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A Terceira Margem

Acaba de sair o meu oitavo romance, A Terceira Margem, Lisboa, Guerra & Paz, 2021, 192 páginas.

A Terceira Margem ficciona sete gerações de uma família luso-brasileira (com pozinhos de Europa Central) entre 1756 e 7 de Setembro de 2022, quando se comemora o bicentenário do Grito do Ipiranga. Nestes 266 anos, ergue-se dinastia com raízes no navegador Pedro Álvares Cabral e em desembargador na Casa da Suplicação centrada no avô (1870-1966) do narrador, em defesa da dignidade humana, margem que recusa a escravatura, a pena de morte, os aljubes do pensamento. Momentos altos e figuras maiores de aquém e além-Atlântico, com a presença especial de Machado de Assis, aproximam-nos de uma História comum que esta prosa singular também celebra.

Algumas feições persistentes da personalidade cultural portuguesa

Vejamos, pois, desse Livro I, “Algumas feições persistentes da personalidade cultural portuguesa” (32007: 75-107), de modo a conjugar na imagologia epocal do autor os mais contingentes textos de Filhos de Saturno.

 

António José Saraiva serve-se de índices «relativamente consistentes», em que também funda estes Escritos sobre o Tempo Que Passa do subtítulo: factos históricos significativos nos séculos XVI e XX; jogos com a língua e sua manipulação; instituições, algumas reduzidas a siglas hoje custosamente entendíveis, e tendências sociais; observações de estrangeiros e de portugueses; documentos contrastantes «de costumes e mentalidades» (p. 78); enfim, literatura e artes, reflexões sobre Autor e Escritor, ou dedicadas à Verdade.

Geografia, história e língua favoreceram um Estado-nação homogéneo e coeso (monolítico, mesmo), opondo-se, desde as origens, à maciça Castela e à mourama. A geografia, complementando Norte e Sul, intercambiando valores, oceaniza-se. As diferenças económicas e climáticas «nunca foram bastante acentuadas para criarem pólos de poder ou de irradiação cultural» (p. 80). Têm-se sucedido, quando não coexistido, topografias centrípetas, desde Guimarães e Coimbra: Lisboa nem tudo absorve − a força das capitais é contrabalançada por outros núcleos −, sendo inquestionável a sua excelente colocação ibérica, que os Filipes desaproveitaram.

Decidida a independência em Aljubarrota, urgia sustentá-la economicamente: Ceuta fez-se, por isso, «aventura fora da Península». Em O Crepúsculo da Idade Média em Portugal (1988), Saraiva vê Ceuta como primeiro passo na retaguarda guerreira que constituíam as descobertas, face à ameaça turca, antes de estas serem olhadas como mercantis.

No que ele define como consequência − «um certo sentimento de isolamento, porque, entre a Europa e Portugal, Castela tem funcionado como um deserto isolador […]» (p. 81) −, leio eu um pressuposto, ou condição para outros voos. Discorre, então, sobre as características dessa ‘personalidade cultural’, via-sacra que justifica atitudes e opções combatidas em Filhos de Saturno.

Habita-nos, desde logo, um espírito de ilhéu, «oscilando entre a aventura fora e a passividade dentro, ou ainda vivendo a aventura pela imaginação, sem sair do mesmo lugar». O português inferioriza-se, «refugiando-se numa auto-ironia perfurante, como a de Eça de Queirós, ou numa autocrítica flageladora da sua própria história, como em Oliveira Martins; ora incha o peito para desafiar o mundo ou para o conduzir, […].» (p. 82) Estamos perante um humor entre a chacota e a auto-ironia de Zé Povinho, que, a espaços, de si mesmo se condói, na lucidez que faltava aos fidalgarrões de Seiscentos verberados por Tomé Pinheiro da Veiga, em Fastigínia (1605), obra que recusa, porém, aquela inferioridade. Num arrasador «Panegírico do oportunista»[1] após o 28 de Setembro de 1974, a verve vira sarcasmo: não só lamenta o passivo e resignado, como alerta para o oportunista competente e talentoso em tempos de viragem…

Ao messianismo, crente num destino providencial, associa-se o complexo da saudade, por sua vez, ligado ao amor «à portuguesa, que parece comprazer-se na distanciação» (p. 84). Não me parece: a distância é inelutável, João Zorro traz, mesmo, suidade[2], traduzindo-se em coita[3] – cuja enunciação pode envolver comprazimento, ou significar culto da dor, esse «gosto de ser triste» (p. 86), que perpassa no fado −, mas, ainda na morte, amor deseja-se à beira, como nos túmulos de Pedro e Inês, ou no noivado sepulcral de Soares de Passos. Em Filhos de Saturno, a variante sebástica sai zombada; os messianismos políticos, seja no molde estalinista, em estruturas partidárias, personalizados em Álvaro Cunhal ou Mário Soares, não merecem confiança. A Constituição de 1976 é outro fantasma, que um referendo (reiterada paixão do autor) poderia ter exorcizado[4]. Quatro décadas depois, impõe-se que os deputados e refundadores do sistema eleitoral conheçam estes textos.

Demos cursivo a outros traços nacionais. A obliquidade das relações transfere o tratamento binário tu / vós para um sistema ternário, «um tratamento oblíquo na terceira pessoa (usando o nome do interlocutor, o que parece ser uma maneira de evitar o frente-a-frente; ou o você de amizade, […]», quando não outros, acrescentemos: o senhor, o pai, etc. Nego, pois, que não haja equivalente a Monsieur, como Saraiva diz, para «interpelar alguém fora da sua intimidade» (p. 85). O supracitado humor agre e auto-irónico «É talvez uma forma de protesto também oblíqua, uma compensação do sentimento de inferioridade colectiva, tão frequente em Portugal» (p. 86), «subalternidade» que Eduardo Lourenço (72010: 27) situou nos 60 anos de dominação filipina. “Cravo de Maio flor da liberdade” (texto 3) é a expressão de que, «sem Messias», almejamos ser LIVRES, maiúsculas reiteradas como só veremos em DESCENTRALIZAÇÃO, ao defender, ainda em Maio, “Eleições” locais ou parciais (autárquicas, sindicais, empresariais; texto 2). 

A doce, dorida religiosidade, sem a veemência castelhana, revê-se no culto de Maria («que tem sem dúvida raízes psicanalíticas», 32007: 88), tão presente no onomástico, e no culto dos mortos. Mas nem estes nos criam interesse pela filosofia (aliás, nem pela teologia), nem aquela religiosidade pelo misticismo: graduamo-nos em história pátria, na aguda consciência nacional, limitados a uma historiografia que favorece «um contemplativismo passadista, uma procura da idade do ouro no passado – uma forma, afinal, de saudosismo» (p. 90). É um parágrafo não desenvolvido em Filhos de Saturno, que só compara “Cristianismo e Marxismo” (texto 50) ‒ muito pouco, na conjuntura de 1979, e mais em 1975, quando os púlpitos do Norte colaboraram no incêndio de vidas, automóveis, sedes partidárias, como se fosse entendimento do Céu danar aos bens das esquerdas…

O aldeanismo – a aldeia na corte – é uma velha guerra contra a cidade e o aristocrático, na arte ou na escala social. Poderia significar democraticidade, mas virou ilusão; ser conúbio de estratos (popular e erudito), mas fez-se demagogia, impotência. A cantiga de amigo deslustrava o provençal; nacionalizou-se, porém, a redondilha; e, aclamados bastos poetas fáceis, a indigência cresceu, como nas letras do fado, na langue de bois partidária, no cada vez mais pobre discurso familiar. A ficção pós-camiliana ressente-se de luta surda: na falta de espaços citadinos com vida própria, recorre a modelo estrangeiro. A linguagem vê-se no fio, gasta, serva, instrumentalizada; e, pedagógico, explicador de palavras para entender as coisas, iluminando os valores do signo, Saraiva faz profilaxia etimológica, semântica e moral. É uma das suas especialidades, ou não fosse autor do Dicionário Crítico de Algumas Ideias e Palavras Correntes[5]

Aquela estrangeirização tem implicações socioeconómicas, na ausência do espírito burguês, desse burgalês (séc. XI; de burgalense) ou burguês medieval com direito de cidade – de burgo [burgus], datável de 1123 –, um empreendedor distinto do aristocrata e do lavrador, cujo comércio o alcandorou, em Setecentos, a classe social: ao contrário dele, ora nos sacrificamos para bafejar herdeiros, ora vivemos no luxo possível e impossível, sem investir o acumulado, como se fosse pecado multiplicar o dinheiro. Não se trata de especulação, de simples numerário, aquela e este regularmente criticados pelo autor. Mercado e tecnologia (o «ferramental» do capitalismo) desembocam em número, no alegadamente ‘científico’, não forçosamente em produtividade e, menos ainda, em liberdade. Logo, onde reside o progresso, a tal ponto discordam estrangeiro e nação, se dissociam topo e base? É uma velha preocupação, recorrente em Filhos de Saturno, sobre que também sintetizava em carta a Óscar Lopes:

 

A verdadeira revolução terá que ser espiritual. O homem é agora feito por e para o mercado […]; o que é preciso é que o mercado seja feito para o homem. […] Estou muito pessimista quanto ao processo do «progresso», que é fundamentalmente um automatismo de mercantilização, lógico, mas humanamente irracional. É preciso procurar outra forma de organização das relações humanas, incluindo a relação do homem com as coisas. (22005: 405)

 

Nesta parte, seria útil confrontar a imagem de jardim à beira-mar ‒ «reserva bucólica de uma Europa em acentuado processo de urbanização de técnica e tecnicismo» ‒ com o esforço progressivo fontista, lendo, diverso daquele aldeanismo, Portugal como «uma espécie de aldeia orgulhosamente feliz na sua marginalidade, na sua diferença», que o salazarismo disfarçou em «dimensão imperial imaginária» (Lourenço, 2014: 303-304). 

É de ordem cultural, mais do que biológica, e um facto político (se representa povoamento), a «tendência para a miscigenação com outros povos» (32007: 96). Saraiva vê este processo como «uma certa liberdade em relação às fronteiras culturais, uma certa promiscuidade entre o Eu e o Outro, uma certa falta de preconceitos culturais, a ausência do sentimento de superioridade que caracteriza, de modo geral, os povos de cultura ocidental». Demasiado bondoso nestas últimas palavras, é facto que, face ao mais ocidentalizado, a nossa atitude «é a de ensimesmamento, de refluxo» (p. 98) sobre nós mesmos, próprio de espírito ilhéu, que nova globalização vem derrotando[6]. Justificado o desinvestimento comercial, quando o português de Quatrocentos tanto arriscou, parece ter-nos acontecido, após Quinhentos, um país póstumo, suficientemente apático para, no momento da escrita, ser embalado vez primeira pelo FMI ‒­ Fundo Monetário Internacional. 

Poderemos, de tanta passividade e ares contemplativos, deduzir uma celebrada brandura de costumes, que um Miguel Torga contesta, desde as guerras civis de Trezentos à hipocrisia de não matar o touro na arena? Ocorre brandir a humanidade da abolição da pena de morte; os efeitos, por baixo, de algumas batalhas; e, na relatividade destas condutas, dar nota de chacinas, lá fora, que nos relegam para o fundo das tabelas. Será «uma certa aversão ao espectáculo público do assassínio, a piedade pelos mortos e supliciados, o horror do sangue», mau grado tantos autos-de-fé? Referida a «maviosidade» (p. 100) lusitana em Fernão Lopes, justificar-se-á tal, acaso, «por uma certa sensibilidade à flor da pele, ou pela falta de firmeza nos juízos sobre o próximo, ou pelo esquecimento das culpas, ou pelo baixo tónus de agressividade» (p. 101). A desorganização, o instintivo, o «logo se vê», uma brandura que é medo, fuga ou desinteresse, agem contra nós. Se se fizer um jeito ou favor, por interesse ideológico ou outro, cai-se em não poucas vergonhas. Entrevêem-se as razões maiores para o falhanço do 25 de Abril, segundo Saraiva.

A conclusão, ou décima quarta estação desta via-sacra caracteriológica, remete para um povo não propriamente guerreiro, em valores e actos, mas, tão-só, «um povo obstinado quando se trata de defender o terrunho. A padeira de Aljubarrota é, possivelmente, o melhor símbolo do espírito guerreiro português.» (p. 103) Seja esta heroína exemplo menos feliz, não é pequeno espanto a resistência ao Castelhano, que Agostinho da Silva considerava feito maior que os descobrimentos, conquistas e ultramares. Hoje, as defesas são um trabalho rigoroso e honesto, que, produzindo (idealmente, reproduzindo-nos), esquive a corrupção.

 

[1] Este texto 15 de Filhos de Saturno não vem registado na preciosa “Bibliografia de António José Saraiva”, organizada por Leonor Curado Neves, que encerra Estudos Portugueses. Homenagem a António José Saraiva, Lisboa: Instituto de Cultura e Língua Portuguesa / Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 1990.

[2] «Mete el-rei barcas no rio forte; / quem amigo há, que Deus lho amostre: / alá vai, madre, ond'hei suidade!» ((B 1156, V 758)

[3] …Se não for irónica: «Isto é quanto à saudade / que eu dela posso ter», diz, em relação à mulher que dele se afastou, interlocutor na vicentina Farsa dos Almocreves, 1526, versos 461-462.

[4] Os três artigos que à questão constitucional dedica em 1978, no Diário Popular, são respondidos por Óscar Lopes na Correspondência (p. 415-418; contra-resposta nas p. 422-423).

[5] 1960; na capa, Dicionário Crítico, Lisboa: Gradiva, 1996.

[6] Giddens, 42005: 53, define globalização como «a intensificação das relações sociais de escala mundial, relações que ligam localidades distintas de tal maneira que as ocorrências locais são moldadas por acontecimentos que se dão a muitos quilómetros de distância, e vice-versa». Analisa quatro dimensões da globalização: economia capitalista mundial, sistema do Estado-nação, ordem militar mundial, divisão internacional do trabalho. «Uma das principais características das implicações globalizadoras do industrialismo é a difusão universal das tecnologias da máquina.»

Teatro

Acabo de publicar Teatro (Lisboa,  Edição do Autor, 2021, 572 páginas), reunindo onze peças escritas entre 1973 - quando estudante no Liceu Nacional de Bragança - e 2020, já sob efeitos da Pandemia, como se intitula a última. Com excepção da dedicada aos derradeiros momentos da vida de Almeida Garrett, O Divino, abordam questões de Poder, manipulação e vingança - desde a vigilância policial no estertor do Estado Novo às relações interpessoais. São histórias que, mesmo em suspenso (já na construção de um tempo novo, já na dúvida sobre o êxito da revolução), ou nas soluções aparentemente delirantes, deixam germinar um grão de esperança e dignidade. 

As Farpas (2)

Inaugura-se o Ramalho viajante “Entre Minho e Douro”. Esta primeira secção leva-nos às margens do Lima, a Viana do Castelo e Ponte de Lima, e pelo sumário se concluirá dos assuntos tratados: os campos, os casais, as igrejas, as estradas, as diligências, os abades, o mercado, as mulheres, os trajos, a educação, os costumes, as influências estéticas. Tratando as aldeias minhotas, cuida da administração e polícia rural, lavoura, indústrias agrícolas e caseiras, a ignorância, a miséria e a acção do Estado. Seguem-se o natal minhoto, o presépio, a consoada e a ceia da família, derivando para reflexões sobre a jogatina – «O jogo é uma asneira» – que nada tem a ver com o anterior. Dá um salto a Braga, outro ao país vinhateiro na Régua (corroborando quanto diz em John Bull e na carta ao mesmo Bull do tomo II) e fecha por lição sobre o Porto matricial. Carta de Junqueiro (Guimarães, 1968) anima-o a retornar ao Minho no ano seguinte, porque «Viu apenas a terça parte do seu assunto. O Minho é enorme – termina em Pontevedra (Galiza).» E pede que lhe envie os folhetins sobre a região, que vinham saindo no Rio de Janeiro, antes de se encaparem.

No apartado “Entre o Tejo e o Douro”, atemo-nos a aspectos do Ribatejo e da Estremadura: Azambuja, Cercal, Caldas da Rainha, bela descrição de Óbidos, enfim Alcobaça e o mosteiro.

Molhando o pé, desce e dá-nos “As Praias” e como nelas se diverte o homem português: S. João da Foz, realce para Espinho, Figueira da Foz, Buarcos, pausa na Trafaria. O texto mais divertido tem a particularidade de reunir, num momento quase diríamos histórico, o célebre grupo dos cinco. Embora Ramalho seja avaro destas informações, «este ano» referido no texto significa 1884[1]. O poder enumerativo e descritivo, tocado pela verve irónica com que dá conta da chegada de banhistas de meia tigela que vêm desinquietar a alta sociedade, fá-lo regressar no pleno das suas qualidades folhetinescas – é na Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro que este se publica. É, pois, a refracção do farpeador, de novo imbuído pela ligeireza anti-argumentativa de folhetinista tout court. Razão tinha João Gaspar Simões (O Primeiro de Janeiro, 9-VII-1972) para chamar «memorável ágape» ao que no Palácio de Cristal reuniu, bem comidos, em célebre fotografia, e da esquerda para a direita, Eça de Queirós, Oliveira Martins, Antero de Quental, Ramalho Ortigão e Guerra Junqueiro[2]. Honra, pois, à casa portuense Fotografia União.

Após “A Vida Provincial”, qual dívida por cumprir (volume X, ou Farpas I, sem ‘Advertência’, da Colecção Geração de 70, no Círculo de Leitores, 1987; Jacinto Ramos gravou um disco de 33 rotações para a Sassetti, 1974), recorre-se, então, ao tido por melhor nos 42 caderninhos heróicos. O mesmo é dizer que entramos nos arranjos – inclusive, textuais, hierarquicamente definidos – da capital, abrindo pela corte.

O tomo II reúne “As Epístolas”. São doze. Destaquemos a já citada e dirigido ao então príncipe D. Carlos, sobre questões de educação ou da necessidade de aprender um ofício, não fosse ele juntar-se aos «Reis insalubres». É ainda sobre instrução secundária que interpela o ministro do Reino em 1875, tema a que voltará repetidamente. O «imposto industrial» lançado sobre os escritores arranca-lhe outro grito. De religião fala ao cardeal-patriarca:

 

Em matéria religiosa o estado dos espíritos em Portugal é o seguinte: As mulheres são devotas. Por várias razões. Umas por educação, outras por inclinação mística, outras por sensibilidade nervosa, outras por medo, o resto por moda.

Os homens, em geral, são indiferentes. Uns por simples atonia do espírito, irreflexão, frivolidade, descaso de todas as coisas superiores e elevadas; outros por sistema partidário, ódio ultraliberal aos padres, oposição económica às irmandades, às confrarias religiosas, às corporações de mão morta; um pequeno número por convicção filosófica: o resto por carência absoluta de convicções de crenças de qualquer natureza e de qualquer espécie.

 

Salientemos duas. “A Mr. John Bull”, à conversa com o Zé Povão inglês que domina Portugal, ou balanço dorido e violento da lusa anglomania. A francesia também bordeja, mas é ainda contra o príncipe de Gales que mais esponja de fel faz destilar o corrosivo destinador. A segunda rememora o Cenáculo.

O tomo III, “Os Indivíduos”, é indispensável para se conhecer gente principal do século XIX. Abre com Alexandre Herculano, evocado no mês da sua morte, e Ramalho, como em demais lugares, não pode esconder a animadversão que sempre dedicou ao solitário de Vale de Lobos. Escreveu Ricardo Jorge (p. 52) que «ninguém flagelou mais cruamente a deserção de Herculano, lançando-lha em rosto como um delito de consciência, uma traição vibrada contra os destinos da pátria. Intolerante para o espírito dos eleitos», acrescenta, Ramalho não lhes concede «sequer le droit de s’en aller, o direito inauferível reivindicado por Baudelaire».

João Pinto de Carvalho (p. 27-29) transcreve carta de Herculano ao director da Torre do Tombo, em 1874, onde também não é nada meigo com Ramalho, um «peralvilho»: «Deixem lá o pobre Ortigalho.»[3] E quando Gomes de Brito lhe pergunta «– Mestre, porque é que não responde às agressões do Ramalho Ortigão?», ele, lacónico: «– Não atiro a pardais.» No quadro da Geração de 70, que tanto admirava Herculano, a deserção ramalhiana dir-se-ia incongruente.

Seguem-se retratos do Duque de Saldanha, do bibliófilo Inocência Francisco da Silva, do velho Castilho, do desgraçado amigo Vieira de Castro, etc., num total de 23 capítulos. Releve-se a figura de Cruz Coutinho, dono d’O Jornal do Porto, para assim melhor situar Ramalho, evocando os primeiros passos naquele órgão e um pouco da vida intelectual portuense.

A visão da segunda metade do século no campo da governação, e referência doravante singular sempre que no país se fala de melhoramentos materiais, é Fontes Pereira de Meio, o político regenerador por excelência. Serve também para nos aproximarmos das ideias (diametralmente opostas às que, na risota, defendia o Cenáculo) de Ramalho sobre as formas de governo.

Ao poeta d’A Alma Nova, Guilherme de Azevedo, com quem fazia parelha no Álbum das Glórias, e estimado jornalista morto em Paris, dedica outra evocação; o mesmo ao pai espiritual, Garrett, a modos de gratidão. Enfim, e sempre sob a égide da dura Parca, junta-lhes o maior jornalista do século, António Rodrigues Sampaio, mais conhecido por Sampaio da Revolução, isto é, da Revolução de Setembro. Com ele, literatura, jornalismo e política conhecem grandes sínteses que, por seu lado, complementam a biografia de Ramalho.

O quarto tomo discorre sobre “O Parlamentarismo”. São, acaso, os textos mais conhecidos, de quando em vez citados se é questão de criticar os vícios do rotativismo, da retórica balofa, da extravagância e inutilidade das leis, dos deputados submissos aos líderes... Compulsamos o Diário das Câmaras, acompanhamos os deputados ao baile, vemos como ginasticam sobre patriotismo e como se defendem da ginástica: este ponto é de honra para o autor, que desejaria um povo mais atlético. São 33 capítulos de gargalhadas, governos que caem, fácil provimento dos empregos públicos, sessões mais ou menos cordatas, etc.

O tomo V associa no título, sem porquê, “A Religião e a Arte”. Intrigante é a não-datação dos 30 capítulos, connosco já perdidos nos dícticos temporais. De uma análise química e sociológica à água de Lourdes e a episódios de Natal, escapulários, etc., é um desbravar nada motivante de questões hoje ultrapassadas. Anticlerical, exceptua o padre de aldeia, «de ordinário, o melhor dos homens». Os padres das missões, aventureiros ou místicos, ora arrebanham negros que baptizam em massa, ora se deixam canibalizar. O padre de sala, quando não ressona, é tarefeiro e motivo de gáudio das meninas prendadas. Solução?

 

O padre estrangeiro tem sobre o padre indígena a vantagem de não se haver abandalhado nas eleições, e não ir para a plateia de S. Carlos aplaudir a ópera e dizer graçolas às senhoras suas confessadas, que estão nas bancadas ao pé dele, de não andar pelas casas particulares com as peúgas e com as fraquezas embrulhadas em papéis [...].

 

Assunto candente no século era, todavia, o celibato e o casamento dos sacerdotes, já eleito no Eurico, o Presbítero. O caso, citado, do padre Jacinto remete para a polémica à volta da “Carta do Padre Jacinto”, de facto, Hyacinthe Loyson, Paris, 25 de Agosto de 1872, saída no Soir em 4 de Setembro. Pode ser vista em apêndice a O Celibato Ecclesiastico – Reflexões à Carta do Padre Jacinto (1873), por A. A. Teixeira de Vasconcelos, director do Jornal da Noite, que sustentou farta discussão com outra Imprensa – mormente, Oliveira Pires, n’O Constituinte –, à qual também aderiu Ramalho. Começa aquele: «Casou em França um sacerdote católico, antigo frade e pregador insigne, e declarou que apesar de casado ficava sacerdote católico. Aquele facto causou por muitos motivos grande sensação, e maior escândalo talvez que o próprio casamento de Lutero.»

Leia-se, igualmente, parecer sobre A Velhice do Padre Eterno (1885), a que associa Baudelaire, Antero, Teófilo e João de Deus. À edição de 1946 acresce posfácio – “A última lição de Ramalho” – do Padre Moreira das Neves.

O sexto tomo, “A Sociedade”, invade mais directamente o quotidiano português oitocentista. Debruça-se sobre a alimentação e seus efeitos; caracteriza-nos como «ajustamento fortuito de quatro milhões de egoísmos explorando-se mutuamente e aborrecendo-se em comum», isto em 1882. Sucede ao também notável “A mania das grandezas e a melomania, doenças hereditárias na sociedade portuguesa”, ambos fundamentais para se compreender a matizada decadência – de pessoas, da literatura e portuguesa – e suas causas. Uma curiosa estatística dos divórcios em 1876 abre o tomo[4].

Passando do geral ao particular, “A Capital” define o sétimo. São 39 capítulos sobre a administração municipal e a saúde pública, revisão das casas, alimentação, aspecto dos habitantes, corridas de cavalos, serviço de incêndios, enterro de náufragos, bailes do Paço, o prego, casas de jogo, o fadista, cães e limpeza pública, a festa do Primeiro de Dezembro, o Carnaval, o Passeio Público, etc. Em três lugares larga estocadas em Herculano. A propósito da pena de morte, por exemplo: «Nunca, desde os nossos mais tenros anos até hoje, pudemos compreender as razões poéticas e sentimentais dos que aboliram ou querem abolido para os malfeitores a pena última.»

No largo espectro de visados estava A. P. Lopes de Mendonça (1843), entre os primeiros – Herculana fizera-o em 1838, no Diário do Governo – a defender a abolição da pena capital, visto que crime só existia onde faltava educação. Sobre esta discorre no tomo seguinte, ao lado de balanço do ano escolar, que neste país, em virtude dos feriados, se reduz a onze dias úteis. Antes, vamos à tourada, aguardamos no Grémio enquanto não há notícia das facadas sacramentais que todas as noites rasgam Lisboa e, por amor ao Portugal e o Socialismo, do amigo Oliveira Martins, trata de mulheres operárias.

O tomo VIII volta-se, por inteiro, para “Os Nossos Filhos – Instrução Pública”, preocupação transversal às cerca de três mil e quinhentas páginas por ele seleccionadas. Passa em revista os compêndios das várias disciplinas, os castigos corporais, as meninas no liceu, a educação religiosa, os colégios militares, a «decadência da raça pelos vícios da educação». Se o desenho, que educa a observação, já foi dado como prioritário desde a escola primária, ainda não chega; reiterante, considera que «em Portugal – país de magricelas, de derreados, de espinhelas caídas –, nada mais importante do que a educação física».

São complementos, a que se deve acrescentar a música, do único ensino completo, o secundário, que também prevê a aprendizagem de um ofício ou «arte mecânica». Letrados, jurisconsultos, doutores e retóricos já não bastavam para debelar o tão visível subdesenvolvimento, que requeria «hábeis produtores». O elemento político é subestimado na constituição da sociedade industrial – contra o parecer de Teófilo Braga, que «dele tudo faz depender», embora, à época, fosse exigível uma autêntica «revolução política», como resume Vasco Pulido Valente, que mais se alarga sobre projectos de vários reformadores em Uma Educação Burguesa (1974).

“O Movimento Literário e Artístico” compõe o tomo IX. Abre com a refutação do discurso de Pinheiro Chagas no Parlamento, em que defendia a proibição das Conferências do Casino: «A portaria que mandou fechar as conferências democráticas não foi só uma flagrante violação da lei aplicável àquele caso, foi também um atentado claro e terminante contra a liberdade da palavra sem a qual é nula a liberdade do pensamento.»

Elogia a Imprensa livre e o jornal, Rafael Bordalo Pinheiro e a caricatura; opina sobre peças de Dumas, Sardou e portugueses, e, em três locais, de novo carrega sobre o «finado escritor» Herculano, que já não trabalha, nem ensina, mas só repousa. Veja-se o seu entendimento sobre o teatro nacional e a recepção de O Crime do Padre Amaro (1876). Pode ser útil fazer acompanhá-la – bem como a crítica a O Primo Basílio – pela correspondência de Eça ao amigo.

Os tomos X e XI dizem-se “Aspectos Vários da Sociedade, da Política, da Administração”, com 36 e 34 capítulos, respectivamente. Além, fala-se muito do Brasil e rebate-se Herculano; observe-se a dificuldade ramalhiana em compreender a poesia de um jovem poeta, que aconselhava a tornar-se «cada vez menos Verde e mais Cesário». Cita-se o poema “Esplendor” (parcial), saído no Diário de Notícias em 22-III-1874. Neste, realce para o debate sobre a instrução secundária no parlamento – e, claro, a sem-razão de o termos aqui e não no tomo VIII. Conheceu primeira edição, em opúsculo, no Rio de Janeiro, sob o título “A lei da Instrução Secundária na Câmara dos Deputados em Portugal” (1883, 80 p.). Há outros domínios que estão fora do seu tomo: deputados, celibato, mortos ilustres e amigos (D. Luís, Júlio César Machado...), vilegiatura balnear, ginástica... O poeta agora visado, em termos chocarreiros, é Gomes Leal.

 

[1] Ver, também, carta a Emília de Castro, de 18-X-1885, em Eça de Queirós, Correspondência, 1.º vol., ed. de Guilherme de Castilho, Lisboa, INCM, 1983: 328 ss.

[2] O trecho sai n’A Illustração (Paris), 1885: 282, que diz extraí-lo de A Holanda.

[3] “Ramalhão Ortigalho” é título d’Os Ridiculos (redactor, Caracoles; Lisboa, 3-X-1895 / 1-VI-1898, n.º 279), quadras de 19-XII-1895, n.º 17, que sucediam a outro ataque no número anterior, de 15-XII.

[4] Desde 1868 até Junho de 1876, temos os seguintes números em acções de divórcios: 10 (intentadas pelas mulheres: 9), 21 (17), 25 (19), 20 (14), 30 (27), 33 (21), 25 (16), 18 (15), 5 (3). A diferença é mais flagrante no 1893 funchalense, quando, segundo o Registo Civil, 22 mulheres, contra 1 homem, requereram a separação de pessoas e bens.

As Farpas (1)

As farpas

Chronica mensal da politica, das letras e dos costumes, por Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão.

Saiu o 1.º numero e está à venda na livraria Pereira, na rua Augusta, na tabacaria Neves, ao Rocio. Recebem-se assignaturas na livraria Pereira.

 

Este número de 96 páginas, ao preço de 200 réis, irrompia da Typographia de Thomaz Quintino Antunes, Impressor da Casa Real, Rua dos Calafates, 110 (seja, da tipografia do Diário de Notícias), e, como se lia na contracapa, «Toda a correspondência relativa a esta publicação deverá ser dirigido aos Redactores das FARPAS, calçada dos Caetanos, 30, Lisboa», seja, a Ramalho, que aí habitava. Na capa, ilustração de Manuel Macedo dá-nos um diabrete alado com seu extenso rabo terminando em flecha, garras, cornos e barbicha eriçados, espreitando por óculo.

Desde Abril, anunciava-se a empresa, segundo o bem informado O Primeiro de Janeiro (28-V-1871), que, na edição de 21-VI[1], agradece a oferta do primeiro número e abre, em 9-VII, «uma série de folhetins» sobre as ditas, continuados em 12, 13 e 18. Agradece o segundo em 20 de Julho.

Em cartas para o amigo Fernandes Reis, na redacção d’O Jornal do Porto, podemos seguir o nascimento destes voluminhos. Em carta de 4 de Maio a Eduardo Garrido, anuncia-as para Junho: por cada correspondente que angariasse, Garrido teria um abatimento de vinte por cento[2]. Informa:

 

O primeiro volume, que aparecerá no princípio do mês próximo, entrou hoje no prelo. Diz uma multidão de coisas que ainda se não tinham escrito em Portugal e todas elas são justas, são verdadeiras e são dignas. No meio do ramerrão hipócrita do jornalismo e da literatura contemporânea este livro tornar-se-á sensível e virá talvez a ser apontado na história do pensamento moderno como um grande impulso das ideias para o direito e para a justiça.

 

Já então pressentia as «muitas negativas e muitas contestações», confirmadas post mortem por Júlio de Sousa e Costa (1946: 48): «Algumas pessoas que se diziam amigas de Ramalho Ortigão esfriaram as suas relações pessoais e alcunharam-no de demolidor antipático, revolucionário, e até de... provocador!»

A partir da sua casa e sede de redacção, impetra o amigo Manuel Fernandes Reis, correspondente no Porto do novo «periódico», a que lhe envie lucros entretanto feitos, pois «Como V. sabe nunca me coalha o dinheiro nestas minhas medonhas algibeiras rotas». E voltando-se para a administração d’As Farpas: «Os assinantes da província deverão pagar trimestres adiantados ou três volumes, e receberão os volumes directamente francos de porte do correio.» À frente: «Era bom que se arranjasse uma pessoa que durante os meses de banhos vendesse as Farpas em Espinho e na Póvoa de Varzim.»

Em carta seguinte, dá a entender que Cruz Coutinho proibiu todo o correspondente de Lisboa de falar em Ramalho Ortigão no seu jornal. Enquanto isso, envia 75 exemplares, dizendo: «A extracção dos nossos livrinhos tem aqui aumentado muito! Tiramos uma edição de 1 500 exemplares e esgotamos tudo de um mês para outro. Em Portugal, não se pode exigir mais, e ninguém ainda conseguiu tanto cá. No Rio de Janeiro têm ganho contos de réis aqueles que nos roubam.»

A reedição do número inaugural referente a Maio (no precioso formato de 11 por 14 cm) diz bem do sucesso da publicação, avidamente lida cá e pirateada no Brasil. «Não se descreve o successo da incomparável revista critica», confirmaria Fialho de Almeida[3]. O propósito ramalhiano, expresso noutra carta, de «organizar a publicação de modo que cada número saia num dia prefixo», foi por água abaixo. A periodicidade mensal aguenta-se nos primeiros tempos; depois, vê-se muitas vezes bimestral, perde-se nas férias do Verão ou por causa de alguma doença.

As três primeiras séries, na Tipografia Universal, encerram com o número de Fevereiro a Maio de 1878. A quarta série, já passada à Empresa Literária Luso-Brasileira-Editora, ainda em Lisboa, comporta três números: Junho a Julho de 1882; Novembro a Dezembro de 1882; Junho de 1883. Esta é a fase propriamente heróica – Maio de 1871-Junho de 1883 –, que termina com a “Carta a sua alteza real o sereníssimo príncipe snr. D. Carlos, regente em nome do rei”, 100 páginas datadas de 25 de Maio, hoje inserias no tomo II – sintomática despedida de quem se afastava de outras inquietações…

O futuro rei, honrado por pertencer, embora a «suplente», à famosa equipa dos 11 Vencidos da Vida, divertiu-se imenso com o tom respeitosamente irónico deste seu confrade, e amigo, e apologista, a quem oferece lugar de bibliotecário na Ajuda.

No total, 42 caderninhos que perfazem sete belíssimos tomos, raros e sumamente preciosos. A colaboração de Eça vai até Outubro de 1872. Escreve Ramalho ao amigo do Porto:

 

Queiroz vai, como saberá, para Havana, o que não obsta a que as Farpas prossigam no caminho em que estão, por isso que sou eu que tenho a chave literária desta porta. Sendo eu que a abri, é a mim que toca também fechá-la e quando entender. Não é natural que venha a ser tão lido. Veja se logo que possa me manda o saldo de Fevereiro, porque estamos em época de renda de casa e preciso cum quibus.

 

Também As Farpas de Novembro avisarão os leitores da partida de Eça, cujo nome, porém, constará até ao fim na capa da publicação. Já cônsul em Paris, revê profundamente a sua parte, que intitula Uma Campanha Alegre / De «As Farpas» e publica em dois volumes (1890-1891), constituindo os tomos 12.º e 13.º da completamente renovada edição d’As Farpas (desde 1887) sob a responsabilidade de Ramalho Ortigão.

Se Eça dispôs os seus textos por ordem cronológica, Ramalho veio confundir-nos o seu tanto. Preferiu uma disposição por matérias, com desrespeito total da cronologia. Assim, o primeiro texto com que actualmente deparamos é de Setembro de 1885; o segundo é de Janeiro; o terceiro não tem data... Dentro da matéria geral a que correspondem títulos para cada tomo, só há subtítulos para as grandes partes de que se compõe o primeiro tomo. Mas vejamos, em síntese, os grandes momentos editoriais d’As Farpas.

 

A fase entranhadamente panfletária, de gente que, na mais completa independência de espírito, nada pede nem tem a perder, vai de 1871 a 1883. Cada fascículo abre por um sumário, em geral longo, desenvolvido pelas cerca de 96 páginas, em que se respeita a ordem dos assuntos avançados naquele, tipograficamente destacados. Subordinados aqui a um lapso de tempo – a um mês, ou a dois, etc. –, e a simples asteriscos, muitos deles vão perder-se nas edições modernas, e, assim, falha-nos um contexto de que aproveitaria a leitura que hoje façamos dessas peças infelizmente atomizados.

O primeiro volume desta fase heróica, em colecção encadernada na Biblioteca Nacional – raridade que, em 1989, valia bem 80 mil escudos (Sousa, 1989); hoje, conjunto digitalizado na BND –, reúne os meses de Maio a Outubro. O segundo volume traz os de Novembro de 1871 a Abril de 1872. O terceiro volume, já no 2.º ano da publicação, comporta os seis fascículos seguintes: Junho a Julho, Julho a Agosto, Setembro a Outubro, Novembro, Dezembro de 1872, Janeiro a Fevereiro de 1873. O quarto volume reúne os de Março a Abril de 1873, entra no 3.º ano com o número XX, de Outubro a Novembro, acrescenta Janeiro a Fevereiro de 1874, Março a Abril de 1874, Outubro de 1874 e Novembro a Dezembro de 1874. O quinto volume oferece os de Janeiro a Fevereiro de 1875, Julho a Agosto de 1875, Dezembro de 1875 (com que se inaugura a Nova Série, tomo I), Janeiro de 1876, Fevereiro, Março a Abril de 1876 (ou, como se compreenderá, tomo IV desta Nova Série). O sexto volume comporta os de Maio a Junho de 1876, Junho a Agosto, Outubro a Novembro de 1876, Janeiro a Fevereiro de 1877, Maio a Junho, Agosto a Setembro de 1877 (ou tomo X da Nova Série). O sétimo e último volume reúne Janeiro de 1878 (Terceira Série, tomo I), Fevereiro a Maio de 1878 (tomo II da 3.ª série), Maio de 1879 (tomo III da 3.ª série), Junho a Julho de 1882 (4.ª série, n.º I, já em nova editora, como acima se disse), Novembro a Dezembro de 1882, Junho de 1883 (ou n.º 3 da 4.ª série).

No total, 42 cadernos rondando as 96 páginas cada, «irónicas, alegres, mordentes, justas», como se diz logo a abrir, na apresentação que coube a Eça.

 

[1] Fernando Castelo-Branco, “No centenário de «As Farpas»: uma carta de João Penha”, Colóquio/Letras, n.º 4, Dez. de 1971: 76, reproduz esta notícia.

[2] Cf. “Uma carta de Ramalho”, Quinzena Literária / dos Estudantes da Faculdade de Letras de Lisboa, n.º 2, 30-I-1940), datada de 4-V-1871.

[3] Cit.: 166.

História da Cultura Portuguesa: século XIX (3)

A Questão Coimbrã e o famoso duelo

Datada de 27 de Setembro de 1865, a «Carta do II.mo e Ex.mo Sr. António Feliciano de Castilho ao Editor», que subintitula a «Crítica Literária»-posfácio ao Poema da Mocidade de Chagas, veio entornar tudo. Dedicatário da obra, Castilho abre a matar: «Parabéns e agradecimentos por este livro, em tudo novo, com que V. S.a vai prendar a nossa literatura. Boa fortuna para a publicação escusado fora desejar-lha, pois a tem certa; afiança-lha o nome do autor, já com tanta razão popularíssimo.»

Posto o que, deriva, no primeiro longo terço, para generalidades estranhas à obra, aqui e ali concitando nomes de próximos – Mendes Leal, Júlio César Machado – ou já comprometendo, no elogio, Camilo Castelo Branco. A espaços, insinua ligações entre os novos conceptistas – «nóveis e boçais» – e alguns seiscentistas sobre os quais erra estrondosamente: «De tudo há nas rajadas líricas de certos poetas, menos assunto, ou menos o assunto.» Antero, que nesse ano publicara as revolucionárias Odes Modernas, sentiu o toque.

Latinando salteado, chega enfim Castilho à confissão do que ali o trazia, não sem antes recitar a quadrilha de amigos mais chegados: Mendes Leal, Tomás Ribeiro, Pereira da Cunha e Pinheiro Chagas, «belo nome, nascido ontem, e já hoje esplêndido, [que] me sugere um novo e derradeiro alvitre para a cura da gangrena que vai lavrando». Na literatura, quer dizer. O alvitre, sim, era o busílis da questão.

Pedro V instituíra o Curso Superior de Letras e, com «boa mão na escolha», provera as respectivas cadeiras: «[...]o mérito de todos os seus professores é real e reconhecido». Mas, além de a cadeira de literatura moderna ser «em verdade dificílima», uma qualquer maldição a perseguia. O seu primeiro titular, Antonio Pedro Lopes de Mendonça (1826-1865), príncipe dos folhetinistas, e nosso primeiro ensaísta literário, socialista utópico, entaramelava-se em público; não aqueceu a cadeira, passando os últimos cinco anos entre os doidos de Rilhafoles. Após duas «aparições brilhantes e passageiras» – Rebelo da Silva e Mendes Leal –, a disciplina estava de novo deserta, urgindo que se lhe acudisse. E, enquanto não chegava o concurso, «como a lei o exige [..], porque se não proveria interinamente, e desde já, o ofício em pessoa cujo aptidão fosse provada e incontestada?» E logo: «Ninguém, quanto a mim, estaria mais no caso do que Pinheiro Chagas.» Procede-se, aí, ao elogio do candidato.

Ora, havia mais três pretendentes: Antero, Teófilo Braga, Vieira de Castro, espantados que tal posfácio misturasse alhos e bugalhos indiscriminadamente lançados ao inocente editor. Retomando a estratégia de dividir para enfraquecer, do trio só considerava o amigo de Camilo, Vieira de Castro, que Chagas também vencia, e dos ilhéus ora coimbrões distanciava-se com golpe baixo: «Deixando de parte, por agora, Braga e Quental, de quem, pelas alturas em que voam, confesso, humilde e envergonhado, que muito pouco enxergo, nem atino para onde vão, nem avento o que será deles afinal, [...].»

Bastava. Louva, ainda, a obra-pretexto, que irmana com D. Jaime, desembocando em síntese manhosa: «Não dei sentenças decretórias sobre o livro, [...]. Expus e motivei conforme soube as minhas persuasões sobre o autor e a obra, assim como sobre uma e outra questão literária que acertou de me passar a talho de foice.»

Como não foi tanto assim, e já prevenindo a borrasca que não ignorava vir a levantar-se, adenda que «o Virgílio me não dá licença» para responder aos discordantes, pelo que o editor avisará de antemão quem quiser brigar. Voltando às suas traduções, Castilho preparava a defensiva. Já Antero lhe caía à perna.

A peça deste, “Bom Senso e Bom Gosto”, que deu nome à polémica logo desencadeado, trazia por subtítulo “Carta ao Excelentíssimo Senhor António Feliciano de Castilho” e breve concluía por um «Nem admirador nem respeitador / Antero de Quental / Coimbra, 2 de Novembro de 1865».

Dois «fortes motivos» levaram Antero a falar: «Um é a liberdade absoluta que a minha posição independentíssima de homem sem pretensões literárias me dá para julgar desassombradamente, com justiça, com frieza, com boa fé.»

A este direito de quem não pretende lugar algum acresce o dever de «erguer a voz pelo que julgamos a verdade, a erguer a mão pelo que acreditamos a justiça». Caracteriza então «as pequenas coisas e os pequenos homens das ínfimas questiúnculas literárias dum ignorado canto de terra, a que ainda se chama Portugal», e, sibilino, sem ignorar a cegueira física do adversário, junta: «Sim, Ex.mo Sr. Eu não sei se V. Ex.ª tem olhos para ver tudo isto. Cuido que não: porque a inteligência dos hábeis, dos prudentes, dos espertíssimos é muitas vezes cega em lhe faltando uma coisa bem pequena, que se encontra nos simples e nos humildes – a boa fé.»

Das «impensadas e infelizes palavras» de Castilho, «dignas, quando muito, de um sorriso de desdém e do esquecimento», resultou «uma acção desonesta». Para Antero, «O que se ataca na escola de Coimbra [...], não é uma opinião literária menos provada, uma concepção poética mais atrevida, um estilo ou uma ideia. Isso é o pretexto, apenas. Mas a guerra faz-se à independência irreverente de escritores, que entendem fazer por si o seu caminho, sem pedirem licença aos mestres, mas consultando só o seu trabalho e a sua consciência». O «herege» de Coimbra continua a alvejar o oficialato das letras, cuja «vaidade ferida» casa com o «espírito de rotina», a banalidade, a vulgaridade, a «baixeza e pequenez moral e intelectual»: «V. Ex.ª fez-se chefe desta cruzada tão desgraçada e tão mesquinha. Não posso senão dar-lhe os pêsames por tão triste papel.»

Segue-se, num arroubo, a defesa da independência e liberdade dos espíritos, propugnando por uma missão que reúna escritor, poeta e apóstolo. Aproveita para se distanciar dos adoradores da palavra, agradável ao ouvido, com que se ilude o vulgo e despreza a ideia, «que custa muito e nada luz». Numa insinuação ainda ad hominem atira: «São apóstolos do dicionário, e têm por evangelho um tratado de metrificação.»

Parte, logo, a costela classicizante do Castilho tradutor e autor de «versos sensabores», «idílios grotescos sem expressão nem originalidade, com alusões mitológicas que já faziam bocejar nossos avós», «com frases e sentimentos postiços de académico e retórico», etc., etc., num estendal violento que arrasa toda a obra castiliana e sua «crítica fradesca». Opõe-lhe, como projecto de modernidade extensivo a todos os domínios, aquilo que «a nossa divertida Academia das Ciências» não faz, mas fazem os grandes institutos europeus: resolver, decompor, classificar e explicar o mundo dos factos e das ideias.

Antero ainda acrescenta panóplia de argumentos para boa distinção de escolas, até que se decide por uma pausa: «[...] temo, no ardor do discurso, faltar ao respeito a V. Ex..ª, aos seus cabelos brancos. Cuido mesmo que já me escapou uma ou outra frase não tão reverente e tão lisonjeira como eu desejara.»

Reconhecendo dever a Castilho «o pouco francês que ainda hoje sei», quando seu aluno no Colégio do Pórtico (na Rua dos Navegantes, 40-43, Lisboa, que frequentou em 1852-1853), Antero vê, porém, «com desgosto, que temos muitas vezes de renegar aos vinte e cinco anos das autoridades dos dez», concluindo que «a idade não a fazem os cabelos brancos, mas a madureza das ideias, o tino e a seriedade; e, neste ponto, os meus vinte e cinco anos, têm-me as verduras de V. Ex.ª convencido valerem pelo menos os seus sessenta.» Era o fim: «A futilidade num velho desgosta-me tanto como a gravidade numa criança.»

Nada a fazer. Antero penitenciou-se, na “Carta Autobiográfica” de 1887, dos excessos nesta contidos, tanto mais que tivera no filho Júlio de Castilho, quando viveram nos Açores, «o meu mais antigo amigo. Brincavamos ora em casa d’elle ora na nossa.»

Por agora, o firmamento das letras escancarava-se e vinha abaixo. Já tempestuava.

Acesa a polémica, já com outros à compita, sai segundo folheto de Antero em Dezembro. O tom abrandava; Castilho, aliás, tinha os seus méritos – houvesse um olhar para a peça Camões, «um dos mais formosos dramas do teatro português e a única admirável e inatacável obra do Sr. Castilho», livro «surpreendente que excede muito o Camões de Garrett» em múltiplos campos... Ramalho vai pegar nesta e em muitas mais, em extenso folheto de 3 de Janeiro de 1866, o qual, por querer-se supra-partidário, «mais controvérsia levantou» por ter desagradado «a gregos e troianos», no dizer de Alberto Ferreira e Maria José Marinho, que o integram no vol. II da antologia Bom  Senso e Bom Gosto, 21985.

Nas Obras Completa do autor, abre o tomo I de Figuras e Questões Literárias, a que se seguem prefácios críticos a Os Lusíadas e ao Amor de Perdição, bem como estudo brevíssimo sobre Garrett. No tomo II (1945), é novo apanhado de dispersos sobre «perfis de escritores e problemas de estilo»: Eça, Oliveira Martins, Guilherme de Azevedo, D. João da Câmara, Conde de Ficalho, Teófilo Braga, Junqueiro, Ernesto Biester, Maria Amália Vaz de Carvalho e Flaubert são as principais referências desenvolvidas.

Mas, revertendo a Literatura de Hoje – M. Pinheiro Chagas, António Feliciano de Castilho, Vieira de Castro, Antero de Quental, Teófilo Braga –, com que Ramalho intervém na Questão Coimbrã, vejamos alguns aspectos e como se precipitou aquele tão falado duelo com Antero.

«O que muita gente ignora é que foi um padre que me meteu nessas grandes andanças!...», confessará a Júlio de Sousa e Costa (Ramalho Ortigão. Memórias do Seu Tempo, 1946: 27). E o que seria um divertimento, no distante Porto, quase ia dando para o torto. Ataquemos o texto.

«Estão-se dilacerando rancorosamente em Portugal duas seitas literárias a que chamam a coimbrã e a olissiponense. Dizem os de Lisboa que não percebem o palavroso e abstruso mistifório dos literatos de Coimbra. Gritam os de Coimbra que se lhes não dá com o paladar académico o palavrório delambido dos literatos de Lisboa.»

No terceiro parágrafo, e apresentados os contendores, esclarece Ramalho as condições em que, e para que, escreve:

«Como a questão é de terra para terra, aproveito a santa paz que reina por enquanto na minha freguesia, e nesta noite de 2 de Janeiro de 1866 procurarei eu, de pés ao lume e charuto no canto da boca, o mais sossegada e desapaixonadamente que se pode, ver se entendo os assinalados campeões, [...].»

Começa por situar a polémica entre «homens novos», não admitindo «cá tiaras que resguardem as frontes», uma directa contra Castilho, cuja intervenção, extemporânea, na luta «falseia a sorte do combate»: «Os próceres literários, de cujos ombros pendem já as insígnias da vitória, esses só devem descer à estacada para coroar o vencedor e dar a mão ao vencido.»

Castilho, claro, actuando na lógica da escola dita do elogio mútuo, não quis esperar por outros quaisquer veredictos e inverteu a situação. Para Ramalho, quem assim age «sujeita-se a que lhe desenastrem a coroa, a que lhe rasguem a toga, a que o dispam, o cuspam e o obriguem a reaver o seu lugar por entre os apupos da plebe, a qual [...] assim lhe bradará indignada de cada ponto do anfiteatro: – Fora o compadre! fora o agiota! fora o truão!»

Ramalho não aceita que se exerça crítica literária fora de três parâmetros, ou por «três diversos modos»: «Pela impressão dominante da leitura; pelo exame minucioso de cada uma das partes e dos mínimos acessórios de que consta a obra; pelo confronto do livro com todos os demais de natureza idêntica.»

A primeira forma de crítica era a mais usual nos noticiários da Imprensa oitocentista e ainda hoje conserva suas galas: diz-se bem ou mal da obra conforme nos causa boa ou má impressão (ou o seu autor por ela). É superlativa, adjectivante. A segunda forma «consiste em alumiar as belezas desapercebidas do vulgo, e apontar as discrepâncias em que delinquiu o autor». É evidente que, na prática, e em terra de sentimentos literários exacerbados, «neste lance a crítica, por um sentimento de reacção muito vulgar em certas organizações, desvela-se ordinariamente mais em agravar a penúria do que em assoprar a opulência». Na terceira forma de crítica, o livro em análise é acareado «cautelosamente com os seus predecessores e os seus pares, para averiguar nesse cotejo o lugar que lhe compete na literatura do país em que foi escrito».

Esta tipologia crítica, já então muito avançada, recusa a mesma bitola para todos os livros; não há grelha de leitura definitivamente dada, como não há molde comum a todos os vestidos.

Explicitadas as variantes críticas, Ramalho passa a analisar o Poema da Mocidade segundo «a última das fórmulas que estabeleci», confessando que, desde as primeiras estrofes do primeiro canto, «me senti cativo da mais viva simpatia a este livro»: «Isto é alegre, desartificioso, sincero e elegante.»

Ao nível da poesia lírica que se faz lá fora, Chagas «é a verdadeira expressão da arte moderna» no seu género, pela inspiração que o leva a «ser familiar sem descair no corriqueiro, de estar sem cerimónia sem se tornar grosseiro, de ser original sem se fazer afectado nem esquisito, de ser solene sem chorar, e engraçado sem dar risadas». Mas, se a inspiração vinga, a reflexão falha. Demonstra-se, na sequência, como esse livro foi «escrito intercadentemente e a trancos», circunstância que «explica a disparidade no mérito parcial de alguns trechos». Releva «mais de um erro, mais de uma discrepância na correcção do metro e da palavra»; todavia, sabe que livro sem erros pode ser péssimo e este, «inaugurando, bem ou mal, entre nós o poema-folhetim, inspirado no seio duma sociedade que todos conhecemos, e escrito na linguagem que todos falam, há-de ter por força um lugar distinto na literatura, [...]». No prenunciar do que será o programa de Cesário Verde (mas sovará este), vai, pois, a aprovação do crítico, que de imediato passa à carta-posfácio de Castilho.

O tom sério muda-se em jocoso: «Pede o Sr. Castilho que o não acordem, se é um sonho isto. Respeitemos a sonolência do Homero.»

Concorda que a afectação e a enfatuação, já denunciadas por Castilho, «são o achaque das nossas letras», cujo mal proviria «dum defeito orgânico; origina-o a deplorável penúria de imaginação e a lassidão crónica das faculdades observativas e investigadoras, defeitos que constituem o aleijão característico, mais ou menos saliente em quanta literatura se tem feito entre nós». Ai dos escritores, assevera Ramalho, que «as grandes comoções políticas» da sua época «ou as tempestades da existência pessoal» não tocaram! Mas, também, por que razão havemos de, fora de tais condicionalismos, deixar que a vontade vergue? «Será uma feição ingénita da nossa natural indolência, ou simplesmente o resultado do caprichoso desfavor da sorte que nunca nos dotou com elementos fertilizadores, [..]?»

Justifica, logo, essa falta de imaginação no teatro nacional e no romance, onde exceptua Camilo, embora «o segredo da pasmosa fecundidade» deste esteja não «na facilidade com que inventa, mas no admirável talento com que observa». Ou seja: «O que determina a avidez com que todas as obras deste admirável romancista são lidas e relidas não é a trama geral da acção, mas sim, sobre o prestígio da mais deliciosa linguagem, a perfeitíssimo corte dos caracteres e a inexcedível pintura dos costumes.»

Ramalho, como Castilho, não pretende alienar, na discussão, o valor que representava Camilo. Na correspondência deste para o patriarca lisboeta, Ramalho – que reiterava posições de admiração já expandidas n’O Jornal do Porto – não sairá beneficiado.

Posto esse acordo com Castilho, acerca dos males que afectam a nossa literatura, inquire da «receita para curativo deste mal» que aquele dá na carta ao editor Pereira. E é com espanto que nota: «A tradução dos poetas latinos é a triaga em que S. Ex.ª encontra mais virtudes medicinais.»

Era a prova de que o ilustríssimo e «reverendíssimo pontífice da literatura» já cavara fundo o abismo que o separava dos novos, indiferente que se mostrava «ao movimento das sociedades».

O pedido de nomeação de Chagas para a cadeira de Literatura Contemporânea é delinquir «perante o tribunal da equidade, da razão e da honra literária». Não podia ser mais justo ao ver denegada, ou desviada, a nobre tarefa da crítica:

«[...] converter um artigo de crítica em carta de empenho para um ministro, obrigar um poeta a figurar como um inválido amparado nos braços do seu editor e do seu crítico, e passeá-lo por esse mundo ao som dum chorado aranzel e duma lamúria cantarolando como lábia de pedintões de ofício, é ofender, conspurcando-a, a dignidade da nobre profissão das letras e da nobre profissão das armas, dupla dignidade que todos temos obrigação de respeitar na pessoa sã, escorreita e limpa do Sr. Pinheiro Chagas.»

A justeza, contudo, saía algo abalada pela imagem dos cegos papelistas e cegos de feira, cegos e poetas como Castilho. Assim se repetia uma infelicidade que já acometera Antero. A insinuação desequilibrava a elegância.

Um último, mais longo e importante ponto na abordagem da carta serve para refutar «as ideias que o Sr. Castilho tem acerca do modo por que se deve exercer a crítica», que, afinal, não passa «de impressão», a primeira modalidade já exarada por Ramalho.

Regressando ao passo em que mais abertamente arredava, porque citando-os, os três outros pretendentes à cadeira do Curso Superior de Letras, e convergindo no elogio a Vieira de Castro, analisa de seguida a carta de Antero e o opúsculo de Teófilo, Teocracias Literárias.

O autor conta como, abrindo «gulosa e sofregamente esta carta do ilustre académico», correu «logo ao fim, e a primeira coisa que li foi a última: a assinatura do autor e as linhas que a precedem». A guerra estava anunciada com a seguinte frase: «Causou-me profunda mágoa ver essas frases desabridamente insultuosas e provocadoras, escritas, assinadas, e directamente dirigidos por um moço de vinte e cinco anos a um varão respeitável pelos seus cabelos brancos, respeitável pela enfermidade horrível que o privou da vista [...].»

Discorda, com Antero, «das sentenças literárias lavradas pelo crítico do D. Jaime», como avisei acima, «e do Poema da Mocidade: prezo como os que mais prezam a liberdade de opinião e o denodo da verdade, mas repulso com tédio esse valor quando o vejo desenquadrado das questões de arte para se empregar sacrilegamente na baixeza plebeia do insulto pessoal descaradamente arremessado à face veneranda do decano dos escritores portugueses.»

Se dúvidas houvesse quanto a espadeiradas, chegava a confirmação: «Se o Sr. Quental já de antemão sabia, como afirma abrindo aí margem a novo insulto, que o Sr. Castilho é velho e cego, levará a bem dizer-se-lhe que maculou o Sr. Quental os seus vinte e cinco anos com a mais torpe das nódoas que um mancebo pode lançar no seu carácter: a covardia.»

Entrando nas obras representativas de uma suposta escola de Coimbra aventada por Antero, Ramalho, além de nada vislumbrar, ainda se diverte com as Odes Modernas, não sem antes recuar «espavorido da monstruosidade do seu talento». O problema reside na poesia filosófica, «mau género»: «O Sr. Antero de Quental [...] é mau poeta e é mau filosofo. É mau filósofo porque derriba em vez de edificar. É mau poeta porque discorre em vez de comover.»

Nenhuma contribuição deu, acrescenta, à religião, à política e à sociedade, como julga poder provar com algumas estrofes. Choca-o um revolucionarismo de terror, a «fria materialidade» e a «crua indiferença religiosa deste moço». Contesta, depois, a imodéstia e jactância de jovens que, pensam, ferem a vaidade dos mais velhos. Mais diz que dignidade e independência apregoadas por uma escola como a de Coimbra «são virtudes que se devem tomar à conta dum propósito da parte da mocidade académica, mas que não podemos já respeitar nem aplaudir como consumado merecimento».

Ainda tem espaço para desancar, inesperadamente, no segundo texto de Antero e que, a meio do seu escrito, lhe chega às mãos. Sobre A Dignidade das Letras e as Literaturas Oficiais resume o que já acima adiantei: que o poeta se desdiz «vergonhosamente» de quanto escrevera no primeiro. Dá como exemplo o elogio do drama Camões; e a estocada: «Como é que se muda assim de linguagem fazendo hoje o mais levantado, o mais descabido, e o mais torpe dos elogios à mesma obra que ontem se tinha por algarvia, estonteamento, banalidade e ninharia?»

E vai de analisar o dito drama, recriado do francês por Castilho, para concluir que tal volte-face só se compreende assim: «O Sr. Antero de Quental teve medo.» Medo, quer dizer, de infância estudiosa sob a férula de mestre Castilho e réplicas em cascata dos apaniguados deste. Imagina Antero a levar as primeiras palmatoadas de Castilho no colégio; e com cinismo: «Foram essas palmatoadas que lhe meteram medo depois de publicado o seu escrito.»

Avancemos para o terreiro da batalha, convictos de que, sobre as disputas mais ou menos literárias, há nos lusos contendores a emergência de paixões felizmente humanas. Fosse a questão puramente literária e talvez os seus efeitos se perdessem em mais umas tricas sem interesse. Desta, os campos ficavam logo bem demarcados e as consequências não se fariam esperar. Para já, e incidentalmente, declarava-se um duelo que tinha a virtude de veicular aquelas paixões e emoções para um outro tipo de diálogo, a saber, o que se processava entre jovens que, aliás, e a breve trecho, se tornariam amigos. Por arrastamento, a importância literária dos que, em Lisboa, dominaram nos últimos vinte anos, sairia minorada e cedo vencida pelos novos bárbaros. Acompanhemos, então, o rápido epílogo desta história.

Antero de Quental chega ao Porto a 25 de Janeiro, «com o propósito de deslombar o Ramalho», segundo carta de Camilo a Castilho. Traz com ele «espada que, por uns magros patacos, adquirira num adelo da velha Coimbra» (F. A. Oliveira Martins, Oliveira Martins e os Seus Contemporâneos, 1960: 33). Encontra Camilo: «Pediu-me que aceitasse a sua procuração para tratar diplomaticamente o prefácio do pugilato.»

Este, com também um folheto, Verdades Irritadas e Irritantes, prestes a sair, compromete-se a «fazer que o Ramalho lhe desse alguma espécie de satisfação; mas a concessão que o Ramalho lhe fazia era curta para o que ele queria, nada menos que a retirada das palavras ofensivas.»

Pelos botequins, salões e outros lugares de culto literário fazem-se apostas. Perguntado Antero, em casa de D. Ana Plácido e Camilo, «sobre o seu saber técnico da esgrima, respondeu risonho que a exercitara algumas vezes num quintal em Coimbra com os companheiros, floreteando os talos ressequidos da couve galega» (Ricardo Jorge, p. 18).

Elegem-se dois padrinhos de cada lado, que confirmam o desentendimento; os jornais noticiam a iminência do duelo; a polícia visita um padrinho; guarda-barreiras ficam alerta, etc. «Que can-can!», comentará Antero em carta a amigo, e já ao rubro com as «insolências bastante indignas a meu respeito» de um folheteiro a merecer «porrada». «O que eu quero porém é terminar isto que, sobretudo no meio estado de desespero, me aborrece mortalmente», diz ainda Antero.

«Cruzam-se enfim os ferros na Arca d’Água, e aos primeiros passes de armas Ramalho, em vez de rachar o Antero de meio a meio com o montante, sai ferido, não pelo calcanhar aquileu, mas, salvo seja, na canela», continua Ricardo Jorge (p. 16-17), que retrata o ambiente de espanto nas tertúlias: «Os cenáculos portuenses não caíam em si de pasmo; parecia impossível que o Ramalho se tivesse deixado jarretar, qual o gigante Golias pela mão arteira do lírico David. Deu que cismar esta vitória.» Esse fora o resultado, mais tarde resumido pelo próprio Ramalho a Júlio de Sousa e Costa (p. 28-29): «[...] um par de espadeiradas entre mim e o Antero, num dia frigidíssimo de Fevereiro, tendo eu ficado ferido numa asa!...»

O encontro desse dia 7 «durou pouco mais de dez minutos». Apesar da sua perícia nos jogos do sabre e do florete, reconhecia: «Uma destas circunstâncias imprevistas que apanha em cheio o melhor atirador!... Na resposta que dei ao meu antagonista não cobri o flanco e daí o golpe que apanhei, aliás de pequena importância.» Ferido no braço direito (Diário de Notícias, 9-II), tira lição do combate: «Arrependi-me a breve trecho de ter terçado armas por quem não as merecia, e, assim, andei embrulhado à espanhola num caso aborrecido!...» Refere-se a Castilho, que, em carta de 20 de Janeiro a Camilo, informa: «Ramalho Ortigão remeteu-me um exemplar do seu opúsculo precedido dum oferecimento muito cortês. Ainda o não pude ler. Mas se é como me informam em termos urbanos, hei-de tomar conhecimento dele, e responder ao autor. Seria confundi-lo com os Teófilos e Anteros, [...].»

Dois dias depois, nova carta e transcrição de dedicatória: «Ao seu inigualável mestre o Ex.mo Sr. António Feliciano de Castilho em testemunho de lealdade literária oferece respeitosamente o autor.»

Castilho conclui, afinal (ou quem lhe diz que não merece leitura), que «as palavrinhas melífluas do oferecimento» escondiam «o rancor de um malcriado»! «Era o Ramalho a disfarçar o Ortigão.»

A 27, pergunta-se «qual dos dois é mais javardo: se o Ramalho, se o Antero». Em carta do dia seguinte, aquele «é apenas uma bexiga inchada de ar fétido».

Camilo, por seu turno, muito se diverte com a desgraça alheia. Em carta de 5 (mas deve ser 8) de Fevereiro noticia:

«Disse ontem a V. Ex.ª que o Ramalho ficara levemente ferido. Enganei-o porque me enganaram enquanto ao ferimento, que foi uma profunda cutilada no braço direito. O Antero mostrou que era professor na espada. O outro cedeu-lhe todas as condições vantajosas, pensando que o adversário era leigo. O velhaco aproveitou-as todas. Terminado o duelo, Antero despediu-se de mim e foi para Coimbra.»

Camilo fica com a ideia de que o herói lhe perdoava quanto mal dele escrevera em Vaidades Irritadas e Irritantes. Teófilo, aí, sobe aos arames:

«[...] foi terrível a minha decepção, quando o vi ir cumprimentar no Porto Camilo Castelo Branco, que então morava na Rua do Almada, e almoçar com ele e rir-se das tremendas injúrias que o cáustico romancista lhe vibrara no folheto das Vaidades Irritadas e Irritantes. Depois do duelo, que se efectuou uma madrugada em uns campos, na estrada da Arca de Água, Antero de Quental voltou a casa de Camilo a despedir-se. Foi quando conheci o desequilíbrio moral.»

Prossegue a interlocução com Castilho, não raro em tom desbragado, e em Agosto de 1868 Camilo volta a falar-lhe de Ramalho:

«Lá tem o meu Castilho muito perto da sua cadeira académica o R. Ortigão. A nomeação dele para 1.º oficial da A. R. das Ciências argue pobreza de homens hábeis em Lisboa. Bom é que o Porto forneça a sua irmã duma fazenda que lhe sobra. Ficaram no Porto ainda 2 dúzias que servem para lá. Dizem-me que foi o Tomás de Carvalho que anichou o Ramalho. Simpatias dos apelidos. É ramalhagem tudo.»

Assim terminava, com reservados estados de alma, sucesso que dividiria o século literário.

História da Cultura Portuguesa: século XIX (2)

Entre 14 de Janeiro e 5 de Agosto de 1843, O Panorama oferece O BOBO. / 1128, modelo de romance histórico assente na primeira tarde da nacionalidade, 24 de Junho de 1128, quando o príncipe D. Afonso Henriques bate o exército da mãe e do amante galego.

Em Março e Abril, ferido numa perna, Almeida Garrett convalesce em casa, e aproveita para escrever Frei Luís de Sousa. Teve primeira récita no teatro da Quinta do Pinheiro, a 4 de Julho, e duas edições em livro no ano seguinte. Ainda em 1843, saía o tomo I do seu Romanceiro.

A Revista Universal Lisbonense (1841-1859), entretanto, com seis capítulos iniciais das Viagens na Minha Terra, abre o apetite para um novo tom, anunciando, já, uma «popularidade extraordinária», como se dizia no prólogo da edição em livro (1846).

A 27 de Abril desse «espantoso ano de 1843», o jovem Lopes de Mendonça assinava, com 17 anos, prólogo a ingénuas Cenas da Vida Contemporânea, antes de se afirmar no ensaísmo político de coloração socialista, com o jornal O Século (1848), literário, com Ensaios de Crítica e Literatura (1849; refundição em 1855, como Memórias de Literatura Contemporânea), e no romance psicológico, com Memórias de Um Doido (1849), de cortante actualidade, pelo retrato que esboçava de geração em perda de inocência social – essa que, entre medos, agoiros e lágrimas de papel, melhor se sairia na vida pública. De momento, Lopes de Mendonça esgrimia seis contarelos contra os efeitos maléficos do liberalismo, que reduzira sectores importantes da nação, quais os frades e os soldados, à mendicância, enquanto donzela sem meios se prostituía ou viúva incapaz de pagar uma renda se suicidava. Sobretudo, panfletava contra a pena de morte, leitor do Hugo de Le Dernier Jour d’un Condamné (1829).

A década já lia, outrossim, o diário emblemático do Romantismo, A Revolução de Setembro (22 de Junho de 1840) – onde ao renomado Lopes de Mendonça sucederia um não menos famoso folhetinista, Júlio César Machado –, periódico radical nas origens, intrépido batalhador pela liberdade de Imprensa (e, por isso, regularmente suspenso nos anos 40, ou transmudado no que seria o clandestino mais célebre de Oitocentos, O Espectro, entre 16-XII-1846 e 3-VII-1847, durante 63 números), tanto defensor da lisboeta Escola do Elogio Mútuo veneradora de Castilho contra a juventude coimbrã, em 1865, como, em Maio de 1871, ousadíssimo ao inserir o programa das Conferências do Casino...

A trindade de publicações aqui referidas – O Panorama, Revista Universal Lisbonense, A Revolução de Setembro – indicia, enquanto repositórios do frémito quotidiano de uma nação em curso, o peso que a literatura e um jornalismo de intelectuais ganham nas preocupações de quem, por séculos de Inquisição, anseia por originais que refresquem a memória pátria. A geral Imprensa, simultaneamente, debate-se com nascentes problemas censórios (é a ditadura de Costa Cabral, muito dura entre 1842 e 1846), sobretudo nesse 1843, em que se perfila legislação limitadora e vários órgãos são querelados. O jornalismo, decisivo na formação do século e da atmosfera romântica, tornava-se notícia. Mediador por excelência, substituía o púlpito perseguido por liberais, transmitia as vozes da tribuna parlamentar, recenseava as peças em cena.

 

Vemos a conjunção, em 1843, de um interesse confirmado pelo folhetim, imaginativo e alfabetizador, com crescente aproximação das leitoras, a quem era primacialmente dedicado; também, o folhetim como intermediário da tradução, que, todavia, se encontrava noutros espaços, do palco à livraria, à biblioteca e ao teatro. O público, convocado por empresas jornalísticas que fixavam os autores mais em vista, e já com mais do que a quarta página dedicada à publicidade, embaratece o produto e conquista assinantes e leitores.

Absorvendo esse ar do tempo, sobrelevando a repressão à Imprensa nesse faustoso ano de 1843, Garrett torna-se pioneiro em, pelo menos, três domínios fulcrais: no teatro, na literatura oral e tradicional (base para a escola etnográfica, retomada em Adolfo Coelho, Teófilo Braga e numa plêiade de ilustres), na moderna novelística, segundo feição mais aérea, sentimental e cúmplice do leitor – feição, entretanto, detectável em O Estudante de Coimbra (1840-1841), de Guilherme Centazzi.

Já diferente será se atentarmos um pouco na lição, de profunda carga ideológica, imanente à ficção d’O Bobo e, sobremaneira, ao leve peso do contado, que o título torna enganoso: Herculano procura instaurar uma escrita do pormenor, matérica, lenta, em que assentar pilares de uma modernidade que, infelizmente, ainda cala ou ignora os avós literários.

Temos, por outro lado, o exemplo de Lopes de Mendonça: a sua estreia precoce ou os descaminhos de um Maurício que protagoniza Memórias de Um Doido (1849) biografam a loucura da juventude conquistadora emergente, todos grandes poetas, a acreditarmos no crítico, geração que, após dois séculos de esterilidade, vinha fecundar o chão do lirismo pátrio. Esta agitação espiritual era vista como prova de, a breve trecho, verdadeira «regeneração» do país...

O que a história literária vem deduzindo desta leva de ultra-românticos – os tais que melhor gozaram os anos do constitucionalismo – é, na realidade, a imagem de Maurícios que (se) representaram. Habituados ao melodrama, ruidosos no dramalhão, deram-se em esqueleto (porque será a destes, afinal, uma poesia tão cemiterial?), guardando corpo e alma para boémias e pecadilhos que lançam outra luz sobre o que a crítica se recusa a ver: a ficcionalização do ser e estar, pela multiplicação de hipóteses e a repetição de experiências (daí o sentimento de naufragarmos em pantanosos lugares-comuns), à medida da crença na civilização e no progresso.

Garrett, senhor de facilidades rítmicas, é grandemente responsável por um epigonismo que atravanca os jornais da época. Mas, quando a toada frívola perceptível no referente ou na estrofe de redondilha maior se passa a eloquência, próxima do fôlego de um Victor Hugo humanitarista (epígrafe de Mendonça, em 1843) ou das graves e solitárias sensações à Lamartine (poeta revolucionário, em Mendonça; de paixões adejantes, propriamente ‘românticas’, num juvenil e despreocupado D. Pedro da Silva do camiliano Mistérios de Lisboa, 1854), aí, então, Herculano vem mais a calhar, antes de João de Lemos e Soares de Passos servirem de mote a milhentos versos perdidos nas folhas dos anos 50. A ligeireza com que se escolhia mestre – e como Castilho aceitava a devoção alheia – casa bem com as encenações repetidas que levaram os manuais a olhar toda aquela gente como uns infelizes. Essa representação, se ronda e até bebe em terrenos de Herculano, não o afecta. O mais que faz é chamar a atenção para a grandeza de um retiro: pelo tom, pela forma (que é sempre um artifício e, nestes poetas, uma exterioridade, simples revestimento), revela-se, de facto, um segmento de sociedade dúplice no seu ser e agir – enquanto todos sobem a ministros, deputados, professores –, relevando, em contraluz, o rosto criador de quem se caracterizou por recusas impensáveis nos contemporâneos.

Herculano tinha, como Garrett, um projecto para Portugal. Castilho, na impertinente cegueira, tanto visava a felicidade pela agricultura (título de 1849) como pelo abc e tratados de metrificação. Herculano perseguia a memória do que éramos com que ensinar o presente. Quanto à lavoura da sua última década, aí está o puro azeite, com prémios internacionais.

Quase naturalmente leitor, no exílio inglês de 1831, do historicismo de Walter Scott e de certa literatura negra, ‘gótica’ ou de terror com que os britânicos usavam tremer, em Herculano parecem descolar momentos de tensão comuns a obras menos estudadas (ou, entre nós, só traduzidos décadas mais tarde), caso da hugoliana Marion Delorme. Refiro-me ao cap. XIV de O Bobo, “Amor e Vingança”, em que, a exemplo do prisioneiro Didier recusando a liberdade que se lhe oferecia através de Marion (que aquele, já conhecedor do seu passado, explicava pela entrega carnal ao inimigo), Egas afasta a hipótese de liberdade que por Dulce (entretanto, «mulher do estrangeiro» Garcia Bermudes) lhe pode ser ofertada.

Esta atmosfera europeia essencialmente francesa não existia, ainda, em 1825 ou 1836. Outros acontecimentos (um célebre baile nas Laranjeiras, reunindo o jet set nacional; as ligações Norte-Sul, com a ponte pênsil no Porto) dão lustre a 1843. E quando o fim-de-século olhar para trás, e reflectir sobre a magreza social, fixa-se nos anos de 1842-1843 como caução dos novos tempos. Em Vida Irónica (1892), Fialho de Almeida convoca dois bailes de aniversário na época. Alonga-se em Vida Errante (Livro Póstumo): “A sociedade de Lisboa em 1840” descreve, pela mesma via, «I – Festas Líricas e Musicais», com relevo para a representação do Frei Luís de Sousa pela alta sociedade do tempo.

História da Cultura Portuguesa: século XIX (1)

A Guerra das Laranjas inaugura Oitocentos. No quadro da ofensiva de Napoleão contra a Inglaterra, França e Espanha assinam uma convenção (Janeiro de 1801) com exigências gravosas para Portugal: adesão ao bloqueio continental, abrindo os portos somente a espanhóis e franceses, que teriam direito a reparações de guerra; e, entre outras intimações, revisão da fronteira com Espanha. Sem capacidade de comando e de resposta, entre 20 de Maio e 6 de Junho, caíam praças-fortes alentejanas e celebrava-se o Tratado de Badajoz: Portugal perdia Olivença, ferida ainda aberta na alma de nacionalistas. Com implicações na América do Sul, e elevado montante pago a França, para evitar invasão, aquele seria confirmado por um mais severo Tratado de Madrid (29 de Setembro de 1801). Laranjas de Elvas entregues por dois soldados ao comandante Manuel de Godoy, que ele enviou à rainha Maria Luísa acompanhando mensagem, deram nome a guerra fácil e denunciavam o amargor de uma nação sem rumo.

O reinado de D. Maria I (1777-1816) estava, desde 1792, por morte do príncipe herdeiro D. José (1788) e loucura da soberana, nas mãos de um impreparado filho segundo, que vai coroar-se em 1818, no Rio de Janeiro. Casado com a feia, inteligente, irrequieta e infiel Carlota Joaquina, filha de Carlos IV de Espanha, o futuro D. João VI entrega-se aos favores carnais e larga a pátria nas mãos de ministros. Internamente, o pensamento é vigiado pelos espiões de Pina Manique, chefe da polícia, que morre no ano de um constante inimigo seu, Manuel Maria Barbosa du Bocage (1805).

Em finais de 1806, Portugal é intimado a aderir ao bloqueio continental à Inglaterra, e relembrado, em 17 de Julho de 1807, a fechar definitivamente os portos aos ingleses; deve, até 1 de Setembro, confiscar-lhes os bens e prender os aí residentes. Após vários conselhos de Estado inconclusivos, anuncia-se adesão a 25 de Setembro. Mas, desde Agosto, os estaleiros e o arsenal recuperam navios para o que será a primeira retirada de uma corte europeia para os seus domínios ultramarinos.

 Com os mercadores ingleses de sobreaviso, D. João assina acordo secreto, escrito em francês, com Jorge III de Inglaterra (22 de Outubro, ratificado por Portugal em 8 de Novembro). Indiferentes à consabida duplicidade joanina, as tropas napoleónicas passam a fronteira em 19 de Novembro. Mesmo ignorando o Tratado de Fontainebleau, de 27 de Outubro – que tripartia Portugal e já cobiçava o Ultramar −, isolado de uma Espanha adversa que vai acrescentar 27 mil homens e 62 peças de artilharia aos 28 mil franceses, esperar pelo inimigo, ainda que maltrapilho, podia ser humilhante. Vencedor ou vencido, perda maior seria se a Inglaterra interpretasse mal aquela «adesão» e conquistasse possessões na Índia, no Brasil, no resto do Império. O último conselho de Estado, de 24 de Novembro, sobressalta-se, à notícia da chegada de Junot a Abrantes, localidade da qual a mulher, Laura Junot, tirará o título de duquesa de Abrantes. Três dias bastam para arranjos finais da administração régia, ora nomeando sete governos militares do reino, ora embarcando a Família Real e milhares de burocratas, mercadores, açafatas, lacaios, soldados, entre caixotes e baús escondendo o Tesouro, arquivos e outros bens. Comandada por ingleses, a armada sai a 29, ainda avistada pelas primeiras tropas francesas que desaguam em Lisboa…

O intendente-geral da polícia é, agora, Pierre Lagarde, cujo apelido servirá a título de jornal antinapoleónico – O Lagarde Português, ou Gazeta para Depois de Jantar (1808) – e a quadras de um poeta, folhetista satírico e jornalista temível: José Daniel Rodrigues da Costa (1757-1832). Os seus títulos, reeditados, são curiosos – além de críticos, morais e divertidos.

Opúsculos e folhetos, anónimos ou assinados com iniciais, fuzilam os invasores; mas, se não é algum cabeçalho forçado à subserviência ou a oficial Gazeta de Lisboa – com larga vida desde 10 de Agosto de 1715, até ser, hoje, Diário da República, em edição electrónica –, a quase totalidade das folhas corrói Napoleão e o apaniguado Godoy, acusado de traidor e vendido.

A pensar na degradada economia nacional está um vulto eminente formado em Leis, José Acúrsio das Neves (1766-1834), autor da fundamental História Geral da Invasão dos Franceses em Portugal e da Restauração deste Reino (5 tomos, 1810-1811). Literariamente, interessa a dúzia de escritos patrióticos, em que, ora interpelando «gazeteiro», ou seu mandante e usurpador francês, ora a alma da nação, anima esta à resistência solidária com Espanha e elogia a Inglaterra na figura de Jorge III, muito cantado na lírica nacional.

O Trono e o Altar têm um estrénuo defensor – e mais nesses dias negros de submissão aos três delegados de Napoleão, entre 29 de Novembro de 1807 e 17 de Abril de 1811: Junot, Soult, Massena – em José Agostinho de Macedo (1761-1831). Frade agostinho (1788) expulso da Ordem em 1792, por mau comportamento e vícios privados, é, desde 1802, pregador régio. Membro da Nova Arcádia e da Arcádia de Roma, terá alguns inimigos e invejas de estimação: os pedreiros-livres, em que inclui afrancesados, discípulos de Voltaire, Rousseau e demais iluministas, que ele ainda estudou, a par do elogio de Newton, título de poema épico (1813); Os Lusíadas, que rebaixa, para altear obra própria, O Oriente (1814), em 12 cantos, depois de Camões ser citado no limiar do ‘poema narrativo’ Gama (1811); Bocage e um amigo poeta, Nuno Álvares Pato Moniz (1781-1826); Almeida Garrett e liberais; Os Burros (título de 1827), isto é, a gente das letras. Inconstante e violento, polemista irredutível, bom argumentador e leve na prosa, o panfletário Macedo é excessivo, exibicionista, avesso à bondade, sem misericórdia. Fixou, porém, títulos de encher o olho: Motim Literário em forma de solilóquios (4 vols., 1811), que inspiraria Motim Literário, de David Mourão-Ferreira (1962), ou o periódico A Besta Esfolada (1828-1829, 1831).

Ainda sob ameaça francesa, algo mais desastroso está para acontecer no Rio de Janeiro, em 19 de Fevereiro de 1810, com o Tratado de Amizade e Aliança entre Sua Majestade Britânica e Sua Alteza Real o Príncipe Regente de Portugal, que vai vigorar até 1835. A abertura dos portos brasileiros à Inglaterra significará perda da capacidade reexportadora da metrópole e vai enfraquecer a economia de um país abandonado pela corte, e ora invadido, ora sob protectorado inglês. Nesse ano, entram 810 navios portugueses no Rio de Janeiro; em 1829, somente 57. O défice com o estrangeiro, em 1818 e 1819, atinge a avultada soma de 22,5 milhões de cruzados. A decadência industrial, também proveniente do atraso tecnológico, faz cair as exportações. Entre 1796 e 1820, há uma quebra de 40% nos tecidos de algodão; de 70% nos tecidos de lã; de 100% no ferro; de 15% nos artigos de luxo ou de artesanato.

Afastados os franceses, recresce a lírica laudatória dedicada ao régio casal. Ainda em 1811, Joaquim José Pedro Lopes (1778?-1840) propõe insossa “Ode ao faustosíssimo dia natalício de Sua Alteza Real o Príncipe Regente Nosso Senhor”, 18 sextilhas depois em volume epónimo reunindo 17 composições, em português e latim, desde o nascimento do Príncipe (1767) até 1817. Outra miscelânea, sem data, junta sete composições desde 1791 até ao sossego pós-invasões; o último de dois sonetos fecha: «Volve, oh PRÍNCIPE amado, à Pátria Terra!» Este apelo vence o Atlântico. Dentre as mais conseguidas reuniões de espíritos – Cândido Manuel da Costa, Filinto Elísio, António Dinis da Cruz e Silva, José Anastácio da Cunha, Silva Alvarenga ­–, citemos Colleção de Poesias Ineditas dos Melhores Auctores Portuguesez (2 vols., 1809-1811). Estas compilações, fundindo-se no mesmo espaço tipográfico e mental, promovem um entendimento patriótico das partes, que, todavia, ainda se dilaceram, ideologicamente.

O Jornal Poético (1812) retoma essa atmosfera, com ode em 26 oitavas, não assinada, “Ao Príncipe Regente Nosso Senhor”, renovada sedução para líricos menores. No ano seguinte, Joaquim José Pedro Lopes responde com “Ode aos faustíssimos Anos de S. A. R. a Princesa Carlota Joaquina N. S.”. A alternância entre o aniversário joanino de 13 de Maio e o 25 de Abril natalício de Carlota Joaquina Nossa Senhora será uma constante. São em menor número as odes, louvor a que não faltaram José Agostinho de Macedo e, com soneto, Francisco José Bingre (1763-1856). Morre D. Maria (1816), coberta de elegias; casam Pedro, o primogénito, e Leopodina, ida de Viena de Áustria (1817); aclama-se D. João VI (1818). 

No primeiro trimestre de 1820, acentua-se quebra comercial no Reino, seguida de falências. A autoridade inglesa supervisiona o país. O marechal Beresford – que dera prova de força ao mandar enforcar o general Gomes Freire de Andrade e outros onze «mártires da Pátria» acusados de maçons (18 de Outubro de 1817) – reorganiza o exército, sob protestos crescentes da nação. Em 13 de Agosto, desloca-se ao Rio de Janeiro. A atmosfera pesada anima um grupo de burgueses do Porto ligados à Maçonaria a conspirar, desde jantar de 22 de Janeiro de 1818 (jantar que se repetia, em cada dia 22, na Foz do Douro), assim preparando a Revolução Liberal de 24 de Agosto de 1820. Pela primeira vez, haverá eleições em 10, 17 e 24 de Dezembro.

Espalha-se regozijo pela resposta favorável de D. João VI à convocação das Cortes Constituintes – o Congresso Nacional das Cortes estreia-se em 26 de Janeiro de 1821, dois dias após a «sessão particular» que juntou deputados na «sala das Cortes». O rei sai do Rio de Janeiro a 26 de Abril. Desembarca no Terreiro do Paço a 4 de Julho de 1821, enquadrado pelo poder legislativo, que redige a Constituição.

Os versejadores entram na liça, saudando esta volta do Brasil. Já, entretanto, molharam pena mais ágil Almeida Garrett (desde um soneto de 1814) e António Feliciano de Castilho (1816), que, nas suas primícias, fazem a síntese de dois processos literários em curso: filintismo e elmanismo.

Louvor e Ilustração da Língua Portuguesa

[...] porque a língua e a unidade dela

é mui certo apelido do reino,

do senhor e da irmandade dos vassalos.

Fernão de Oliveira [1536], 1975: 88.

 

Partindo das «qualidades que deve ter qualquer língua para ser perfeita» (Manuel Severim de Faria, Discursos Vários Políticos, 1624), encontramos gramáticos e poetas do século XVI que, em fase eufórica, saudaram a Língua; colocamos a tónica, porém, no quadro disfórico sob os Filipes, em que o idioma funciona como peça de resistência.

Recorrendo a nomes de Seiscentos, quase todos desconhecidos, com particular incidência em paratextos de obras maioritariamente de História, doutrinação e sermonário, andaremos à volta das cinco qualidades que Severim de Faria desenvolve, a saber: cópia de palavras – também para não enfadar o ouvinte; boa pronunciação; brevidade e gravidade; ortografia perfeita, pronunciarmos como escrevemos (e vice-versa; em cuja pronúncia só repugna o malfadado ão); finalmente, a aptidão da língua para todos os estilos, como se vê pelas diferentes matérias em que entra o Português, seja o estilo humilde, grave ou mediano.

 

  1. A força da nossa língua advém de uma universalidade que não é igual a um todo como soma dos lugares onde ela se fala (necessariamente constrangedor, em laivos normativos), mas de um todo condicionado pelas potencialidades locais, onde a língua, de choque em choque, se enriquece.

Os «caminhos do Português»[1] revolvem gentes e não só territórios; são, por vezes, insondáveis, do vocabulário vicentino ininteligível em Exortação da Guerra (1514) aos modos de composição em João Guimarães Rosa ou Mia Couto, reconhecida, ainda, a necessidade de guias aquilinianos ou das Terras de Riba-Coa. Nas comunidades no estrangeiro, será o Frantuguês (Francês e Português) o mais activo[2]. Mas o intercâmbio com o Oriente, se diluído, não deixou de promover outras veredas, caso do tâmul (ou tâmil) falado em Cochim, pois do indiano malabar já trata Duarte Nunes de Leão, e João de Barros alarga-se na importância de orientalismos[3].

Se o argumento principal – ilusório, em tantos casos – ainda releva da quantidade, ou projecção materna e veicular da língua, a base de argumentação nos séculos XVI-XVII, tomando embora este dado como reforço, incidia sobre factores de qualidade, interiores à língua, dirigidos. O idioma, como superestrutura, torna-se plurifuncional. Sabemos, porém, como existe sempre um desfasamento desta com as realidades mais comezinhas e prementes, aguardando, por largo tempo, a caminhada a par. João Franco Barreto, sob a Monarquia Dual, pressentia tese marxista: mudança de império, mudança de língua[4].

Passava-se, assim, da euforia linguística quinhentista, centrada nos quatro primeiros gramáticos (1536-1606) – Fernão de Oliveira, João de Barros, Pêro de Magalhães de Gândavo, Duarte Nunes de Leão, que Maria Leonor Carvalhão Buescu estudou, e resumimos – a uma quebra nacional, que também era de um sujeito já pós-tridentinamente abalado. A língua do leite torna-se, no novo quadro político (nem sempre na literatura de cada um), objecto de reflexão e, além de peça de resistência, complexo de identidade nacional. Os oitocentistas reactivam a ideia de que, face à ruína iminente da nacionalidade, «La langue est le dernier symbole de l’existence d’un peuple»[5].

Se, também nesta frente, o século XVI continua a atrair cultores, já o século XVII passa pelos estudiosos como gato por brasas. Os linguistas, outrossim, não investigam fundamentos ideológicos e reservas mentais. Ora, em tempo de Filipes – e século arauto do jornalismo, que bebe na língua a sua razão –, a relação de cada um não pode evitar o fundo da questão linguística. Não é só identidade, que pode não ser suficiente; é situar-se na pluralidade, que Paul Ricœur resumia, à luz de simpósio compostelano de 1998, ‘Identidad y cultura. El papel de la lengua’:

 

La identidad siempre está ligada a lo exterior, a lo extraño. La lengua funciona como un mecanismo interno entre sus hablantes, pero también como una manifestación hacia el exterior de una comunidad. El hecho fundamental no es la identidad, sino la pluralidad humana. Y el problema para cualquier grupo cultural es cómo situarse ante los otros, preguntarse: “cuál es mi lugar entre la pluralidad humana?”»[6]

 

Da análise de Barros por Buescu (1984a: LVII), e, em particular, do “Diálogo em lovvor da nóssa lingvágem» (1540)[7] –, ressaltam «seis motivos de louvor» calhando bem à língua pátria: «riqueza vocabular; conformidade com a língua latina e filiação nela; sonoridade e majestade; sonoridade agradável; carácter abstracto; possibilidade de enriquecimento do vocabulário por meio de adopções e adaptações (sobretudo de latinismos).»

Posta a leitura circunstanciada de Fernão de Oliveira (1536), de Barros, dos interlocutores português e castelhano (diálogo áspero[8], ao contrário da relação pai-filho, no anterior) em Gândavo e de Duarte Nunes de Leão (1576, 1606), e conhecido balanço de Santos (1975), convém descer aos clássicos mais próximos e estabelecer comparações: Dante, Vita Nuova (1292-1293) – cujo § 25 aclara que «Il volgare è promosso a lingua della poesia» (p. XXXVIII) – e De Vulgari Eloquentia (1304-1305); Nebrija, Arte de Gramática Castellana, 1492; Bembo, Prose della Volgar Lingua (1525); Juan de Valdés, Diálogo de la Lengua (1535?); Du Bellay, La Deffence... (1549). Sem esquecer quatrocentismos: o Condestável D. Pedro justificando uso do castelhano em sátira de entre 1449-1453[9]; o elogio de Valentim Fernandes – sensível aos modernos vocábulos «gentijs e doçes» – a Frei André, que superintendeu a revisão alcobacense da Vita Christi destinada ao prelo (1495)[10].

No momento seguinte, organiza-se conjunto de referências metalinguísticas – não só sobre linguagem ou estatísticas[11] –, em que se perceba o empenhamento reflexivo dos criadores no tocante ao idioma. O enquadramento faz-se a partir de Cuesta (1988), Serrão (1994), Bouza Álvarez (2000), títulos igualmente úteis para o apartado III, onde são citados. Para as questões da língua, L. C. Buescu, algum Ares Montes (1956), Picchio (1959), Teyssier (1990), Ana Isabel Buescu[12]. De preferência, disponibilizando recensões, como Teyssier[13].

Em atmosfera bilingue, Gil Vicente e Camões são os casos mais flagrantes, indo além, mesmo, dos dois idiomas, no uso próprio e na referência. Aptidão para a carnavalização do português está naquele; neste, e fora os lugares-comuns conhecidos d’Os Lusíadas, importa mostrar a caracterização frente ao Outro, oriental com sua «linguagem tão bárbara e enleada» (I, 62: 4) ou «língua escura» (I, 64: 2). Ao contrário, os porta-vozes desejados serão de «palavras sinceras, não dobradas», e «prática elegante» (II, 76: 2, 78: 1).

Seguem-se Sá de Miranda e António Ferreira, que o editor da poesia daquele, em 1784, irmanou no prólogo, enquanto valorosos defensores da competência do idioma.

Jorge Ferreira de Vasconcelos, na póstuma Comedia Avlegrafia (1619: fol. 67r-v), retoma diálogo entre português, Artur do Rego, e castelhano, Agrimonte. Aquele resume pecha antiga: «Somos taõ inclinados à lingoa Castelhana, que nos descontenta a nossa, sendo dina de mayor estima, & não ha antre nòs quem perdoa a hũa Trova Portuguesa, que muytas vezes he de vantagem das castelhanas, que se tem aforado com nosco, & tomado posse do nosso ouvido que nenhũas lhe soão melhor: em tanto, que fica em tacha anichilarmos sempre o nosso, por estimarmos o alheio.»[14]

É do elogioso prólogo, entretanto – sobre a «gravidade, graça Lacónica, e autorizada pronunciação [que] nada deve á Latina» – que bebe o Diccionario da Lingoa Portugueza (1793), cujas “Memorias e Louvores da Lingoa Portugueza, que se achão em diversos autores” (p. XXI-XLI) constituem a primeira antologia sobre a matéria.

Abrindo, sem razão, pelo Marquês de Santillana, e logo Barros ­(esquece Oliveira), acrescenta Jorge Ferreira e «O autor incerto do Dialogo das Lingoas» (a nossa língua distingue-se do castelhano na pronúncia e ortografia), Duarte de Resende (é a que melhor trata «graves e excellentes materias»), Francisco de Morais (é a mais copiosa), André de Resende, Ferreira, Camões, Gândavo, Miguel Leite Ferreira (todos nela podem cantar, tal a cópia e gravidade de estilo).

Segundo Barros, ecuménica, mas apostolizando pelas «Reaes Quinas de Christo», e cuspida ao latim, «Esta prerrogativa tem sobre todalas lingoagens presentes: magestade pera cousas graves, e hũa eficácia baroil, que representa grandes feitos». De música «grave e sentida», «pureza e sequidão pera cousas baixas» (ou «tão honesta e casta, que parece não consentir em si huma tal obra como a Celestina», logo se desculpando, mal, Gil Vicente), a nossa linguagem «não perde a força pera declarar, mover, deleitar, e exhortar a parte, a que se inclina». De Barros e nomes acima citados se serve o Petrónio de Gândavo para contrapor a Falêncio ser a nossa mais suave, enquanto a castelhana «se póde chamar barbara» – combate-se, assim, crítica do francês Nicolau de Grouchy[15] –, porque, tomando da arábica «a maior parte dos vocábulos, fallais de papo, com aspiração; e assi fica uma lingoagem imperfecta, e mais corrupta do que dizeis que a nossa he». Ora, quer Gândavo, quer Barros, entre outros, concedem alguma impureza ao português por força da entrada dos Mouros: é o que lembra Manuel Correia, no «Commento aos Lusíadas, cant. I est. 33».  

  1. O Duarte Nunes da Origem da Língua Portuguesa (1606) dá passagem ao século XVII. Reitera a sua expansão no mundo, pelo que «com razão se póde ter em muito, e chamar ditosa, pois por ella se anunciou, e manifestou a tantas gentes, e de tão remotas e estranhas províncias a Fé de Nosso Senhor Jesu Christo, e foi causa de se tirarem as erróneas e trevas, em que o mundo vivia»; e, com poemas à maneira de Barros, a semelhança entre o latim e o português, que beneficiou, sobre o galego, da existência de corte, para polir o verbo. Aqui, faz-se ligação excelente com “Discurso Segundo. Das partes que há-de haver na lingoagem para ser perfeita, e como a Portugueza as tem todas e algumas com eminência de outras lingoas”, incluso nos Discursos Vários Políticos, de Severim de Faria, notabilíssimo e precursor.

Hábil e subtilmente, constrói um esquema / ambiente fechado – o esquema da língua portuguesa –, cujos pressupostos (convicções pessoais e colectivas) visam a construção de premissas pseudocientíficas, que, claramente, informam a conclusão final. Se, antes das provas, a nossa língua se iguala às melhores da Europa, mais tarde, é já uma das melhores do mundo. Não negamos que a Europa fosse, então, o mundo; observamos só o trânsito Europa / Mundo, como do nada (ou a língua tendo-se a si própria, em círculo) à explosão desse centro, cuja gravidade o obriga a flutuar.

Reafirma-se uma perfeição convencional. Não é por acaso que, no século XX, autores como Antero de Figueiredo, António Correia de Oliveira, Afonso Lopes Vieira, recuperam a mesma diligência: pois que o Império é um facto, a língua há-de ser – é – (a mais) completa e perfeita. O que vem desembocar no raciocínio seiscentista: esta língua é a mais completa e perfeita, e só assim está de acordo com a grandeza do Império. Atenuando a grandeza de um Império quase alienado, o intelectual assimila aquele à língua e, como João Pinto Ribeiro, afirma que é forte «disparate» pensar que se podiam «confundir as línguas»; nós interpretamo-lo: confundir as pátrias. A identidade linguística sempre existe para alguma coisa. Voltemos a Severim de Faria.

Como muitos outros – João Franco Barreto, Álvaro Ferreira de Vera, Bernardo de Brito, Fr. Bernardino da Silva, António de Sousa de Macedo[16], etc. –, também este dá crédito à lenda de Túbal, primeiro povoador de Portugal e Espanha[17], o qual falava hebraico, língua que viria a corromper-se. Esta notícia da corrupção das línguas perspectiva-se em dois campos: por um lado, refere-se a sucessão que, da língua primeira, o hebraico (utilizado por Adão)[18], aconteceu, pelo castigo pós-diluviano que Deus lançou sobre os homens construtores da Torre de Babel: uma das setenta e duas era o grego, que gerou o latim e, depois, o português – para os de Seiscentos, a nossa língua tem «a origem da Grega» (Rodrigues Lobo); por outro lado, tem-se consciência da diferente corrupção do romance conforme as regiões portuguesas (Faria e Sousa), e, diacronicamente, fazendo da língua um corpo vivo, conclui-se da renovação por força do uso e necessidade, não caindo na ilusão da imutabilidade da língua (Barreto, Severim, Brito, Faria e Sousa[19]). Vasco Mousinho de Quevedo vislumbra-a como eterna fénix renascida...

Mas não só Túbal. Ferreira de Vera refere a vinda de Hércules a Espanha[20], que, por duas vezes, governaria. Refere a vinda de Ulisses. De Baco. Dos Romanos. Já, Faria e Sousa não esquece os francesismos e castelhanismos que, por vinda do Conde D. Henrique e esposa – mais o vasto séquito –, precederam os alvores da nacionalidade e informaram o então latim corrupto. (Considera, ainda, que a corrupção deste foi menor nas «línguas vulgares» de Portugal e Castela do que em França e Itália.) Para Vilas-Boas e Sampaio, se há tantas vozes estranhas na nossa língua, tal é devido à passagem de inúmeros povos, entre os quais enumera fenícios, gregos, messénios, lacedemónios, forenses, ródios, gálios, cartagineses, etc., para, em 412 (segundo Paulo Osório), chegarem os vândalos, suevos, silingos, e, em 711, os árabes... Condena Faria e Sousa a «ceguedad» dos godos; ele e Manuel Correia o «furor» dos mouros, sendo ainda Barreto a equilibrar os pesos: «Não há lingoagem pura, e sem mistura de outras línguas.»

Intercalando este fio, atente-se na defesa que o penúltimo faz do uso dos latinismos n’Os Lusíadas (por excessivos? por um movimento de contra-latim, que está presente no Auto do Fidalgo Aprendiz?); para, demolidor, surgir Faria e Sousa, chamando «cobarde» ao que não ousa «introduzir algumas vozes estranhas na sua língua, e singularmente da Latina». Já Manuel de Galhegos diz ter-se valido «de alguns vocábulos, e termos estranhos: com toda a moderação, e com todo o rigor da retórica»; já Manuel do Sepulcro e Fr. Agostinho de Sousa investem contra os que mendigam vocábulos estrangeiros; desde há muito, também, optar pelo castelhano em Felicissima Victoria… (1578) levava a censurar Hieronymo [Jerónimo] Corte Real; eis que, logo, Vieira nos sobra.

Ele aí está: conhecedor das «subtilezas do idioma português» ou «um grande adorador da linguagem antiga» (Francisco José Freire), «o mais puro, o mais castigado dos nossos Escritores»[21] e «imperador da língua portuguesa» (F. Pessoa) elogiadíssimo, singularizado por D. Frei Alexandre Lobo[22] e Raymond Cantel[23], é Vieira quem melhor acorre ao nosso propósito. Quer no Sermão da Terceira Quarta Feira da Quaresma, quer nos prolegómenos à História do Futuro, «Vieira recomenda aos seus leitores latinistas passarem sem ler a tradução em português de uma longa citação de Lactâncio, [evitando] uma aproximação aborrecida entre as duas línguas: “[...] para que não fiquem com o sentimento de quão mal se pode trasladar à nossa língua”»[24].

De resto, toda a versão de texto latino em Português é, nele, uma aventura: se, por um lado, subsistem aí fins evidentes, pode também pensar-se que, estruturalmente, Vieira sentia essa fraca correspondência da «filha primogénita» do Latim. De todas as línguas novilatinas, alguma ressurgiria hierarquicamente superior: «consciente da riqueza da língua, o grande orador é um purista. Não admite os empréstimos das restantes línguas»[25], embora a prática o desmentisse, pela presença – que Cantel quantifica – de castelhanismos, italianismos, etc. Assim, interpolando temas como a origem (mítica) e formação da língua, vislumbrando-se já um sentimento de proclamada autonomia pela demarcação nos empréstimos, vejamos como a língua se individualiza e sobrepaira às restantes.

Partindo de que «[...] nem por primeira antiguidade, nem por incorrupção do idioma, pode nenhuma lingoa ser tida por melhor que a outra» (p. 120), Severim de Faria vai dar-nos as suas razões.

Logo a abrir, desenvolve a primeira qualidade, cópia de palavras. Nisto, diz, é a nossa língua «abundantíssima», contrariando Benito Caldera, que, no prólogo da tradução d’Os Lusíadas, a julgara «pobre». Em termos de cópia, a grega ocuparia o primeiro lugar, a hebraica o último.

Segue-se a boa pronunciação (como, também, do grego), «muy fácil, grave, y suave, como dizen los Authores, que abaixo iran alegados”, e são – fora portugueses quais João de Barros, Bernardo de Brito, etc. – os castelhanos João de Mariana, Cervantes, Lope de Vega, acrescentando nós D. Antonio de Capmany y de Montpalau, o qual, porém, lamenta «la exâgeracion é hinchazon, de onde vino a contraer un caracter asiatico el estilo nacional”[26] (refere-se, claro está, aos Cultos). Sem isso, «hubiera sido inimitable en las demás lenguas vivas».

Em terceiro lugar, a brevidade (ao lado da gravidade: ver Amador Arrais, Diálogos, 1600) –, e logo nos ocorre Bernardo de Brito, dando a língua como a mais própria para a História e para os conceitos, qualidade que António Delicado e Bernardes sentem nos adágios, de cuja cópia a língua é, ainda, senhora.

A quarta característica: ortografia perfeita (apesar do ditongo ão: cf. Bento Pereira e o citado José de Macedo[27]) serve, com Barreto, para ser considerada a primeira excelência da língua portuguesa, e só dela, em toda a Europa. Aquelas três eminentes qualidades («muy fácil, grave, y suave») ficam provadas pela facilidade com que todos os povos – à excepção dos castelhanos (e explica porquê) – aprendem a falar português. Facilidade que Ferreira de Vera crê não existir nos estrangeiros...

Finalmente, a aptidão da língua para todos os estilos, como se vê pelas diferentes matérias em que entra o português, quer no estilo humilde, grave ou mediano. Com vantagem, sem mais, e pelo menos, no tratamento do erótico e do heróico (Faria e Sousa).

Eis, em resumo, Severim de Faria. Lemos esta enumeração de perfeições numa cadência bem diferente em Rodrigues Lobo (1619). Porém, tratadistas posteriores – António de Sousa de Macedo, Álvaro Ferreira de Vera, João Franco Barreto, Faria e Sousa –, para lá de comuns referências, citam já Severim de Faria, parafraseando-o, ofuscados pela quantidade de exemplos que, numa segunda fase, explicitam as ditas perfeições. Aos predecessores referidos, acrescentemos Fernão Álvares do Oriente (1607).

A possibilidade de, aprofundando o estudo, depararmos com detractores da língua não é hipótese descabida: quando, nas comparações com as línguas cultas da época e ao lado do trabalho obscuro dos, sobretudo, missionários (organizando gramáticas e vocabulários dos povos em vias de civilização, «lançando assim os fundamentos da glotologia comparada»[28]), acontecem referências aos «filhos ingratos», a justificação imediata é a de estes escreverem em língua castelhana. Mas não só: aqui, as insinuações de Rodrigues Lobo podem valer como aviso e, em arquivo ou desaparecidos, alguns textos teriam feito época.

Manuel Correia, a propósito da tradução d’Os Lusíadas, contrapõe «a humildade da nossa língua portugueza» à «formosura da língua Latina». Não é depreciativo, porque tal humildade é requerida pelo termo de comparação. É, antes, sintomático do respeito que o século XVII votava ao latim. E como não, quando Faria e Sousa e Ferreira de Vera nos contam que um menino, em Évora, falava, com dois anos, «além da sua lingua Portuguesa a Latina perfeitamente»? Relembrando Vieira: e se o valor da língua portuguesa lhe adviesse da sua semelhança com a latina? O factor da dilatação da língua, já então importante, só virá a ser decisivo três séculos depois.

Com efeito: a provada cópia de verbos – em que se exprime o génio da língua, segundo Francisco Evaristo Leoni[29] – serve já a Severim de Faria para a aproximar do latim. Barreto vê na oração de língua portuguesa as oito partes que existem na latina (nome, pronome, verbo, particípio, preposição, advérbio, conjunção, interjeição) e, como quem, amiúde, procura e/ou reafirma uma génese, acrescenta o artigo, que o latim não conhece, mas conhece o grego. Mais argumenta que palavras como mano / mana nenhuma língua, nem mesmo o latim, as poderá dizer. Repete Leão (1606). António de Sousa Macedo dará uma lista maior, onde saudade toma o seu lugar (ou saudades, em Ferreira de Vera). Beberam em Nunes de Leão. Para uma melhor aproximação ao latim, existem propostas pontuais: Bento Pereira apela à substituição de ão por am. Duas razões, porém, sobrelevam as restantes.

A primeira é de origem mitológica – e poucos deixam de se escudar nela. Camões transforma-se no paradigma a retomar (para a pureza da língua e não-empréstimos será Fr. Luís de Sousa); melhor, a sua estrofe 33, canto I, é a pedra de toque: eis Vénus: o (re)verso – um halo poético – sobre a justificação dada à língua como construção lenta onde as armas (também) escreviam.

A segunda é ambígua: os textos que podem ser, simultaneamente, latinos e portugueses, tanto em prosa como em verso (e ainda aqui os autores se repetem), assentam num vocabulário nada espectacular, empobrecendo-se gradualmente, em curto-circuito. Também os castelhanos fabricaram tais exemplos (cf. Luís Afonso de Carvalho, Cisne de Apolo). O que, se prova algo, não é por si convincente. Para as modas da época, contudo, era suficiente.

O bilinguismo literário manteve-se, entre nós, até cerca de 1680[30], «mas, a partir de 1640 – diz R. Cantel, p. 83 –, empregar a língua espanhola era empregar a língua dos inimigos».

Afirma Manuel de Galhegos (1635) que os engenhos se esqueceram da língua portuguesa, «e quem agora se atreve a sahir ao mudo com hum livro de versos em Portuguez arriscase a parecer humilde». António de Sousa de Macedo (1631) escreve em castelhano, porque este é mais conhecido na Europa. Antes que o filho Pedro de Faria e Sousa (1674) e António Álvares da Cunha (1678) retomem a defesa de Manuel de Faria e Sousa, este fizera já uma auto-defesa em 1639, reiterada mais energicamente na pós-Independência, em 1646, ao proclamar: «Yo no soy Castellano.»

Era incómoda a situação, pois a um bilinguismo castelhanizante não correspondeu «um bilinguismo lusitanizante dos castelhanos»[31]. Para Jorge de Sena, durante esta época, o sentimento resistente «é mais ideológico-religioso do que patrioticamente político», pois «A união de coroas na pessoa de um príncipe estrangeiro não afectava necessariamente uma concepção de patriotismo, que era sobretudo geo-cultural (e não mitologicamente romântica)» (ob. cit., p. 14-15). Para concluir:

 

De modo que o Faria e Sousa que escolheu ser, em Espanha, e através do espanhol, um propagandista de Portugal e de Camões, nem é nem mais nem menos castelhanizante que muitos outros que passaram a fronteira, ou em Portugal estavam, e que continuaram, em pleno estado de guerra, que durou quase três décadas, o bilinguismo cultural e linguístico. E realmente só a partir dos fins do século XVII começa a transformar-se, e Portugal passa a viver, ou a subsistir, contra a Espanha. [...]. Mas naquele tempo do século XVII, cuja segunda metade Faria e Sousa não teve vida para ver, até os judeus portugueses, e que portugueses se declaram nos seus exílios europeus, escreviam as suas obras no que fora e ainda era a língua franca: o castelhano[32].

 

Pois sim. Mas esta abertura de espírito é moderna. E teria uma explicação conjuntural. A insurreição anticastelhana matiza-se, no campo das letras, singularmente. Não é por escrever em castelhano que um autor é condenado; é por, escrevendo em português (com ou sem empréstimos) e/ou castelhano[33], escrever escuramente, opção tida como derivada de Gôngora; digamos que, em alguns casos, uma reabilitação é sempre possível. Contra os Cultos não se levantaram poucos: Diogo Camacho, Fr. António da Encarnação, Vieira, Bernardes... Uma evidência, porém, subsiste em muito bons portugueses: basta que os interlocutores sejam estrangeiros para, logo, falarem como «cães». Sempre guturais! É visceral[34]: como acontece num poema de Jorge da Câmara.

Vamos terminando. Tratou-se da origem, formação e evolução da língua – e chamamos a atenção para momentos decisivos: a leva de invasores; a vinda do conde D. Henrique; enriquecimento e perfeição em tempo de D. Dinis (Fr. Francisco Brandão, Faria e Sousa); o reinado, áureo em todos os campos, de D. Manuel I. Contra os arcaísmos, a mendicância de termos, pela recolha daqueles que o uso e a necessidade impuseram ou foram utilizados pelos quinhentistas[35]. Sobre as excelências da língua portuguesa, sem rival em perfeição, própria para todos os géneros e estilos, que, manifestando-se a tantas e tão estranhas gentes, lhes anunciou a Fé Católica e a Civilização Ocidental, tornando-se um vínculo de comércio (linguístico e não só) e unidade, de conservação, enfim (Amaro de Reboredo).

Acessível ou não aos estrangeiros, por alguns reconhecida como excelsa[36], transladada em muitas obras, retoma, em 1640, o estatuto de língua de todos os Portugueses – ou quase: que o povo nunca a enjeitou.

 

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