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Albano Martins: a letra e as tintas

 

Que diferença, e caminho percorrido, quando escandimos o poeta no dealbar de 50 ou lemos a sua tripla colaboração na Árvore – Folhas de Poesia! Assoma já, contudo, o que designará por «imagens surpreendentes», enquanto alimento e processo, como diz na entrevista-limiar em Álvaro Cardoso Gomes[1].

Artista jubiloso, mau grado a polarização da morte, também na variante do silêncio, quase todo ele é sinestésico, num sensualismo epigramatizado, em cujo quadro fazemos três cortes. Um combina tensão erótico-verbal, de sensualidade explosiva:

 

Não sei medir-te de outro modo:

te dispo e visto o tempo todo.

 

Ou:

 

Despir a água.

 

Morrer de sede[2].

 

Outro é reflexivo e avisado:

 

Imagem da morte

é o sono, dizem. Não:

que a morte não dorme[3].

 

Tem imperativos doces e bons conselhos, como se nos deparam em Escrito a Vermelho (1999), em cuja prosa quebrada o melhor é o rumor da escrita a tombar na folha (dos iniciais, veja-se “Maré”, p. 11) e a criação enquanto análogo da «cremação» (p. 25), com implicações que nos levavam a pesada tratadística.

Vem, enfim, a diferença sensível entre a prosa lírica – de, por exemplo, Rodomel. Rododendro (1988), «poema sinfónico em cinco andamentos», com estruturas de encantamento – e a diarística, ou para aí tendendo, de A Voz do Chorinho ou os Apelos da Memória (1987). Este é um aspecto a aprofundar.

Fruto de estada no Brasil, com redacção entre 30 de Setembro e 15 de Outubro de 1985 [1975, no texto], temos, aqui, um conjunto de reflexões, maioritariamente em prosa, esboços de peregrinação que lhe deu as partes do livro: Rio de Janeiro, Cabo Frio, Minas Gerais, a solidão da selva, retratos de amigos e algumas lembranças. Ouviu murmurar «o plácido Janeiro» de Bocage e entrou na glosa do «Rio longe no mar e perto nas pessoas» de Nemésio, que patrocinam, em epígrafe, a memória de tão curtos e cheios dias.

Recuperamos estas linhas ao demorarmos na poesia indicativa, olhar em forma de presente, e forte sensualismo na narrativa das imagens, em Castália e Outros Poemas (2001). Sobressaem, igualmente, amigos e relações literárias, e textos citados, desde Martim Codax a plêiade de estrangeiros. Mas falar destes, em autor de intensas translações de sentido, é arribar à segunda parte mais quantiosa da sua bibliografia, em que nos translada nomes que também o educaram. De remissa fica outra tarefa sobre o tradutor – lembro, ainda assim, Giacomo Leopardi, Cantos (2005) –, «esse taciturno Leopardi, que foi o aliado de Hartmann», na pena de Ramalho Ortigão[4].

...E, folheando “Tela”, em Escrito a Vermelho, vimos: 

 

[...] As tintas são letras

que não têm voz. (p. 33)

 

Deixada de lado ut pictura poesis, também abordada naquela entrevista, vejamos A Letra e as Tintas (2006): se a letra é «o carácter da escrita, o modo de escrever de alguém», as tintas seriam «as tonalidades (e, por isso, as modalidades) assumidas pela escrita», como se lê em nota-resumo. Continuamos em vasos comunicantes, espécie de homenagens e acenos fraternos em artigos de jornal e revista, prefácios e palestras, sobre Régio, Júlio / Saul Dias, Alberto de Serpa, um Torga importante na sua formação, Raul de Carvalho, Luísa Dacosta, além de autoria galega (Rosalía de Castro), espanhola (Juan Ramón Jiménez) e brasileira (Cecília Meireles), e um artigo sobre “Os poetas portugueses perante a poesia espanhola contemporânea”. São lampejos críticos, desde 1980, de um poeta que, a espaços, e logo nos primeiros trabalhos (“João Bensaúde: heterónimo ou alter-ego de José Régio?” e “Os Poemas de Deus e do Diabo, de José Régio, e a recepção da crítica”[5], este justamente dedicado a Luís Amaro), adquire profundidade ensaística.

 

 

 

 

[1] A Melodia do Silêncio. Subsídios para o Estudo da Poesia de Albano Martins, Vila Nova de Famalicão, Quasi, 2005: 20.

[2] Uma Colina para os Lábios, Porto, Edições Afrontamento, 1993: 33, 43.

[3] Com as Flores do Salgueiro. Homenagem a Bashô, Porto, Universidade Fernando Pessoa, 1995: 97.

[4] As Farpas Completas, ed. de Ernesto Rodrigues, quarto volume, Lisboa, Círculo de Leitores, 2007: 2247.

[5] Saídos na Colóquio/Letras, n.º 96, Mar.-Abr. de 1987, e n.º 113-114, Jan.-Abr. de 1990.

Na Feira do Livro, com Eduardo Lourenço

Acompanho Eduardo Lourenço no stand da Gradiva, no dia 9, sábado, às 17 horas.

Vou autografar Uma Bondade Perfeita, O Romance do Gramático, 5 de Outubro - Uma Reconstituição.

Numa pausa, conversaremos sobre o recém-estreado filme O Labirinto da Saudade.

Querem melhor? 

Cultura de Almada porta-se mal

Num fim de tarde de Fevereiro, recebi, no CLEPUL – Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, um telefonema de funcionária da Rede Municipal de Bibliotecas de Almada / Divisão de Arquivo e Bibliotecas / Departamento da Cultura / Câmara Municipal de Almada, cujo assunto logo veio confirmado em email de 22 desse mês:

«Após nosso contacto telefónico, que desde já agradeço pela amabilidade, reforço que a Rede Municipal de Bibliotecas de Almada está a preparar um mês de Abril dedicado aos livros, no âmbito das comemorações do Dia do Livro Infantil (2 de Abril) e Dia do Livro e dos Direitos de Autor (23 de Abril). Para o efeito, gostaríamos de estabelecer um trabalho conjunto com a Escritores.online, organizando-se vários painéis ao longo do dia com diferentes temáticas e para públicos diversificados, […].

Face ao exposto, agradecemos proposta, com informação das temáticas e personalidades sugeridas, custos e necessidades.»

Acertávamos pormenores em 26 e 27, e, a 28, já ela pedia urgência no envio do programa, com resposta instantânea e programa em anexo. Excerto da minha resposta:

«Lembro a conveniência de uma banca onde expor livros editados pelo CLEPUL, que, no final do dia, reverterão para a autarquia. Estes, porém, devem ser transportados, na véspera ou no sábado de manhã, por alguém do Município.

 Por último, e fundamental: salvo opinião em contrário de algum interveniente, estas oito presenças devem ser equitativamente remuneradas contra recibo verde ou outra fórmula, num montante individual de 250 (duzentos e cinquenta) euros. Não se pede mais nada.

Pelo contrário, o evento será amplamente divulgado em www.escritores.online, na newsletter CLEPUL em Revista, na mailing list do CLEPUL, da Faculdade de Letras e da Universidade de Lisboa.»

O programa rezava:

 

«Dia Mundial do Livro [23 de Abril]

21 de Abril

10h Alexandre Honrado, Literatura para a infância

10, 45h Ana Paula Tavares, África literária, hoje

11,30h Teresa Martins Marques, Ler a violência doméstica na ficção

12,15h Pedro Miguel Rocha, Do papel ao suporte online: um caminho irreversível?

13h Almoço

14,30h Jaime Rocha, A partir de Shakespeare: um olhar sobre o teatro

15,15h Ernesto Rodrigues, A partir de Cervantes: onde e quando começa a recepção mundial de D. Quixote e Sancho Pança?

16h Teresa Rita Lopes, O quadro bibliográfico de Fernando Pessoa

16,45h Petar Petrov, A Balada da Praia dos Cães, no 20.º aniversário da morte de José Cardoso Pires

Segue-se projecção do filme extraído desta obra = 100 minutos.»

Resposta no dia 1 de Março:

«Agradeço sinceramente a brevidade da resposta. Apenas tenho duas questões:

- a esses 250€/participante acresce IVA?

- há necessidade de transporte para os participantes?»

Respondi no mesmo dia.

Em finais de Março, fui contactado por telemóvel: a interlocutora regressara de férias, tinha contrapropostas a fazer, que enviaria por email. Tranquilizei, entretanto, um que outro convidado meu, esperançado no bom êxito de iniciativa.

Não chegou nenhum email.

Em 10 de Abril, escrevi:

«Estamos a 11 dias de evento há muito preparado e, contra promessa telefónica, não me chegou proposta alternativa aos nomes e demais condições. 

Há nomes que, convidados para outros eventos, mantiveram a primeira palavra, e pena seria que eu viesse a defraudá-los.»

Resposta no dia 11:

«[…] venho agradecer todo o esforço envolvido na preparação da proposta solicitada pela minha chefia.

Lamento a falta de resposta atempada e, estando nesta situação delicada de lhe querer dar uma resposta conclusiva, sinto-me frustrada por, apesar da minha insistência, não ter tido qualquer resposta superior relativamente à proposta alternativa.

Lamento, mais uma vez, mas não disponho de meios para lhe dar uma resposta objectiva.»

No dia seguinte, avisei deste desfecho quem se oferecera para ir a Almada.

Agora, consultando a página do município, vejo que o Departamento da Cultura depende da presidente Inês de Medeiros. Saberá destas semanas perdidas?

Lamentável.

 

Ernesto Rodrigues

 

 

 

 

 

 

  

Uma Bondade Perfeita vence Prémio PEN Clube de Narrativa

Ernesto Rodrigues venceu, com o romance Uma Bondade Perfeita (Lisboa, Gradiva, 2016) – já traduzido em romeno –, o Prémio PEN Clube Português na categoria de Narrativa, cuja entrega será no dia 21 de Novembro, às 18h, na Sociedade Portuguesa de Autores.
Tendo como pano de fundo o drama dos refugiados, Uma Bondade Perfeita narra os desatinos de um psicopata e mostra que quem nos salva é, não o altruísmo mecânico de uma qualquer mãe biológica, mas Ágata (bondosa, em grego), a qual, erguida entre as maiores violências, persegue o bem supremo da paz de consciência, culminando neste Séneca: «Sabes o que eu chamo ser bom: ser de uma bondade perfeita, absoluta, tal que nenhuma violência ou imposição nos possa forçar a ser maus.»
A humanidade não se salva se o mal nos torna maus, pois seremos iguais a quem, assim, nos venceu. É isso a escalada da guerra, não raro alimentada pelos media. Ser defensivo é outra coisa, e, desde logo, obviar à iniquidade, que conduz à servidão, nem que a única saída, sempre em aberto, seja uma morte digna.
Os prémios PEN Clube, também em Poesia e Ensaio, têm o apoio da Direcção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas (DGLAB).

Introdução à escrita jornalística


O jornalista informa-se e informa, visando preparar uma mensagem facilmente entendida pelo maior número de leitores. Recomenda-se, assim, uma peça jornalística concisa, sem ser monótona; simples e directa; rigorosa na selecção dos materiais; variada nos processos linguísticos e de composição.
É fundamental dominar as categorias e regras gramaticais, pois só deste modo a comunicação resulta.
A especificidade de cada órgão de informação sugere, por outro lado, a necessidade de um padrão estilístico que torne coerente o seu aspecto material. Esta harmonização pode ser tarefa do secretário de redacção ou do editor (no sentido de curador da edição, quanto a feridas ou males linguísticos de que a publicação enferme).
Ensaiaremos algumas propostas, alertando para vícios que maculam, nomeadamente, a Imprensa regional.

A) Técnica
1. Prefira a ordem canónica da frase em Português: sujeito, predicado, complementos.
1. 1. Idealmente, os nomes devem prescindir de adjectivos, que subjectivizam e cortam ímpeto à informação. Quando indispensáveis, venham depois do substantivo e, antes de mais, lembre-se que um adjectivo descritivo (homem alto, p. ex.) é melhor que um valorativo (homem simpático).
1. 2. O verbo, preferencialmente de acção ou movimento – e menos de estado –, deve apoiar-se (mesmo para o passado e futuro próximo) no presente do indicativo. Esquivar, sempre que possível, o modo condicional. Opte por formas simples e não compostas; pelas afirmativas; fale na voz activa.
2. É conveniente evitar orações intercalares: estas alongam as frases e prejudicam a fluência e memorização do texto.
2. 1. O mais importante tem de vir logo no princípio.
3. Os termos concretos, mais frequentes no Português fundamental, têm vantagem sobre os abstractos, rebuscados e preciosos. Não se obrigue o leitor a recorrer ao dicionário.
4. Evitar as repetições vocabulares, os ecos, as rimas e cacofonias, bem como as perífrases, redundâncias, ambiguidades lexicais e sintácticas.
4. 1. Se uma palavra diz tudo, omita-se segunda.
5. O contexto dita o emprego do registo linguístico. Contrariar o calão, a gíria, plebeísmos, barbarismos, neologismos, arcaísmos.
5. 1. Num espaço de trânsito internacional, cuidar os estrangeirismos, que não podem ser tabu. O mesmo se dirá dos regionalismos. Aqueles, todavia, surjam em itálico.
6. A explicação de termos técnicos sucederá a estes, entre parêntesis rectos, ou com remissão para o final da coluna ou do artigo.
7. Chavões, lugares-comuns, bordões e frases feitas retiram força às frases e vivacidade aos assuntos.

 

Ernesto Rodrigues, Mágico Folhetim. Literatura e Jornalismo em Portugal, Lisboa, Editorial Notícias, 1998, p. 85-86.

De São Mamede a Ourique

Na indefinição das origens ‒ «Na antemanhã, confuso nada.» (“Viriato”, Mensagem pessoana) ‒, «Todo começo é involuntário» (“O Conde D. Henrique”). O fiat genesíaco retorna neste herói «inconsciente», que ergue a espada , «e fez-se». O conde (1066-1112), alegado príncipe húngaro (Os Lusíadas, III, 25, 28; VIII, 9), fizera, antes, filhos em D. Teresa (1080-1130), ilegítima de Afonso VI, que aquele ajudara na conquista do reino galego. Nascidos entre 1094 e 1109 ou 1110, somente o último filho sobreviveu, para missão providencial: nele, até 1185, a espada adquire um sentido, ou «A bênção como espada, / A espada como bênção» (“D. Afonso Henriques”). Espada e cruz dão cruzadismo, que (contra A. J. Saraiva) só a partir daqui se justifica. Quem se faz cavaleiro, em vigília doravante «nossa», é «Pai», primeiro; e seus rostos, por mais humanos aqui e ali , não obnubilam o de herói; faltava o milagre, para caucionar o futuro: é isso Ourique (25-VII-1139).
Começando, todavia, por São Mamede (24-VI-1128), conviria reconciliar em grandeza mãe e filho, como fazem A. Herculano, n’O Bobo e no tomo I da História de Portugal, e “D. Tareja” pessoana , tida por «mãe de reis e avó de impérios», para logo ser anjo protector («Vela por nós!») e «seio augusto» de um agora necessário rei-Fundador. A segunda quadra insiste em filho «que, imprevisto, Deus fadou», cedo interlocutores em batalha-chave.
Camões é claro, no longo discurso de treze oitavas dedicadas a Ourique (III, 42-54): face a cem sarracenos, um cavaleiro só confiava «no sumo Deus que o Céu regia» (III, 43: 2). Subitamente, «na Cruz o Filho de Maria, / Amostrando-se a Afonso, o animava» (III, 45: 3-4), o qual faz do Senhor grito e estandarte, senha e companheiro contra os Infiéis (7-8). Nesse interim, Afonso é levantado por «Rei natural» (46: 3): «Desbaratado e roto o Mauro Hispano, / Três dias o grão Rei no campo fica. / Aqui pinta no branco escudo ufano, / Que agora esta vitória certifica, / Cinco escudos azuis esclarecidos, / Em sinal destes cinco Reis vencidos. // E nestes cinco escudos pinta os trinta / Dinheiros por que Deus fora vendido, / Escrevendo a memória, em vária tinta, / D’Aquele de Quem foi favorecido. / Em cada um dos cinco, cinco pinta, / Porque assi fica o número comprido, / Contando duas vezes o do meio, / Dos cinco azuis que em cruz pintando veio.» (III, 53: 3-8; 54) Eis a descrição da bandeira; narrativa mais pormenorizada contém-se, entretanto, na Crónica de Portugal de 1419 .

Viriato, Sertório

Sejamos, ou não (Herculano nega), filhos de Viriato [180 a. C.-139 a. C.] e Sertório [126 a. C.-72 a. C.], o mito impôs aquele, defensor da Lusitânia, entre a cava de Viseu (outros ficam pela Cava da Beira, entre Belmonte e Fundão), recolhido no seu escudo sobre pedra informe, e a afoiteza de estátua em Zamora, onde se epigrafa Terror Romanorum, Terror dos Romanos: «É tanta a nobreza de nossa terra e gente, que só ela com seu capitão Viriato pôde lançar os romanos da Espanha e segui-los até à sua Itália.» (Oliveira, p. 41) Seria o primeiro exemplo de Cruzada, vocábulo cujo alcance reduzimos, porém, e revestimos de fé. A. J. Saraiva (1994: 114) alarga o sentido a «missão providencial»: «O mito dos Lusitanos e o de Viriato como precursores de Portugal e o de Ulisses como fundador de Lisboa são contribuições do saber humanista que se subordinam à ideia central da missão providencial dos Portugueses.» Assim,

 

O primeiro grande mito colectivo português, que aliás é um mito de toda a Espanha, foi o da Cruzada, fixada eloquentemente por Camões no poema nacional dos Portugueses. Portugal era o paladino da fé católica, e a expansão mundial da Fé era a sua vocação própria, a razão de ser da sua história. Em relação especial com Deus, que o favoreceu desde o nascimento, Portugal realizava um plano divino que culminaria na conversão do mundo inteiro. (p. 112-113)

 

Absorvendo o próprio Quinto Império, a ideia cruzadística teria vigorado até A. Herculano (p. 115). Para quê, nesse caso, intervalar outros mitos? Como se concilia com as guerras santas medievais, com Ceuta ou D. Sebastião, onde estava em causa também a fé, com a dupla Ulisses e Viriato (não outros?), quando, no máximo, a mentalidade quinhentista lhes atribuía um gesto parcialmente fundador ou defensivo, maxime, autonómico? Já fé e missão providencial no literário Ulisses e no pagão Viriato? Onde tal afirmam os primeiros doutrinadores? Ainda se fossem Noé e Túbal…
Camões etimologiza Viriato de vir, varão, para melhor o individualizar na «fama antiga» já lembrada em I, 26: 1-4 [1]: «Desta o Pastor nasceu que no seu nome / Se vê que de homem forte os feitos teve, / Cuja fama ninguém virá que dome, / Pois a grande de Roma não se atreve.» (III, 22: 1-5) Dedica a Viriato duas meias oitavas e uma inteira (VIII, 5: 5-8; 6; 7: 1-4), «Vencedor invencibil, afamado», que só «com manha vergonhosa / A vida lhe tiraram» os Romanos, qual é, na sucessão, o «peregrino» (I, 26: 5-8 [7]) e «Degradado» Sertório, alçando-se «contra a pátria irosa» (VIII, 7: 5-8; 8). Vejamos dois casos viriatianos na prosa , cujo enquadramento, porém, requer Guerra e Fabião (1992: 9-23).
A “narrativa epo-histórica” Viriato (1904), de Teófilo Braga, visa caracterizar a ‘alma portuguesa’ «desde as incursões dos Celtas e lutas contra a conquista dos Romanos até à resistência diante das invasões da orgia militar napoleónica», nos seguintes termos:

 

A tenacidade e indomável coragem diante das maiores calamidades, com a fácil adaptação a todos os meios cósmicos, pondo em evidência o seu génio e acção colonizadora;
Uma profunda sentimentalidade, obedecendo aos impulsos que a levam às aventuras heróicas, e à idealização efectiva, em que o Amor é sempre um caso de vida ou de morte;
Capacidade especulativa pronta para a percepção de todas as doutrinas científicas e filosóficas, […];
Um génio estético, sintetizando o ideal moderno da Civilização Ocidental, como em Camões, reconhecido por Alexandre de Humboldt como o Homero das línguas vivas.
[…] a ALMA PORTUGUESA achou no seu Poema a incarnação completa. (2008: 5)



A reconstituição poética de um Viriato pouco historiado move Teófilo ao modelo do resistente, em eras de agonia final da monarquia: «as terríveis desgraças que nos têm acompanhado desde a romanização da península até à subserviência inglesa, como acostumados ao mal, não nos têm alquebrado»; e assume o exotismo como partícipe de uma «fase estética construtiva» (p. 7). Excesso de folclorismo, minudências históricas e largos vocábulos arrevesados prejudicam a fluência.
O pastor, moço de «estatura meã e magra», bem-falante e sensato, apresenta-se como Ouriato (cap. VIII, p. 26), recusando tréguas de submissão a Roma e animando à riposta, embebida em astúcia de quem conhece bem o chão que pisa, desde as alturas dos Montes Hermínios. Por contaminação de outro Viriato, lusitano que acompanhara Aníbal, há-de caber-lhe este nome no acto da aclamação: «[…] dizem que morrera na batalha de Canas; mas o seu ódio não morreu, é redivivo. E porventura não será Viriato o que agora reaparece na figura do maioral da mesta, do valente Ouriato? Como ele, é um salvador que ressurge, um vingador da liberdade da Lusitânia?» (p. 27-28) Depressa o caudilho conquista a região entre Tagus e Anas. Num repouso em Toletum, o «príncipe da Lusitânia» (p. 38) é dignificado pelo sábio Idevor com um colar de ouro, ou víria (no cap. XVI, temos “A canção da víria”), com que se justifica definitivamente o nome. Sucedem correrias e vitórias:

 

A Guerra dos ladrões, como chamavam em Roma à luta heróica de um povo defendendo o seu território, os seus lares, a própria existência, prolongava-se com desastres sucessivos para as armas sempre ufanas dos quirites. Os bárbaros do Ocidente eram exemplo de dignidade cívica e de altura moral para o povo-rei que se arrogava à supremacia da civilização. (p. 72)

 

O procônsul Caio Lélio retratou a Lusitânia junto do senado como a «mais poderosa das nações hispânicas», cuja força não vem «do número dos seus habitantes, mas da sua resistência devida a um temperamento tenaz e incansável, a uma dignidade individual que antes prefere a morte a qualquer aparência de escravidão» (p. 73). A espada romana de pouco serve contra a espada Portus-Gaizus, quando um chefe é invencível; explica (num devaneio sebástico teofiliano) e dá solução:

 

Corria por aqui entre as tribos da Lusónia que apareceria um guerreiro montado em um cavalo branco, e que ele conseguiria repelir o estrangeiro invasor; todos hoje consideram Viriato como a realização dessa velha profecia, […]. Morto este chefe, dissolver-se-á a Lusitânia; porque esse profundo sentimento de raça e de pátria que anima as tribos lusas carece de uma representação que as identifique. (p. 74)

 

Teófilo fazia a sua propaganda intra-republicana… E chega a vez de Lísia ‒ nome não de acaso, pois sugere Lusíadas ‒, «a filha do velho endre» Idevor (p. 78), que fascina Viriato. Entre um tratado de paz enfim aceite por Roma vergada a década de derrotas e o casamento celebrado pela Lusitânia e Celtibéria na Cava de Viriato, já, porém, a traição entrava de roer os próximos, que perdiam favores de exército licenciado… A meio da festa noival, sabe-se que o tratado de Serviliano foi quebrado, pois o irmão procônsul Quinto Servílio Cépio avança com tropas. Mas o sétimo comandante tem outra estratégia: convencer três renegados a apunhá-lo durante o sono ‒ o que cumpre o maior amigo, Minouro.
Também exótico em nomes (e nem todos comparecem nas “Notas” finais), prosa frouxa, diálogos à moderna, uso inesperado de «camarada» e excessivo de «porém», A Voz dos Deuses. Memórias de Um Companheiro de Armas de Viriato (1984) , de João Aguiar, dá-nos o filho de Comínio no final do cap. VI, descrito na segunda de três partes pelo jovem narrador Tongio, aos 15 anos ‒ como encerra a história aos 25 anos, não se percebe a acção entre 84 e 79 a. C., quando Sertório recebe este livro, escrito «na língua do invasor» (p. 280) ‒, com vírias de bronze cingindo-lhe os braços e «três grandes plumas vermelhas que enfeitavam o seu capacete» (p. 107). Transformam-se, na aclamação, em vírias de ouro, «símbolo do comando supremo» (p. 147), das quais tirava o nome. Mulher de Viriato (cujo defeito era demorar-se a decidir) é, aqui, Tangina, filha de um útil Astolpas.
Tongio reconhece-o herói, não deus, e releva «verdadeiros prodígios de estratégia, diplomacia e eloquência» (p. 198). O trio tredo passa de Ditálcon, Andaca, Minouro a Ditalco, Audax, Minuro: seria preferível Dictaleão, Aulaces, Minuro, os quais emissários (não companheiros de armas), acreditando Servílio Cipião, quando buscam prémio, são executados e publicamente expostos com os dizeres: «Roma não paga a traidores»; o fidelíssimo Tântalo vira Táutalo; em vez de peito sangrado, temos decapitação (147-139 a. C.).
Entre os poetas, Miguel Torga faz de Viriato um herói dos Poemas Ibéricos (1965): «O meu nome de ibero é Viriato» ‒ sem o alcance de Pessoa. Após Ulisses, o “Viriato” da Mensagem é assunção da «raça» em tonalidades crísticas: há reencarnação, ressurreição, um Portugal que dele tira «instinto» e se forma (a gradação desce de nação a povo e herói interpelado) ‒ dele, ou daquele «de que eras a haste», seja, Cristo. Impõe-se, assim, «antemanhã, confuso nada» (a clarear) de providencialismo também pessoano; e a necessidade de justificar quem nos cria memória.
Sertório é mais historiável e menos literário: ver Os Lusíadas, I, 26: 3; VIII: 5: 5-8 e seguintes, até 8: 8, citando nome. Um inesperado Janus Pannonius (1434-1472; 1987: 336), bispo húngaro, lembra-o nos versos 63-64 de uma bela elegia à morte da mãe Bárbara, “Threnos de morte Barbarae matris”:

Fugerat Hesperium Sertorius exul in orbem,
Plurima sed profugo cura parentis erat.
[Quando, perseguido, Sertório se refugiu na Hespéria,
Só com os pais se preocupava no exílio.]


Pierre Corneille dedicou-lhe uma peça, Sertorius (1662), acrescentando duas mulheres da sua imaginação, a segunda das quais, Viriate, «reine de Lusitanie, à présent Portugal», tem esta justificação, no introdutório “Au lecteur”:


L'autre femme est une pure idée de mon esprit mais qui ne laisse pas d'avoir aussi quelque fondement dans l’histoire. Elle nous apprend que les Lusitaniens appelèrent Sertorius d’Afrique, pour être leur chef contre le parti de Sylla; mais elle ne nous dit point s’ils étaient en République, ou sous une monarchie. Il n’y a donc rien qui répugne à leur donner une reine, et je ne la pouvais faire sortir d'un sang plus considérable, que celui de Viriatus dont je lui fait porter le nom, le plus grand homme que l’Espagne ait opposé aux Romains, et le dernier qui leur a fait tête dans ces provinces avant Sertorius. Il n’était pas roi en effet, mais il en avait toute l'autorité, et les princes et consuls que Rome envoya pour le combattre, et qu’il défit souvent, l’estimèrent assez pour faire des traités de paix avec lui, comme avec un souverain et juste ennemi. Sa mort arriva soixante et huit ans avant celle que je traite; de sorte qu’il aurait pu être aïeul ou bisaïeul de cette reine que je fait parler ici.

Túbal, Luso, Ulisses

Gilbert Durand (Imagens e Reflexos do Imaginário Português, Lisboa, Hugin, 1997: 204) assenta em quatro mitologemas: o Fundador vindo de longe, seja, Luso ou São Vicente – que não abarca o todo nacional ‒, sendo de acrescentar um conde D. Henrique ‘húngaro’; o nostálgico desejo do impossível incarnado em D. Pedro / Inês, Mariana Alcoforado, Nuno Álvares Pereira derrotando Castelhanos em Aljubarrota: são ingredientes desiguais em pobre salada; a crença num rei salvador oculto; a transmutação paraclética [em nome do, devida ao Espírito Santo] do mundo, inspiradora de todas as descobertas, cujo objectivo era conhecer o reino de Preste João, influenciada pela instituição do culto do Espírito Santo e pela rainha Santa Isabel: não seria pouco, ou limitativo?

Túbal e Luso fundam, segundo Fernão de Oliveira ([1536] 1975: 40), «A antiga nobreza e saber da nossa gente e terra de Espanha, cuja sempre melhor parte foi Portugal, […]». A exemplo do avô Noé, fundador de cidades peninsulares, Túbal «fundou Gibraltar», além de Setúbal, como reiteram Fr. Bernardo de Brito (Monarquia Lusitana, I, 1), Gaspar Barreiros (Chorographia, 1651, fl. 63), Brás Garcia de Mascarenhas (Viriato Trágico [1699], canto I) e demais referidos no ensaio e antologia “Louvor e ilustração da Língua Portuguesa”, em Ensaios de Cultura (2016), de Ernesto Rodrigues.
Quanto a Luso, «que também enobreceu esta terra», diz Oliveira (p. 40-41) que «não foi grego, mas de Portugal nascido e criado, filho de Liceleu», ou Baco (ver Os Lusíadas, I, 30: 2; I, 31: 5; I, 34: 4; I, 39: 3; I, 49: 5 e VI, 14, 20 = Lieu; I, 73: 2 = Grão Tebano; I, 82: 1; II, 10 = filho de duas mães; II, 12: 2 e VI, 6, 26 = Tioneu; II, 39: 2; III, 18; VI, 25; VIII, 3-4, 47-50; IX, 91 ), do qual rei Luso «se chamou a terra em que vivemos Lusitânia, a qual depois chamaram Turdugal, não do porto de Gaia, como quer Duarte Galvão na História de El-Rei D. Afonso Henriques, mas dos Túrdulos e Galos, duas nações de homens que vieram morar em esta terra, segundo conta Estrabão no terceiro livro da sua Geografia». Esta tese não vingou, antes permanece a de Portus Cale = Portucale resumida em Camões (VI, 52: 1-3): «Lá na leal cidade, donde teve / Origem (como é fama) o nome eterno / De Portugal, […].» Duarte Nunes de Leão, na póstuma Descrição do Reino de Portugal (1610), deriva Lusitânia de Luso,

 

cõpanheiro de Bacho, a que por outro nome chamão Lysia de que também a dita prouincia se dizia Lysitania. Dahi a muitos centos de anos veo a Lusitania chamarse Portugal por esta causa. Na ribeira do rio Douro ha um lugar antiquissimo que o Emperador Antonino em seu itinerario chama cale, & agora se chama Gaia. O qual por seu lugar firmado em alto, & que tinha trabalhosa seruentia para os moradores que erão os mais delles pescadores, començarão a povoalo na parte baxa perto á ribeira do rio. E assi foi crescendo, & se chamou Porto de Cale, & despois Porto Cale, & per tempo Portugal mudando o C. em G. […]. (p. 11v-12r)

Somos, assim, «gente / De Luso» (Os Lusíadas, I, 24: 4; I, 39: 4; II, 17: 6; II, 103: 6; III, 95: 8), o Luso (II, 48: 2; III, 51: 7), eventualmente «Luso horrendo» (II, 48: 8), «geração de Luso» (VII, 2: 1). A origem do nome Lusitânia e a filiação no Tebano demora-se em III, 21 e VIII, 2: 7-8, 3: 1-8 e 4: 1-4, com o acrescento de que Luso está sepultado nesta sua terra.
O «sábio Grego» (Os Lusíadas, I, 3: 1) ou «facundo Ulisses» (II, 45: 1), «O perdido Ítaco» (II, 82: 1) fundador de Lisboa e pai dos Ulisseus (III, 57, 58), tem mais larga menção em VIII, 4: 5-8, 5: 1-4. É, todavia, representação do mito na Mensagem pessoana: «O mito é o nada que é tudo.» A sintaxe e entendimento das três quintilhas são subtis.

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