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Louvor e Ilustração da Língua Portuguesa

 


[...] porque a língua e a unidade dela
é mui certo apelido do reino,
do senhor e da irmandade dos vassalos.

Fernão de Oliveira [1536], 1975: 88.

 

Partindo das «qualidades que deve ter qualquer língua para ser perfeita» (Manuel Severim de Faria, Discursos Vários Políticos, 1624), buscamos gramáticos e poetas do século XVI que, em fase eufórica, saudaram a Língua, mas colocando a tónica no quadro disfórico sob os Filipes, em que o idioma funciona como peça de resistência. Recorrendo a nomes de Seiscentos, quase todos desconhecidos, com particular incidência em paratextos de obras maioritariamente de História, doutrinação e sermonário, andaremos à volta das cinco qualidades que Severim de Faria desenvolve, a saber: cópia de palavras – também para não enfadar o ouvinte; boa pronunciação; brevidade e gravidade; ortografia perfeita, pronunciarmos como escrevemos (e vice-versa; em cuja pronúncia só repugna o malfadado ão); finalmente, a aptidão da língua para todos os estilos, como se vê pelas diferentes matérias em que entra o Português, seja o estilo humilde, grave ou mediano.

[...]

Passava-se, assim, da euforia linguística quinhentista, centrada nos quatro primeiros gramáticos (1536-1606) – Fernão de Oliveira, João de Barros, Pêro de Magalhães de Gândavo, Duarte Nunes de Leã [...] – a uma quebra nacional, que também era de um sujeito já pós-tridentinamente abalado. A língua do leite torna-se, no novo quadro político (nem sempre na literatura de cada um), objecto de reflexão e, além de peça de resistência, complexo de identidade nacional. Os oitocentistas reactivam a ideia de que, face à ruína iminente da nacionalidade, «La langue est le dernier symbole de l’existence d’un peuple» .
Se, também nesta frente, o século XVI continua a atrair cultores, já o século XVII passa pelos estudiosos como gato por brasas. Os linguistas, outrossim, não investigam fundamentos ideológicos e reservas mentais. Ora, em tempo de Filipes – e século arauto do jornalismo, que bebe na língua a sua razão –, a relação de cada um não pode evitar o fundo da questão linguística. Não é só identidade, que pode não ser suficiente; é situar-se na pluralidade, que Paul Ricœur resumia, à luz de simpósio compostelano de 1998, ‘Identidad y cultura. El papel de la lengua’:

La identidad siempre está ligada a lo exterior, a lo extraño. La lengua funciona como un mecanismo interno entre sus hablantes, pero también como una manifestación hacia el exterior de una comunidad. El hecho fundamental no es la identidad, sino la pluralidad humana. Y el problema para cualquier grupo cultural es cómo situarse ante los otros, preguntarse: “cuál es mi lugar entre la pluralidad humana?”»

Da análise de Barros por Buescu (1984a: LVII), e, em particular, do “Diálogo em lovvor da nóssa lingvágem» (1540) –, ressaltam «seis motivos de louvor» calhando bem à língua pátria: «riqueza vocabular; conformidade com a língua latina e filiação nela; sonoridade e majestade; sonoridade agradável; carácter abstracto; possibilidade de enriquecimento do vocabulário por meio de adopções e adaptações (sobretudo de latinismos).»
Posta a leitura circunstanciada de Fernão de Oliveira (1536), de Barros, dos interlocutores português e castelhano (diálogo áspero, ao contrário da relação pai-filho, no anterior) em Gândavo e de Duarte Nunes de Leão (1576, 1606), convém descer aos clássicos mais próximos e estabelecer comparações: Dante, Vita Nuova (1292-1293) – cujo § 25 aclara que «Il volgare è promosso a lingua della poesia» (p. XXXVIII) – e De Vulgari Eloquentia (1304-1305); Nebrija, Arte de Gramática Castellana, 1492; Bembo, Prose della Volgar Lingua (1525); Juan de Valdés, Diálogo de la Lengua (1535?); Du Bellay, La Deffence... (1549). Sem esquecer quatrocentismos: o Condestável D. Pedro justificando uso do castelhano em sátira de entre 1449-1453; o elogio de Valentim Fernandes – sensível aos modernos vocábulos «gentijs e doçes» – a Frei André, que superintendeu a revisão alcobacense da Vita Christi destinada ao prelo (1495) .

Em atmosfera bilingue, Gil Vicente e Camões são os casos mais flagrantes, indo além, mesmo, dos dois idiomas, no uso próprio e na referência. Aptidão para a carnavalização do Português está naquele; neste, e fora os lugares-comuns conhecidos d’Os Lusíadas, importa mostrar a caracterização frente ao Outro, oriental com sua «linguagem tão bárbara e enleada» (I, 62: 4) ou «língua escura» (I, 64: 2). Ao contrário, os porta-vozes desejados serão de «palavras sinceras, não dobradas», e «prática elegante» (II, 76: 2, 78: 1).
Seguem-se Sá de Miranda e António Ferreira, que o editor da poesia daquele, em 1784, irmanou no prólogo, enquanto valorosos defensores da competência do idioma.
Jorge Ferreira de Vasconcelos, na póstuma Comedia Avlegrafia (1619: fol. 67r-v), retoma diálogo entre português, Artur do Rego, e castelhano, Agrimonte. Aquele resume pecha antiga: «Somos taõ inclinados à lingoa Castelhana, que nos descontenta a nossa, sendo dina de mayor estima, & não ha antre nòs quem perdoa a hũa Trova Portuguesa, que muytas vezes he de vantagem das castelhanas, que se tem aforado com nosco, & tomado posse do nosso ouvido que nenhũas lhe soão melhor: em tanto, que fica em tacha anichilarmos sempre o nosso, por estimarmos o alheio.»
É do elogioso prólogo, entretanto – sobre a «gravidade, graça Lacónica, e autorizada pronunciação [que] nada deve á Latina» – que bebe o Diccionario da Lingoa Portugueza (1793), cujas “Memorias e Louvores da Lingoa Portugueza, que se achão em diversos autores” (p. XXI-XLI) constituem a primeira antologia sobre a matéria.
Abrindo, sem razão, pelo Marquês de Santillana, e logo Barros - (esquece Oliveira), acrescenta Jorge Ferreira e «O autor incerto do Dialogo das Lingoas» (a nossa língua distingue-se do Castelhano na pronúncia e ortografia), Duarte de Resende (é a que melhor trata «graves e excellentes materias»), Francisco de Morais (é a mais copiosa), André de Resende, Ferreira, Camões, Gândavo, Miguel Leite Ferreira (todos nela podem cantar, tal a cópia e gravidade de estilo).
Segundo Barros, ecuménica, mas apostolizando pelas «Reaes Quinas de Christo», e cuspida ao Latim, «Esta prerrogativa tem sobre todalas lingoagens presentes: magestade pera cousas graves, e hũa eficácia baroil, que representa grandes feitos». De música «grave e sentida», «pureza e sequidão pera cousas baixas» (ou «tão honesta e casta, que parece não consentir em si huma tal obra como a Celestina», logo se desculpando, mal, Gil Vicente), a nossa linguagem «não perde a força pera declarar, mover, deleitar, e exhortar a parte, a que se inclina». De Barros e nomes acima citados se serve o Petrónio de Gândavo para contrapor a Falêncio ser a nossa mais suave, enquanto a castelhana «se póde chamar barbara» – combate-se, assim, crítica do francês Nicolau de Grouchy –, porque, tomando da arábica «a maior parte dos vocábulos, fallais de papo, com aspiração; e assi fica uma lingoagem imperfecta, e mais corrupta do que dizeis que a nossa he». Ora, quer Gândavo, quer Barros, entre outros, concedem alguma impureza ao português por força da entrada dos Mouros: é o que lembra Manuel Correia, no «Commento aos Lusíadas, cant. I est. 33».

2. O Duarte Nunes da Origem da Língua Portuguesa (1606) dá passagem ao século XVII. Reitera a sua expansão no mundo, pelo que «com razão se póde ter em muito, e chamar ditosa, pois por ella se anunciou, e manifestou a tantas gentes, e de tão remotas e estranhas províncias a Fé de Nosso Senhor Jesu Christo, e foi causa de se tirarem as erróneas e trevas, em que o mundo vivia»; e, com poemas à maneira de Barros, a semelhança entre o Latim e o Português, que beneficiou, sobre o Galego, da existência de corte, para polir o verbo. Aqui, faz-se ligação excelente com “Discurso Segundo. Das partes que há-de haver na lingoagem para ser perfeita, e como a Portugueza as tem todas e algumas com eminência de outras lingoas”, incluso nos Discursos Vários Políticos, de Severim de Faria, notabilíssimo e precursor.
Hábil e subtilmente, constrói um esquema / ambiente fechado – o esquema da Língua Portuguesa –, cujos pressupostos (convicções pessoais e colectivas) visam a construção de premissas pseudocientíficas, que, claramente, informam a conclusão final. Se, antes das provas, a nossa língua se iguala às melhores da Europa, mais tarde, é já uma das melhores do mundo. Não negamos que a Europa fosse, então, o mundo; observamos só o trânsito Europa / Mundo, como do nada (ou a língua tendo-se a si própria, em círculo) à explosão desse centro, cuja gravidade o obriga a flutuar.
Reafirma-se uma perfeição convencional. Não é por acaso que, no século XX, autores como Antero de Figueiredo, António Correia de Oliveira, Afonso Lopes Vieira, recuperam a mesma diligência: pois que o Império é um facto, a língua há-de ser – é – (a mais) completa e perfeita. O que vem desembocar no raciocínio seiscentista: esta língua é a mais completa e perfeita, e só assim está de acordo com a grandeza do Império. Atenuando a grandeza de um Império quase alienado, o intelectual assimila aquele à língua e, como João Pinto Ribeiro, afirma que é forte «disparate» pensar que se podiam «confundir as línguas»; nós interpretamo-lo: confundir as pátrias. A identidade linguística sempre existe para alguma coisa. Voltemos a Severim de Faria.
Como muitos outros – João Franco Barreto, Álvaro Ferreira de Vera, Bernardo de Brito, Fr. Bernardino da Silva, António de Sousa de Macedo , etc. –, também este dá crédito à lenda de Túbal, primeiro povoador de Portugal e Espanha  o qual falava Hebraico, língua que viria a corromper-se. Esta notícia da corrupção das línguas perspectiva-se em dois campos: por um lado, refere-se a sucessão que, da língua primeira, o Hebraico (utilizado por Adão) , aconteceu, pelo castigo pós-diluviano que Deus lançou sobre os homens construtores da Torre de Babel: uma das setenta e duas era o Grego, que gerou o Latim e, depois, o Português – para os de Seiscentos, a nossa língua tem «a origem da Grega» (Rodrigues Lobo); por outro lado, tem-se consciência da diferente corrupção do romance conforme as regiões portuguesas (Faria e Sousa), e, diacronicamente, fazendo da língua um corpo vivo, conclui-se da renovação por força do uso e necessidade, não caindo na ilusão da imutabilidade da língua (Barreto, Severim, Brito, Faria e Sousa ). Vasco Mousinho de Quevedo vislumbra-a como eterna fénix renascida...
Mas não só Túbal. Ferreira de Vera refere a vinda de Hércules a Espanha, que, por duas vezes, governaria. Refere a vinda de Ulisses. De Baco. Dos Romanos. Já, Faria e Sousa não esquece os francesismos e castelhanismos que, por vinda do Conde D. Henrique e esposa – mais o vasto séquito –, precederam os alvores da nacionalidade e informaram o então Latim corrupto. (Considera, ainda, que a corrupção deste foi menor nas «línguas vulgares» de Portugal e Castela do que em França e Itália.) Para Vilas-Boas e Sampaio, se há tantas vozes estranhas na nossa língua, tal é devido à passagem de inúmeros povos, entre os quais enumera Fenícios, Gregos, Messénios, Lacedemónios, Forenses, Ródios, Gálios, Cartagineses, etc., para, em 412 (segundo Paulo Osório), chegarem os Vândalos, Suevos, Silingos, e, em 711 (713), os Árabes... Condena Faria e Sousa a «ceguedad» dos Godos; ele e Manuel Correia o «furor» dos Mouros, sendo ainda Barreto a equilibrar os pesos: «Não há lingoagem pura, e sem mistura de outras línguas.»
Intercalando este fio, atente-se na defesa que o penúltimo faz do uso dos latinismos n’Os Lusíadas (por excessivos? por um movimento de contra-Latim, que está presente no Auto do Fidalgo Aprendiz?); para, demolidor, surgir Faria e Sousa, chamando «cobarde» ao que não ousa «introduzir algumas vozes estranhas na sua língua, e singularmente da Latina». Já Manuel de Galhegos diz ter-se valido «de alguns vocábulos, e termos estranhos: com toda a moderação, e com todo o rigor da retórica»; já Manuel do Sepulcro e Fr. Agostinho de Sousa investem contra os que mendigam vocábulos estrangeiros; desde há muito, também, optar pelo castelhano em Felicissima Victoria… (1578) levava a censurar Hieronymo [Jerónimo] Corte Real; eis que, logo, Vieira nos sobra.
Ele aí está: conhecedor das «subtilezas do idioma português» ou «um grande adorador da linguagem antiga» (Francisco José Freire), «o mais puro, o mais castigado dos nossos Escritores» e «imperador da língua portuguesa» (F. Pessoa) elogiadíssimo, singularizado por D. Frei Alexandre Lobo e Raymond Cantel, é Vieira quem melhor acorre ao nosso propósito. Quer no Sermão da Terceira Quarta Feira da Quaresma, quer nos prolegómenos à História do Futuro, «Vieira recomenda aos seus leitores latinistas passarem sem ler a tradução em português de uma longa citação de Lactâncio, [evitando] uma aproximação aborrecida entre as duas línguas: “[...] para que não fiquem com o sentimento de quão mal se pode trasladar à nossa língua”» .
De resto, toda a versão de texto latino em Português é, nele, uma aventura: se, por um lado, subsistem aí fins evidentes, pode também pensar-se que, estruturalmente, Vieira sentia essa fraca correspondência da «filha primogénita» do Latim. De todas as línguas novilatinas, alguma ressurgiria hierarquicamente superior: «consciente da riqueza da língua, o grande orador é um purista. Não admite os empréstimos das restantes línguas» , embora a prática o desmentisse, pela presença – que Cantel quantifica – de castelhanismos, italianismos, etc. Assim, interpolando temas como a origem (mítica) e formação da língua, vislumbrando-se já um sentimento de proclamada autonomia pela demarcação nos empréstimos, vejamos como a língua se individualiza e sobrepaira às restantes.
Partindo de que «[...] nem por primeira antiguidade, nem por incorrupção do idioma, pode nenhuma lingoa ser tida por melhor que a outra» (p. 120), Severim de Faria vai dar-nos as suas razões.
Logo a abrir, desenvolve a primeira qualidade, cópia de palavras. Nisto, diz, é a nossa língua «abundantíssima», contrariando Benito Caldera, que, no prólogo da tradução d’Os Lusíadas, a julgara «pobre». Em termos de cópia, a grega ocuparia o primeiro lugar, a hebraica o último.
Segue-se a boa pronunciação (como, também, do Grego), «muy fácil, grave, y suave, como dizen los Authores, que abaixo iran alegados”, e são – fora portugueses quais João de Barros, Bernardo de Brito, etc. – os castelhanos João de Mariana, Cervantes, Lope de Vega, acrescentando nós D. Antonio de Capmany y de Montpalau, o qual, porém, lamenta «la exâgeracion é hinchazon, de onde vino a contraer un caracter asiatico el estilo nacional” (refere-se, claro está, aos Cultos). Sem isso, «hubiera sido inimitable en las demás lenguas vivas».
Em terceiro lugar, a brevidade (ao lado da gravidade: ver Amador Arrais, Diálogos, 1600) –, e logo nos ocorre Bernardo de Brito, dando a língua como a mais própria para a História e para os conceitos, qualidade que António Delicado e Bernardes sentem nos adágios, de cuja cópia a língua é, ainda, senhora.
A quarta característica: ortografia perfeita (apesar do ditongo ão: cf. Bento Pereira e o citado José de Macedo ) serve, com Barreto, para ser considerada a primeira excelência da língua portuguesa, e só dela, em toda a Europa. Aquelas três eminentes qualidades («muy fácil, grave, y suave») ficam provadas pela facilidade com que todos os povos – à excepção dos castelhanos (e explica porquê) – aprendem a falar Português. Facilidade que Ferreira de Vera crê não existir nos estrangeiros...
Finalmente, a aptidão da língua para todos os estilos, como se vê pelas diferentes matérias em que entra o Português, quer no estilo humilde, grave ou mediano. Com vantagem, sem mais, e pelo menos, no tratamento do erótico e do heróico (Faria e Sousa).
Eis, em resumo, Severim de Faria. Lemos esta enumeração de perfeições numa cadência bem diferente em Rodrigues Lobo (1619). Porém, tratadistas posteriores – António de Sousa de Macedo, Álvaro Ferreira de Vera, João Franco Barreto, Faria e Sousa –, para lá de comuns referências, citam já Severim de Faria, parafraseando-o, ofuscados pela quantidade de exemplos que, numa segunda fase, explicitam as ditas perfeições. Aos predecessores referidos, acrescentemos Fernão Álvares do Oriente (1607).
A possibilidade de, aprofundando o estudo, depararmos com detractores da língua não é hipótese descabida: quando, nas comparações com as línguas cultas da época e ao lado do trabalho obscuro dos, sobretudo, missionários (organizando gramáticas e vocabulários dos povos em vias de civilização, «lançando assim os fundamentos da glotologia comparada» ), acontecem referências aos «filhos ingratos», a justificação imediata é a de estes escreverem em língua castelhana. Mas não só: aqui, as insinuações de Rodrigues Lobo podem valer como aviso e, em arquivo ou desaparecidos, alguns textos teriam feito época.
Manuel Correia, a propósito da tradução d’Os Lusíadas, contrapõe «a humildade da nossa língua portugueza» à «formosura da língua Latina». Não é depreciativo, porque tal humildade é requerida pelo termo de comparação. É, antes, sintomático do respeito que o século XVII votava ao Latim. E como não, quando Faria e Sousa e Ferreira de Vera nos contam que um menino, em Évora, falava, com dois anos, «além da sua lingua Portuguesa a Latina perfeitamente»? Relembrando Vieira: e se o valor da língua portuguesa lhe adviesse da sua semelhança com a latina? O factor da dilatação da língua, já então importante, só virá a ser decisivo três séculos depois.
Com efeito: a provada cópia de verbos – em que se exprime o génio da língua, segundo Francisco Evaristo Leoni – serve já a Severim de Faria para a aproximar do Latim. Barreto vê na oração de língua portuguesa as oito partes que existem na latina (nome, pronome, verbo, particípio, preposição, advérbio, conjunção, interjeição) e, como quem, amiúde, procura e/ou reafirma uma génese, acrescenta o artigo, que o Latim não conhece, mas conhece o Grego. Mais argumenta que palavras como mano / mana nenhuma língua, nem mesmo o Latim, as poderá dizer. Repete Leão (1606). António de Sousa Macedo dará uma lista maior, onde saudade toma o seu lugar (ou saudades, em Ferreira de Vera). Beberam em Nunes de Leão. Para uma melhor aproximação ao Latim, existem propostas pontuais: Bento Pereira apela à substituição de ão por am. Duas razões, porém, sobrelevam as restantes.
A primeira é de origem mitológica – e poucos deixam de se escudar nela. Camões transforma-se no paradigma a retomar (para a pureza da língua e não-empréstimos será Fr. Luís de Sousa); melhor, a sua estrofe 33, canto I, é a pedra de toque: eis Vénus: o (re)verso – um halo poético – sobre a justificação dada à língua como construção lenta onde as armas (também) escreviam.
A segunda é ambígua: os textos que podem ser, simultaneamente, latinos e portugueses, tanto em prosa como em verso (e ainda aqui os autores se repetem), assentam num vocabulário nada espectacular, empobrecendo-se gradualmente, em curto-circuito. Também os castelhanos fabricaram tais exemplos (cf. Luís Afonso de Carvalho, Cisne de Apolo). O que, se prova algo, não é por si convincente. Para as modas da época, contudo, era suficiente.
O bilinguismo literário manteve-se, entre nós, até cerca de 1680, «mas, a partir de 1640 – diz R. Cantel –, empregar a língua espanhola era empregar a língua dos inimigos».
Afirma Manuel de Galhegos (1635) que os engenhos se esqueceram da língua portuguesa, «e quem agora se atreve a sahir ao mudo com hum livro de versos em Portuguez arriscase a parecer humilde». António de Sousa de Macedo (1631) escreve em Castelhano, porque este é mais conhecido na Europa. Antes que o filho Pedro de Faria e Sousa (1674) e António Álvares da Cunha (1678) retomem a defesa de Manuel de Faria e Sousa, este fizera já uma auto-defesa em 1639, reiterada mais energicamente na pós-Independência, em 1646, ao proclamar: «Yo no soy Castellano.»
Era incómoda a situação, pois a um bilinguismo castelhanizante não correspondeu «um bilinguismo lusitanizante dos castelhanos». Para Jorge de Sena, durante esta época, o sentimento resistente «é mais ideológico-religioso do que patrioticamente político», pois «A união de coroas na pessoa de um príncipe estrangeiro não afectava necessariamente uma concepção de patriotismo, que era sobretudo geo-cultural (e não mitologicamente romântica)». Para concluir: «De modo que o Faria e Sousa que escolheu ser, em Espanha, e através do espanhol, um propagandista de Portugal e de Camões, nem é nem mais nem menos castelhanizante que muitos outros que passaram a fronteira, ou em Portugal estavam, e que continuaram, em pleno estado de guerra, que durou quase três décadas, o bilinguismo cultural e linguistico. E realmente só a partir dos fins do século XVII começa a transformar-se, e Portugal passa a viver, ou a subsistir, contra a Espanha. [...]. Mas naquele tempo do século XVII, cuja segunda metade Faria e Sousa não teve vida para ver, até os judeus portugueses, e que portugueses se declaram nos seus exílios europeus, escreviam as suas obras no que fora e ainda era a língua franca: o castelhano.»
Pois sim. Mas esta abertura de espírito é moderna. E teria uma explicação conjuntural. A insurreição anticastelhana matiza-se, no campo das letras, singularmente. Não é só por escrever em Castelhano que um autor é condenado; é por, escrevendo em Português (com ou sem empréstimos) e / ou Castelhano, escrever escuramente, opção tida como derivada de Gôngora; digamos que, em alguns casos, uma reabilitação é sempre possível. Contra os Cultos não se levantaram poucos: Diogo Camacho, Fr. António da Encarnação, Vieira, Bernardes... Uma evidência, porém, subsiste em muito bons portugueses: basta que os interlocutores sejam estrangeiros para, logo, falarem como «cães». Sempre guturais! É visceral: como acontece num poema de Jorge da Câmara.
Vamos terminando. Tratou-se da origem, formação e evolução da língua – e chamamos a atenção para momentos decisivos: a leva de invasores; a vinda do conde D. Henrique; enriquecimento e perfeição em tempo de D. Dinis (Fr. Francisco Brandão, Faria e Sousa); o reinado, áureo em todos os campos, de D. Manuel I. Contra os arcaísmos, a mendicância de termos, pela recolha daqueles que o uso e a necessidade impuseram ou foram utilizados pelos quinhentistas. Sobre as excelências da língua portuguesa, sem rival em perfeição, própria para todos os géneros e estilos, que, manifestando-se a tantas e tão estranhas gentes, lhes anunciou a Fé Católica e a Civilização Ocidental, tornando-se um vínculo de comércio (linguístico e não só) e unidade, de conservação, enfim (Amaro de Reboredo).
Acessível ou não aos estrangeiros, por alguns reconhecida como excelsa, transladada em muitas obras, retoma, em 1640, o estatuto de língua de todos os Portugueses – ou quase: que o povo nunca a enjeitou.

Excerto de Ensaios de Cultura, Lisboa, Editorial Theya, 2016.

 

O Humanismo em Portugal

Um olhar sobre o Humanismo deve considerar a ruptura civilizacional que significaram os Descobrimentos. Saía-se do mare clausum de um Deus europeu para o universo de gentes diversas e lugares distantes, actualizando a máxima terenciana segundo a qual, doravante, nada do que era humano seria alheio ao mesmo homem. A empresa marítima tornava-se fonte de interculturalidade. Oferecia às inteligências uma nova dimensão da história e da geografia, que o humanista João de Barros percebeu soberbamente:

«Os humanistas aprofundaram o conhecimento do mundo greco-latino e, estabelecendo pela primeira vez com clareza, por um lado, a ligação e, por um outro, o contraste com aquele e o mundo seu contemporâneo, esboçaram a dimensão do tempo histórico, que não existe realmente na mentalidade medieval, para quem a sucessão dos acontecimentos constitui um enredo como o dos romances de cavalaria. Mas para os humanistas o mundo greco-latino era de alguma forma a Idade de Ouro da civilização, da qual se decaíra na barbárie medieval.» (p. 270)

Avança, entretanto, para formas de concretização desse ‘tempo histórico’:

«Uma concepção planetária da história pode caracterizar-se por dois elementos principais. Em primeiro lugar, um laço muito estreito entre a história e a geografia. Os acontecimentos foram situados no espaço. Tudo começa hoje pelo mapa, quer se trate de linguística, de etnografia, de história económica ou de história política. […]
O outro elemento característico desta concepção planetária da história é o que poderíamos chamar o ponto de vista múltiplo, ou, por outras palavras, o pressuposto de que cada civilização tem a sua própria história, de que não está subordinada à civilização europeia e cristã, dependendo de ou conduzindo a esta.» (p. 271-272)

Desde a Década I, Barros «propunha-se nada menos que uma história de Portugal em escala mundial, dividida pelos quatro continentes. Além disso, essa história, ou enciclopédia, considerava não só as efemérides militares, mas abrangia também a descrição geográfica do mundo e a do comércio mundial, compreendendo nela os produtos naturais e os da indústria (a que ele chama ‘artificiais’) e ainda o que no texto se designa por ‘regras do comércio’, incluindo os pesos e as medidas.» (p. 280) Reencontramos estas ideias ao tratar do historiador e moralista, no que será o melhor momento deste livro.
Prossegue Saraiva:

«Pela boca do seu agente comercial Damião de Góis, o rei de Portugal fazia declarar que a empresa da Índia lhe trazia mais prejuízo que proveito material e que só o amor da Fé o movia a persistir nela. O monopólio queria-o apenas para sustentar o empreendimento espiritual.
Em João de Barros este tema da cruzada ganha aquela grandeza espacial e temporal que é peculiar ao nosso autor.» (p. 281)

Não vem ao caso analisar o régio processo de intenções, ou pura propaganda, a que, decerto incomodado, dava eco o bom diplomata Damião de Góis; já o tema da cruzada em Barros deve ser confrontado com a posição anticruzadística de Ropicapnefma (1532), de Sá de Miranda e António Ferreira.
Mais importante, Barros declara que nem a Europa é maior que outras paragens nem a cristandade mais difundida, e que «a nossa civilização não é a civilização, que os nossos valores não são os valores universais» (p. 284). Assim se inscreve uma cultura mundi, mérito inquestionável de humanistas. Atento ao Chinês, que nunca viu, «Esta circunstância concorre certamente para tornar possível uma visão do mundo como a de João de Barros, cheia de admiração por civilizações não europeias, capaz de aceitar a ideia da exiguidade da Europa e a relatividade da sua civilização, e de considerar, enfim, o mundo de um ponto de vista múltiplo e segundo uma escala planetária.» (p. 290)
Eis como das humanidades ressurrectas se passa, indo além de nós mesmos, à Humanidade, à luz de um Humanismo bem mais do que greco-latino, erasmizante, reformador, contra-reformista. Evoquemos nomes simples, antes dos nomes próprios.

Se o vocábulo ‘homem’, com rostos vários, aparece regularmente na nossa Idade Média, a par do mais raro ‘humano’ (sécs. XIII. XIV), de ‘humanus’, atrasámo-nos em relação ao ‘humain’ francês (c. 1150, ou 1160), no sentido de ‘compreensivo’, ‘bondoso’. ‘Humanidade’ (‘humanité’), que o oitocentista Ernest Renan tomará como ‘civilização’, já em 1120 se referia ao carácter, à natureza humana (entre nós, desde o séc. XIII), e, desde 1485, ao género, aos homens em geral – em português, deparam-se-nos as fórmulas ‘omanidade’ e ‘umanidade’, no séc. XV e em 1569 –, quando muitos estavam ainda por achar, descobrir, contactar. No plural, ou ‘studia / artes humanitatis’, ‘litteræ humaniores’, o termo afirma-se desde inícios do século XVI. ‘Humanidades’, contudo, começa por ser ‘estudos da natureza humana’, antes de em si conjugar o estudo da gramática, poesia, história, retórica, filosofia moral, artes liberais referidas ao grego e latim, disciplinas que, com o hebraico, absorveriam quase inteiramente os humanistas. ‘Humanista’ já está em Espelho de Casados (1540), do Dr. João de Barros.
Ora, entre nós, o latim era já corrente na corte de Avis. D. Pedro traduzira De Officiis (Livro dos Ofícios) de Cícero antes de 1438; Mateo de Pisano ofereceu crónica da guerra de Ceuta (De Bello Septensi, 1460) à corte do bibliófilo D. Afonso V; o bispo eborense D. Garcia de Meneses, que estudara em Perugia, leu diante do Papa (Roma, 1481) um discurso sobre o cruzadismo antiturco dos reis portugueses; Cataldo Parísio Sículo é chamado, cerca de 1485, à corte de D. João II, para instrução de príncipes, nobres e senhoras. O primeiro de dois volumes das suas Epistolæ sai em Lisboa, 1500 .
Com a queda de Constantinopla (1453) – segundo momento decisivo −, os letrados bizantinos transportam para Itália os seus conhecimentos de grego, emergindo escaramuças intelectuais de que a latinidade sai reforçada, pelo maior número e qualidade de, sobretudo, poetas neolatinos – mas impõe-se também a filologia agora aplicada aos textos antigos, incluindo os hebraicos. No quadro institucional, nascem tensões com os mestres universitários.
Um terceiro acontecimento, nesses anos 50, vem ajudar o fervilhar de ideias e sua mais consentânea divulgação: a tipografia. Sem menoscabo para as línguas vulgares, que conhecem as primeiras gramáticas (desde a de Nebrija, em 1492; a portuguesa, em 1536) e vingam no ultramar, a Europa culta estende-se, entende-se, em latim, mas os seus protagonistas só tardiamente tiram o nome do medieval ‘humanista’ (em italiano, 1490; francês, 1539; espanhol, 1613; alemão, 1784), que, na Inglaterra de 1617, começa por ser «alguém interessado nos assuntos de Estado e na história. O uso de humanista para referir-se a um grupo de preeminentes no Renascimento e na Restauração do Saber parece ocorrer em um momento no S17 [século XVII]», informa Raymond Williams . Mais tardio, contudo, é o que eles praticam, ‘humanismo’ (do alemão ‘humanismus’, 1808), que, na França de 1765, ainda é ‘philantropie’, antes de ser o movimento de ideias que espiritualiza o Renascimento (1877). Em Portugal, o rápido uso de ‘humanista’ (1540) foi mal acompanhado de ‘humanismo’ (1899).
Nomes próprios são incontáveis. António José Saraiva cita estrangeiros influentes, sem lhes dedicar atenção pormenorizada, o que obriga o leitor médio a municiar-se noutras latitudes. O mesmo para portugueses, ainda em minoria, pois não refere alguns representativos: D. Pedro de Meneses, 2.º conde de Alcoutim – inaugurou o ano lectivo de 1504 da Universidade de Lisboa diante de D. Manuel I e corte −, os oradores Vasco Fernandes de Lucena, D. Fernando de Almeida, Diogo Pacheco e outros.

A definição de Humanismo percorre vários campos: filosófico, religioso, social, estético. O conhecimento crítico das fontes textuais, a partir de línguas e ciências restauradas, embate contra a Escolástica, que tão-só comentava, parafraseava, especulava, interpretava formalística e alegoricamente alguns corpora. Isso tem efeitos na revisão de Aristóteles, mas também na releitura do Novo Testamento, a partir de manuscritos gregos anteriores à Vulgata latina. Busca-se a pura mensagem evangélica alheia aos «comentários dos teólogos e toda uma massa de sobreposições dogmáticas e rituais, como o culto dos santos, as indulgências, os jejuns». A experiência de Cristo faz-se intimidade e «coerência pessoal entre as crenças e os actos», como defendia a Reforma. No social e no estético, porém, tudo fiava mais fino. O saber precederia o sangue; a tolerância irmanava povos, pacificados em Cristo, salvo se urgia guerrear o Turco; e as desigualdades eram aguareladas por, afinal, dependentes de senhores, antes de muitos se prenderem nas teias da Contra-Reforma. Por último, se o latim reunia esses intelectuais, a revivescência da mitologia e de formas na poesia veio estiolando, mesmo se um Baudelaire ainda escreve na língua do Lácio, e o teatro religioso, mormente jesuítico, é um treino excelente para cumes de oratória latina.
Ao desacompanhar a cultura científica, que se secularizava, o ensino e prática das Humanidades retraem-se, até ao inane e à frivolidade. Já tivéramos desencontros de estrangeiros em solo nacional; sobrevêm a asfixia inquisitorial, invejas e denúncias torpes, que perseguem um aqui brevemente referido Fernão de Oliveira (1507-1581?) e um celebrado Damião de Góis (1502-1574) . Este, representante comercial de D. João III, imagem do Portugal culto na interlocução com Erasmo e outros, justifica páginas seguras. O cruzadismo nacional, dizia ele, olhava menos aos bens índicos e expansão imperial que à dilatação da Fé. Angelo Poliziano , J. L. Vives e demais estrangeiros remunerados pela Coroa da pimenta convergiam nessa opinião irradiada Europa fora.
Desde D. João II, percebeu-se a necessidade de homogeneização na cúpula do poder, que D. Afonso V deixara entregue a ducados soberanos. A força destes e o governo das ordens militares vão passando ao rei; como a concentração do poder exige, ainda, o domínio da família real em instituições religiosas entretanto melhoradas ou criadas, convém educar os novos dirigentes, acolhendo a nata da inteligência, nacional e estrangeira, ou concedendo bolsas lá fora a frades e seculares. Aos nossos «estrangeirados e erasmistas» dedica Saraiva larga atenção, salientando alguns: André de Gouveia (1497-1548) , Frei Roque de Almeida, D. Lopo de Almeida, tidos mesmo por luteranos, ou os erasmistas D. Martinho de Portugal, Góis, André de Resende, Fr. Diogo de Murça. Contrapõe «escassas manifestações» anti-erasmistas (Diogo de Gouveia, Aires Barbosa), mas, ainda aqui, alguma bibliografia deve completar este apartado .
Nesse quadro, «a manifestação mais completa e mais explícita do erasmismo português» é Ropicapnefma (1532), de João de Barros (c. 1496-1570): a inesperada e funda análise a tão insólita ‘mercadoria espiritual’ deliciará quem nunca leu o estranho título. Se a estrutura alegórica é medieva, a dialogal – Entendimento, Vontade e Tempo face à Razão – atravessa séculos, defendendo cada interlocutor seu ‘senhorio’ e hierarquia. É, ainda, um pensamento feudal, e, por isso, mais incongruente o uso do paradoxo: como em Gil Vicente ou no Elogio da Loucura, dizem-se as maiores verdades com desculpa da irresponsabilidade. Ousa-se uma interpretação perigosa de passos da Bíblia, enquanto o clero e a nobreza, médicos e juristas saem malferidos, em sátira contundente. Não menos heterodoxa é assinalá-la como «vestígio da difusão em Portugal do averroísmo paduano, ou melhor, do materialismo italiano do século XV», numa tripla frente: Vontade, Tempo e Entendimento «negam a imortalidade da Alma, a existência de prémios e castigos na outra vida e a superioridade da religião de Cristo sobre as outras religiões».
Imbuído de um espírito marxista transformador, Saraiva sublinha a crítica radical em Barros, «reveladora de um autêntico sentimento de crise na sociedade portuguesa da época», mas não encontra «alternativa»… E corre à resposta bucólica de Sá de Miranda à corrupção cortesã, no trânsito do Humanismo italiano ao da «frustração» nacional.

Os equívocos do social transformam-se em apologia de um individualismo feroz e da vida aldeã, no seio de uma natureza intocável. Avesso à mercancia, à corte e à urbe, no que traziam de relacional e de civilidade crescente segundo normas de outro Erasmo, eis uma posição retrógrada em antigo inovador de formas e metros. O Sá de Miranda defensor da ordem tradicional refugia-se no «mito da Idade do Ouro», acorda em si «as reminiscências do ruralismo idílico de Virgílio, da paz e da comunidade dos bens». Cabe referir algumas precisões de T. F. Earle, contestando Saraiva, enquanto associa pessimismo e ascetismo na diligência mirandina: «No presente século, os estudos mais substanciais dirigiram-se sobretudo para o conteúdo ideológico da sua poesia, particularmente das sátiras. No entanto, nem A. J. Saraiva nem J. S. da Silva Dias conseguiram algo a que possa chamar-se um estudo completo sobre Sá de Miranda.»

A «sabedoria clássica» firma-se desde os anos 40 de Quinhentos, com Jorge Ferreira de Vasconcelos e o teórico de arte renascentista Francisco de Holanda; sai cumulada em António Ferreira (1528), que morre na Grande Peste de 1569.
Giram em seu redor fidalgos, altos funcionários e líricos italianizantes (Pero de Andrade Caminha, Diogo Bernardes, João Rodrigues de Sá de Meneses…), num ódio horaciano ao «profano vulgo», cego, ignorante, «Este idólatra povo, que só crê / no Tesouro, seu deus». Se a sua poesia, com visos de apelo social e defesa de leis universais ou da plena liberdade de expressão, desadora a guerra – as letras vencem as armas −, não menos duras e perigosas se tornam a confusão mercantil da capital e a vida de corte; em contrapartida, «Ditosa, ó quão ditosa aquela gente / que em sua simples, sã rusticidade / a noite trás o dia vê contente!».
Não se tendo desterrado como seu mestre Sá de Miranda, o jurista Ferreira busca a equanimidade; o cidadão, a harmonia com o mundo; o político anti-ibérico, a defesa extremada da língua; o artista, a justa medida, congregando saber (estudos humanísticos) e ‘engenho’, esse «lume de Deus» oferecido a cristãos e gentios, antigos e actuais, sob o nome de Razão: «Esta tentativa de conciliação da doutrina ortodoxa com o saber clássico resulta evidentemente numa superação daquela e na afirmação implícita da superioridade desta. Tal conclusão torna-se mais flagrante se atentarmos nas repetidas reivindicações feitas pelo poeta a favor da liberdade da razão.»
A disputa inter-artes é uma velha história a que retorna Francisco de Holanda, defensor, no exemplo do seu conhecido Miguel Ângelo, da Antiguidade, da insociabilidade, da recusa de quaisquer cânones, da superioridade do artista platónico, inspirado (à maneira de Íon), pentecostal (e, nesse artista, a primazia da representação plástica sobre a do verso). A Pintura «era uma declaração do pensamento em obra visível», segundo Da Pintura Antiga (1548); a Poesia honrava-se em ser «pintura através da evocação verbal das imagens». Em ambas, todavia, e noutras artes – mais do que num Miguel Ângelo por vezes obscuro, em Ariosto, Camões, no Sá de Miranda pastoril −, a almejada «criação do Mundo» acompanhava-se de uma luz intensa, apolínea ou crística, de Humanismo ainda optimista, afastando receios de um já entranhado Maneirismo…
A par de Ropicapnefma e Holanda, fechar com o best-seller português do tempo, Imagem da Vida Cristã (1563), de Frei Heitor Pinto (1528?-1584), não é menos inesperado. Em onze diálogos resumidos por Saraiva, mal discorremos por entre uma selva de citações de Antigos e Modernos, em que a alegoria e um ascetismo medievais se casam com rasgos cientistas. O ensaísta olha, enfim – sem se alongar −, à «rica fantasia imagística» ou «excepcional fantasia poética» de Heitor Pinto, ao seu «gosto da bela forma, certa maneira poética de percepcionar o mundo, certas perspectivas esfumadas de paisagem indecisa [que] atestam uma sensibilidade religiosa renovada e até certo ponto humanizada», afim da dos místicos espanhóis coetâneos; sobrenada, porém, à sombra de Platão (uso do diálogo, da comparação, conceito de beleza e jogo de aparências), uma «visão simbólica do mundo», a «prisão das formas» em que vivemos, um recuo humanista: «O inteligível platónico serve neste caso para negar a realidade da natureza e da história. Identifica-se com o ser a que o cristão aspira a unir-se e do qual se sente desterrado como os hebreus em Babilónia. E da realidade do mundo o autor parte para a sua negação. O mundo inteligível identificado com o paraíso celestial serve para negar o sensível.»
Assim, quando pudéramos terminar, razoavelmente, com o poeta-humanista António Ferreira, este livro recupera a linguagem marxista e, sem demorar-se no esclarecimento da «estrutura social exasperada», fecha em negação do próprio título:

«O misticismo quinhentista transforma-se na negação do humanismo e a humanização ou interiorização da religião, tentada por Erasmo dentro de uma ideologia anti-feudal, transforma-se, levada às suas consequências místicas, na alienação do homem, isto é, na sua desumanização, dentro do clima de uma estrutura social exasperada pela perda de horizontes.»

 

Excerto, adaptado, do prefácio de Ernesto Rodrigues a A. J. Saraiva, O Humanismo em Portugal, Lisboa, Gradiva, 2012.

Impressões de eternidade

1. «Este é papel escrito por que lemos»

No Capítulo XXX, “Das dicções”, da Grammatica da Lingoagem Portuguesa, divide Fernão de Oliveira a etimologia em «nossa, alheia e comum», precisando «cada uma destas» em «apartadas» ou «juntas», «velhas» ou «novas», «usadas», mas também «próprias, como livro (por que lemos) [, ou mudadas, como o livro (instrumento de música); ou são primeiras, como livro, ou tiradas, como livreiro e livraria» . Abre o capítulo XXXIX com a matéria agora em causa: «Dicções próprias chamamos àquelas que servem na sua primeira e principal significação, como livro, que desde seu princípio e principal intento sempre quis e agora quer dizer este é papel escrito por que lemos […].» Cabe às dicções próprias «a principal parte da boa e clara linguagem e desta usaremos mais ameúde» [no original, a meude.
Quanto às dicções mudadas, ou trasladadas, «são as que por necessidade ou melhoria da significação ou voz estão fora de seu próprio significado e ou estão em lugar de outra dicção que não era tão boa como nós queríamos para nosso intento ou estão onde não havia dicção própria, como livro, quando quer dizer instrumento músico, o qual, por ser novo e não ter nome ou voz própria e ser semelhante ao livro de papel que é o próprio, lhe chamaram assim […]» (p. 99). Cura, no mesmo capítulo, das dicções primeiras, ou primitivas, que só procedem «da vontade livre daquele que as primeiro pôs», e logo das tiradas, ou derivadas, «cujos nascimentos vêm de outras algumas dicções donde estas são tiradas» (p. 100). Não recorre, agora, a livro, livreiro, livraria – serve-se de outros exemplos –, pois precisa deles no capítulo XL, “Das analogias”, em que «a semelhança das dicções nos abre caminho para que conheçamos umas coisas por outras» (p. 101). Ao tratar do número, no capítulo XLV, vem o nosso exemplo: «Os nomes que somente acrescentam s no plural são todos os que no singular acabavam em vogal, como livro, no singular, e, no plural, livros.» (p. 115)
Assim, no primeiro terço da pós-incunabulística, em 27 de Janeiro de 1536, a frequência e significado deste campo lexical – para lá do reiterado livro como parte de obra – numa normativa pioneira é de assinalar. Corolário, e penúltimo exemplo no penúltimo capítulo, sobre a «composição ou concerto que as partes ou dicções da nossa língua têm entre si» (p. 123) – a saber, neste caso: «que alguma hora os verbos infinitivos [servem por nomes, como o ler faz bem aos homens» (p. 124) –, temos o elogio da leitura, melhor, dirá no derradeiro capítulo L, dos muitos livros, ainda que trabalhosamente lidos e entendidos. Não basta ser um ‘papel escrito’; mas um ‘papel escrito por que lemos’.
Para evitar discussão à volta do indefinido, nessa bela definição de livro em que não vou demorar-me, notar-se-á que o díctico autoral este nos acorda para o livro em acção: isto é, redacção e já leitura. Sem aprofundar, também, aquele escrito, não vá sem dizer 1) que se exige, sempre, um título (no mínimo, factício): podem as páginas estar em branco, como num caderno, mas tudo se altera se inscrevermos Memórias de Um Amnésico ou Book of Nothing; e que 2) compositor e impressor devem ser úteis, na falta de um bom corrector de provas, pois ainda não havia revisor censório, nem literário.
Sirva isto para lembrar que não há texto sem suporte e sem complexas formas de intermediação. R. E. Stoddard (1984) escreve, mesmo: «Whatever they may do, authors do not write books. Books are not written at all. They are manufactured by scribes and other artisans, by mechanics and other engineers, and by printings presses and other machines.» (apud Chartier, 1988: 126, n. 6) Como o percebo e, se nos descuidamos, lhe dou razão! Mas podemos afastar alguns fantasmas. Não deixa de ser verdade que pôr cá fora um livro é assunto complicado.
Mestre de primeiras letras em casa de João de Barros, Oliveira provará, tal a sua bibliografia, ser um leitor omnívoro; e, pelo que sabemos das peregrinações europeias, um dos raros a quem as línguas clássicas não bastavam, se houve de marinhar com franceses e ingleses. Estreia-se, pois, com um título exemplar, tirando proveito de objecto a entrar na moda, e dos serviços do francês Germão Galharde, impressor entre 1519 e 1560, e, desde 1530, titular da Casa Real; enquanto isso, medica-nos com leitura particular, a da sua «anotação da Língua Portuguesa» (p. 126).

2. «A nobre arte de impressão»

Seja, ou não, esse Fernão de Oliveira o revisor da imprensa da Universidade de Coimbra provido em 1554, certo é que «a nobre arte de ympresam» teve, se parcos, grandes cultores, nacionais e estrangeiros, sobretudo alemães. Era o gene originário a pesar, embora, em esquecida síntese histórica, os primórdios tivessem muito de rocambolesco. Sobre as origens da imprensa, vale a pena citar um parágrafo de Tomé Pinheiro da Veiga, em Fastigínia, pelo que se pensava, em 1605, desta questão. Transcrevo da minha edição (2011), suprimidas variantes:

A impressão, que alguns dizem foi trazida da China por um alemão, porque já lá a acharam os portugueses por coisa mui antiga: mas, na verdade, foi inventada no ano de 1440, em Harlem de Holanda, por um Lourenço Joanes, que em formas de pau imprimiu Speculum Nostræ Salutis, que é o primeiro livro que se imprimiu em Europa, e furtou-lhe a invenção, e moldes, que fazia de estanho, Fausto, seu criado, e fugiu para Colónia e Mogúncia, onde imprimiu, no ano de 1442, o Doutrinal de Alexandre Galo, e logo Lactâncio, e Agostinho, De Civitate Dei.

Linhas curiosas, também na solução xilográfica, em que só adivinhamos o nome de Johann Fust, rico ourives de Mogúncia, e não adivinhamos «Fausto, seu criado», que processou judicialmente (1455) Gutenberg, sócio trabalhador .
Desses alemães, demandaram alguns Portugal, e sabemos pouco de outros, caso de Jacobo Cromberger, «alemam imprimidor de lyuros», confirmado em carta (8-II-1508) de D. Manuel, passada em Santarém, mas do qual não encontrou Venâncio Deslandes – que contesta a hipótese de ser o nosso Oliveira aquele revisor – rasto em livro impresso anterior a 1521. Insere-o, porém, nos Documentos para a História da Tipografia Portuguesa nos Séculos XVI e XVII , reconhecida a importância que os nossos soberanos atribuíam à arte nascente «pera o bom governo, porque [= para que com mais facellidade e menos despeza os menistros de yustiça posam vsar de nosas leys e ordenações e os sacerdotes posam administrar os sacramentos da madre santa egreya» (p. 12). Assim convocados os ministros do Rei e de Deus, evitemos comentar as delongas da nação, não sem louvar monarca inteligente.
Abrindo com Valentim Fernandes – O Manuscrito de Valentim Fernandes ainda comparece em leilões –, Deslandes elabora a melhor galeria de nomes fundadores, também fundamentais no acesso ao livro antigo. Deve ser acompanhado pela Bibliografia das Obras Impressas em Portugal no Século XVI , de António Joaquim Anselmo – que já vê a «decadência» da nossa arte tipográfica «na segunda metade do século XVI» (p. 1) – e pelos volumes da Bibliografia Geral Portuguesa, editados pela Academia das Ciências de Lisboa . Entre as Bibliografias saídas pela Biblioteca Nacional, João Frederico de Gusmão C. Arouca deixou já póstuma Bibliografia das Obras Impressas em Portugal no Século XVII (Letras A-C, 2001; D-L, 2003; M-R, 2005; S-Z, 2011).
Em 1995, No Quinto Centenário da «Vita Christi», título de exposição-catálogo organizada pela Biblioteca Nacional, o respectivo subtítulo dizia tudo: Os primeiros impressores alemães em Portugal. A. H. de Oliveira Marques e João José Alves Dias historiam essa presença, fechando por útil bibliografia. São coetâneos os estudos de Artur Anselmo sobre Valentim Fernandes e, nomeadamente, João [Johann Gherlinc, retomados em Estudos de História do Livro. No intervalo, J. V. de Pina Martins impusera-se como estudioso maior do livro português e sua iconografia, de que deu verbete no Dicionário de Literatura, no qual Mário Martins escrevia artigo sobre “Tipografia”, a que muito acrescentei no volume 3 de Actualização (2003).
Após o exemplo de Alexandre Herculano curando de litografia (O Panorama, 6-IV-1839), o interesse que à tipografia se dedica, de dicionários da língua ao Novo Dicionário do Livro, de Maria Isabel Freire e Maria da Graça Pericão (1999), atesta a importância de domínio industrial e cultural – longe, porém, da relevância perceptível nos três volumes de E. C. Bigmore and C. W. H. Wyman, A Bibliography of Printing, de 1880-1886 , ou dos trabalhos de Donald F. McKenzie. O prelo mecânico a vapor de Koenig (1814) é uma revolução: The Times, que primeiramente o usa, tira por hora 1100 exemplares, que a imprensa de cilindros de Hoe (1848) decuplica. O branqueamento do papel com cloro, cerca de 1830 (ano em que as máquinas de papel inglesas começam a ser exportadas), e a substituição, em 1860, do trapo pela madeira (nestes trinta anos, a produtividade inglesa sextuplica), acompanhando a rotativa (1857) – em menos de cinquenta anos, avançava-se decisivamente até ao offset (1904), com acenos à heliogravura (1880; heliogravura rotativa, com impressão de imagens, em 1895), à linotype (1884; nasce da ligação do compositor à máquina de escrever), à fotogravura em madeira (1891), decisiva no boom publicitário –, liberta-nos da era artesanal. Concomitantemente, nasce uma rara Imprensa da especialidade – Typographia Portuguesa, Porto, Setembro de 1887 / Agosto de 1888, 12 números –, que historia as casas tipográficas (tantas vezes, proprietários de jornais e revistas) e defende os operários do sector.
Desde o século XVI português, e mais intensamente desde o século XVII, as virtualidades estéticas da tipografia aproveitam à poesia. Caracteres tipográficos, livro e biblioteca são motivos pictóricos e de gravura ao longo dos séculos, de que há boa amostra em extratextos de Henri Meschonic (1991). Ou seja, livros de livros. De acrósticos a dificultosos labirintos e caligramas, os compositores obrigam-se a igual ginástica, como demonstrado fica em antologia do seiscentismo e setecentismo visuais organizada por Ana Hatherly (1983). Se Rimbaud vem, sinestesicamente, falar da cor das vogais, que inspiraria alfabetos em muita arte moderna – no caso português, tratei o assunto em João Vieira (2003), das telas e outros materiais a recentes vitrais catedralícios –, é com as vanguardas literárias que as letras adquirem maior expressividade. Do papel às fontes, a geração de Orpheu prima pela exemplaridade; e Mário de Sá-Carneiro joga, mesmo, com famílias de tipos e corpos em vários poemas . A lírica concreta – portuguesa, brasileira, húngara , europeia , oulipiana , etc. – é homenagem regular ao prazer do grafismo, segundo técnicas e conhecimentos da arte negra.

 

3. Programa de trabalho

I. Produção
0. Definição de livro, jornal, revista. Linguagem destes media; 1. Quadros estatísticos da produção literária e jornalística. Outros balanços; 2. A tradução. A influência francesa. Outras línguas; 3. A condição intelectual: nível escolar, actividade literária predominante ou secundária; 4. Convénios. Contratos. Direitos de autor. Vencimentos; 5. Revisão dos suportes e meios impressos. A pele dos animais: economia rural. Outras matérias-primas. O mundo do papel ; 6. História e desenvolvimento das artes gráficas; 7. Editoras; colecções literárias; 8. Tiragens. Em armazém. Análise de inquéritos industriais; 9. Distribuição; 10. Preços de custo e de venda. Os preços no consumidor; 11. Publicidade; 12. O livro na Imprensa e vice-versa; 13. Jornalistas e autores; 14. A mediação crítica.

II. Consumo
1. Alfabetização; 2. Tipologia dos leitores e ouvintes; 3. Subscrição; 4. Locais de venda. Algumas livrarias. A geração francesa: Bertrand, Rolland, Férin, Chardron. Alfarrabistas; 5. Bibliotecas. Discriminação de títulos e frequência de leitores; 6. Gabinetes de leitura; 7. Catálogos de editoras, livrarias, alfarrabistas, de gabinetes de leitura e de leilões; 8. Resquícios de censura e obras de segunda fila; 9. Cafés, botequins e tabacarias. Retiros; 10. Saraus e recitais. Leitura privada e pública; 11. Bibliotecas particulares, gabinetes de leitura, cafés, etc., enquanto cenários culturais; 12. Outros suportes: almanaque, álbum, leque, carteira, epitáfio, etc.

 

Ernesto Rodrigues, Ensaios de Cultura, Lisboa, Editora Theya, 2015. Ebook (adaptado).

Personalidade cultural portuguesa (2; A. J. Saraiva)

Geografia, história e língua favoreceram um Estado-nação homogéneo e coeso (monolítico, mesmo), opondo-se, desde as origens, à maciça Castela e à mourama. A geografia, complementando Norte e Sul, intercambiando valores, oceaniza-se. As diferenças económicas e climáticas «nunca foram bastante acentuadas para criarem pólos de poder ou de irradiação cultural» (A Cultura em Portugal. Teoria e História. Livro I. Introdução Geral à Cultura Portuguesa, 3.ª ed., 2007, p. 80). Têm-se sucedido, quando não coexistido, topografias centrípetas, desde Guimarães e Coimbra: Lisboa nem tudo absorve − a força das capitais é contrabalançada por outros núcleos −, sendo inquestionável a sua excelente colocação ibérica, que os Filipes desaproveitaram.
Decidida a independência em Aljubarrota, urgia sustentá-la economicamente: Ceuta fez-se, por isso, «aventura fora da Península». Em O Crepúsculo da Idade Média em Portugal (1988), Saraiva vê Ceuta como primeiro passo na retaguarda guerreira que constituíam as descobertas, face à ameaça turca, antes de estas serem olhadas como mercantis.
No que ele define como consequência − «um certo sentimento de isolamento, porque, entre a Europa e Portugal, Castela tem funcionado como um deserto isolador […]» (p. 81) −, leio eu um pressuposto, ou condição para outros voos. Discorre, então, sobre as características dessa ‘personalidade cultural’, via-sacra que justifica atitudes e opções combatidas em Filhos de Saturno (3.ª ed., 2015).
Habita-nos, desde logo, um espírito de ilhéu, «oscilando entre a aventura fora e a passividade dentro, ou ainda vivendo a aventura pela imaginação, sem sair do mesmo lugar». O português inferioriza-se, «refugiando-se numa auto-ironia perfurante, como a de Eça de Queirós, ou numa autocrítica flageladora da sua própria história, como em Oliveira Martins; ora incha o peito para desafiar o mundo ou para o conduzir, […].» (p. 82) Estamos perante um humor entre a chacota e a auto-ironia de Zé Povinho, que, a espaços, de si mesmo se condói, na lucidez que faltava aos fidalgarrões de Seiscentos verberados por Tomé Pinheiro da Veiga, em Fastigínia (1605), obra que recusa, porém, aquela inferioridade. [...] 
Ao messianismo, crente num destino providencial, associa-se o complexo da saudade, por sua vez, ligado ao amor «à portuguesa, que parece comprazer-se na distanciação» (p. 84). Não me parece: a distância é inelutável, traduz-se em coita – cuja enunciação pode envolver comprazimento, ou significar culto da dor, esse «gosto de ser triste» (p. 86), que perpassa no fado −, mas, ainda na morte, amor deseja-se à beira, como nos túmulos de Pedro e Inês, ou no noivado sepulcral de Soares de Passos. Em Filhos de Saturno, a variante sebástica sai zombada; os messianismos políticos, seja no molde estalinista, em estruturas partidárias, personalizados em Álvaro Cunhal ou Mário Soares, não merecem confiança. A Constituição de 1976 é outro fantasma, que um referendo (reiterada paixão do autor) poderia ter exorcizado . Quatro décadas depois, impõe-se que os nossos deputados e refundadores do sistema eleitoral conheçam estes textos.
A obliquidade das relações transfere o tratamento binário tu / vós para um sistema ternário, «um tratamento oblíquo na terceira pessoa (usando o nome do interlocutor, o que parece ser uma maneira de evitar o frente-a-frente; ou o você de amizade, […]», quando não outros, acrescentamos nós: o senhor, o pai, etc. Nego, pois, que não haja equivalente a Monsieur, como Saraiva diz, para «interpelar alguém fora da sua intimidade» (p. 85). O supracitado humor agre e auto-irónico «É talvez uma forma de protesto também oblíqua, uma compensação do sentimento de inferioridade colectiva, tão frequente em Portugal» (p. 86), «subalternidade» que Eduardo Lourenço (2010: 27) situou nos 60 anos de dominação filipina. “Cravo de Maio flor da liberdade” (texto 3) é a expressão de que, «sem Messias», almejamos ser LIVRES, maiúsculas reiteradas como só veremos em DESCENTRALIZAÇÃO, ao defender, ainda em Maio, «Eleições» locais ou parciais (autárquicas, sindicais, empresariais; texto 2).
A doce, dorida religiosidade, sem a veemência castelhana, revê-se no culto de Maria («que tem sem dúvida raízes psicanalíticas», 2007, p. 88), tão presente no onomástico, e no culto dos mortos. Mas nem estes nos criam interesse pela filosofia (aliás, nem pela teologia), nem aquela religiosidade pelo misticismo: graduamo-nos em história pátria, na aguda consciência nacional, limitados a uma historiografia que favorece «um contemplativismo passadista, uma procura da idade do ouro no passado – uma forma, afinal, de saudosismo» (p. 90). É um parágrafo não desenvolvido em Filhos de Saturno, que só compara «Cristianismo e Marxismo» (texto 50) ‒ muito pouco, na conjuntura de 1979, e mais em 1975, quando os púlpitos do Norte colaboraram no incêndio de vidas, automóveis, sedes partidárias, como se fosse entendimento do Céu danar aos bens das esquerdas…
O aldeanismo – a aldeia na corte – é uma velha guerra contra a cidade e o aristocrático, na arte ou na escala social. Poderia significar democraticidade, mas virou ilusão; ser conúbio de estratos (popular e erudito), mas fez-se demagogia, impotência. A cantiga de amigo deslustrava o provençal; nacionalizou-se, porém, a redondilha; e, aclamados bastos poetas fáceis, a indigência cresceu, como nas letras do fado, na langue de bois partidária, no cada vez mais pobre discurso familiar. A ficção pós-camiliana ressente-se de luta surda: na falta de espaços citadinos com vida própria, recorre a modelo estrangeiro. A linguagem vê-se no fio, gasta, serva, instrumentalizada; e, pedagógico, explicador de palavras para entender as coisas, iluminando os valores do signo, Saraiva faz profilaxia etimológica, semântica e moral. É uma das suas especialidades, ou não fosse autor do Dicionário Crítico de Algumas Ideias e Palavras Correntes .
Aquela estrangeirização tem implicações socioeconómicas, na ausência do espírito burguês, desse burgalês (séc. XI; de burgalense) ou burguês medieval com direito de cidade – de burgo [burgus], datável de 1123 –, um empreendedor distinto do aristocrata e do lavrador, cujo comércio o alcandorou, em Setecentos, a classe social: ao contrário dele, ora nos sacrificamos para bafejar herdeiros, ora vivemos no luxo possível e impossível, sem investir o acumulado, como se fosse pecado multiplicar o dinheiro. Não se trata de especulação, de simples numerário, aquela e este regularmente criticados pelo autor. Mercado e tecnologia (o «ferramental» do capitalismo) desembocam em número, no alegadamente ‘científico’, não forçosamente em produtividade, e, menos ainda, em liberdade. Logo, onde reside o progresso, a tal ponto discordam estrangeiro e nação, se dissociam topo e base? É uma velha preocupação, recorrente em Filhos de Saturno, sobre que também sintetizava em carta a Óscar Lopes:

A verdadeira revolução terá que ser espiritual. O homem é agora feito por e para o mercado […]; o que é preciso é que o mercado seja feito para o homem. […] Estou muito pessimista quanto ao processo do «progresso», que é fundamentalmente um automatismo de mercantilização, lógico, mas humanamente irracional. É preciso procurar outra forma de organização das relações humanas, incluindo a relação do homem com as coisas. (2005: 405)

Nesta parte, seria útil confrontar a imagem de jardim à beira-mar ‒ «reserva bucólica de uma Europa em acentuado processo de urbanização de técnica e tecnicismo» ‒ com o esforço progressivo fontista, lendo, diverso daquele aldeanismo, Portugal como «uma espécie de aldeia orgulhosamente feliz na sua marginalidade, na sua diferença», que o salazarismo disfarçou em «dimensão imperial imaginária» (Lourenço, 2014: 303-304).
É de ordem cultural, mais do que biológica, e um facto político (se representa povoamento), a «tendência para a miscigenação com outros povos» (2007: 96). Saraiva vê este processo como «uma certa liberdade em relação às fronteiras culturais, uma certa promiscuidade entre o Eu e o Outro, uma certa falta de preconceitos culturais, a ausência do sentimento de superioridade que caracteriza, de modo geral, os povos de cultura ocidental». Demasiado bondoso nestas últimas palavras, é facto que, face ao mais ocidentalizado, a nossa atitude «é a de ensimesmamento, de refluxo» (p. 98) sobre nós mesmos, próprio de espírito ilhéu, que nova globalização vem derrotando . Justificado o desinvestimento comercial, quando o português de Quatrocentos tanto arriscou, parece ter-nos acontecido, após Quinhentos, um país póstumo, suficientemente apático para, no momento da escrita, ser embalado vez primeira pelo FMI ‒ Fundo Monetário Internacional.
Poderemos, de tanta passividade e ares contemplativos, deduzir uma celebrada brandura de costumes, que um Miguel Torga contesta, desde as guerras civis de Trezentos à hipocrisia de não matar o touro na arena? Ocorre brandir a humanidade da abolição da pena de morte; os efeitos, por baixo, de algumas batalhas; e, na relatividade destas condutas, dar nota de chacinas, lá fora, que nos relegam para o fundo das tabelas. Será «uma certa aversão ao espectáculo público do assassínio, a piedade pelos mortos e supliciados, o horror do sangue», mau grado tantos autos-de-fé? Referida a «maviosidade» (p. 100) lusitana em Fernão Lopes, justificar-se-á tal, acaso, «por uma certa sensibilidade à flor da pele, ou pela falta de firmeza nos juízos sobre o próximo, ou pelo esquecimento das culpas, ou pelo baixo tónus de agressividade» (p. 101). A desorganização, o instintivo, o «logo se vê», uma brandura que é medo, fuga ou desinteresse, agem contra nós. Se se fizer um jeito ou favor, por interesse ideológico ou outro, cai-se em não poucas vergonhas. Entrevêem-se as razões maiores para o falhanço do 25 de Abril, segundo Saraiva.
A conclusão, ou décima quarta estação desta via-sacra caracteriológica, remete para um povo não propriamente guerreiro, em valores e actos, mas, tão-só, «um povo obstinado quando se trata de defender o terrunho. A padeira de Aljubarrota é, possivelmente, o melhor símbolo do espírito guerreiro português.» (p. 103) Seja esta heroína exemplo menos feliz, não é pequeno espanto a resistência ao Castelhano, que Agostinho da Silva considerava feito maior que os descobrimentos, conquistas e ultramares. Hoje, as defesas são um trabalho rigoroso e honesto, que, produzindo (idealmente, reproduzindo-nos), esquive a corrupção. Ora, começam aqui e no parágrafo anterior os problemas.

 

Ernesto Rodrigues, Ensaios de Cultura, Lisboa, Editora Theya, 2015. Ebook (adaptado; ver, aqui, outras referências bibliográficas).

Personalidade cultural portuguesa (1)

Quando, em 1987, Eduardo Lourenço reúne em um volume Heterodoxia I (1949), com que se estreara, e II (1967), assume o ensaio como «forma escrita do discurso virtual de uma existência que renunciou às certezas, mas não à exigência de claridade que nelas, em permanência, se configura» (p. XII). E, na página seguinte, situa a sua ‘família’ nesse pensar Portugal e a excessiva dependência em que o pensamento cultural de hoje ainda vive: «A visão especificamente cultural e, em particular, [...], a visão do processo cultural português continua muito dependente de uma das nossas mais persistentes e articuladas mitologias culturais, a representada soberbamente pela Geração de 70 e repercutida no essencial por António Sérgio, a Geração da Presença e a própria Geração Neo-Realista.» Reconhece, aí, «o que será mais tarde a minha obsessão permanente, a da desarticulação, da des-estruturação das nossas mitologias culturais herdadas do século XIX e a tentativa de uma re-estruturação do discurso cultural português no seu conjunto». Já em 1949 muito anteriano (homenagem implícita regular, como em O Complexo de Marx ou o Fim do Desafio Português, 1979, até ao belíssimo conjunto A Noite Intacta. (I)recuperável Antero, 2000), abria com “Europa ou o diálogo que nos falta” – que retomaria em Nós e a Europa ou as Duas Razões (1988), e A Europa Desencantada. Para Uma Mitologia Europeia, 1994 –, partindo de verificação de ‘escola’: «O mundo da cultura portuguesa arrasta há quatro séculos uma existência crepuscular.» (p. 7) A pouco e pouco, entre volumes dedicados a Torga, ao Neo-Realismo e a Pessoa, os quais retoma na visão de um século da literatura portuguesa, até 1961, em Tempo e Poesia (1974), Eduardo Lourenço reúne elementos para a sua imagologia portuguesa, ou as imagens que nos viemos construindo ao longo dos séculos.
É esse o debate de O Labirinto da Saudade: Psicanálise Mítica do Destino Português ([1978] 72010: 1978), brilhante, tomando a literatura (e, dentro dela, cada vez mais, a ficção) como corpo a psicografar, e concluindo, na constituição e desenvolvimento do Estado português, (1) pelo trauma das origens, em que um filho se rebela contra a mãe (24-VI-1128); (2) por «um povo naturalmente destinado à subalternidade» (p. 27), como demonstravam os 60 anos de domínio castelhano (1580-1640), ou consciente «de uma distância, de uma marginalidade, talvez, sobretudo, de uma como que fatal dependência ou inferioridade do tipo de cultura» (1988: 25); enfim, (3) viria «o traumatismo-resumo de um século de existência nacional traumatizada» (72010: 30) sob figura de Ultimatum inglês (11-I-1890). Nessa caracterização do nosso modo de ser e estar – aquilo a que Jacinto do Prado Coelho (1947: 107) chamou «feitio português» –, Lourenço filia-se no primeiro romantismo, quando haveria lugar para regredir ao aí degradado século XVII e rever toda a matéria... Da língua, como peça de resistência, a outros assomos autonómicos, repensa-se Portugal bem antes, e diferentemente, de Garrett e Herculano.
De novo Pessoa e reunião de breves ensaios dispersos sobre autores contemporâneos em O Canto do Signo. Existência e Literatura (1957-1993) [1994], são acrescento aqui pálido em mais larga bibliografia cuja prosa sedutora ilumina o tempo da nossa memória. Em entrevista, reconheceu que o seu «verdadeiro tema é a questão do tempo e da História. Tudo o que escrevo é a construção de um discurso sobre as imagens e miragens da temporalidade.»
Quanto à reflexão havida sobre esse complexo imagológico, também Lourenço se labirintou, paradoxalmente, no século XIX, entretanto questionado por Maria de Lourdes Belchior (1979, 1982), que fez recuar sobretudo às décadas da Monarquia Dual o que temos por essencial quando nos questionamos sobre se existe uma cultura portuguesa – isto é, a consciência, tantas vezes crua, jovial ou magoada, de uma singularidade onde se anuncia o outro, que «somos nós antes de reconhecermos que o outro é igual a nós» (1978, p. 131).
Menos alma do que um corpo-espírito colectivo recriado em linguagem particular (processo da cultura), o carácter nacional vai da língua aos costumes e crenças, assento em, e acentuando prioritariamente, formulações artísticas e míticas. Estas, porém, nem sempre dão conta da intervenção social imediata, hoje plasmada em manisfestações públicas de rua ou nas redes sociais.
Intra ou extramuros, seja qual for a situação existencial (exilado em si, no país, no estrangeiro; desterrado; emigrado, etc.), o português confundiria rosto e máscara, donde proviria o «irrealismo prodigioso» (p. 19) da imagem que de nós fazemos. A vertente psicanalítica era ainda moda nos anos 70 do século XX, e, se acertada, justificaria sucessivos retratos e conclusões ‒ mas também facilmente revertida.
Poderíamos aduzir várias razões, quanto ao século XII: a política europeia via com bons olhos a emergência de nacionalidades e um príncipe resoluto era garantia de êxito e continuidade. Revestia-se do carácter fundador atinente ao mito, eivado de traços simbólicos reforçados na batalha de Ourique (1139), onde acrescia a fé religiosa de novos cruzados. Já em 1128, a História de um caos peninsular ordenava-se em mito cosmogónico pensado na mente divina, como dirá O Bobo (1843) de mestre Herculano, rasurado pelo analista. E, se sujeito às variantes deste tipo de narrativa ‒ no caso, inspiração de In hoc signo vinces, de Constantino I (ver Os Lusíadas, I, 60: 3), dos Templários e outras insígnias ‒, formar-se-ia particular armadura ideológica, em que assenta o escudo nacional ‒ até à bandeira de 1911 ‒, além de um imaginário cristão povoando o Norte rural, forte dos seus conventos. Como, trauma?
Entre os elementos constituintes, que nos conformam doravante, está uma periferia , há uma fronteira mais perceptível desde finais do séc. XIII e uma língua, a que recorrem estranhos, como Afonso X. Hoje, é a fronteira da língua ‒ e quanto ela arrasta ‒, mesmo se aquela se despovoa. Afonso Henriques tem tanto de perseverança e determinação ‒ a luta contra os muçulmanos é que o define ‒ como de político, no bom e mau sentido; não sendo melhores as linhagens que o rodeavam ‒ reunidas em livros (cerca de 1280-1285, cerca de 1340, data, ainda, das linhagens agora pensinsulares de D. Pedro) ‒, são suficientes para alargar a família nacional e dar-lhe uma consciência. A deslocação do centro político para Coimbra (1132), a par da inteligência no recém-fundado Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra (1131), próximo do de Alcobaça, é um momento decisivo. O neto D. Afonso II e o bisneto D. Afonso III encerram a orgânica política do Estado, assente em leis, administração e burocracia, finanças, autonomia em relação à Igreja. Este conquistava o Algarve à mourama (1249): geografia perfeita, embora diversa ‒ jamais resolvida no diálogo de surdos entre litoral e interior, senão do Norte guerreiro, já de cavaleiros, clérigos e mercadores, com o Sul urbano e moçárabe, sendo certo que este grupo se difundiu pelo Norte. D. Dinis restaura e acrescenta a fronteira muralhada de D. Sancho I, instaura uma corte literária em que é rei, planta as «naus a haver», consciente de que os parcos recursos naturais, a agricultura e artesanato insuficientes ou pensados no curto prazo, a frágil mercancia interna ou externa, não satisfaziam a população.
O país faz-se nação, de cima para baixo (mau grado o optimismo herculaniano de um bobo identitário). A nobreza e ordens militares prezam a épica, e os filhos segundos ou bastardos sem fortuna competem com os cavaleiros-vilãos no gosto por feitos ficcionados da tradição europeia, que muitos conhecem em cortes de passagem até à Provença ou Bretanha. O clero é membro pensante da centralização régia. Minados os governos de D. Dinis contra o filho, futuro Afonso IV (1319-1324), que repetirá guerra civil contra o filho Pedro (1355), após arrasadora Peste Negra (1348), o pós-1367, com e sem D. Fernando, reconduz às angústias de um século marcado por desastres na agricultura e epidemias sem conto. Enfim, em 1383-1385, vemos o povo ‒ para não dizer só os mesteirais, que se libertam episodicamente dos comerciantes ‒ protagonista do seu destino, cumulado em Aljubarrota na defesa de uma pátria. Esta como que desmente lapso ‘traumático’ de 255 anos…

A «dificuldade de ser», convocando dualidade irresolúvel ‒ «desafio triunfante e dificuldade de assumir tranquilamente esse triunfo» (Lourenço, 2010: 28) ‒, ter-se-ia aprofundado sob os Filipes. Porque não desde a primeira década de Quinhentos, como demonstra Gil Vicente? Esse período não é tão humildoso como se julga. Além do cavalo de batalha autonomista plasmado na celebração do idioma, sebásticos e camonianos, memorialistas, economistas e olisipógrafos, a par de autores bilingues descomplexados e da historiografia alcobacense, ergueram cabelo, ilustrando-se em atitudes e páginas que não ficam atrás de outras eras. Belchior exemplifica com Pero Roiz Soares, Memorial, e, extraído da Fastigínia veigueana, um Portugalete tenso, consciente das suas misérias e assumindo diferenças que não envergonhavam. Mas, sobre isso, discorremos longamente na edição desta obra.
A poltronice monárquico-constitucional é outra conversa. Na verdade, o século XIX é ainda mais desastrado que o séc. XVII, com que justificar o mito da Decadência, que sobrepaira: meio século de perdas territoriais na Europa e na América do Sul, invasões, tratados de comércio ruinosos, protectorado, absolutismo crescente, guerras civis, suspensão das liberdades; e, na segunda metade, o pântano rotativo, bancarrota, interesses financistas, impotência… O Ultimatum foi, entretanto, um maná republicano, que, em vinte anos, fazia cair a Monarquia.
O olhar sobre três quartos de século novecentistas, até à descolonização, afigura-se mais certeiro, embora a proximidade dos factos nos deva pôr de sobreaviso. Belchior salienta, em Lourenço, «O escalpelizar de certos males, como os do nosso perpétuo atraso em relação à ciência [cabe discordar, pelo menos, até ao século XVI], a nossa subalternidade e dependência, a nossa mania de que o melhor vem sempre de fora, o divórcio entre o povo e uma elite culta, soberanamente distante daquele, […]» ‒ e entra a caracterizar o «modo português de ser e estar no mundo» (1979: 5).
Assim, retomando Lourenço (2010: 24-25), «o fundo do carácter português» é uma «mistura de fanfarronice e humildade, de imprevidência moura e confiança sebastianista, de “inconsciência alegre” e negro presságio». Quatro adjectivos secundam este povo: humilde, paciente, resignado, crédulo; e, para os nossos tempos mais recentes: passivo, amorfo, de novo humilde, respeitador da Ordem. Fernando Pessoa já nos dissera conformistas e passivos, sem um golpe de asa ‒ e pior nos tratara na “Ode marítima” de Campos, tom retomado no “Manifesto anti-Dantas”, de Almada, para quem «Os dois males de que sofre a vida portuguesa» são “Manha e falso prestígio” ([1933] 1972: 143-146); A. P. Lopes de Mendonça resume-nos a «um país que fica quase imóvel no meio das suas revoluções» (1979: 7).
O gosto de viver de glórias passadas ‒ ou drama de ter sido: aliás, menos ricos do que julgamos, o que escamoteia pobreza ‒, sendo refrigério (é o caso da Pátria-Saudade pascoaesiana), obnubila ou atrasa o futuro. Ainda aqui, requer-se distinção entre grande e gracioso, como se, parafraseando verso de Carlos Queiroz, só fizéssemos bem Torres de Belém. É uma boutade sem sentido, face ao feito dos Descobrimentos. Corolário, vive-se um drama presente assim facetado: mimetismo, ou macaqueio do estrangeiro, indo, geralmente, muito além de uma saudável porosidade, ou do que A. Sérgio (1976: 165) significa como a «plasticidade de espírito dos portugueses, que os torna adapáveis ao costume alheio, fàcilmente comunicativos com os outros povos»; incúria pelo que é nosso, já sentida por Garrett e Herculano, quando lhes dói o abandono do património monumental; ignorância, senão desprezo, do que temos cá dentro. Urge, pois, descobrir, «cumprir-se» (F. Pessoa) Portugal, indo além da suspensão contida na síntese histórica de Raul Brandão (S. d.: I: 13), que inspiraria Sem Tecto, entre Ruínas, de A. Abelaira: «A vida antiga tinha raízes, talvez a vida futura as venha a ter. A nossa época é horrível porque já não cremos ‒ e não cremos ainda. O passado desapareceu, de futuro nem alicerces existem. E aqui estamos nós sem tecto, entre ruínas, à espera…»
Belchior nomeia vários títulos de reflexão, opinião, circunstância e análise sobre o caso português: a diligência é útil, compreensiva, mas falham os programas equivalentes, comparáveis aos que, no século XVII alegadamente traumático, assomavam. Hoje, curados do «trauma colonial», persistem problemas diagnosticados em 1979 (p. 14), que vêm de Oitocentos: «caciquismo que tudo invade», «aventureirismos irresponsáveis», «carências económicas que põem em risco a Democracia».
Concordamos, enfim, que, entre imagens irrealistas, desfasadas ou negativas, um povo só vai lá, se tiver uma imagem positiva de si mesmo, se for além da «epiderme da cultura», num «esforço teórico contínuo» de que nos mostramos incapazes, acusa Lourenço (1987: 10). No artigo de 1982, Belchior retoma aquele E. Lourenço, os mesmos autores e títulos, acrescentando outros do séc. XX (em sínteses fugazes: Os Lusíadas, de Manuel da Silva Ramos e Alface; Portuguex, de Armando da Silva Carvalho; Lusitânia, de Almeida Faria; Repensar Portugal, de Manuel Antunes; afora um Ramalho Ortigão comum a duas centúrias) que mais disfórica tornam a imagem que de nós temos.
Demora-se nos, à data, 12 volumes do Diário torguiano e no péssimo retrato tirado por Vergílio Ferreira, sobretudo, em Conta-Corrente. Segundo aquele, contamo-nos em 14 estações: «1. Alma profundamente lírica»; «2. monomania crítica»; «3. incapacidade de ser objectivo e fanfarronice»; «4. somos barrocos, sem poder de análise directa e funda»; «5. padecemos de falta de imaginação»; «6. a nossa vida mental é estagnada»; «7. nota-se uma falta de cultura do povo»; «8. e uma falta de originalidade ou fantasia magra»; «9. assinala-se uma teatralidade»; «10. a universalidade do nosso génio mora na poesia»; «11. somos intuitivos e agudos mas não temos perseverança»; «12. somos parciais e exclusivistas (vícios sem remédio)»; «13. irremediavelmente individualistas»; «14. somos provincianos» (p. 24-25).
De Lusitânia (Almeida Faria, 1980), também transformada (Fernão Álvares do Oriente, 1607), restaurada (Vicente de Gusmão Soares, Lusitânia Restaurada dirigida a seu restaurador El-Rei D. João 4.º, 1641), e Turdugal, aos derivados de Portugal (que F. Pessoa trocou por Mensagem, ao contrário de Miguel Torga, 1950; Mensagem, cujo “Nevoeiro” nos oximoriza em «fulgor baço») ‒ Portugalete (Tomé Pinheiro da Veiga, Fastigínia, 1605), Portugalinho (João Medina), Portuguex (Armando Silva Carvalho, 1977) ‒, aos pronomes (isto, Sá de Miranda), metáforas, perífrases e desvios com o seu quê de simpáticos (Maria Velho da Costa, Casas Pardas, 1977; minha terra, país de Camões, «onde a terra acaba e o mar começa», pessoano rosto da Europa; “O Reino Cadaveroso” de A. Sérgio, da conferência coimbrã de 1926 [21972: 25-61], inspirado em Ribeiro Sanches (1777); O Reino da Estupidez [1961] seniano, trazido de Francisco de Melo Franco; Rui Belo, País Possível, 1973), Vergílio Ferreira afunda-nos em lama e porcaria: «Portugal é uma valeta» (Conta-Corrente 1, 1980: 153) e, com ou sem consciência de uma charge camiliana ao jardim da Europa à beira-mar plantado do D. Jaime ‒ em que seríamos jardim da Europa à beira-mar latrinário (Nostalgias, 1888) ‒, lembra-se deste descaso: «Ó país do tamanho de um papel higiénico.» (p. 135). É um pérfido desenvolvimento em relação a piolheiras ou à choldra de Eça, D. Carlos, Aquilino, Luís Naves; embora negativo, o caixão vazio de Baptista-Bastos (Elegia para Um Caixão Vazio, 1984) significa bem mais do que tanta latrinice. Se fôssemos para os habitantes, teríamos lusitanos, portugueses, Os Lusíadas (Camões; Manuel da Silva Ramos e Alface, 1977), portugãos (Fastigínia), povo eleito, cafres da Europa (ambos em Padre A. Vieira), magriços (1966), «pascácios» e «palhaços» (Conta-Corrente, p. 147, 258), Gente Feliz com Lágrimas (de João de Melo, 1988)…

 

Ernesto Rodrigues, Ensaios de Cultura, Lisboa, Editora Theya, 2016. Ebook (adaptado). 

Linguagem dos Media: Entrevista

A entrevista é real ou fictícia, delas resultando, sempre, um retrato (ou auto-retrato, porque também há auto-entrevistas). A fictícia é uma composição da inteira responsabilidade do jornalista: com o ‘entrevistado’ geralmente morto, reúne o que dele tem por pertinente – respostas anteriores ou que se lhe põem na boca em função de cortes num texto corrido – e, assim, aviva um retrato ou define uma questão.
Integrei o retrato na reportagem porque este exige outra envolvência: como se chegou ao assunto, que ‘luz’ o envolve, por onde passa a ‘moldura’ deste rosto, etc. – isto é, demasiados elementos que, partindo de uma ou várias entrevistas, transcendem estas para implicar, igualmente, o repórter.
Este óbice é regularmente contornado por ligeiras notações devidas ao entrevistador, que assinala os risos, exclamações, pausas, sinalética do interlocutor no seu próprio teatro de gestos.
É um pouco a forma mista, depois que a entrevista sob forma narrativa se aproximou demasiado da reportagem junto de um sujeito, do qual só aqui e ali vai nascendo algum discurso directo. A entrevista que agora me interessa, como género, técnica e um fim em si, é a que surge sob forma predominantemente dialogada.
A clássica entrevista individual confronta duas visões (dizer duas personalidades não prevê o facto tão corrente de o jornal poder enviar dois e mais redactores ou de, mesmo, a outra parte aparecer multiplicada) definidas na alternância de perguntas e respostas. Cabe numa antiquíssima arte da conversação, com certos aspectos doutrinariamente estudados desde o século XVI.
A situação entre parêntesis no parágrafo anterior daria uma mesa-redonda se a parte inquirida não representasse um colectivo unitário. Sendo, pois, várias as cabeças e os sentimentos confrontados com um ou mais jornalistas à volta de uma mesa e de uma série de matérias, temos essa espécie de entrevista que mais espaço costuma ocupar, às vezes, dividido por várias edições.
Cabe aos anfitriões, quase sempre na própria Redacção, dirigir e moderar, jogando a favor da novidade as eventuais contradições e a geral controvérsia. Uma variante deste processo encontra-se no seminário académico, com apresentação de assunto seguida de debate.
Numa relação mais distanciada, com um ou mais porta-vozes e ombreados por jornalistas concorrentes, dá-se a conferência de Imprensa, que se distingue, ainda, por a iniciativa partir do exterior.
Variante desta, à partida mais importante e recente, é a pool, em que se sorteia (e até falseia) um conjunto de repórteres credenciados para espaço reduzido. Tornou-se usual em cenários de guerra e demais catástrofes.
Iniciativa de dentro ou de fora – e, neste caso, a rogo da Direcção – é a sondagem, que resulta numa série de quadros e gráficos, com leitura da Redacção. Baseia-se num universo definido de respondentes e numa bateria de perguntas breves e claras sob forma de inquérito.
Este, por seu turno, é uma pequena entrevista, também ao vivo (num frente-a-frente, por telefone) ou por escrito, a que vários entrevistados sucintamente respondem à mesma ou mesmas questões, destacadas graficamente do conjunto. O que há de discurso jornalístico na sondagem perde-se ou reduz-se aqui; o que, além, é demorada análise, interpretação, resumo passa, aqui, a discurso directo; se aquela vive por si, este acompanha, muitas vezes, a actualidade mais premente e é menos ‘politizado’ − embora uma sondagem de opinião possa versar a infinidade de assuntos de que se faz a mesma opinião... Os objectivos e métodos é que devem ser explicados nos dois casos, desde logo porque o inquérito, apesar de hiper-selectivo, parte de mais fraca amostragem; aqui, as conclusões calham mais ao leitor.
Destas espécies, a conferência de Imprensa, aparentemente ‘mexida’, é a menos viva e, até, concorrida. Escolhe-se a hora em função da hora de fecho dos jornais, mas, desde a véspera, se não quer limitar-se ao press-release ou a um discurso quase sempre formalizado em comunicado, o redactor já pode saber o que se vai passar num espaço dominado por quem convida – e que responde como entende ou sai quando lhe apetece.
A pool sofre destas pechas, embora aconteça mais em cima da hora e a sua natural selectividade e particular matéria justifiquem outra atenção e presença.
A preparação já é diferente quando a iniciativa cabe ao jornalista. Desta feita, mais do que ensaiar um tema multiplicado pelos vários ângulos informativos que o repórter vai encontrar, o entrevistador treina uma miríade de temas possíveis encadeados no discurso de uma só personalidade ou entidade. Em mesa-redonda, tudo cresce geometricamente.
Ideal é conjugar o peso da visão que o entrevistado possa facultar e o interesse do tema, deste modo acedendo à actualidade, se lhe não preexistia.
Uma entrevista, marcada com antecedência e reconfirmada, exige a anotação de perguntas ou pontos-base, como se fossem avançados pelos diferentes tipos de leitores.

A garantia de fidelidade ao que é dito on (e muito pode haver off the record) talvez peça gravação, o que as partes definirão, bem como saber se a peça já redigida é previamente conhecida, no essencial ou no todo, pelo entrevistado. O bom trato tudo resolve.
Da vintena de conselhos que nos dá Mário L. Erbolato , salientem-se os pontos de 6 a 20, com acrescentos meus entre rectos:

6 − Faça as perguntas de modo concreto [e sem considerandos], para obter informações seguras e completas.
7 − Não corte as respostas. Espere que cada uma delas termine, antes de formular a próxima pergunta. [Evite silêncios.]
8 − Se o entrevistado divagar e fugir do assunto, recoloque-o no roteiro previsto, na pergunta seguinte. [Os monólogos em nada ajudam; as respostas longas, de resto, terão de ser cindidas, o que pede respostas desdobradas aquando da redacção final.]
9 − Não discuta com a pessoa, se ela emitir uma opinião contrária ao seu ponto de vista. [A discordância mostra-se, serenamente, através de outra pergunta encadeada. Não deve, também, corrigir os erros linguísticos ou de estrutura frásica, o que fará, depois, na redacção. Sobretudo em texto corrido, qualquer erro significativo pede, imediatamente a seguir, entre parêntesis curvos, a partícula sic.]
10 − Procure mostrar interesse real em tudo quanto for dito. Se o entrevistado verificar que o repórter não está atento, abreviará a exposição e colocará ponto final na entrevista.
11 − Não emita a sua opinião, a menos que ela seja solicitada, e assim mesmo com modéstia e humildade.
12 − Ao fazer uma pergunta, tenha em vista a riqueza da resposta e não apenas uma afirmativa, ou negativa, ou um talvez. [Não deixe pairar as meias verdades e contradições.]
13 − Não seja agressivo. Demonstre franqueza e não astúcia. [Note-se que não está a tratar ninguém por tu ou, pelo menos, essa forma será excluída no produto final.]
14 − Faça as perguntas no mesmo nível de quem responde. Pode acontecer que a entrevista seja importante, por ter sido procurada uma pessoa que saiba bastante sobre algo que ocorreu, embora humilde. Se ela ficar amedrontada, negar-se-á a dar esclarecimentos preciosos para o jornal.
15− Esgote cada área do assunto, antes de passar para outra.
16 − Se necessário, faça alguma pausa, para evitar que o entrevistado se canse. Procure imprimir um pouco de humor ao diálogo.
17 − Não se mostre superentusiasmado se ouvir uma resposta-bomba, porque o entrevistado, diante da sua reacção, poderá pedir-lhe que suprima o que disse, temeroso pelas consequências.
18 − Prepare o terreno para cada pergunta. As coisas mais cruéis e indiscretas podem ser indagadas se o jornalista tiver o cuidado de se ir conduzindo com habilidade.
19 − Se estiver a entrevistar uma senhora não lhe pergunte a idade e o estado civil, a não ser que a matéria se relacione com esses esclarecimentos. [A mesma discrição é devida com as profissões de fé, religiosas, políticas, clubísticas e outras, se desnecessárias ao fulcro da conversa.]
20 − [...] Se a entrevista for feita na Redacção, as interrupções e chamadas ao telefone devem ser reduzidas ao mínimo.» [Aconselha-se, aliás, uma sala completamente à parte ou um espaço exterior.]

As explicações do como e porquê (eventualmente, os demais elementos noticiosos) da entrevista, e um retrato abreviado, seja da matéria nos pontos mais fortes, seja do interlocutor, comparecem no limiar da peça, antes de se proceder à transcrição do diálogo com apresentação dos interlocutores (nome do jornal ou do entrevistador e entrevistado) por extenso e em corpo destacado, passando, logo, às iniciais, ainda separadas por ponto ou travessão. A frequência dos bons modelos de jornalismo (porque não o pingue-pongue de P. e R.?) aconselha a forma certa.
Do que todos comungam é da indispensável exactidão e autenticidade na reprodução do dito.
Se a entrevista vem em texto corrido, essas declarações, entre aspas e/ou em itálico, não devem ir muito além dos 200 caracteres, havendo o máximo cuidado em quebrar a monotonia dos verbos declarativos, cujo sentido varia muito: disse/precisou/acentuou, etc. ao Diário de Notícias, e menos: ao nosso jornal.
Incluirmos numa citação frase ou vocábulo da nossa lavra exige corpo distinto (redondo, p. ex.) e dentro de parêntesis rectos .

História da Cultura Portuguesa

 

1. Um destino providencial (1419), em autonomia (1128-1385).
2. A geração de Avis (1415-): globalização. Humanismo e Renascimento.
3. Contra-reformismo. Interregno castelhano (1580-1640).
4. A solução brasileira. Iluminismo.
5. Os frutos do Liberalismo (1820-).
6. Pela Europa. Retornos.

Introdução. Síntese de Existe Uma Cultura Portuguesa? (AA. VV., Porto, Edições Afrontamento, 1993).
Leituras: Jorge Dias, O Essencial sobre os Elementos Fundamentais da Cultura Portuguesa, 1995; síntese em Maria de Lourdes Belchior, “Sobre o carácter nacional ou para uma ‘explicação’ de Portugal”, Nação e Defesa, n.º 21, Janeiro-Março de 1982: 11-31. Francisco da Cunha Leão, O Enigma Português, 2.ª ed., 1973. Eduardo Lourenço, O Labirinto da Saudade. Psicanálise Mítica do Destino Português, 1978; crítica de Maria de Lourdes Belchior, em “Portugal: o labirinto da saudade”, Revista de História Económica e Social, 4, Julho-Dezembro de 1979: 1-14. “O Reino Cadaveroso ou O problema da cultura em Portugal”, in A. Sérgio, Ensaios. II, 1928: 17-65. “Algumas feições persistentes da personalidade cultural portuguesa”; “As épocas da cultura portuguesa”, in António José Saraiva, A Cultura em Portugal. Teoria e História. Livro I. Introdução Geral à Cultura Portuguesa, 3.ª ed., 2007: 75-107; 109-153.

Génese e formação. Antecedentes. Conquista e povoamento. Trovadoresca: língua e corte. Vida intelectual: conventos, livrarias, universidade. Tradução. A enigmática origem húngara da Casa Real portuguesa. Configurações míticas. O medievismo na cultura portuguesa.
Leituras: A. J. Saraiva, “As épocas da cultura portuguesa”, ob. cit., p. 109-153. José Mattoso, Identificação de Um País. Obras Completas, 3, 2001; O Essencial sobre a Formação da Nacionalidade; O Essencial sobre a Cultura Medieval Portuguesa. Obras Completas, 6, 2001. A. J. Saraiva, A Cultura em Portugal. Teoria e História. Livro II. Primeira Época: a Formação, 2.ª ed., 2007; O Crepúsculo da Idade Média em Portugal, 5.ª ed., 1998.

Navegações e ciência. Viagem, emigração, desterro, exílio, diáspora. A saudade. A historiografia quatrocentista. Agentes de cultura: o livro impresso; a condição do escritor: dedicatórias; instituições. O intercâmbio humanista. Gil Vicente. João de Barros. Erasmismo.
Leituras: A. J. Saraiva, As Navegações e as Origens da Mentalidade Científica, 2010; O Humanismo em Portugal, 2012; Américo da Costa Ramalho, Para a História do Humanismo em Portugal. I, 1988; II, 1994; III, 1998; IV, 2000; [J. V. de Pina Martins], L’Humanisme Portugais et l’Europe. (1500-1580), 1978; Joaquim Veríssimo Serrão, Figuras e Caminhos do Renascimento em Portugal, 1994.

A Contra-Reforma e seus efeitos. Inquisição e censura. O ideal da epopeia. Sinais de decadência ante e pós-sebástica: percurso deste conceito. Sob a Monarquia Dual. A língua, peça de resistência aos Filipes. Propostas económicas. Doutrinação moral. Profetismo. Meios de cultura: teatro; imprensa periódica: origens e desenvolvimento; dicionarística literária.
Leituras: A. J. Saraiva, Renascimento e Contra-Reforma, 2000; M. Lucília Gonçalves Pires, José Adriano de Carvalho, História Crítica da Literatura Portuguesa. Vol. III. Maneirismo e Barroco, 2001; J. Veríssimo Serrão, O Tempo dos Filipes em Portugal e no Brasil (1580-1668), 1994; A. Sérgio, Antologia dos Economistas Portugueses, Lisboa, 1924.

O ouro do Brasil. Estrangeirados e brasílicos. A administração pombalina. As ideias das Luzes: ciência e enciclopedismo; razão e sentimento. Viagens a Portugal: costumes; vida quotidiana. Meios de cultura: salões, cafés, clubes, academias.
Leituras: Portugal no Século XVIII. De D. João V à Revolução Francesa, 1989 [catálogo, BN]; Jorge Borges de Macedo, A Situação Económica no Tempo de Pombal, 3.ª ed., 1989; Luís António Verney, Verdadeiro Método de Estudar, 2 vols., 1949-1950; Voltaire, Le Désastre de Lisbonne, 1755.

O hiato brasileiro e a queda do Antigo Regime. Portugal e a Europa. Romantismo, liberalismo, nacionalismo. Algumas questões: Ibérica; D. Jaime; Coimbrã. Da ideia de progresso ao desencanto. O Ultimatum. Meios de cultura: media sonoros e visuais. A comunicação de massas.
Leituras: José Augusto-França, O Romantismo em Portugal. Estudo de Factos Socioculturais, 6 vols., 1974; Victor Sá, Perspectivas do Século XIX, 2.ª ed., 1976; Joel Serrão, Temas Oitocentistas. I, II, 2.ª ed., 1980, 1978; Maria de Lourdes Costa Lima dos Santos, Intelectuais Portugueses na Primeira Metade de Oitocentos, 1988; Norberto Ferreira da Cunha, Elites e Académicos na Cultura Portuguesa Oitocentista, 2001.

O quadro estético antes e após a República. Pascoaes vs. A. Sérgio. Contra-decadência: das vanguardas ‒ com trânsito pelo saudosismo e neo-realismo ‒ ao discurso neo-imperial estadonovista. Cristalizações míticas em F. Pessoa. Rádio e televisão.
Leituras: Teixeira de Pascoaes, A Saudade e o Saudosismo, 1990; F. Pessoa, Mensagem, 1934.

Portugal, hoje: ilusões e derivas. Os media electrónicos ou digitais. Migrações e interculturalismo. Redefinições de cultura portuguesa.
Leituras: Vítor Wladimiro Ferreira, coord., Portugal nas Artes, nas Letras e nas Ideias, 1998; Fernando Pernes, coord., Século XX. Panorama da Cultura Portuguesa, 3 vols., 2002.

CLEPUL

 

CLEPUL significa Centro de Literaturas de Expressão Portuguesa das Universidades de Lisboa, sigla que mantivemos, a par da nova designação - Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa -, em homenagem ao fundador, Jacinto de Prado Coelho, que o criou em 1975.
Somos um dos centros mais antigos do país, e dos mais concorridos, integrando 523 investigadores, 286 dos quais doutorados (e, destes, metade são estrangeiros), distribuídos por vários pólos, da Universidade Fernando Pessoa, no Porto, à Universidade da Madeira, da Universidade Aberta à Universidade Católica de Angola (Benguela) e à Federal de Sergipe, no Brasil. Temos protocolos com oito entidades estrangeiras e 25 nacionais.
Inicialmente, o Centro dedicava-se a estudos de Sociologia da Literatura, abrindo o novo milénio com, entre outas iniciativas, o Dicionário de Personagens da Novela Camiliana, dirigido por Maria de Lourdes Ferraz. A pouco e pouco, especializou-se em investigações que requereram coordenações próprias: Literatura e Cultura Portuguesas; Culturas e Literaturas Africanas de Língua Portuguesa; Multiculturalismo e Lusofonia; Literatura e Cultura em InterArtes; Interculturalidade Ibero-Eslava; Brasil-Portugal: Cultura, Literatura, Memória; Metamorfoses da Herança Cultural; enfim, Tradições Populares Portuguesas, grupo que resulta da absorção do Centro de Tradições Populares Manuel Viegas Guerreiro, com notáveis provas dadas, desde logo, por interposta Revista Lusitana e trabalhos de João David Pinto Correia. Acrescem gabinetes e laboratórios.
Fundamental é, todavia, o acompanhamento de mestrandos e doutorandos, bem como a abertura de concursos para bolseiros: acabou o contrato de seis meses para 16 bolseiros, e preparamo-nos para abrir candidaturas para outros 17.
Com iniciativas diárias em vários locais do país e no estrangeiro, e criador de alguns dos mais importantes congressos internacionais e vários cursos livres, o CLEPUL é um alfobre de investigação, criação artística e resultados duradouros.
O melhor exemplo é a Obra Completa do Padre António Vieira, em 30 volumes, no Círculo de Leitores, coordenada por José Eduardo Franco e Pedro Calafate (do Centro de Filosofia da nossa Faculdade), em curso de edição no Brasil. Em preparação está um Dicionário de Vieira, além de antologia do Jesuíta a ser traduzida numa vintena de países.
Sem prejuízo dos inúmeros títulos em papel que assinamos, estamos a colocar revistas e bases de dados online (bibliografia do conto, literatura oral tradicional, Machina Mundi, índices da Brotéria…), além de volumes de actas e colecções documentais brasileiras. Em 2015, responsabilizámo-nos por metade dos artigos em revistas (com boa percentagem de indexadas, caso de Navegações, editada em parceria com a Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul) subscritos pelos dez centros da Faculdade. Editámos 132 livros, em papel e online. Além das revistas citadas, temos Letras Com/nVida, IberoSlavica, Golpe d’Asa e CLEPUL em Revista, que faz o balanço mensal do Centro, já com 21 números online. Também na nossa homepage, encontra-se a Bibliografia do Conto, desde 1843, em permanente actualização.
Neste momento, os projectos de maior vulto são as Obras Pioneiras da Cultura Portuguesa, coordenadas por José Eduardo Franco e Carlos Fiolhais: 30 volumes incluindo 72 títulos relativos à primeira obra numa especialidade: Linguística, Pedagogia, Medicina, Arquitectura, etc.; Obra Completa de Fernando Oliveira, em 8 vols.; Portugal em Jogo de Espelhos, 5 vols.
O intercâmbio de professores, para cursos, conferências e em obras de colaboração, tem sido primacialmente com o Brasil, donde nos chegam também pós-doutorandos. Apoiámos o volume de homenagem à Professora Cleonice Berardinelli, figura maior da literatura portuguesa além-Atlântico, que fez 100 anos em Agosto. A edição e colóquios estendem-se a autores de Moçambique e Angola, animados seja por Fátima Mendonça (da Universidade Eduardo Mondlane, Maputo, e recente Prémio José Craveirinha), seja por Ana Paula Tavares, coordenadora de Literaturas e Culturas Africanas de Língua Portuguesa. A Cátedra Infante Dom Henrique para os Estudos Insulares Atlânticos e a Globalização (Univ. Aberta), nossa participada, está a recuperar as relações com Cabo Verde, atenuadas desde a saída de Alberto Carvalho, antigo director do CLEPUL. Eu mesmo orientei as duas primeiras teses de doutoramento de timorenses, e sobre Timor, na Universidade de Lisboa.
A abertura à sociedade tem sido uma das nossas preocupações. Além de exposições, colóquios, congressos, apresentação de programas televisivos, etc., com que atrair públicos, dentro ou fora da Faculdade, temos equipas ou voluntários convidados para escolas do ensino básico e secundário, que também seduzimos em passeio de Verão pela Lisboa literária. São importantes os protocolos com autarquias e associações ou confrarias, que nos solicitam apoio. O único centro presente pela segunda vez no Festival Literário Internacional de Óbidos fomos nós, com o Espaço CLEPUL. A magnitude do Congresso Internacional 100 Orpheu (org. de Annabela Rita, Dionísio Vila Maior), com extensão ao Brasil (Lilian Jacotto), e edição em volume, exigiu recorrer a fundações, CCB e Casa Fernando Pessoa. A Fundação Eng. António de Almeida, Porto, onde também ocorreu esse congresso, já editou as comunicações aí apresentadas. Regularmente, a FNAC Colombo e outras instâncias acolhem iniciativas abertas a todos. E seremos um dos raros centros com um prémio de alcance internacional, o Prémio Jorge de Sena, por que se responsabilizaram Margarida Braga Neves e Maria Isabel Rocheta, connosco gratos a um mecenas anónimo. A 5.ª e última edição premiou Fernando J. B. Martinho. 
                        

 

 

Prontuário

Prontuário


Abaixo-assinado (abaixo-assinados)
abre-latas
acerca de
ACNUR - Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados
acórdão (de tribunal colectivo)
açoriano (açoreano, quando em nomes de empresas antigas, etc.)
ademais (= além disso)
aderência (= ligação, fixação)
adesão (=apoio, concordância)
Adis-Adeba
aeroclube
aeroespacial
Afeganistão
afegão
a fim de (a fim de ele compreender e não a fim dele compreender)
afrikaner
afro-asiático
afro-luso-brasileiro
agrément
agro-pecuária
água-de-colónia
AIP - Associação Industrial Portuguesa
ajuizar
álbum (álbuns)
álcool
além-fronteiras
álibi (para outros, alibi)
alternativa (evitar a outra alternativa, a única alternativa)
alvíssaras
amarelo-claro (amarelo-claros)
amém (variação de ámen; plural, ámens)
Amesterdão, Amsterdão
amor-perfeito
ancilose (contra anquilose, também presente; donde, ancilosado, anquilosado)
(o) aneurisma
a nível de (evitar: uma proposta a nível de governo, ou a nível governamental, pois basta uma proposta governamental)
antárctico, Antárctida
anteprojecto
antestreia
antiaéreo
anti-higiénico
ao contrário de (e não diferentemente)
ao deus-dará
aparte (teatral); à parte (= de parte)
apartheid
apelar (para)
apesar de (apesar de o avião subir e não apesar do avião subir)
à queima-roupa
arco-da-velha
arco-íris
arguido (não se é logo réu...)
arranha-céu (arranha-céus)
Árctico
ascensão
assassínio (já Camilo Castelo Branco criticava o galicismo assassinato)
assembleia geral
assessor
assim-assim
assistir (o doente, ao filme)
atrair
audiovisual
Auschwitz
auto-retrato
autobomba
autocrítica
autotanque
aval (avales)
avalancha (e não avalanche)
Ayatollah
azo
azul-escuro (azul-escuros)

Background
Bagdad, Bagdade
bairro da lata
(os) Balcãs
Banguecoque
barman
básquete
bebé
bem-aventurado
bem-disposto
bem-estar
bem-falante
bem-humorado
bem-vindo
bem-visto
bênção
bianual (duas vezes por ano)
bienal (de dois em dois anos)
bilião (forma da LUSA, em vez de mil milhões)
bimensal (duas vezes por mês)
bimestral (cada dois meses)
borda-d'água (bordas-d'água)
braço-de-ferro
bridge
bufete
bulir
busílis (= dificuldade)
bússola

Cabo-verdiano
cacha (notícia em primeira mão, em exclusivo)
Cádis
cãibra
caixeiro-viajante
camoniano
campeão
cansaço
capazmente
capitânia (= nau em que vai o capitão)
cardeal (prelado, ave, planta)
cardial (ponto cardial)
carrocel (preferível a carrossel, como querem alguns prontuários)
cassete
castanho-escuro
catorze (e não quatorze)
CCP (Confederação do Comércio Português)
censo (= recenseamento)
certame
cessação (= acto de cessar)
cetáceo
cetim
charivari
charlatão (charlatães, charlatões)
cheiinho, cheiíssimo
cheque (bancário)
Chernobyl
ciclocrosse
cinquenta
CIP – Confederação da Indústria Portuguesa
circum-escolar
circum-navegação
clarabóia
cliché (para quê cerimónia do acto de posse quando basta posse?)
co-autor
coacção
coarctar
cocktail
coeducação
COI - Comité Olímpico Internacional
colectânea
comboio
com certeza
computorizar (embora o espírito da língua devesse exigir computadorizar)
comummente
concelho (da Horta);
concessão (= permissão)
concessionário
conferência de Imprensa
congratular (alguém pela vitória; congratular-se com a vitória de alguém)
cônjuge
conselho (de amigo)
consenso
constar (das listas e não nas listas)
cônsul (cônsules)
conta-gotas
Continente (referindo-se a Portugal continental)
contorção
contra-ataque
contra-indicação
contra-senso
contrato (= convenção)
controlo
convencer-se (de que)
Copenhaga
copo-d'água
co-responsável
cor
cor-de-rosa
coro
corpo-a-corpo
correligionário
corrector (quem corrige); corretor (= agente da Bolsa)
corta-mato
coser (com agulha)
Costa do Marfim
cozer (= cozinhar)
críquete
cru
cujo (o dito cujo; atender ao seu bom emprego relativo: O senhor, cuja mulher morrera, etc., e não, como já se encontra, cuja a mulher)
curta-metragem

De baixo (não há nada de baixo)
debaixo (debaixo de fogo)
decreto-lei (decretos-lei)
deferir (= despachar)
défice
de mais (tarde de mais)
demais (por demais cansado; demais a mais)
democrata-cristão
desequilíbrio
descrição
descriminar (tirar a culpa); discriminar (diferençar)
desinfecção
deslizar, deslize
despender (gastar; dispêndio, dispendioso)
desumano
desumidificar
dezoito
(a) diabetes
diferir (= adiar, demorar)
dinossauro (também dinossáurio)
direcção-geral, director-geral
discrição (modéstia, reserva)
discriminar (distinguir, separar)
díspar (díspares)
dispêndio (= consumo)
dispensa (= acto de dispensar; mas: a despensa da casa)
disquete
dissensão (= divergência)
doping
Dostoievsky

Ecléctico
ecrã
EFTA - Associação Europeia de Comércio Livre
emergir (elevar-se, vir à tona)
eminente (uma personalidade eminente)
engolir
enseada
erupção
escárnio
esdrúxulo
esplêndido
espontâneo
espremer
esqui
esquisito
estada (= permanência)/ estadia (tempo da escala de um navio no porto. Esta forma impôs-se em expressões como ter/desejar boa estadia)
Estado-membro
Estado-Providência
Estaline
estático (= parado)
estratego
estrato (= camada)
estrela-do-mar
estrito
esverdeado
etc. (nunca e etc., pois este já significa et coetera)
euro [antes, ECU (European Currency Unit = Unidade de Conta Europeia; ECU's)]
ex aequo
extático (= arroubado, enlevado)
extensão
extrema-direita/esquerda
extravasar


fac-símile
farsa
fascínio
FEDER - Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional
FEF - Fundo de Equilíbrio Financeiro
FEOGA - Fundo Europeu de Orientação e Garantia Agrícolas
ferro-velho
fim-de-semana
finca-pé
fluido, fluidez
fogo-fátuo
franco-atirador
frenesi, frenesim
Frankfurt (Francoforte)

Gaffe
garante (quem garante)
garantia (aquilo que garante)
gato-pingado
GATT - Acordo Geral sobre Comércio e Pautas Aduaneiras
Genebra
gimnodesportivo
gin, gim
ginja, ginjeira, ginjinha
gira-discos
governador-geral
Governo Regional
(um) grama
granjear (= conquistar, adquirir)
gueto (ou ghetto)
guarda-chuva (guarda-chuvas)
guarda-marinha (guardas-marinhas)
guarda-nocturno (guardas-nocturnos)
guarda-republicano (guardas-republicanos)
guarda-sol (guarda-sóis)

Habitat
Hanover, Hanôver
herege, heresia
hiperacidez, hiperácido
hipertensão
histórico-geográfico
Hiroxima
hobby (hobbies)

Ianque
iate
ibero-americano
icebergue
Ieltsin
iene
ilação (= conclusão)
imergir (mergulhar)
iminente (ameaça iminente, próxima)
impacto
Imprensa
incenso
inclusive
indiscreto, indiscrição
inelegível (= que não pode ser eleito)
inexacto
inflação
infligir (aplicar um castigo)
influir
infravermelho
infringir (desrespeitar)
inigualável
iniludível
insucesso
insurreição
intercontinental
interescolar
interestadual
interministerial
intitular
inumano
inverosímil, inverosimilhança
irrupção

Jacarta
jardim-escola
jipe
juiz, juíza
juízo
jusante; a jusante

Kuwait
kilowatt

Laser
lead
légua
ler (lêem)
líder
linguista, linguística
líquen (líquenes)
lobby (lobbies)
lua-de-mel (luas-de-mel)

Maciço (votação maciça e nunca massiva, pérfido galicismo)
Madrid
mais-que-perfeito
majestade, majestoso
mal-agradecido
mal-educado
mal-entendido
mal-humorado
mandado (judicial)
manjerico
marioneta
mass-media
médico-cirurgião
Médio Oriente
meia-final (a primeira meia-final; meias-finais)
meio-corpo
meio-dia
meio-morta/viva
mesa-de-cabeceira
mesa-redonda
micro-ondas
mini-estádio (hífen, que a palavra começa por vogal)
minissaia (mini-saia também se emprega)
ministra, ministro
misto
moinho
morto-vivo
motobomba
motocrosse
musseque

Negociar (negoceio ou negocio)
neoclássico
Nova Iorque
nu
nuvem

Obcecado
obsessão
obstrução, obstruir
OCDE – Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico
oitavos de final
olisiponense
órfão (ófãos; feminino, órfã, órfãs)
órgão (órgãos)
outrem
ouvidor-geral

PAC - Política Agrícola Comum
país-membro
paje, pajem
palmarés
PALOP - Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa
pão-de-leite
pão-de-ló
pára-quedas, pára-quedismo (ver abaixo, segundo o novo Acordo Ortográfico)
paramilitar
parêntese, parêntesis
partido-Estado
pátio
PEDAP - Programa Específico de Desenvolvimento da Agricultura Portuguesa
pé-de-dança
pé-de-meia
pé-descalço
PEDIP - Programa Específico de Desenvolvimento da Indústria Portuguesa
pêlo (há pélo, pélo-me, de pelar, pelar-se)
pelo sim, pelo não (escrevem outros pelo sim pelo não)
pequeno-almoço
pêra, pêro
perscrutação, perscrutar
peru
PIDDAC - Plano de Investimentos e Despesas de Desenvolvimento da Administração Central
pintassilgo (mas Maria de Lurdes Pintasilgo)
piquenique
plâncton (plânctons; também plânctones)
plêiade (= conjunto de pessoas ilustres)
plurianual
polir
(a) pool
póquer
pôr-do-sol (pores-do-sol)
por que (= pelo/pela qual, pelos/pelas quais: por que motivo os portugueses choram assim?; por que [= por que coisa] luta Portugal em Angola?)
porque (final, causal: porque luta Portugal em Angola?; donde: porque é que...?)
porta-voz
pós-escolar
pós-graduação
pós-laboral
pouca-vergonha
praia-mar, preamar
pré-aviso
preceptor (= mestre, mentor)
pré-escolar
preexistente
preia-mar (praia-mar, preamar)
premiar (premeio melhor do que premio)
preservar, preservativo
Presidente da República
pretensão, pretensioso
Primeira Guerra Mundial
primeiro-ministro (a primeira-ministra)
pró-europeu
processo-crime (processos-crime)
procurador-geral
pronto-socorro
psicossocial
putsch
puzzle

Qualquer (quaisquer)
Quebeque
quebra-gelo
quilograma
quilómetro
quiproquó
quota-parte

Rabo-de-palha
radioactividade, radiactividade
radioemissor
radiouvinte
râguebi
rainha
raiz
rali (ralis)
ratificar
Raul
reboliço
recém-casado
recém-nascido
recém-vindo
recensão, recensear
recorde
rectificar
reestruturação
rendível
rentabilidade, rentável
repórter (repórteres)
rescindir
rescrever, rescrita (uso generalizado: reescrever, reescrita)
restauração [a evitar quando remete para restaurantes]
retaguarda
ringue
rinque
robô (robôs)
roda-viva
round (substituir por assalto, no boxe, ou ronda de conversações)
rouxinol (preferível a roussinol)
ruptura (melhor do que rotura)

Sala de jantar
sanção, sancionar
Sara (deserto)
secessão (= separação)
secretário-geral
segundogénito
sem-cerimónia
sem-número
sem-vergonha
sémen (sémenes)
semioficial
sérvio, servo-croata
(a) síndrome (também síndroma)
sobre-humano
[à] socapa
socioeconómico
sol-pôr, sol-posto
stock
subinspector
subsecretário
super-homem
supracitado

Tão-pouco (= também não)
tão-só, tão-somente
telespectador
ter de (preferível a Ter que, apesar do reforço que este oferece)
têxtil
tintim por tintim (para outros, tintim-por-tintim)
tio-avô (tios-avós)
tragico-marítimo
transatlântico
tuta-e-meia

Uísque
ultimato
ultra-rápido
ultramoderno

Vai-não-vai
vendável, vendível
ver (vêem)
verde-amarelado, verde-claro, verde-escuro
vice-reitor
vice-versa
vide
vídeo, vídeocassete
voo

Xeque
xeque (-mate)

Zãngão (zângãos, zãngões)
zé-ninguém

d) Acordo ortográfico
O Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, assinado em Lisboa, em 16 de Dezembro de 1990, pelos responsáveis políticos dos sete países que falam Português, deveria ter entrado em vigor no dia 1 de Janeiro de 1994. Dada a necessária fase de adaptação dos escreventes e a importância que, neste domínio, vão ter jornais e revistas, registamos as grafias que mais polémicas, alertando, em especial, para algumas sequências consonânticas em perigo. Notar-se-á, em conformidade, que vários termos incluídos no Prontuário sofrem alterações.

Ação
acionar
adoção
adotar
afetivo
agosto (os meses do ano em minúsculas)
agroindustrial
amnistia ou anistia
amnistiar ou anistiar
antiaéreo
antirreligioso
antissemita
aspecto ou aspecto
ato
assumpção ou assunção
autoaprendizagem
autoestrada

Batizar
boia

Cacto ou cato
cáliz
cão de guarda
caracteres ou carateres
caraté
ceptro ou cetro
coeducação
coleção
coletivo
concepção ou conceção
contrarregra
coobrigação
coocupante
corrupto ou corruto
crer (creem)
croché

Dar (deem)
descrer (descreem)
dicção ou dição
direção
diretor

Egito
elétrico
eletrossiderurgia
exato
excecional
excecionalmente
exceto
excetuar
extraescolar

Facto ou fato
fim de semana (fins de semana)

Guarda-noturno
guiché

Haver (sem hífen, quando a preposição de liga as formas monossilábicas do presente do indicativo: hei de, hás de, hão de)
heroico
hidroelétrico

Indemnizar ou indenizar
infrassom
introito
inverno

Jiboia

Ler (leem)

Mandachuva
matiné
microssistema
microrradiografia

Norte (minúsculas nos pontos cardiais)

Objeção
omnímodo ou onímodo
omnipotente ou onipotente
omnisciente ou onisciente
ótimo
outono

Paranoico
paraquedas
paraquedista
peremptório ou perentório
primavera

Recepção ou receção
rever (reveem)

Sector ou setor
semitom
súbdito ou súdito
sumptuoso ou suntuoso
sumptuosidade ou suntuosidade

Tresler (tresleem)

Ver (veem)
verão

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