & tomado posse do nosso ouvido que nenhũas lhe soão melhor: em tanto, que fica em tacha anichilarmos sempre o nosso, por estimarmos o alheio.»[14]

É do elogioso prólogo, entretanto – sobre a «gravidade, graça Lacónica, e autorizada pronunciação [que] nada deve á Latina» – que bebe o Diccionario da Lingoa Portugueza (1793), cujas “Memorias e Louvores da Lingoa Portugueza, que se achão em diversos autores” (p. XXI-XLI) constituem a primeira antologia sobre a matéria.

Abrindo, sem razão, pelo Marquês de Santillana, e logo Barros ­(esquece Oliveira), acrescenta Jorge Ferreira e «O autor incerto do Dialogo das Lingoas» (a nossa língua distingue-se do castelhano na pronúncia e ortografia), Duarte de Resende (é a que melhor trata «graves e excellentes materias»), Francisco de Morais (é a mais copiosa), André de Resende, Ferreira, Camões, Gândavo, Miguel Leite Ferreira (todos nela podem cantar, tal a cópia e gravidade de estilo).

Segundo Barros, ecuménica, mas apostolizando pelas «Reaes Quinas de Christo», e cuspida ao latim, «Esta prerrogativa tem sobre todalas lingoagens presentes: magestade pera cousas graves, e hũa eficácia baroil, que representa grandes feitos». De música «grave e sentida», «pureza e sequidão pera cousas baixas» (ou «tão honesta e casta, que parece não consentir em si huma tal obra como a Celestina», logo se desculpando, mal, Gil Vicente), a nossa linguagem «não perde a força pera declarar, mover, deleitar, e exhortar a parte, a que se inclina». De Barros e nomes acima citados se serve o Petrónio de Gândavo para contrapor a Falêncio ser a nossa mais suave, enquanto a castelhana «se póde chamar barbara» – combate-se, assim, crítica do francês Nicolau de Grouchy[15] –, porque, tomando da arábica «a maior parte dos vocábulos, fallais de papo, com aspiração; e assi fica uma lingoagem imperfecta, e mais corrupta do que dizeis que a nossa he». Ora, quer Gândavo, quer Barros, entre outros, concedem alguma impureza ao português por força da entrada dos Mouros: é o que lembra Manuel Correia, no «Commento aos Lusíadas, cant. I est. 33».  

  1. O Duarte Nunes da Origem da Língua Portuguesa (1606) dá passagem ao século XVII. Reitera a sua expansão no mundo, pelo que «com razão se póde ter em muito, e chamar ditosa, pois por ella se anunciou, e manifestou a tantas gentes, e de tão remotas e estranhas províncias a Fé de Nosso Senhor Jesu Christo, e foi causa de se tirarem as erróneas e trevas, em que o mundo vivia»; e, com poemas à maneira de Barros, a semelhança entre o latim e o português, que beneficiou, sobre o galego, da existência de corte, para polir o verbo. Aqui, faz-se ligação excelente com “Discurso Segundo. Das partes que há-de haver na lingoagem para ser perfeita, e como a Portugueza as tem todas e algumas com eminência de outras lingoas”, incluso nos Discursos Vários Políticos, de Severim de Faria, notabilíssimo e precursor.

Hábil e subtilmente, constrói um esquema / ambiente fechado – o esquema da língua portuguesa –, cujos pressupostos (convicções pessoais e colectivas) visam a construção de premissas pseudocientíficas, que, claramente, informam a conclusão final. Se, antes das provas, a nossa língua se iguala às melhores da Europa, mais tarde, é já uma das melhores do mundo. Não negamos que a Europa fosse, então, o mundo; observamos só o trânsito Europa / Mundo, como do nada (ou a língua tendo-se a si própria, em círculo) à explosão desse centro, cuja gravidade o obriga a flutuar.

Reafirma-se uma perfeição convencional. Não é por acaso que, no século XX, autores como Antero de Figueiredo, António Correia de Oliveira, Afonso Lopes Vieira, recuperam a mesma diligência: pois que o Império é um facto, a língua há-de ser – é – (a mais) completa e perfeita. O que vem desembocar no raciocínio seiscentista: esta língua é a mais completa e perfeita, e só assim está de acordo com a grandeza do Império. Atenuando a grandeza de um Império quase alienado, o intelectual assimila aquele à língua e, como João Pinto Ribeiro, afirma que é forte «disparate» pensar que se podiam «confundir as línguas»; nós interpretamo-lo: confundir as pátrias. A identidade linguística sempre existe para alguma coisa. Voltemos a Severim de Faria.

Como muitos outros – João Franco Barreto, Álvaro Ferreira de Vera, Bernardo de Brito, Fr. Bernardino da Silva, António de Sousa de Macedo[16], etc. –, também este dá crédito à lenda de Túbal, primeiro povoador de Portugal e Espanha[17], o qual falava hebraico, língua que viria a corromper-se. Esta notícia da corrupção das línguas perspectiva-se em dois campos: por um lado, refere-se a sucessão que, da língua primeira, o hebraico (utilizado por Adão)[18], aconteceu, pelo castigo pós-diluviano que Deus lançou sobre os homens construtores da Torre de Babel: uma das setenta e duas era o grego, que gerou o latim e, depois, o português – para os de Seiscentos, a nossa língua tem «a origem da Grega» (Rodrigues Lobo); por outro lado, tem-se consciência da diferente corrupção do romance conforme as regiões portuguesas (Faria e Sousa), e, diacronicamente, fazendo da língua um corpo vivo, conclui-se da renovação por força do uso e necessidade, não caindo na ilusão da imutabilidade da língua (Barreto, Severim, Brito, Faria e Sousa[19]). Vasco Mousinho de Quevedo vislumbra-a como eterna fénix renascida...

Mas não só Túbal. Ferreira de Vera refere a vinda de Hércules a Espanha[20], que, por duas vezes, governaria. Refere a vinda de Ulisses. De Baco. Dos Romanos. Já, Faria e Sousa não esquece os francesismos e castelhanismos que, por vinda do Conde D. Henrique e esposa – mais o vasto séquito –, precederam os alvores da nacionalidade e informaram o então latim corrupto. (Considera, ainda, que a corrupção deste foi menor nas «línguas vulgares» de Portugal e Castela do que em França e Itália.) Para Vilas-Boas e Sampaio, se há tantas vozes estranhas na nossa língua, tal é devido à passagem de inúmeros povos, entre os quais enumera fenícios, gregos, messénios, lacedemónios, forenses, ródios, gálios, cartagineses, etc., para, em 412 (segundo Paulo Osório), chegarem os vândalos, suevos, silingos, e, em 711, os árabes... Condena Faria e Sousa a «ceguedad» dos godos; ele e Manuel Correia o «furor» dos mouros, sendo ainda Barreto a equilibrar os pesos: «Não há lingoagem pura, e sem mistura de outras línguas.»

Intercalando este fio, atente-se na defesa que o penúltimo faz do uso dos latinismos n’Os Lusíadas (por excessivos? por um movimento de contra-latim, que está presente no Auto do Fidalgo Aprendiz?); para, demolidor, surgir Faria e Sousa, chamando «cobarde» ao que não ousa «introduzir algumas vozes estranhas na sua língua, e singularmente da Latina». Já Manuel de Galhegos diz ter-se valido «de alguns vocábulos, e termos estranhos: com toda a moderação, e com todo o rigor da retórica»; já Manuel do Sepulcro e Fr. Agostinho de Sousa investem contra os que mendigam vocábulos estrangeiros; desde há muito, também, optar pelo castelhano em Felicissima Victoria… (1578) levava a censurar Hieronymo [Jerónimo] Corte Real; eis que, logo, Vieira nos sobra.

Ele aí está: conhecedor das «subtilezas do idioma português» ou «um grande adorador da linguagem antiga» (Francisco José Freire), «o mais puro, o mais castigado dos nossos Escritores»[21] e «imperador da língua portuguesa» (F. Pessoa) elogiadíssimo, singularizado por D. Frei Alexandre Lobo[22] e Raymond Cantel[23], é Vieira quem melhor acorre ao nosso propósito. Quer no Sermão da Terceira Quarta Feira da Quaresma, quer nos prolegómenos à História do Futuro, «Vieira recomenda aos seus leitores latinistas passarem sem ler a tradução em português de uma longa citação de Lactâncio, [evitando] uma aproximação aborrecida entre as duas línguas: “[...] para que não fiquem com o sentimento de quão mal se pode trasladar à nossa língua”»[24].

De resto, toda a versão de texto latino em Português é, nele, uma aventura: se, por um lado, subsistem aí fins evidentes, pode também pensar-se que, estruturalmente, Vieira sentia essa fraca correspondência da «filha primogénita» do Latim. De todas as línguas novilatinas, alguma ressurgiria hierarquicamente superior: «consciente da riqueza da língua, o grande orador é um purista. Não admite os empréstimos das restantes línguas»[25], embora a prática o desmentisse, pela presença – que Cantel quantifica – de castelhanismos, italianismos, etc. Assim, interpolando temas como a origem (mítica) e formação da língua, vislumbrando-se já um sentimento de proclamada autonomia pela demarcação nos empréstimos, vejamos como a língua se individualiza e sobrepaira às restantes.

Partindo de que «[...] nem por primeira antiguidade, nem por incorrupção do idioma, pode nenhuma lingoa ser tida por melhor que a outra» (p. 120), Severim de Faria vai dar-nos as suas razões.

Logo a abrir, desenvolve a primeira qualidade, cópia de palavras. Nisto, diz, é a nossa língua «abundantíssima», contrariando Benito Caldera, que, no prólogo da tradução d’Os Lusíadas, a julgara «pobre». Em termos de cópia, a grega ocuparia o primeiro lugar, a hebraica o último.

Segue-se a boa pronunciação (como, também, do grego), «muy fácil, grave, y suave, como dizen los Authores, que abaixo iran alegados”, e são – fora portugueses quais João de Barros, Bernardo de Brito, etc. – os castelhanos João de Mariana, Cervantes, Lope de Vega, acrescentando nós D. Antonio de Capmany y de Montpalau, o qual, porém, lamenta «la exâgeracion é hinchazon, de onde vino a contraer un caracter asiatico el estilo nacional”[26] (refere-se, claro está, aos Cultos). Sem isso, «hubiera sido inimitable en las demás lenguas vivas».

Em terceiro lugar, a brevidade (ao lado da gravidade: ver Amador Arrais, Diálogos, 1600) –, e logo nos ocorre Bernardo de Brito, dando a língua como a mais própria para a História e para os conceitos, qualidade que António Delicado e Bernardes sentem nos adágios, de cuja cópia a língua é, ainda, senhora.

A quarta característica: ortografia perfeita (apesar do ditongo ão: cf. Bento Pereira e o citado José de Macedo[27]) serve, com Barreto, para ser considerada a primeira excelência da língua portuguesa, e só dela, em toda a Europa. Aquelas três eminentes qualidades («muy fácil, grave, y suave») ficam provadas pela facilidade com que todos os povos – à excepção dos castelhanos (e explica porquê) – aprendem a falar português. Facilidade que Ferreira de Vera crê não existir nos estrangeiros...

Finalmente, a aptidão da língua para todos os estilos, como se vê pelas diferentes matérias em que entra o português, quer no estilo humilde, grave ou mediano. Com vantagem, sem mais, e pelo menos, no tratamento do erótico e do heróico (Faria e Sousa).

Eis, em resumo, Severim de Faria. Lemos esta enumeração de perfeições numa cadência bem diferente em Rodrigues Lobo (1619). Porém, tratadistas posteriores – António de Sousa de Macedo, Álvaro Ferreira de Vera, João Franco Barreto, Faria e Sousa –, para lá de comuns referências, citam já Severim de Faria, parafraseando-o, ofuscados pela quantidade de exemplos que, numa segunda fase, explicitam as ditas perfeições. Aos predecessores referidos, acrescentemos Fernão Álvares do Oriente (1607).

A possibilidade de, aprofundando o estudo, depararmos com detractores da língua não é hipótese descabida: quando, nas comparações com as línguas cultas da época e ao lado do trabalho obscuro dos, sobretudo, missionários (organizando gramáticas e vocabulários dos povos em vias de civilização, «lançando assim os fundamentos da glotologia comparada»[28]), acontecem referências aos «filhos ingratos», a justificação imediata é a de estes escreverem em língua castelhana. Mas não só: aqui, as insinuações de Rodrigues Lobo podem valer como aviso e, em arquivo ou desaparecidos, alguns textos teriam feito época.

Manuel Correia, a propósito da tradução d’Os Lusíadas, contrapõe «a humildade da nossa língua portugueza» à «formosura da língua Latina». Não é depreciativo, porque tal humildade é requerida pelo termo de comparação. É, antes, sintomático do respeito que o século XVII votava ao latim. E como não, quando Faria e Sousa e Ferreira de Vera nos contam que um menino, em Évora, falava, com dois anos, «além da sua lingua Portuguesa a Latina perfeitamente»? Relembrando Vieira: e se o valor da língua portuguesa lhe adviesse da sua semelhança com a latina? O factor da dilatação da língua, já então importante, só virá a ser decisivo três séculos depois.

Com efeito: a provada cópia de verbos – em que se exprime o génio da língua, segundo Francisco Evaristo Leoni[29] – serve já a Severim de Faria para a aproximar do latim. Barreto vê na oração de língua portuguesa as oito partes que existem na latina (nome, pronome, verbo, particípio, preposição, advérbio, conjunção, interjeição) e, como quem, amiúde, procura e/ou reafirma uma génese, acrescenta o artigo, que o latim não conhece, mas conhece o grego. Mais argumenta que palavras como mano / mana nenhuma língua, nem mesmo o latim, as poderá dizer. Repete Leão (1606). António de Sousa Macedo dará uma lista maior, onde saudade toma o seu lugar (ou saudades, em Ferreira de Vera). Beberam em Nunes de Leão. Para uma melhor aproximação ao latim, existem propostas pontuais: Bento Pereira apela à substituição de ão por am. Duas razões, porém, sobrelevam as restantes.

A primeira é de origem mitológica – e poucos deixam de se escudar nela. Camões transforma-se no paradigma a retomar (para a pureza da língua e não-empréstimos será Fr. Luís de Sousa); melhor, a sua estrofe 33, canto I, é a pedra de toque: eis Vénus: o (re)verso – um halo poético – sobre a justificação dada à língua como construção lenta onde as armas (também) escreviam.

A segunda é ambígua: os textos que podem ser, simultaneamente, latinos e portugueses, tanto em prosa como em verso (e ainda aqui os autores se repetem), assentam num vocabulário nada espectacular, empobrecendo-se gradualmente, em curto-circuito. Também os castelhanos fabricaram tais exemplos (cf. Luís Afonso de Carvalho, Cisne de Apolo). O que, se prova algo, não é por si convincente. Para as modas da época, contudo, era suficiente.

O bilinguismo literário manteve-se, entre nós, até cerca de 1680[30], «mas, a partir de 1640 – diz R. Cantel, p. 83 –, empregar a língua espanhola era empregar a língua dos inimigos».

Afirma Manuel de Galhegos (1635) que os engenhos se esqueceram da língua portuguesa, «e quem agora se atreve a sahir ao mudo com hum livro de versos em Portuguez arriscase a parecer humilde». António de Sousa de Macedo (1631) escreve em castelhano, porque este é mais conhecido na Europa. Antes que o filho Pedro de Faria e Sousa (1674) e António Álvares da Cunha (1678) retomem a defesa de Manuel de Faria e Sousa, este fizera já uma auto-defesa em 1639, reiterada mais energicamente na pós-Independência, em 1646, ao proclamar: «Yo no soy Castellano.»

Era incómoda a situação, pois a um bilinguismo castelhanizante não correspondeu «um bilinguismo lusitanizante dos castelhanos»[31]. Para Jorge de Sena, durante esta época, o sentimento resistente «é mais ideológico-religioso do que patrioticamente político», pois «A união de coroas na pessoa de um príncipe estrangeiro não afectava necessariamente uma concepção de patriotismo, que era sobretudo geo-cultural (e não mitologicamente romântica)» (ob. cit., p. 14-15). Para concluir:

 

De modo que o Faria e Sousa que escolheu ser, em Espanha, e através do espanhol, um propagandista de Portugal e de Camões, nem é nem mais nem menos castelhanizante que muitos outros que passaram a fronteira, ou em Portugal estavam, e que continuaram, em pleno estado de guerra, que durou quase três décadas, o bilinguismo cultural e linguístico. E realmente só a partir dos fins do século XVII começa a transformar-se, e Portugal passa a viver, ou a subsistir, contra a Espanha. [...]. Mas naquele tempo do século XVII, cuja segunda metade Faria e Sousa não teve vida para ver, até os judeus portugueses, e que portugueses se declaram nos seus exílios europeus, escreviam as suas obras no que fora e ainda era a língua franca: o castelhano[32].

 

Pois sim. Mas esta abertura de espírito é moderna. E teria uma explicação conjuntural. A insurreição anticastelhana matiza-se, no campo das letras, singularmente. Não é por escrever em castelhano que um autor é condenado; é por, escrevendo em português (com ou sem empréstimos) e/ou castelhano[33], escrever escuramente, opção tida como derivada de Gôngora; digamos que, em alguns casos, uma reabilitação é sempre possível. Contra os Cultos não se levantaram poucos: Diogo Camacho, Fr. António da Encarnação, Vieira, Bernardes... Uma evidência, porém, subsiste em muito bons portugueses: basta que os interlocutores sejam estrangeiros para, logo, falarem como «cães». Sempre guturais! É visceral[34]: como acontece num poema de Jorge da Câmara.

Vamos terminando. Tratou-se da origem, formação e evolução da língua – e chamamos a atenção para momentos decisivos: a leva de invasores; a vinda do conde D. Henrique; enriquecimento e perfeição em tempo de D. Dinis (Fr. Francisco Brandão, Faria e Sousa); o reinado, áureo em todos os campos, de D. Manuel I. Contra os arcaísmos, a mendicância de termos, pela recolha daqueles que o uso e a necessidade impuseram ou foram utilizados pelos quinhentistas[35]. Sobre as excelências da língua portuguesa, sem rival em perfeição, própria para todos os géneros e estilos, que, manifestando-se a tantas e tão estranhas gentes, lhes anunciou a Fé Católica e a Civilização Ocidental, tornando-se um vínculo de comércio (linguístico e não só) e unidade, de conservação, enfim (Amaro de Reboredo).

Acessível ou não aos estrangeiros, por alguns reconhecida como excelsa[36], transladada em muitas obras, retoma, em 1640, o estatuto de língua de todos os Portugueses – ou quase: que o povo nunca a enjeitou.

 

Linguagem dos Media: 3 de Fevereiro

Breve história dos media. 

Visuais. Arte rupestre. Datações. Interpretações.Origens da escrita.

Resumo:

A história da Humanidade é documentada, em primeiro lugar, pelos media visuais e impressos. Nestes, a literatura ganha corpo já nos primórdios da escrita e na Antiguidade clássica greco-latina, com textos fundadores absorvidos pela Europa desde a Idade Média. Cumpre-nos, assim, pactuar numa definição de literatura e ver em que medida é berço ou inspiração de outros segmentos patrimoniais.

 

As pinturas rupestres enquadram-se nas datações da teoria Out of Africa, segundo a qual o Homo sapiens africano se dispersou pela Europa e Médio Oriente há 50 mil anos e criou sociedades de recolectores-caçadores com suas trocas comerciais, ritos religiosos e manifestações artísticas. Estas tanto são explicáveis por razões sociais ou demográficas, como pela «survenue d’une mutation génétique três avantageuse qui a favorisé le cerveau d’Homo sapiens»[1]. A arte parietal pode ter vindo até há oito mil anos[2], considerando-se de há 15 mil anos, no mínimo, Lascaux e Altamira (as datações variam, mais do que duplicando esta idade), e, quanto à galeria de ar livre do Côa, 25 mil anos. Descoberta recente[3] de uma pintura figurando cenas de caça, em gruta da ilha de Celebes, Indonésia, terá 44 mil anos. Podemos supor lapsos mais vastos? Estudo da Nature (ver El País de 3-XII-2014) mostrou o talvez primeiro desenho da Humanidade, em Trinil, Indonésia: ziguezagues de há 400 mil anos. São o primeiro medium – meio visual – na história da Humanidade.

É de mais fácil interpretação, e datação menos problemática, a escrita, em que assentam formas de comunicação e expressão.

 

Nasce há pouco mais de seis mil e quatrocentos anos no Irão (4 400 a. C., elamita linear), segundo estudos recentes[4], que vão além dos cinco mil anos na Baixa Mesopotâmia (pictográfica, c. 3 300) e no Egipto (hieroglífica, c. 3 100; variantes hierática e demótica, c. 650 a. C.). Entre 2 800 e 2 600 a. C., a escrita suméria torna-se cuneiforme, sobre argila[5]

Em 2 400 a. C., havia já listas bilingues acadianas-sumérias, sendo o acadiano (assírio-babilónico) a língua diplomática do Médio Oriente (c. 1 800 a. C.). No início deste segundo milénio, uma tábua de argila cataloga 68 obras sumérias.

Nos mil anos seguintes, florescem outras escritas, incluindo a ideográfica chinesa (c. 1 500 a. C.), interessando-nos os alfabetos fenício, consonântico (c. 900 a. C.), disseminado pelo Mediterrâneo, e grego (c. 800 a. C.), já com vogais.

No segundo milénio a. C., e, sobretudo, a partir do século XIII a. C., encontramos tabuinhas sumérias de teor literário, com novas línguas assentes no sistema cuneiforme. Texto acadiano do séc. XVII a. C. conta a criação do homem, o que levanta o problema das relações temáticas da Bíblia com essas literaturas orientais.

O Egipto inventa a ilustração no Livro dos Mortos (c. 1 500 a. C.) e vários exemplos de banda desenhada nas paredes dos templos.

Enquanto os sumérios usam cunhas ou pregos sobre argila, os egípcios servem-se do cálamo de junco tintado de negro ou vermelho sobre folha de papiro, «pa-per-aâ» (grego: papuros), donde vem a palavra papel – suporte, todavia, inventado pelos chineses. Interessante é a igual etimologia de ‘faraó’ e ‘papiro’: este significa «do rei», por ser monopólio daquele. A cor vermelha deu, em latim, ruber, donde vem a palavra ‘rubrica’. O suporte de escrita mais usado – durante 4 000 anos, até ao séc. XI – é, pois, o papiro, agora acompanhado pelo pergaminho – cuja mais nobre variante é o velino. Outros suportes são paredes, túmulos, madeiras, restos de calcário – é mais conhecida a Pedra de Rosetta (196 a. C.) –, que contêm a primeira literatura da Humanidade.

A tradição greco-latina, entretanto, fazia-se mater (daí, ‘matriz’) do Ocidente. No séc. V a. C., Protágoras de Abdera já listava as palavras difíceis em Homero, cuja Odisseia é, a vários títulos, a principal matriz literária do Ocidente. Gramáticas e comentários gramaticais, dicionários (os primeiros dicionários chineses são do séc. II a. C.), etimologias, glossários bilingues, há de tudo um pouco até ao séc. XIII. Índices pioneiros, cerca de 1200, ainda alimentam a desordem; em 1287, ordenam-se as palavras. Quando o séc. XVII assim ordenar os autores pelo primeiro nome, entrámos no domínio da bibliografia, e, em parte, na dicionarística literária, formulação só assumida no séc. XX.

Com a explosão da imprensa de Gutenberg – anos 40-50 do séc. XV –, os caracteres móveis não aniquilam as belas capitulares iluminadas dos manuscritos, conjugando impresso e visual. 

Lembremos a arte de calígrafos e alfabetos dois milénios antes de Cristo, qual lettering dos convites de casamento e moderno design; entremos nos scriptoria conventuais. O que a letra tem de cenografia saturada entranhou-se na íris do último milénio. Hoje, somos visão, mais dramaticamente, vistos e voyeurs. Salientaria, aqui, o signismo da poesia visual barroca, com desenvolvimentos no futurismo e, nos anos 60 do século passado, no experimentalismo de tipo vário. 

Paginemos um João Vieira com alfabetos pictóricos, de que, só para o séc. XX, darei a leytra pintada em Sonia Delaunay, Chocolat, 1914, Fernand Léger, Nature morte ABC, 1927,  Jasper Johns, Grey Alphabets, 1956, Jon Miró, Silence, 1968.  

João Vieira, antes de pintar versos dos nossos maiores poetas, em tela e azulejo, fez-se o principal curador da letra desde os anos 50: assim Alfabeto a Preto e Branco e a variante do Alfabeto a Cores (1981) adquirem um belo efeito de sólida massa em movimento, numa respiração colectiva dos elementos, comum ao seu processo de escrita, e individualizados segundo várias técnicas, seja nos vestidos de letras na passerelle (Lisboa, 1971; Porto, 2002), no M (1958; Sem Título, 1970), no A Grande (1970-1999) e A múltiplo em caixas altas e baixas (1981), seja no X Grande (1970) ou mero X (1990), nas letras de MAR (Dar o Mar ao Mar, c. 1970; Projecto M. A. R., 1970-2002), no L (Ele, 1971), no B (1981), no (1981), no M e N (1981), no O (1985), em Alfabeto Latino e Grego (2000).    

As gramáticas de línguas vulgares, a partir de 1492, reproduzem, com os meios gráficos do tempo, as letras estudadas. Servem-se, também, de exemplos literários, caso do primeiro, Fernão de Oliveira (1536), apoiando-se em Gil Vicente. Da letra ao exemplo, parece natural que um espírito do Renascimento em si deseje concentrar o saber da Humanidade. O mesmo Oliveira é também especialista na arte da guerra, pioneiro europeu na fabricação das naus, historiador. A visão planetária do pedagogo, gramático e cronista João de Barros mostra como História, Geografia (com o desenho de mapas) e Linguística são as novas disciplinas, enquanto a Astronomia vai substituindo a Astrologia. Os Lusíadas resumem, além de inúmeros processos artísticos, estas e outras ciências, prefigurando a Encyclopédie, ou la suite et liaison de tous les Arts et sciences (1587), de Jean II de Gourmont, que nos lembra, com suas linkagens, uma internet de rosto humano. Nos seus elos principais, a literatura divide-se em gramática, retórica, poesia, dialéctica, rítmica, seguindo-se caracterizações internas.


[1] Richard G. Klein, “L’art est-il né d’une mutation génétique?”. In: AA. VV., Homo Sapiens, Paris: Tallandier Éditions, 2005: 220.

[2] Paul Bahn, “Ne cherchez pas le berceau de l’art”, id., ibid., p. 248.

[3] Ver Público, 11-XII-2019, citando artigo da Nature no mesmo dia. Há datações aquém sobre “Os primeiros artistas” em National Geographic Portugal, Janeiro de 2015.

[4] Science et Avenir (Paris), 7-XII-2020.

[5] Exposição no Grand Palais (Paris, 1982) deixou o excelente catálogo Naissance de l’Écriture: Cunéiformes et Hiéroglyphes.

História da Cultura Portuguesa: plano e sumário

4-3. Formas de ser e estar no Antigo Regime.

 Um olhar sobre nós e sobre o Outro, em termos morais, sociopolíticos, linguísticos, religiosos. 

Exemplos em Gil Vicente, Sá de Miranda, João de Barros, Fernão Mendes Pinto. 
Século XVI: um século de ouro?
 

2-3. Épocas da Cultura Portuguesa 

«Existe uma cultura portuguesa?» (Silva; Jorge, 1993)
As épocas da cultura portuguesa, segundo A. J. Saraiva (2007). O critério Dentro-Fora.

Bibliografia:
Saraiva, A. J. 2007. A Cultura em Portugal. Teoria e História. Livro I. Introdução Geral à Cultura Portuguesa. Lisboa: Gradiva. 109-153.
Silva, Augusto Santos; Jorge, Vítor Oliveira, orgs. 1993. Existe Uma Cultura Portuguesa?. Porto: Afrontamento. [Recensão: Rodrigues, E. 2002. Revista da Faculdade de Letras (Lisboa), 5.ª série, 26. 41-45. Em www.culturaport.blogs.sapo.pt]

28-1. Entendimentos de 'cultura'  
Considerações sobre História da Cultura em Portugal, Cultura Portuguesa, História da Cultura Portuguesa, História da Cultura dos Portugueses.
Entendimento de ‘cultura’ antes e depois de E. B. Tylor (1871).
A ‘transmissão hereditária’ de T. S. Eliot (1948) contrariada pela ‘memória não hereditária’ de Lótman / Uspenskii (1971).
Oito definições operativas em Gustavo Bueno (1997).

Bibliografia:
Bueno, Gustavo, El Mito de la Cultura, Barcelona: Editorial Prensa Ibérica, 1997. [Bibliog. comentada nas p. 223-227]
Eliot, T. S. 1965 [1948, 1961. Notes Towards the Definition of Culture.]. Notas para a Definição de Cultura. Rio de Janeiro: Zahar Editôres. [Edição port.: 1996. Notas para Uma Definição de Cultura. Lisboa: Edições Século XXI]
Lótman, Iúri; Uspenskii, Borís A. [1971]. Sobre o Mecanismo Semiótico da Cultura. In: Iúri Lótman, Borís Uspenskii, V. Ivanóv. 1981. Lisboa: Livros Horizonte. 37-65.
Tylor, Edward B. 1883-1889 [1871]. Primitive Culture. New York: Henry Holt and Co., 2 vols.

 

 

26.1. Apresentação do programa, plano de aulas e bibliografia activa.

Elementos de avaliação: dois exercícios escritos presenciais.
Os estrangeiros podem redigir numa língua a combinar.
Se útil ao aluno, aceita-se um trabalho preparado em casa e apresentado, individual e oralmente, na sala de aula.
Datas dos testes: a combinar

www.culturaport.blogs.sapo.pt

Exige-se uma frequência mínima de 75 por cento de aulas.

Horário de atendimento: www.ernestorodrigues@campus.ul.pt; telemóvel / WhatSapp: 968047944: 5.ª feira, 19,30-20,30h.

Objectivos. Estudar a representação de acontecimentos, mitos e temas da História de Portugal no pensamento, na literatura e nas artes, num quadro de relações interculturais e construções identitárias, concorrendo para uma ‘personalidade cultural portuguesa’ definida desde a Idade Média. Comprometer os estudantes no processo de investigação e na leitura de obras de referência que acompanhem os antecedentes e instauração do Liberalismo em Portugal, há 200 anos.

Conteúdos programáticos

Definições de cultura: enquadramento.
Períodos e movimentos culturais portugueses.
Portugal segundo os portugueses e na relação com o Outro (séculos XVI-XVIII): sociedade, política, religião e língua.
O património intangível, documental e monumental como inscrição renacionalizadora no século XIX.
No debate entre Progresso e Decadência, emergência de Camões e da solução provincial.
Revisões republicanas (1890-).
Sínteses antropológicas, psicanalíticas e culturais sobre a ‘personalidade cultural portuguesa’.

Plano

1. Entendimento de ‘cultura’ antes e depois de E. B. Tylor (1871). A ‘transmissão hereditária’ de T. S. Eliot (1948) contrariada pela ‘memória não hereditária’ de Lótman / Uspenskii (1971). Oito definições operativas em Gustavo Bueno (1997). [Aula 1]
2. «Existe uma cultura portuguesa?» (Silva; Jorge, 1993) As épocas da cultura portuguesa, segundo A. J. Saraiva (2007). O critério Dentro-Fora. [2]
3. Formas de ser e estar no Antigo Regime.
3. 1. Um olhar sobre nós e sobre o Outro, em termos morais, sociopolíticos, linguísticos, religiosos. Exemplos em Gil Vicente, Sá de Miranda, João de Barros, Fernando Oliveira, Pero de Magalhães de Gândavo, Fernão Mendes Pinto. [3-4]
3. 2. No espelho castelhano, sob a Monarquia Dual.
3. 2. 1. O fervor da Língua, peça de resistência política, em Seiscentos. Idiossincrasias nacionais, segundo Duarte Nunes de Leão (1606). [5]
3. 2. 2. Tomé Pinheiro da Veiga, Fastigínia (1605). Portugueses, castelhanos, ingleses e italianos em diálogo. [6]
3. 3. O Padre António Vieira entre brancos, índios, escravos negros. [7]
4. Apreciações de visitantes estrangeiros e olhares nacionais sobre os reinados de D. João V e D. José I. [8]
5. O país liberal: democracia, guerra civil, exílios. Almeida Garrett, síntese do Português novo, matriz do património cultural intangível. [9-10]
5. 1. Pensar Portugal na balança da Europa (1830) até à solidariedade da geração ultra-romântica com a Primavera das nações (1848-1849). [11]
5. 2. Um paradigma cultural: Camões, em Portugal e na Europa, desde o século XVI. [12]
5. 3. Outro paradigma cultural: a linhagem de Viagens na Minha Terra (1843-1993). [13]
6. Viajantes portugueses na sua e em terra alheia, confrontados com olhares estrangeiros, de Victor Hugo à Madame Rattazzi. [14-15]
7. O mito do Progresso e o contramito da Decadência.
7. 1. A. Herculano versus António Pedro Lopes de Mendonça (1853). [16]
7. 2. Na Geração de 70: Antero de Quental. Oliveira Martins e Eça de Queirós: “A catástrofe”. [17-18]
7. 3. ‘Portugal contemporâneo’ n’As Farpas de Ramalho Ortigão (1871-1883; 1887-1890) e na Crónica Ocidental (1878-1880) de Guilherme de Azevedo. [19-20]
7. 4. O Ultimatum (1890) e um país contrastante: humilhação e bancarrota (1892). A virulência da Imprensa: Alves Correia, João Chagas, Brito Camacho. Decadentismo e neogarrettianismo. [21]
8. Olhares sobre a condição nacional.
8. 1. A literatura e a caricatura ao serviço da República. O Viriato (1904) de Teófilo Braga. Aquilino Ribeiro. Um brasileiro entre Lisboa e Porto: João do Rio ([1909] 1911) [22]
8. 2. Na República: Fernando Pessoa. Teixeira de Pascoaes e A. Sérgio. [23]
9. Balanço de E. Lourenço (1978), ou os três traumas da História nacional: trauma das origens, em que um filho se rebela contra a mãe (24-VI-1128); (2) trauma de «um povo naturalmente destinado à subalternidade» (última edição: 72010: 27), emergindo de 60 anos de domínio castelhano (1580-1640); e «o traumatismo-resumo de um século de existência nacional traumatizada» (p. 30) sob figura de Ultimatum inglês (11-I-1890).
9. 1. A leitura de E. Lourenço por Maria de Lourdes Belchior (1978, 1982), acrescida de síntese de Jorge Dias (1950) e outras. [24]
9. 2. Balanço de A. J. Saraiva, entre a polémica com Fernando Castelo Branco, “Universalismo, Particularismo ou Cosmopolitismo” (Litoral, 1, Junho; 3, Agosto-Setembro de 1944), e O Que É Cultura (1993).

Linguagem dos Media: plano e sumários

Modelos de comunicação  
Preocupações comunicacionais: quem comunica com quem? porquê comunicar? como se efctua a comunicação? sobre o quê?com que efeitos?
Quatro modelos de comunicação, conforme incidência maior no emissor ou no receptor:
modelo de transmissão: transferência de sentido; processamento cognitivo
ritual ou expressivo: desempenho, experiência comum
publicitário: espectáculo concorrencial, para captar a atenção do espectador
modelo de recepção: codificação preferencial, com descodificação diferencial; construção de sentido

 

Informar e comunicar.
Níveis ou redes de comunicação.
Dos media: objectivos, necessidades, usos de comunicação. Tecnologias.

Informação: a) conjunto de saberes; b) processo de transmissão desses saberes.
Comunicação: a) conjunto dos media transmissores de informação.
a. 1. communis = cum munus; a. 2. communicatio; a. 3. communicatio / excommunicatio; a. 4. séc. XVIII; a. 5. Kant, 1790; a. 6. séc. XIX; a. 7. Adriano Duarte Rodrigues, O Paradigma Comunicacional, Lisboa, F. C. Gulbenkian, 2011: 25; a. 8. pôr em comum; negociar sentidos.

A pirâmide comunicacional.
Oito atributos dos media.

 
Dos media: objectivos, necessidades, usos de comunicação. Tecnologias.

Informação: a) conjunto de saberes; b) processo de transmissão desses saberes.
Comunicação: a) conjunto dos media transmissores de informação.
a. 1. communis = cum munus; a. 2. communicatio; a. 3. communicatio / excommunicatio; a. 4. séc. XVIII; a. 5. Kant, 1790; a. 6. séc. XIX; a. 7. Adriano Duarte Rodrigues, O Paradigma Comunicacional, Lisboa, F. C. Gulbenkian, 2011: 25; a. 8. pôr em comum; negociar sentidos.

1.Apresentação do programa, plano de aulas e bibliografia.

Elementos de avaliação: dois exercícios escritos presenciais.
Os estrangeiros podem redigir numa língua a combinar.
Se útil ao aluno, aceita-se um trabalho preparado em casa e apresentado, individual e oralmente, na sala de aula.
Datas dos testes: em suspenso.
Exige-se uma frequência mínima de 75 por cento de aulas.
Horário de atendimento: www.ernestorodrigues@campus.ul.pt; telemóvel / WhatSapp: 968047944: 5.ª feira, 19,30-20,30h.

Bibliografia geral:
BELL, Allan. 1991. The Language of New Media.  ‎Hoboken, New Jersey: Wiley-Blackwell.
(The) Language of the Media.www.bbc.co.uk/worldservice/learningenglish/.../langmedia.pdf.
MANOVICH, Lev. 2001. The Language of New Media. Cambridge, Massachusetts, London: The MIT Press.
McLUHAN, Marshall. 1994 [1964]. Understanding Media: The Extensions of Man. Cambridge, Massachusetts, London: The MIT Press.
McQUAIL, Denis. 2003. Teoria da Comunicação de Massas. Lisboa: F. C. Gulbenkian.
RODRIGUES, Ernesto. 1998. Mágico Folhetim. Literatura e Jornalismo em Portugal. Lisboa: Editorial Notícias.

Recomendação: culturaport.blogs.sapo.pt.

O aluno será capaz de
a) reconhecer a especificidade de cada meio e compreender as vias para maximizar a mensagem;
b) analisar a complexidade de algumas questões mediáticas, caso da violência, censura, globalização, etc.;
c) escrever e expressar-se em moldes efectivamente comunicacionais;
d) articular massa de informação complexa de modo estruturado e sistemático.

2. Informar e comunicar.
Níveis ou redes de comunicação.
Dos media: objectivos, necessidades, usos de comunicação. Tecnologias.

Informação: a) conjunto de saberes; b) processo de transmissão desses saberes.
Comunicação: a) conjunto dos media transmissores de informação.
a. 1. communis = cum munus; a. 2. communicatio; a. 3. communicatio / excommunicatio; a. 4. séc. XVIII; a. 5. Kant, 1790; a. 6. séc. XIX; a. 7. Adriano Duarte Rodrigues, O Paradigma Comunicacional, Lisboa, F. C. Gulbenkian, 2011: 25; a. 8. pôr em comum; negociar sentidos.

A pirâmide comunicacional.

3. Quatro modelos de comunicação, conforme incidência maior no emissor ou no receptor:
modelo de transmissão: transferência de sentido processamento cognitivo
ritual ou expressivo: desempenho, experiência comum
publicitário: espectáculo concorrencial, captar a atenção do espectador
modelo de recepção: codificação preferencial, descodificação diferencial; construção de sentido

4. Tipologia dos meios: impressos; sonoros; visuais; digitais.
Breve história dos media.
Visuais. Arte rupestre. Datações. Interpretações.

5. Os media impressos.
O livro e suas linguagens.
Autógrafos e dedicatórias.
Bibl.: Ernesto Rodrigues, “Impressões de eternidade”; “Dedicatória: relação e discurso”. Ensaios de Cultura. Lisboa: Editora Theya, 2016. Ebook.

6. Imprensa periódica.
A linguagem na Relação Universal, na Gazeta e no Mercúrio Português.
Gazeta de Lisboa.
Uma pré-crónica, em O Anónimo (1752).
Outros exemplos até 1821.
Bibliografia: Ernesto Rodrigues, Mágico Folhetim. Literatura e Jornalismo em Portugal. Lisboa: Editorial Notícias, 1998; A Corte Luso-Brasileira no Jornalismo Português (1807-1821). Lisboa: Ed. do Autor, 2008.

7. O folhetim, memória do quotidiano no século XIX.
1. Origens e definição.
2. Influência da escola francesa.
2.1. Um país ‘adaptado’, traduzido do francês.
3. As imposições de um género in fieri. Aproximações aos traços folhetinescos relevantes.
4. Modalidades.
5. Gabrielomania – impacto na sociedade portuguesa.

8. Géneros de opinião.
Opinião pública e publicada.

A crónica.
Características.
Quatro tipos particulares: a primeira crónica, a última, metacrónica, sobre nada.
Exemplos de crónica jornalística no século XIX.
A Internet antecipada em 1868: “O jornalismo no ano 2000”.
Na actualidade.
Bibliografia: Ernesto Rodrigues, Crónica Jornalística. Século XIX. Lisboa: Círculo de Leitores, 2004.
Fernando Venâncio, Crónica Jornalística. Século XX. Lisboa: Círculo de Leitores, 2005.
Guilherme de Azevedo, Crónica Ocidental. Edição de Ernesto Rodrigues. Lisboa: Esfera do Caos, 2016.

Fait divers.

9. Definição de notícia.
Considerações sobre os vocábulos contidos em «facto actual de interesse geral».
Partes da notícia. O título.

10. Introdução à técnica jornalística.
A. Técnica.
B. Redacção.
Prontuário.
Livros de estilo.

Exercícios sobre análise e redacção de peças.

11. Recolha e selecção de informação.
Fontes: pessoais, documentais, de agência.
Da proximidade.

12. Entrevista.
Exemplos. [O caso Paris Review. Ver El País, 28-XI-2020.]

13. Reportagem.

14. Literatura e Jornalismo.

15. Actualizações sonoras. Viagem ao universo da música mecânica: um ouvido sobre caixas de música, fonógrafos e gramofones.
Rádio.

16. Visuais. Pintura, fotografia.
Iconografia na Imprensa escrita.

17. Audiovisuais. Cinema, televisão.

18. Funções e características da linguagem dos media de massas.
Media de massas e indústria cultural.

19. Os novos media.
Poder e interdependência: do individual ao convergente; liberdade e controlo. Manipulação.
Ciberjornalismo.

20. Trânsitos discursivos.
Do jornal / revista ao livro, ao cinema e à ópera, à internet, etc.
O caso de Os Canibais: de Álvaro do Carvalhal a Manoel de Oliveira.

21. Propaganda. Marketing e publicidade.

22. Legislação e deontologia.

História da Cultura Portuguesa

Terça-feira

TP1

 

Tópico: História da Cultura Portuguesa
Hora: 26 jan. 2021 05:00 da tarde Lisboa
        Toda Semana Ter, até 11 mai. 2021, 16 evento(s)
        26 jan. 2021 05:00 da tarde
        2 fev. 2021 05:00 da tarde
        9 fev. 2021 05:00 da tarde
        16 fev. 2021 05:00 da tarde
        23 fev. 2021 05:00 da tarde
        2 mar. 2021 05:00 da tarde
        9 mar. 2021 05:00 da tarde
        16 mar. 2021 05:00 da tarde
        23 mar. 2021 05:00 da tarde
        30 mar. 2021 05:00 da tarde
        6 abr. 2021 05:00 da tarde
        13 abr. 2021 05:00 da tarde
        20 abr. 2021 05:00 da tarde
        27 abr. 2021 05:00 da tarde
        4 mai. 2021 05:00 da tarde
        11 mai. 2021 05:00 da tarde
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Ingresso por H.323
162.255.37.11 (Oeste dos EUA)
162.255.36.11 (Leste dos EUA)
115.114.131.7 (Mumbai Índia)
115.114.115.7 (Hyderabad Índia)
213.19.144.110 (Amsterdã
 Países Baixos)
213.244.140.110 (Alemanha)
103.122.166.55 (Austrália)
149.137.40.110 (Cingapura)
64.211.144.160 (Brasil)
69.174.57.160 (Canadá)
207.226.132.110 (Japão)
Senha de acesso: 424376
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Quinta-feira

 

TP1 A

 

Ernesto Rodrigues está convidando você para uma reunião Zoom agendada.

Tópico: História da Cultura Portuguesa
Hora: 28 jan. 2021 02:00 da tarde Lisboa
Toda Semana Qui, até 13 mai. 2021, 16 evento(s)
28 jan. 2021 02:00 da tarde
4 fev. 2021 02:00 da tarde
11 fev. 2021 02:00 da tarde
18 fev. 2021 02:00 da tarde
25 fev. 2021 02:00 da tarde
4 mar. 2021 02:00 da tarde
11 mar. 2021 02:00 da tarde
18 mar. 2021 02:00 da tarde
25 mar. 2021 02:00 da tarde
1 abr. 2021 02:00 da tarde
8 abr. 2021 02:00 da tarde
15 abr. 2021 02:00 da tarde
22 abr. 2021 02:00 da tarde
29 abr. 2021 02:00 da tarde
6 mai. 2021 02:00 da tarde
13 mai. 2021 02:00 da tarde
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TP1 B

 

Ernesto Rodrigues está convidando você para uma reunião Zoom agendada.

Tópico: História da Cultura Portuguesa
Hora: 28 jan. 2021 03:30 da tarde Lisboa
Toda Semana Qui, até 13 mai. 2021, 16 evento(s)
28 jan. 2021 03:30 da tarde
4 fev. 2021 03:30 da tarde
11 fev. 2021 03:30 da tarde
18 fev. 2021 03:30 da tarde
25 fev. 2021 03:30 da tarde
4 mar. 2021 03:30 da tarde
11 mar. 2021 03:30 da tarde
18 mar. 2021 03:30 da tarde
25 mar. 2021 03:30 da tarde
1 abr. 2021 03:30 da tarde
8 abr. 2021 03:30 da tarde
15 abr. 2021 03:30 da tarde
22 abr. 2021 03:30 da tarde
29 abr. 2021 03:30 da tarde
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Senha de acesso: 467905
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Linguagem dos Media

TP2 Zoom

Tópico: Linguagem dos Media
Hora: 26 jan. 2021 02:00 da tarde Lisboa
        Toda Semana Ter, até 11 mai. 2021, 16 evento(s)
        26 jan. 2021 02:00 da tarde
        2 fev. 2021 02:00 da tarde
        9 fev. 2021 02:00 da tarde
        16 fev. 2021 02:00 da tarde
        23 fev. 2021 02:00 da tarde
        2 mar. 2021 02:00 da tarde
        9 mar. 2021 02:00 da tarde
        16 mar. 2021 02:00 da tarde
        23 mar. 2021 02:00 da tarde
        30 mar. 2021 02:00 da tarde
        6 abr. 2021 02:00 da tarde
        13 abr. 2021 02:00 da tarde
        20 abr. 2021 02:00 da tarde
        27 abr. 2021 02:00 da tarde
        4 mai. 2021 02:00 da tarde
        11 mai. 2021 02:00 da tarde
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ID da reunião: 894 5615 6314
Senha de acesso: 354269
Dispositivo móvel de um toque
+13126266799,,89456156314#,,,,*354269# Estados Unidos da América (Chicago)
+13462487799,,89456156314#,,,,*354269# Estados Unidos da América (Houston)
 
Discar pelo seu local
        +1 312 626 6799 Estados Unidos da América (Chicago)
        +1 346 248 7799 Estados Unidos da América (Houston)
        +1 646 558 8656 Estados Unidos da América (New York)
        +1 669 900 6833 Estados Unidos da América (San Jose)
        +1 253 215 8782 Estados Unidos da América (Tacoma)
        +1 301 715 8592 Estados Unidos da América (Washington DC)
ID da reunião: 894 5615 6314
Senha de acesso: 354269
Localizar seu número local: https://videoconf-colibri.zoom.us/u/kctabhZoAR
 
Ingresso pelo SIP
89456156314@zoomcrc.com
 
Ingresso por H.323
162.255.37.11 (Oeste dos EUA)
162.255.36.11 (Leste dos EUA)
115.114.131.7 (Mumbai Índia)
115.114.115.7 (Hyderabad Índia)
213.19.144.110 (Amsterdã
 Países Baixos)
213.244.140.110 (Alemanha)
103.122.166.55 (Austrália)
149.137.40.110 (Cingapura)
64.211.144.160 (Brasil)
69.174.57.160 (Canadá)
207.226.132.110 (Japão)
Senha de acesso: 354269
ID da reunião: 894 5615 6314
 

 

TP2A

Tópico: Linguagem dos Media
Hora: 27 jan. 2021 12:30 da tarde Lisboa
Toda Semana Qua, até 12 mai. 2021, 16 evento(s)
27 jan. 2021 12:30 da tarde
3 fev. 2021 12:30 da tarde
10 fev. 2021 12:30 da tarde
17 fev. 2021 12:30 da tarde
24 fev. 2021 12:30 da tarde
3 mar. 2021 12:30 da tarde
10 mar. 2021 12:30 da tarde
17 mar. 2021 12:30 da tarde
24 mar. 2021 12:30 da tarde
31 mar. 2021 12:30 da tarde
7 abr. 2021 12:30 da tarde
14 abr. 2021 12:30 da tarde
21 abr. 2021 12:30 da tarde
28 abr. 2021 12:30 da tarde
5 mai. 2021 12:30 da tarde
12 mai. 2021 12:30 da tarde
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Dispositivo móvel de um toque
+16465588656,,89299565648#,,,,*246210# Estados Unidos da América (New York)
+16699006833,,89299565648#,,,,*246210# Estados Unidos da América (San Jose)

Discar pelo seu local
+1 646 558 8656 Estados Unidos da América (New York)
+1 669 900 6833 Estados Unidos da América (San Jose)
+1 253 215 8782 Estados Unidos da América (Tacoma)
+1 301 715 8592 Estados Unidos da América (Washington DC)
+1 312 626 6799 Estados Unidos da América (Chicago)
+1 346 248 7799 Estados Unidos da América (Houston)
ID da reunião: 892 9956 5648
Senha de acesso: 246210
Localizar seu número local: https://videoconf-colibri.zoom.us/u/kyojOtcnf

Ingresso pelo SIP
89299565648@zoomcrc.com

Ingresso por H.323
162.255.37.11 (Oeste dos EUA)
162.255.36.11 (Leste dos EUA)
115.114.131.7 (Mumbai Índia)
115.114.115.7 (Hyderabad Índia)
213.19.144.110 (Amsterdã
Países Baixos)
213.244.140.110 (Alemanha)
103.122.166.55 (Austrália)
149.137.40.110 (Cingapura)
64.211.144.160 (Brasil)
69.174.57.160 (Canadá)
207.226.132.110 (Japão)
Senha de acesso: 246210
ID da reunião: 892 9956 5648

 

TP2 B

 

Ernesto Rodrigues está convidando você para uma reunião Zoom agendada.

Tópico: Linguagem dos Media
Hora: 27 jan. 2021 02:00 da tarde Lisboa
Toda Semana Qua, até 12 mai. 2021, 16 evento(s)
27 jan. 2021 02:00 da tarde
3 fev. 2021 02:00 da tarde
10 fev. 2021 02:00 da tarde
17 fev. 2021 02:00 da tarde
24 fev. 2021 02:00 da tarde
3 mar. 2021 02:00 da tarde
10 mar. 2021 02:00 da tarde
17 mar. 2021 02:00 da tarde
24 mar. 2021 02:00 da tarde
31 mar. 2021 02:00 da tarde
7 abr. 2021 02:00 da tarde
14 abr. 2021 02:00 da tarde
21 abr. 2021 02:00 da tarde
28 abr. 2021 02:00 da tarde
5 mai. 2021 02:00 da tarde
12 mai. 2021 02:00 da tarde
Faça o download e importe os seguintes arquivos iCalendar (.ics) para o seu sistema de calendário.
Semanalmente: https://videoconf-colibri.zoom.us/meeting/tZcucuuqqDMqE9XGaYG30nsMH-jAqBPPUgve/ics?icsToken=98tyKuGrrT4oGNKdsBCGRpwqA4_4a-rwplxfj_plux7cJHMDbBDbHq9IE6NdIOjl

Entrar na reunião Zoom
https://videoconf-colibri.zoom.us/j/83352268091?pwd=K1hzYUxYRmkwMTcwYlBGR2ZOM2p2QT09

ID da reunião: 833 5226 8091
Senha de acesso: 111319
Dispositivo móvel de um toque
+13017158592,,83352268091#,,,,*111319# Estados Unidos da América (Washington DC)
+13126266799,,83352268091#,,,,*111319# Estados Unidos da América (Chicago)

Discar pelo seu local
+1 301 715 8592 Estados Unidos da América (Washington DC)
+1 312 626 6799 Estados Unidos da América (Chicago)
+1 346 248 7799 Estados Unidos da América (Houston)
+1 646 558 8656 Estados Unidos da América (New York)
+1 669 900 6833 Estados Unidos da América (San Jose)
+1 253 215 8782 Estados Unidos da América (Tacoma)
ID da reunião: 833 5226 8091
Senha de acesso: 111319
Localizar seu número local: https://videoconf-colibri.zoom.us/u/kdvsGUPECX

Prontuário

Abaixo-assinado (abaixo-assinados)

abre-latas

acerca de

ACNUR - Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados

acórdão (de tribunal colectivo)

açoriano (açoreano, quando em nomes de empresas antigas, etc.)

ademais (= além disso)

aderência (= ligação, fixação)

adesão (=apoio, concordância)

aeroclube

aeroespacial

Afeganistão

afegão

a fim de (a fim de ele compreender e não a fim dele compreender)

afrikaner

afro-asiático

afro-luso-brasileiro

agro-pecuária

água-de-colónia

AIP - Associação Industrial Portuguesa

ajuizar

álbum (álbuns)

álcool

além-fronteiras

álibi (para outros, alibi)

alternativa (evitar a outra alternativa, a única alternativa)

alvíssaras

amém (variação de ámen; plural, ámens)

Amesterdão, Amsterdão

amor-perfeito

ancilose (contra anquilose, também presente; donde, ancilosado, anquilosado)

(o) aneurisma

a nível de (evitar: uma proposta a nível de governo, ou a nível governamental, pois basta uma proposta governamental)

antárctico, Antárctida

anteprojecto

antestreia

antiaéreo

anti-higiénico

ao contrário de (e não diferentemente)

ao deus-dará

aparte (teatral); à parte (= de parte)

apartheid

apelar (para)

apesar de (apesar de o avião subir e não apesar do avião subir)

à queima-roupa

arco-da-velha

arco-íris

arguido (não se é logo réu...)

arranha-céu (arranha-céus)

Árctico

ascensão

assassínio (já Camilo Castelo Branco criticava o galicismo assassinato)

assessor

assim-assim

assistir (o doente, ao filme)

atrair

audiovisual

Auschwitz

auto-retrato

autobomba

autocrítica

autotanque

aval (avales)

avalancha (e não avalanche)

Ayatollah

azo

 

Background

Bagdad, Bagdade

bairro da lata

(os) Balcãs

Banguecoque

barman

bebé

bem-aventurado

bem-disposto

bem-estar

bem-falante

bem-humorado

bem-vindo

bem-visto

bênção

bianual (duas vezes por ano)

bienal (de dois em dois anos)

bilião (forma da LUSA, em vez de mil milhões)

bimensal (duas vezes por mês)

bimestral (cada dois meses)

borda-d'água (bordas-d'água)

braço-de-ferro

bridge

bufete

bulir

busílis (= dificuldade)

bússola

 

Cabo-verdiano

cacha (notícia em primeira mão, em exclusivo)

cãibra

caixeiro-viajante

camoniano

campeão

cansaço

capazmente

capitânia (= nau em que vai o capitão)

cardeal (prelado, ave, planta)

cardial (ponto cardial)

carrocel (preferível a carrossel, como querem alguns prontuários)

cassete

castanho-escuro

catorze (e não quatorze)

censo (= recenseamento)

certame

cessação (= acto de cessar)

cetáceo

cetim

charivari

charlatão (charlatães, charlatões)

cheiinho, cheiíssimo

cheque (bancário)

ciclocrosse

cinquenta

circum-escolar

circum-navegação

clarabóia

cliché (para quê ‘cerimónia do acto de posse’ quando basta ‘posse’?)

co-autor

coacção

coarctar

cocktail

coeducação

COI - Comité Olímpico Internacional

colectânea

comboio

com certeza

computorizar

comummente

concelho

concessão (= permissão)

concessionário

conferência de Imprensa

congratular (alguém pela vitória; congratular-se com a vitória de alguém)

cônjuge

conselho

consenso

constar (das listas e não nas listas)

cônsul (cônsules)

conta-gotas

Continente (referindo-se a Portugal continental)

contorção

contra-ataque

contra-indicação

contra-senso

contrato (= convenção)

controlo

convencer-se (de que)

Copenhaga

copo-d'água

co-responsável

cor

cor-de-rosa

coro

corpo-a-corpo

correligionário

corrector (quem corrige); corretor (= agente da Bolsa)

corta-mato

coser (com agulha)

Costa do Marfim

cozer (= cozinhar)

críquete

cru

cujo (o dito cujo; atender ao seu bom emprego relativo: O senhor, cuja mulher morrera, etc., e não, como já se encontra, *cuja a mulher)

curta-metragem

 

De baixo (não há nada de baixo)

debaixo (debaixo de fogo)

decreto-lei (decretos-lei)

deferir (= despachar)

défice

de mais (tarde de mais)

demais (por demais cansado; demais a mais)

democrata-cristão

desequilíbrio

descrição

descriminar (tirar a culpa)

desinfecção

deslizar, deslize

despender (gastar; dispêndio, dispendioso)

desumano

desumidificar

dezoito

(a) diabetes

diferir (= adiar, demorar)

dinossauro (também dinossáurio)

direcção-geral, director-geral

discrição (modéstia, reserva)

discriminar (distinguir, separar)

díspar (díspares)

dispêndio (= consumo)

dispensa (= acto de dispensar; mas: a despensa da casa)

disquete

dissensão (= divergência)

doping

 

Ecléctico

ecrã

emergir (elevar-se, vir à tona)

eminente (uma personalidade eminente)

engolir

enseada

erupção

escárnio

esdrúxulo

esplêndido

espontâneo

espremer

esqui

esquisito

estada (= permanência) / estadia (tempo da escala de um navio no porto. Esta forma impôs-se em expressões como ter/desejar boa estadia)

Estado-membro

Estado-Providência 

Estaline

estático (= parado)

estratego

estrato (= camada)

estrela-do-mar

estrito

esverdeado

etc. (nunca e etc., pois este já significa et coetera)

euro [antes, ECU (European Currency Unit = Unidade de Conta Europeia; ECU's)]

ex aequo

extático (= arroubado, enlevado)

extensão

extrema-direita/esquerda

extravasar

 

fac-símile

farsa

fascínio

ferro-velho

fim-de-semana

finca-pé

fluido, fluidez

fogo-fátuo

franco-atirador

frenesi, frenesim

Frankfurt (Francoforte)

 

Gaffe

garante (quem garante)

garantia (aquilo que garante)

gato-pingado

Genebra

gimnodesportivo

gin, gim

ginja, ginjeira, ginjinha

gira-discos

governador-geral

Governo Regional

(um) grama

granjear (= conquistar, adquirir)

gueto (ou ghetto)

guarda-chuva (guarda-chuvas)

guarda-marinha (guardas-marinhas)

guarda-nocturno (guardas-nocturnos)

guarda-republicano (guardas-republicanos)

guarda-sol (guarda-sóis)

 

Habitat

Hanover, Hanôver

herege, heresia

hiperacidez, hiperácido

hipertensão

histórico-geográfico

Hiroxima

hobby (hobbies)

 

Ianque

iate

ibero-americano

iene

ilação (= conclusão)

imergir (mergulhar)

iminente (ameaça iminente, próxima)

impacto

incenso

inclusive

indiscreto, indiscrição

inelegível (= que não pode ser eleito)

inexacto

inflação

infligir (aplicar um castigo)

influir

infravermelho

infringir (desrespeitar)

inigualável

iniludível

insucesso

insurreição

intercontinental

interescolar

interestadual

interministerial

intitular

inumano

inverosímil, inverosimilhança

irrupção

 

jardim-escola

jipe

juiz, juíza

juízo

jusante; a jusante

 

Kuwait

kilowatt

 

Laser

lead

légua

ler (lêem)

líder

linguista, linguística

líquen (líquenes)

lobby (lobbies)

lua-de-mel (luas-de-mel)

 

Maciço (votação maciça e nunca massiva, pérfido galicismo)

Madrid

mais-que-perfeito

majestade, majestoso

mal-agradecido

mal-educado

mal-entendido

mal-humorado

mandado (judicial)

manjerico

marioneta

médico-cirurgião

Médio Oriente

meia-final (a primeira meia-final; meias-finais)

meio-corpo

meio-dia

meio-morta/viva

mesa-de-cabeceira

mesa-redonda

micro-ondas

mini-estádio (hífen, que a palavra começa por vogal)

minissaia (mini-saia também se emprega)

ministra, ministro

misto

moinho

morto-vivo

motobomba

motocrosse

musseque

 

Negociar (negoceio ou negocio)

neoclássico

Nova Iorque

nu

nuvem

 

Obcecado

obsessão

obstrução, obstruir

OCDE – Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico

oitavos de final

olisiponense

órfão (órfãos; feminino, órfã, órfãs)

órgão (órgãos)

outrem

 

PAC - Política Agrícola Comum

país-membro

paje, pajem

palmarés

PALOP - Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa

pão-de-leite

pão-de-ló

pára-quedas, pára-quedismo (ver abaixo, segundo o novo Acordo Ortográfico)

paramilitar

parêntese, parêntesis

partido-Estado

pátio

pé-de-dança

pé-de-meia

pé-descalço

pêlo (pélo, pélo-me, de pelar, pelar-se)

pelo sim, pelo não (escrevem outros pelo sim pelo não)

pequeno-almoço

pêra, pêro

perscrutação, perscrutar

peru

pintassilgo (mas Maria de Lurdes Pintasilgo)

piquenique

plâncton (plânctons; também plânctones)

plêiade (= conjunto de pessoas ilustres)

plurianual

polir

(a) pool

póquer

pôr-do-sol (pores-do-sol)

por que (= pelo/pela qual, pelos/pelas quais: por que motivo os portugueses choram assim?; por que [= por que coisa] luta Portugal em Angola?)

porque (final, causal: porque luta Portugal em Angola?; donde: porque é que...?)

porta-voz

pós-escolar

pós-graduação

pós-laboral

pouca-vergonha

pré-aviso

preceptor (= mestre, mentor)

pré-escolar

preexistente

preia-mar (praia-mar, preamar)

premiar (premeio melhor do que premio)

preservar, preservativo

Presidente da República

pretensão, pretensioso

Primeira Guerra Mundial

primeiro-ministro (a primeira-ministra)

pró-europeu

processo-crime (processos-crime)

procurador-geral

pronto-socorro

psicossocial

putsch

puzzle

 

Qualquer (quaisquer)

Quebeque

quebra-gelo

quilograma

quilómetro

quota-parte

 

Rabo-de-palha

radioactividade

râguebi

rainha

raiz

rali (ralis)

ratificar

Raul

Reboliço (= que rebola), rebuliço (= confusão)

recém-casado

recém-nascido

recém-vindo

recensão, recensear

recorde

rectificar

reestruturação

rendível

rentabilidade, rentável

repórter (repórteres)

rescindir

rescrever, rescrita (uso generalizado: reescrever, reescrita)

restauração [a evitar quando remete para restaurantes]

retaguarda

ringue

rinque

robô (robôs)

roda-viva

round (substituir por assalto, no boxe, ou ronda de conversações)

rouxinol (preferível a roussinol)

ruptura (melhor do que rotura)

 

Sala de jantar

sanção, sancionar

Sara (deserto)

secessão (= separação)

secretário-geral

segundogénito

sem-cerimónia

sem-número

sem-vergonha

sémen (sémenes)

semioficial

sérvio, servo-croata

(a) síndrome (também síndroma)

sobre-humano

[à] socapa

socioeconómico

sol-pôr, sol-posto

stock

subinspector

subsecretário

super-homem

superestrutura

supracitado

 

Tão-pouco (= também não)

tão-só, tão-somente

telespectador

ter de (preferível a Ter que, apesar do reforço que este oferece)

têxtil

tintim por tintim (para outros, tintim-por-tintim)

tio-avô (tios-avós)

trágico-marítimo

transatlântico

tuta-e-meia

 

Uísque

Ultimato, Ultimatum

ultra-rápido

ultramoderno

 

Vai-não-vai

vendável, vendível

ver (vêem)

verde-amarelado, verde-claro, verde-escuro

vice-reitor

vice-versa

vide

vídeo, vídeocassete

voo

 

Xeque

xeque (-mate)

 

Zãngão (zângãos, zãngões)

zé-ninguém

                                          

  1. d) Acordo ortográfico

       O Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, assinado em Lisboa, em 16 de Dezembro de 1990, pelos responsáveis políticos dos sete países que falam Português, deveria ter entrado em vigor no dia 1 de Janeiro de 1994. Dada a necessária fase de adaptação dos escreventes e a importância que, neste domínio, vão ter jornais e revistas, registamos as grafias que mais polémicas, alertando, em especial, para algumas sequências consonânticas em perigo. Notar-se-á, em conformidade, que vários termos incluídos no Prontuário sofrerão ligeiras alterações. Não declaramos as alternativas brasileiras.

 

Ação

acionar

adoção

adotar

afetivo

agosto (os meses do ano em minúsculas)

agroindustrial

amnistia ou anistia

amnistiar ou anistiar

antiaéreo

antirreligioso

antissemita

aspeto ou aspecto

ato

assumpção ou assunção

autoaprendizagem

autoestrada

 

Batizar

boia

 

Cacto ou cato

cáliz

cão de guarda

caracteres ou carateres

caraté

ceptro ou cetro

coeducação

coleção

coletivo

concepção ou conceção

contrarregra

coobrigação

coocupante

corrupto ou corruto

crer (creem)

croché

 

Dar (deem)

descrer (descreem)

dicção ou dição

direção

diretor

 

Egito

elétrico

eletrossiderurgia

exato

excecional

excecionalmente

exceto

excetuar

extraescolar

 

Facto ou fato

fim de semana (fins de semana)

 

Guarda-noturno

guiché

 

Haver (sem hífen, quando a preposição de liga as formas monossilábicas do presente do indicativo: hei de, hás de, hão de)

heroico

hidroelétrico

 

Indemnizar ou indenizar

infrassom

introito

inverno

 

Jiboia

 

Ler (leem)

 

Mandachuva

matiné

microssistema

microrradiografia

 

Norte (minúsculas nos pontos cardiais)

 

Objeção

omnímodo ou onímodo

omnipotente ou onipotente

omnisciente ou onisciente

ótimo

outono

 

Paranoico

paraquedas

paraquedista

peremptório ou perentório

primavera

 

Recepção ou receção

rever (reveem)

 

Sector ou setor

semitom

súbdito ou súdito

sumptuoso ou suntuoso

sumptuosidade ou suntuosidade

 

Tresler (tresleem)

 

Ver (veem)

verão

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